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Baby Reindeer
Baby Reindeer
Richard Gadd
2024
Série
Forte candidata a série do ano, Baby Reindeer é uma série autobiográfica protagonizada pela própria vítima dos acontecimentos.
Um rapaz oferece um chá a uma estranha mulher que visita o bar onde trabalha. A partir daí vê-se enrolado numa trama de perseguição por esta stalker, que o apelida de "Rena Bebé", que lhe manda e-mails infinitos, chamadas infinitas, mensagens badalhocas, o persegue na rua, enfim, não o deixa em paz.
Uma série que é também uma análise sobre o abuso sexual sobre homens, que é um tema que nunca é analisado nos media, e que por isso é muito valiosa. A stalker é verdadeiramente assustadora, e a forma como o autor lida com a situação é irresponsável e ilógica, o que torna tudo muito mais humano.
Creio que esta série funciona como uma catarse para o autor, a admissão do seu abuso, a admissão do seu sofrimento. E isso tem muito valor. Parabéns.
O Acontecimento
O Acontecimento
Annie Ernaux
2000
Romance Autobiográfico
Livro da Nobel que recebi através do BookCrossing. Quando o li nunca me passou pela cabeça que seria uma história real, inspirada em factos da sua própria vida, e quando o descobri fiquei extremamente desapontada, porque não queria saber isso.
No fundo é a história de como a autora engravida enquanto estudante universitária e não vê outra solução se não fazer um aborto, na altura um procedimento ilegal com direito a prisão. Ela descreve em detalhe como conseguiu os contactos, como foi realizo o dito procedimento, como se sentiu, como viu as coisas.
Isto para mim foi uma leitura fascinante, mas a partir do momento em que soube que era apenas um relato da vida real, fiquei sem vontade nenhuma de saber mais: preferia que tivesse sido tudo inventado.
Hinos ao Amor
Hinos ao Amor
Anne Wiazemsky
1996
Autobiografia
O meu pai encontrou este livro no seu arquivo e trouxe-mo para que o libertasse no BookCrossing. Antes disso li-o, obviamente.
É um livro estranho, que classifiquei como autobiografia porque fala da vida da própria autora, tendo por base o contexto de um testamento encontrado após a morte da sua mãe. Nele, o seu pai (falecido anos antes) pede que sejam entregues alguns items à sua amante, incluindo o disco homónimo de Edith Piaf.
O livro está dividido em duas partes: numa primeira a autora fala da sua infância e da relação familiar que tinha com seus pais e irmão, e a relação que os pais tinham um com o outro e diversos amantes. Na segunda, relata-nos a vida de uma empregada que cuidou dela e do irmão numa casa afastada, e como foi marcada pela sua presença. Finalmente, fala-nos do encontro com a amante perdida do seu pai.
É uma leitura rápida, mas um pouco dolorosa, devido à presença sempre constante da morte, da velhice e da doença. Não conhecia a autora, e por isso pouco me interessa a sua vida passada, mas o livro está bem escrito e por isso gostei de o ler.
Na Prisão
Na Prisão
Kazuichi Hanawa
Manga - 1 Volume | 12 Capítulos
1998
6 em 10
Novo manga publicado em Portugal pelas mãos da também nova editora Sendai, chamou-me a atenção numa livraria pela capa maravilhosa. Chegamos ao livro e o estilo da capa é totalmente distinto do interior.
Esta é uma história autobiográfica em formato banda desenhada, em que o autor nos fala brevemente sobre a sua passagem pela prisão, onde foi parar por posse ilegal de armas. Ora, fica a estranheza de que a prisão no Japão é um universo totalmente distinto do ocidente. Para começar, o autor fala sobretudo de comida, e pelos vistos come-se bem por lá. Depois, as regras estabelecidas são muito estranhas e, embora limitativas, parecem permitir uma liberdade de ser vagamente semelhante à do exterior.
A arte é predominantemente realista, com traços grosseiros e feios, mas que permitem um bom retrato do ambiente (afinal, era proibido desenhar na prisão).
Assim, foi um manga interessante, mas que parece ter-se focado pouco nas coisas que mais interessavam.
Pão com Fiambre
Pão com Fiambre
Charles Bukowski
1982
Romance
Pedi este livro no BookCrossing a pensar que era poesia, mas afinal é um relato semi-autobiográfico.
O que me chateia um pouco nestas histórias de rapazes dos anos 30/40 é que são sempre iguais. Envolvem sempre algum defeito físico, no caso um acne muito agressivo, e fantasias sexuais com pénis pequeninos. E, por isso, este livro não foi nenhuma novidade.
Irritou-me também que na época da adolescência e faculdade o personagem/autor se tenha mantido muito fiel à sua origem alemã, ficando do lado oposto ao dos justos.
Apesar de tudo, foi um livro mesmo muito fácil e rápido de ler, cuja escrita é absolutamente viciante. A forma é boa, o conteúdo é que é um pouco repetitivo.
A minha voz pela liberdade
A minha voz pela liberdade
Ani Chöying Drolma
2008
Auto-biografia
Recebi este livro através do BookCrossing, numa troca inusitada.
É a biografia de uma monja budista, conhecida pelas suas canções e pela sua voz. Tão conhecida que um amigo a reconheceu logo quando coloquei foto da capa no Instagram!
Então, este livro não é nenhuma especialidade em termos de escrita, como costuma ser quando outra pessoa ajuda a escrever uma autobiografia. No entanto, mostra-nos bastante de como as pessoas vivem no Nepal, e como as mulheres são altamente injustiçadas em termos sociais, tendo muitas vezes - como esta monja - de se dedicar a uma vida monástica para escapar à pobreza e violência.
O engraçado é que Ani Chöying não é uma monja como estamos habituados a ver: ela usa calções e t-shirt, ela viaja pelo mundo a dar concertos, ela zanga-se, grita e enfurece-se, tudo isso numa grande aprendizagem sobre o sentido do budismo. Com esta aprendizagem da bondade e da paciência, ela consegue elevar uma capacidade de perdão, o que nos parece muito injusto mas, também, muito curioso.
Achei muito interessante, e acho que agora o vou passar ao tal amigo que é fã. :)
Pão Seco
Pão Seco
Muhammad Chukri
1973
Autobiografia
Este é um romance autobiográfico muito importante no seu contexto histórico e cultural, já que apenas recentemente foi publicado na sua língua original, o árabe.
O autor leva-nos pela história da sua infância e adolescência, atormentado pela fome e por uma comunidade miserável onde impera o consumo de droga e a prostituição. Penso que se trata de um livro de grande coragem, pela forma desprendida, sincera e por vezes quase irónica com que o autor relata os detalhes da sua vida passada, a dor de ter uma família desinteressada e a exploração de uma sexualidade livre, nem sempre aceite pelos seus pares.
Na verdade, os momentos em que o autor reflecte sobre o seu desejo sexual são, por vezes, extremamente perturbadores, e não aprecio muito isso. De resto, é um pouco difícil de avaliar a qualidade da escrita pois, conforme o posfácio, existem muitos tiques de linguagem que são exclusivamente próprios da comunidade deste autor.
No entanto, para um relato altamente realista da vida no Norte de África, recomendo.
Porque Escolhi Viver
Porque Escolhi Viver
Yeonmi Park
2015
Auto-biografia
Recebido na Chuva de Livros de aniversário, este foi um livro que me deixou de pé atrás e logo se revelou uma leitura altamente viciante.
Yeonmi Park é uma refugiada da Coreia do Norte. Nesta auto-biografia, numa linguagem simples e sem pudor, ela fala da sua vida nesse país inventado e da sua fuga, com as consequências inerentes.
A visão da Coreia do Norte é a de um país de fantasia, algo quase distópico mas que na realidade existe. Alguns dos momentos levam-nos a pensar que tudo é inventado, que as coisas não podem ser assim. Como é que a comida preferida de alguém pode ser cabeças de libélulas. Como é que uma criança pode nunca ter visto um pavão, ou um elevador.
Mas essa visão é ainda mais perturbadora quando percebemos o que acontece aos que se escapam: a escravatura, o tráfico humano. E após essa libertação, compreendemos que "podemos sair da Coreia do Norte, mas ela nunca sai de dentro de nós". Porque Yeonmi, na sua sinceridade, torna-se altamente influenciável, continua a responder à sociedade como um autómato. Busca libertar-se, mas será que o vai conseguir?
Um livro real e perturbador pela estranheza dessa realidade.











