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  • Hélade

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    Hélade
    Maria Helena da Rocha Pereira
    1990
    Antologia


    Livro encontrado no lixo, e que maravilha de livro! Trata-se apenas da antologia mais importante de Portugal sobre literatura helénica, omg!

    Este livro tem uma colecção de textos clássicos, poesia e prosa, odes, preces e secções filosóficas, que mais ou menos resumem o pensamento da Grécia Antiga e servem como material de estudo.

    E o que mais me fascinou foi precisamente como os gregos há 2500 anos pensavam exactamente nas mesmas coisas que nós pensamos agora: educação, guerra, amor, o caminho da sociedade.

    Por isso, este livro é essencial e simplesmente maravilhoso. Ofereci a um amigo que se está a iniciar no politeísmo helénico yay.

  • Livro Português das Fábulas

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    Livro Português das Fábulas
    José Viale Moutinho
    2017
    Antologia


    Livro que me foi oferecido pelo Natal do ano passado e que se compõe de uma antologia de fábulas do imaginário português.

    Achei simplesmente *fascinante*. Embora muitas das fábulas sejam semelhantes entre si, e muitas outras semelhantes a outras histórias que já ouvimos por aí à volta do mundo (o que apenas prova que as histórias de moralidade são globais e humanas em toda a sua inteireza, e que a humanidade sofre dos mesmos problemas onde quer que se encontre e em qualquer época), a recolha deste material é absolutamente precioso e esta antologia é um livro de referência para qualquer pessoa que queira conhecer a cultura portuguesa.

    Ricamente ilustrado, peca um pouco por as ilustrações serem repetidas em algumas histórias.

    De todos os modos, foi um dos meus livros preferidos do ano, e irei guardá-lo com todo o carinho.

  • Antologia Ficção Especulativa Queer

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    Antologia Ficção Especulativa Queer
    Vários
    Contos 

    Comprei este livro no Fórum Fantástico precisamente porque respondi à chamada de participações, apesar de não ter sido seleccionada. Enviei uma história sobre um succubus que se apaixonava por uma rapariga e fiquei desapontada por esta não ter sido escolhida. No entanto, agora que li os contos presentes na antologia, compreendo mais ou menos o porquê: escrevi uma história queer, mas uma história queer extremamente negativa, em que ser queer nada trazia de bom às personagens, tornando-as mesmo muito infelizes. Irei publicar o conto em formato ebook em breve, para quem o quiser ler. :)

    Adiante.

    Nesta antologia temos seis contos distintos, todos eles tendo como característica o envolvimento de personagens marcadamente separadas da heteronormatividade. Em todas as histórias, no entanto, é mais ou menos irrelevante a orientação sexual das personagens, o que torna o objectivo da antologia um pouco difuso. Claro que queremos tratar as pessoas LGBTQI+ como pessoas perfeitamente normais, mas sendo o tema o "queer" penso que poderiam ter feito escolhas em que o tema fosse realmente o foco principal das histórias.

    Achei dois dos contos (o do lagarto no planeta e o da nau fossilizada) muito originais e bem escritos, com momentos muito interessantes de construção do universo. Os outros deixaram-me um pouco diferente, embora a maior parte deles fosse bastante divertida e tivesse bastantes pontos positivos.

    Deixo a nota por um conto claramente escrito com a grafia brasileira, mas cujo tratamento editorial se mostrou insuficiente, pois tem imensos momentos em que mistura as construções frásicas do Brasil com expressões tipicamente portuguesas, o que torna tudo extremamente estranho.

    Foi uma leitura muito agradável e gostaria de a recomendar aos fãs de fantasia e ficção científica.. Tanto que já emprestei o livro! =D
  • Abismo

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    Abismo e Outros Contos
    Jean Meckert
    2013 (Antologia)
    Contos

    Tenho estado a aprender um pouco mais sobre contos, pelo que me emprestaram este livro como exemplo de contos integrais.

    Convém falarmos um pouco do autor. Este foi um daqueles escritores atormentados pelas dificuldades da pobreza, pela falta de emprego pela altura da Grande Depressão e pela guerra que espreitava por todos os lados. A sua infelicidade: constante busca por uma forma de vida que lhe permitisse manter um lugar onde viver e o que comer.

    Isto reflecte-se, sem qualquer dúvida, nos três contos contidos neste volume. No primeiro, conta como a sua aldrabice para conseguir uma comissão destruiu a vida a uma família. No segundo, remte-se a uma prisão e narra os pequenos acontecimentos do dia nesse local. O narrador oferece-se como uma entidade neutra, tão inocente quanto criminosa, o que transmite todo um aspecto tragicómico à situação. Nestas duas histórias, o autor também relata de forma paralela a pobreza que se vive por todo o lado, caracterizando muito bem a sociedade que o rodeava nessa época.

    Finalmente, o último conto aparece como um manifesto da tristeza, autor questionando tudo e todos se o podem compreender, se o podem ajudar e porque não fazem isso estando ele à beira do abismo. Depois dos primeiros contos, que no fundo quase são uma cronologia autobiográfica, este aprece como um murro no estômago.

    Uma excelente leitura, também muito rápida. Obrigada!


  • Os Cães Ladram Facas

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    Os Cães Ladram Facas
    Charles Bukowski
    2018 (Antologia)
    Poesia
    Se há quem diga que o poeta é um fingidor e que a sua vida normalmente e naturalmente é bastante pacata e isolada, Charles Bukowski é a famigerada "excepção à regra" que tem de nos vir incomodar. Porque temos uma pessoa feia, traumatizada, violenta e muito bezana que escreve exclusivamente sobre esses temas e sobre outras coisas bezanas. E que o faz de uma maneira fantástica.
     
    A poesia de Bukowski, que experimentei pela primeira vez com este livro (que li todo de uma assentada, diga-se de passagem) é violenta, estranha. É directa, um discurso dirigido com exactidão a um leitor imaginário que, certamente, tem tanto ódio dentro de si como o autor. Ele não se faz rogado em criticar e violentar com palavras todas as coisas que desconsidera ou despreza. Bukowski despreza muita coisa. Os sóbrios, as mulheres, os ricos, os convencidos, os petulantes, os outros escritores.
     
    Apesar de ser uma pessoa execrável, os seus poemas contém uma beleza bizarra, uma pequena emoção que se esconde atrás de um não-verso. Um pequeno detalhe que demonstra, de forma sincera e agressiva, o que o autor realmente sente sobre o assunto, uma profunda infelicidade disfarçada de indiferença e de bom humor.
     
    Uma boa antologia e fiquei com vontade de ler mais da (vasta) obra do autor!

  • Com a Cabeça na Lua

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    Com a Cabeça na Lua
    Vários
    2009
    Antologia de Contos
    Comprei esta Antologia na Feira do Livro de Lisboa. Trata-se de um conjunto de contos reunidos para comemorar os 40 anos dos primeiros passos na Lua. Escolheram uma série de contos escritos antes da chegada à Lua propriamente dita, o que nos mostra o quão grande era o fascínio por esta empreitada e o quanto se fantasiava acerca dos acontecimentos.

    Curiosamente, a maior parte dos contos tem uma informação científica tal e uma preparação pela parte dos autores que as histórias são muito realistas e sentimos que, num episódio alternativo, poderiam mesmo ter acontecido desta forma! Acabamos por viver intensamente todas estas aventuras espaciais e embrenhar-nos nestas realidades imaginárias até passarmos a viver - nem que seja por uns instantes - mesmo no seu centro.

    Apesar de o editor ter feito um óptimo trabalho na recolha e organização desta antologia, existem alguns erros graves de ortografia, edição e tradução. Os problemas nas traduções, cheias de palavras anglicizadas, é por demais flagrante e deixa-me um pouco triste.

    De resto, um livro cheio de aventuras divertidas que vão fascinar até os mais cépticos. :)


  • Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica

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    Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
    Natália Correia
    1966
    Livro

    Um livro interessantíssimo que surgiu na minha TBR. 

    No perigo que era para a cultura a década de 60 em Portugal, Natália Correia eleva a sua voz de artista para compilar, num extenso e muito detalhado trabalho de pesquisa, o melhor que a poesia nacional tem para oferecer dentro deste tema. E o tema.... Bem, o tema tem tanto de delicado como de divertido! Poesia erótica e satírica, dois géneros difíceis de distinguir às vezes, aqui reunida para a análise do imprevisto leitor.

    Temos poesia desde o século XIII até a autores contemporâneos, muitos deles ainda vivos na altura em que o livro foi lançado. A autora faz questão de nos explicar o contexto histórico e as significações escondidas em cada poema, o que torna este livro valioso para quem quer aprender um pouco da história da nossa literatura.

    Quanto aos poemas... Fartei-me de rir com a maior parte. Tudo começa com cantigas de amigo, passando para estilos clássicos e terminando em ponto de honra com a poesia moderna, crua, aleatória e disforme.

    Deixo-vos um dos poemas de que mais gostei, para aguçar a imaginação!



  • Viola Delta XXXIII

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    Viola Delta Volume XXXIII
    Edições MIC
    1978
    Poesia

    Estranha edição fascicular que encontrei na minha lista de leitura corrente, com um poema de um familar de um familiar.

    É uma antologia de poesia moderna, para os anos 70, na maior parte das vezes altamente politizante e surreal. A qualidade é bastante variada, pois temos autores muito diversos, sendo que alguns têm uma voz um pouco infantilizante enquanto que outros se imergem em imagens altamente sensuais e muito violentas.

    É um livro bastante curioso devido à sua estrutura e ao seu conteúdo, que tem um contexto histórico altamente relevante no universo da edição independente e da zine enquanto publicação regular. Gostaria muito que este tipo de revista ainda fosse relevante nos dias de hoje.

    Um excelente achado, do qual vos deixo a fotografia de um lindo poema, que se chama "Fase Oral":


  • Poesia Española - Antologia 1915-1931

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    Poesia Española - Antologia 1915-1931
    Gerardo Diego
    1936
    Poesia

    Um livro interessantíssimo que me veio parar às mãos. Uma antologia de poetas espanhóis do início do século XX, incluindo alguns que já me eram queridos e outros em que me estreei.

    A parte mais curiosa é que, na época da publicação deste livro, a maior parte dos autores ainda estava vivo, o que dá uma outra espécie de inocência a estes poemas. A maior parte deles relata situações da vida, muito ligados à terra e à tradição.

    Para além disso, fiquei fascinada com a capacidade narrativa da língua espanhola, que raramente experimentei. Afinal, não é apenas uma língua que enquanto tugas compreendemos, mas uma linguagem em si própria que é totalmente imersiva.

    A quem tiver oportunidade de ler este livro, por favor pegue nele já!

  • Federico García Lorca - Antologia

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    Federido García Lorca - Antologia
    Federico García Lorca
    Anos 20
    Poesia

    Esta é uma antologia poética do autor espanhol que compreende três dos seus livros: "Romancero Gitano", "Poeta En Nueva York" e "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías". É uma edição espanhola, o que torna a leitura um pouco mais difícil para mim, mas ainda assim é perfeitamente compreensível na generalidade.

    E, devo dizer, foram dos poemas mais extraordinários que li ultimamente. Lorca mostra-nos nas suas palavras uma Espanha rural, perdida, violenta e quente, muito sensual mas ao mesmo tempo brutalmente destrutiva. Cada poema tem uma densidade própria, sendo que algumas das palavras, alguns versos, alguns conceitos, nos caem no estômago como um soco, uma pedra atirada directamente até à nossa consciência.

    Tendo sempre presente a ideia da morte trágica protagonizada por este poeta, a sua poesia justifica plenamente o que poderia ter acontecido, a injustiça, o horror de se viver num regime em que até um simples poema pode ser considerado subsersivo e contra os ideais do sistema. E a verdade é que Lorca denuncia as injustiças uma e outra vez, sem nunca pensar por um momento que ele próprio poderia vir a ser vítima das mesmas.

    O meu preferido foi, realmente, o "Romancero Gitano", sendo que "Poeta En Nueva York" nos mostra uma poesia um pouco mais directa e menos metafórica, com mais realidade vista de outra perspectiva do que o universo fantasioso e mágica da lua cigana.

    De todos os modos, é uma poesia descorçoada e absolutamente fascinante. Recomendo vivamente!
  • El Espejo y Otros Cuentos

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    El Espejo y Otros Cuentos
    Camilo José Cela
    1999
    Contos

    E agora, para variar, um livro da minha irmã que não só foi fixe como gostei imenso! Li este livro em Espanhol, o que não foi tão fácil como parecia porque tem muito vocabulário vulgar e gíria, que não conheço bem.

    Este é um conjunto de contos, uma antologia, que reúne algumas cenas da vida de um narrador, de um personagem, quiçá do próprio autor. O narrador sempre observa o mundo à sua volta, constatando as pequenas estranhezas da normalidade da vida e concluindo sempre de uma forma muito humorística. A verdade é que a conclusão da maioria das histórias dá muito em que pensar, pois a maior parte delas não termina quando a acção da história termina por si mesma. Antes. Assim, tudo parece um pouco incompleto, mas o efeito final é muito, muito intrigante.

    A minha história preferida foi sem dúvida a última (a do Chivo Smith), porque envolvia uma compontente de fantasia mas ao mesmo tempo de infantilidade que, dentro do contexto, caía tão a despropósito que o efeito é simplesmente hilariante.

    E, tenhamos em consideração, as coisas lidas em espanhol têm sempre a sua dose de piada extra. ;)
  • Crumbs

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    Crumbs
    Vários
    2014
    Banda Desenhada

    Quem nunca, depois de comer uma carcaça com manteiga, molhou o dedinho na boca e comeu as migalhas sobejantes do prato? Bem, se calhar só eu é que faço isso, mas a verdade é que adoro as migalhas! E, assim, temos aqui uma pequenina antologia de banda desenhada, migalhas de carcaça para serem comidas no chá das cinco inglês. :)

    Trata-se de um conjunto de doze histórias de autores distintos, um formato de bolso promovido pela Kingpin Books. É uma edição muito engraçada, colorida e pequenina. As histórias são muito diversas e mostram um pouco do que o universo da BD tuga tem para nos oferecer, quer em termosde argumento quer em termos de arte. Cada história é completamente diferente da anterior e a única coisa que as liga é é o facto de estarem aqui todas juntas.

    Todas elas são interessantes à sua maneira, mas houve algumas que me marcaram mais, nomeadamente a primeira, que achei de uma força narrativa profunda e quase perturbadora, arrepiando-me até ao âmago com a surpresa da conclusão (como fizeram algo assim em tão pouco espaço!); a história do gato Orwll, do nosso conhecido Mário Freitas (foi a primeira vez que li algo dele e fiquei agradavelmente surpreendida com a utilização do conceito, embora ache que o final poderia ter tido uma força diferente); e "Ick, que foi sem dúvida a história mais fofinha de todas.

    Talvez o único defeito da edição seja os frequentes erros gramaticais na língua inglesa e gralhas diversas, sobretudo na secção que apresenta os autores. Um elemento a melhorar numa futura edição? :) Esperemos que sim.
  • Duas Publicações Oficina do Cego

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    Duas Publicações Oficina do Cego:
    As Borboletas não têm Dentes do Siso
    O Problema das Cerejas são os Caroços
    Vários
    2015
    Contos

    Como já terei informado algures, tenho agora um novo blog paralelo para as minhas aventuras escriturárias e literárias, de seu nome O Bentivi Urbano. Recentemente, iniciei na Oficina do Cego, uma oficina de tipografia, um curso de escrita narrativa com o formador João Rafael Dionísio e a companhia de mais duas pessoas fofinhas. :) O João deu-nos, então, os volumes anteriormente publicados relativos aos cursos anteriores. Demorei algum tempo a chegar a eles, mas finalmente dei-lhes uma leitura e, por isso, deixo aqui um breve comentário.

    Para começar, é curioso tentar ver a forma como estas histórias foram criadas, que terá sido pelo mesmo método que estamos nós a experimentar agora. Mantive-me sempre atenta a todos os traços dos personagens, de forma a tentar incluí-los naquela "ficha informativa" que também eu fiz.

    De resto, houve histórias que gostei muito, outras que gostei mais ou menos, mas não houve nenhuma que achasse terrível (ao contrário dos meus colegas, que leram apenas o segundo volume. O primeiro terei de lhos emprestar, pois tirámos à sorte quem ficaria com o único exemplar :p )

    Relativamente aos contos, vou deixar algumas notas sobre aqueles que me marcaram mais:

    Conversas de Esquina - Disse-me uma borboleta que este conto foi escrito por um médico, no entanto não está medicamente informado sobre o uso recreativo da ketamina.
    Visões de Um Cego em Terra de Reis - Sem dúvida o conto mais estranho, acho que foi o que gostei mais (apesar de toda a gente odiar a ilustração e de eu também não a compreender). Gostei imenso da forma como o personagem, que nunca é totalmente caracterizado, vê um mundo confuso e desregrado, com uma mistura de memórias e da realidade presente.
    As Incríveis Aventuras do Sherlock do Cacém - O Caso da Vanda - Ao início estava a detestar, mas depois entrei na história e queria mesmo saber quem era o misterioso perseguidor! Uma história cómica e cheia de detalhes.

    Zé, Joaninha, Ivone - Adorei a forma como a perspectiva das pessoas passa para os objectos. A narrativa do carro foi fofinha e fascinou-me um pouco! Na verdade, comecei a pensar que tipo de conversas o Bequi (o meu carro) teria com outros carros :)

    De resto, estas são edições modestas, manuais, mas ainda assim exalam uma aura de carinho e dedicação! Ainda não sabemos qual vai ser o nome da nossa, nem como vai ser a capa, mas prometo que estamos todos os três a trabalhar em histórias bem catitas! Visitem O Bentivi Urbano se quiserem saber um pouco mais sobre o processo. :)
  • Todos os Contos

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    Todos os Contos
    Edgar Allan Poe
    Vários
    Contos

    Este livro foi-me oferecido no passado Natal por duas pessoas diferentes. Tive de trocar um deles, mas claro que fiquei com o outro. Terminei-o agora. Como já havia lido vários contos, em outras edições (ver aqui) despachei-me bastante rápido, tendo em conta o tamanhão do livro.

    Poe era um escritor de grande diversidade. Apesar de ser sobretudo conhecido pelos seus escritos de terror e ser um marco na literatura gótica, a maioria dos seus contos são providos de grande sentido de humor. Aliás, a maioria deles são críticas mais ou menos disfarçadas a elementos literários da época, sejam eles revistas ou outras pessoas. Com uma escrita elegante e muito erudita, ele faz troça de tudo e todos, recorrendo a trocadilhos e brincadeiras que, ainda assim, são muito ácidas e devem ter feito muitas pessoas chorar na sua época.

    Existem também alguns contos futuristas, mas mesmo esses são também uma crítica social muito pertinente, em que Poe argumenta contra as correntes artísticas e literárias do seu tempo.

    Desta vez, os contos que gostei mais foram precisamente os que se enquadram no género do terror. O conto do homem que foi mesmerizado, do que está a ser torturado pela inquisição, do enterrado vivo, até mesmo o do gato preto, são grandes exemplos do gótico americano e chegam a ser verdadeiramente arrepiantes, no sentido em que nos colocamos na situação presente e nos tentamos imaginar como esses personagens. No entanto, a grande maioria dos contos são, como referi anteriormente, pura comédia e sarcasmo.

    Por vezes tornam-se muito aborrecidos, devido ao chorrilho de complexidades que o autor nos apresenta que, no fundo, são inconsequentes em termos palpáveis e apenas servem como crítica a situações que, nos tempos de hoje, desconhecemos e pouco interessam. O que seria a revista Blackwood que o autor tanto ataca?

    De resto, é um livro muito grande e bonito, que fica muito bem na prateleira e, mesmo que não gostem da maioria dos contos, vale a pena arranjar pelo seu valor físico.

  • Universus da Poesia

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    Universus da Poesia
    Vários
    2014
    Poesia

    Poderei alongar-me um pouco, portanto vou dividir esta postagem em quatro partes. :)

    Parte 1 - Como vim parar a este livro

    Dos vários grupos a que pertenço, alguns são de literatura. Também recebo notificações de vários concursos no meu e-mail, fazendo esforço por participar, mais por exercício mental de escrever sobre um determinado tema do que para ganhar o que quer que seja (o que, sendo improvável, já aconteceu uma vez ou outra). Assim, recebi o convite para participar nesta antologia poética sob a chancela UniVersus, com o tema "Universus da Poesia". Escrevi um poema a propósito e pediram-me mais, pelo que escrevi mais uns dois ou três e juntei outros que tinha guardados do passado. Acabaram por ser escolhidos esse escrito de propósito e uma letra que tinha escrito para o projecto musical Ocaso, do meu amigo R.

    Claro que depois houve um dilema enorme, pois a editora desejava que eu falasse sobre mim e eu sou o tipo de pessoa que não tem nada de interessante para contar. Lá inventei uma coisa qualquer, de relativa piada. Também queriam uma foto e a primeira que mandei não foi aprovada por não considerarem "apropriada". Vejam lá e digam-me se é desapropriada!





    Enfim, acabei por mandar um retrato que um artista Japonês me fez uma vez e que é o meu avatar em alguns locais.

    Tendo tudo isto em conta, ainda era necessário pagar o livro. Aí está uma condição curiosa: para se participar tem de se comprar pelo menos um livro, caríssimo por sinal! Mas pensei "olha, é agora ou não é agora, boraí que se calhar vale a pena" Será que valeu... Fico à espera de outras opiniões. Bem, mais uma publicação com o meu nome escrito na prateleira...

    Parte 2 - Coisas que eu acho sobre a poesia e essas cenas

    Eu não sou grande apreciadora de poesia, admito desde logo. Quando era muito pequena, era o que eu gostava de escrever. Mas houve algum ponto de viragem, algures na minha vida, em que de repente me tornei senhora da prosa e passei a só gostar de escrever historietas. Ainda assim, vou lendo poesia de vez em quando e, ainda mais raramente, vou escrevendo um poemita ou outro.
    Ao longo deste tempo, acabei por desenvolver uma teoria sobre a poesia. Há dois tipos de poesia: a inocente e aquela que sofre. A inocente é aquela que escrevemos quando somos adolescentes e pensamos que estamos a sofrer imenso. A que sofre é aquela que dói para nascer. Neste livro, a grande maioria é da primeira categoria. Isso não é uma coisa má, cada um escreve aquilo que sente e aquilo que lhe parece bem. Mas, pessoalmente, gosto mais da segunda. 

    Apesar de tudo, houve algumas passagens duvidosas, que me fazem duvidar da capacidade de selecção da editora. Coisas como "aves aladas" e assim (todas as aves têm asas...). Para mais, estranhei as pequenas notas biográficas dos autores, que na maioria pareciam uma enumeração de palmarés ganhos e publicações o que, dentro do contexto, não deixa de ser irrelevante. Interessa saber que ganharam a Menção Honrosa do Clube Caminho Fantástico? Eu podia ter posto isso....

    Mas fica a nota, a nota muito importante, de que o artista é um bom artista. Portanto, todos os poemas desta antologia têm o seu valor, independentemente de eu ter gostado ou não deles. Gostaria de dar os parabéns a todos.

    Parte 3 - Sobre o trabalho editorial

    Isto sim, deixa muito, muito, MUITO a desejar. Primeiramente, a edição está cheia de gralhas. Por todo o lado. Depois, como participei, sei perfeitamente que nem contactaram os autores a propósito de uma eventual edição do texto. O que me pareceu foi que simplesmente fizeram um cópia-e-cola dos ficheiros word enviados: ninguém reparou (nem eu) que no poema da "Dança" falta uma vírgula e a formatação do poema da lua está completamente disforme, sem separação entre as estrofes - o que tira um grande significado à coisa.

    As fotografias dos autores são pouco claras, havendo até uma (coitadinha da senhora) que está totalmente pixelizada.

    Assim, UniVersus, mesmo que eu tivesse dinheiros para que me publicassem, não ia deixar.

    Parte 4 - Um poema de que gostei

    Entre uns e outros, houve poemas que gostei bastante e outros que gostei menos (até alguns que não gostei mesmo nada). Gostaria de citar o que me marcou mais. :)

    Banco de Jardim
    de Rui Machado

    Foram muitas bocas a fazer chegar aos meus ouvidos
    de que nunca se deve voltar
    aos lugares onde fomos felizes.
    Não acreditei.
    Essas mesmas bocas já se tinham aberto antes,
    para me dizer que o Amor era lindo.
    Bocas que vomitam sílabas luminosas de mentira,
    línguas que se movem como a vida nos desertos,
    lábios que sabem a veneno doce.
    São o maior perigo dos que precisam ouvir o Amor.
    Para lá do bater do coração dos abralos,
    para lá dos gemidos dos lençóis,
    para lá dos olhos que incendeiam.
    Hoje, senti bem cedo que o dia era traiçoeiro
    para quem traz ainda estilhaços de Amor no corpo.
    Sou um deles,
    veterano de uma guerra
    onde a cada Amor que fazia
    ia adiando o hastear da bandeira branca dos fracos;
    adiando a cada promessa,
    a cada beijo o teu desembarque final,
    o teu ataque cruel,
    a tua desleal emboscada.
    Ainda não sei bem o que fizeste acontecer.
    Soube apenas que tinha acontecido coisa feia,
    quando me deixaste derrotado,
    estendido,
    sem tratado de paz,
    herói de nada,
    peito sem condecorações de metal,
    dilacerado pela pólvora das palavras,
    estropiado de Amor
    e abandonado ao desprezo
    da ausência de um golpe de misericórdia.
    Devaneio maior dizer-se que o Amor é lindo.
    Devaneio supremo falar-se ou achar-se
    que do Amor se possui alguma sabedoria.
    Dele nada se saberá nunca,
    tudo se sentirá sempre.

    Incauto, por ventura,
    para superar a saudade
    que rasgava o avesso de mim,
    voltei àquele jardim
    Fui pisar-lhe o chão para me segurar ao mundo,
    proteger-me na sombra das memórias que queimam,
    fui rebentar um mar de saudada nas rochas duras da vida
    que teima em não seguir caminho.
    Procuro o nosso banco,
    lugar do nosso Amor
    onde a vida ganhou asas.
    Procuro o lugar onde já fui feliz, sim.
    Sem medo,
    sem coragem,
    incompleto, 
    quase vivo,
    urgente.
    Encontro-o.
    Não me sento nele, 
    não sou tolinho de todo.
    Sento-me no banco da frente,
    num dia de semana
    que esvaziou quase tosos os bancos daquele jardim.
    Sem que quisesse desdobro,me por magia da nostalgia
    que pede para voltar o que já esqueceu caminho.
    Vejo-me no nosso banco,
    estou feliz,
    tenho na cara os olhos que te aguardam
    e a boca que te deseja.
    Espero-te pelas vezes que visito o relógio no meu punho.
    Uma espera feliz, sei que nãom tardarás.
    Curvam-se então os meus lábios,
    num sorriso que inventei para te dar as boas vindas.
    Chegas,
    e antes de te sentares,
    beijas-me.
    Sentas-te, cheiras bem.
    Não sei se é o cabelo,
    a pele
    ou a roupa,
    que está a mais.
    Enquanto nos bservo a olharmo-nos,
    a trocar palavras,
    beijos e toques,
    assombro-me;
    estou louco e encantado com isso.
    A loucura devolve-nos às tábuas daquele banco de jardim,
    palco do nosso Amor que em tantas matinés de Domingo,
    enchemos de inveja os que passavam.
    Vejo-me, 
    peghar numas chaves
    para ferir o banco com os nossos nomes.
    Enquanto gravo os nossos nomes na madeira,
    tu ris e pedes-me para parar,
    mas eu sei que é para continuar e continuo.
    Termino.
    Entre os nossos nomes deixo um coração.
    O nosso.
    Tu olhas, sorris e abraças-me.
    Eu não me consigo deter e levanto-me para ir de encontro a nós, 
    ao nosso banco.
    Corro até nós e antes de chegar,
    explodimos como bolas de sabão.
    Voltei a ser só eu. 
    Maldita poucura que não dura.
    Olho o banco onde há pouco me via a escrever.
    Não está lá nome nenhum,
    nem o meu, nem o teu;
    só metade do que parece ter sido um coração.
    Sou metade de qualquer coisa que não tem nome sequer.

    Nota:

    Se tiverem interesse em ler as coisas que escrevo, consultem o meu deviantArt (estranhamente, tem muito pouco cosplay): http://ladylouve.deviantart.com
  • Todos os Contos Volume 2

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    Todos os Contos 2
    Edgar Allan Poe
    Vários
    Contos

    Ora bem.

    Recebi este livrão lindíssimo pelo Natal, como presente do meu excelso pai. Ele prometeu que voltaria um dia com o primeiro volume, que se encontrava esgotado, mas até agora ainda não há resultados. Mas, como são contos, tanto faz ler o primeiro ou o segundo, porque não há conexão. Sobre o estilo de escrita, já conhecia um pouco, devido a uma outra edição de contos que já tinha (e que agora, provavelmente, irei vender). Mas aprofundemos um pouco:

    Ao contrário do que eu pensava, Poe não é apenas um escritor do gótico. A sua literatura é extremamente variada, indo desde a crítica e análise à comédia surrealista. Revela ser uma pessoa extremamente culta, no que respeita a civilizações antigas e, estranhamente, a barcos.Mas, sobretudo, a sua escrita é muito descritiva. Existem contos que se compõem simplesmente da observação do mundo natural, da arquitectura ou, simplesmente, à disposição de móveis num quarto.

    Poe revela ter um apuradíssimo sentido de humor, cheio de uma ironia absolutamente deliciosa. Apesar de não tratar de assuntos actuais, não podemos deixar de nos rir de uma forma ou de outra, porque está tudo escrito de maneira tão engraçada.

    Existem alguns contos que falam sobre a vida e a morte, mas de uma forma muito mais profunda, através de diálogos entre personagens desconhecidos, num universo desconhecido que pelos vistos paira entre a vida e a morte. Achei-os muito tocantes, pelo seu estilo clássico.

    Não consigo escolher um conto preferido, mas poderei falar de um que se destaca dos outros. Trata-se do último (Narrativa de A. Gordon Pym) e distingue-se por ser o maior, com mais de 200 páginas. É uma espécie de diário de bordo das aventuras de um jovem no mar, com naufrágios, piratas e selvagens em ilhas do pacífico sul. Apesar de eu não perceber quase nada sobre termos náuticos, usados e abusados, foi fascinante ver como sobreviveram ao naufrágio e como exploraram o (quase) Polo Sul. O final soube a pouco e deu muita vontade de ler o resto das aventuras que, convenhamos, ficavam cada vez e cada vez mais estranhas.

    Portanto, meu pai! Venha depressa com o primeiro volume! Quero ler mais! Quero ler tudo!!!
  • Antologia Poética de Vinicius de Moraes

    0
    Antologia Poética
    Vinicius de Moraes
    1967
    Poesia

    Quando regressei ao Kobo, tinha este livro escolhido para ler a seguir. Embora tivesse lido alguma poesia na semana anterior - o que me levaria a uma interrupção no género, pois gosto de variar - pensei "porque não". E ainda bem que pensei assim, porque eu não compreendo como pude passar tanto tempo da minha vida sem ler tão excelente obra poética.

    Vinicius, Poeta com Pê. Poeta com uma linguagem acutilante e exacta, mas ainda assim bela. Poeta com um sentido de humor sempre presente e tão apropriado. Parece-me que a grande diferença entre Vinicius e os outros é que este criador sabe sempre o que quer dizer e di-lo com certeza e exactidão, sem dar muitas voltas ao assunto para o tornar bonito. Porque a forma de o dizer já é bonita por si só. Percebemos exactamente o que ele quer expressar, mas a linguagem usada é... Poética? O que é certo é que o senhor faz poesia, poesia que dá gosto ler, que é apaixonante e viciante.

    Recomendo a todos. Como gostei de imensos poemas, não pude cingir a minha escolha para por aqui a apenas um. Escolhi três, que passarei a citar. Espero que gostem :)

    A uma mulher

    Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
    Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
    E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
    Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
    Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
    Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
    Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
    Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
    E que era preciso fugir para não perder o único instante
    Em que foste realmente a ausência de sofrimento
    Em que realmente foste a serenidade.

    Rio de Janeiro, 1933

    Vida e Poesia

    A lua projetava o seu perfil azul
    Sobre os velhos arabescos das flores calmas
    A pequena varanda era como no ninho futuro
    Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
    - Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
    Só os perfumes teciam a renda da tristeza
    Porque as corolas eram alegres como frutos
    E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
    Eu me pus a sonhar o poema da hora.
    E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
    Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
    Talvez ao pressentir na carne misteriosa
    A germinação estranha do meu indizível apelo
    Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
    Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
    E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
    Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
    Que ao vê-lo trilhar sobre os teus dentes como um címbalo
    E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
    E marulhar entre os teus seios como uma onda
    Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
    De que me tivesses possuído antes do amor.

    Rio de Janeiro, 1938

    Mensagem à Poesia

    Não posso
    Não é possível
    Digam-lhe que é totalmente impossível
    Agora não pode ser
    É impossível
    Não posso.
    Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
    Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
    Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
    Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
    E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
    A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
    Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
    Que a vergoinha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
    Façam-lhe ver que é preciso estar elrta, voltado para todos os caminhos
    Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
    Ponderem-lhe, com cuidado - não a magoem... - que se não vou
    Não é porque não queira: ela sabe, é porque há um herói num cárcere
    Há um lavrador que foi agredido, há uma poça de sangue numa praça.
    Contem-lhe, bem em segredio, que eu devo estar prestes, que meus
    Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem 
    Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
    E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
    Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
    Aos homens perplexcos; digam-lhe que me foi dada
    A terrível participação, e que possivelmente
    Devere enganar, dfingir, falar com palavras alheias
    Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
    Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
    Desse invencível dever que é o meu; mas digam-khe
    Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
    Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
    Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclartecimento
    Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
    Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
    Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há 
    Um náufrago no meio do ocenano, um tirano no poder, um, homem
    Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
    Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
    Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
    Há fgantasmas que me visitam de noite
    E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
    No amanhã
    Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
    Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
    Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
    Com sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
    De ter de abandoná-la nestes instante, em sua imensurável
    Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
    Por um momento, que não me chame
    Porque não posso ir
    Não posso ir
    Não posso.
    Mas não a traí. Em meu coração
    Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
    Envergonhá-la. A minha ausência.
    É também um sortilégio
    Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
    Num mundo em paz. Minha paixão de homem
    Resta comigo, minha solidão resta comigo; minha
    Loucura resta comigo. Talvez em deva
    Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
    O gosto de suaslágrimas, olhá-la correr
    Livre e numa nas praias e nos céus
    E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
    O meu martírio; que às vezes
    Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
    Forças da tragédia abastacem-se sobre mim, e me impelem para a treva
    Mas que eu devo resistir, que é preciso...
    Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
    Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
    Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
    Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
    A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
    A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
    Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
    A quem foi dado se perder de amor pelo direito
    De todos terem uma pequena casa, um jardim de frente
    E uma menininha de vermelho; e se perdendo
    Ser-lhe doce perder-se...
    Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
    Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
    Que me esperte, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
    É mais forte do que eu, não posso ir
    Não é possível
    Me é totalmente impossível
    Não pode ser não
    É impossível
    Não posso.
  • Crimes de Natal

    4
    Crimes de Natal
    Vários
    Antologia de Contos
    1995

    Uma antologia de contos que recebi do BookCrossing, já que nos estamos a aproximar da altura. Os autores presentes são:

    Raymund Allen
    H. C. Bailey
    Agatha Christie
    Wilkie Collins
    Arthur Conan Doyle
    Dick Donovan
    Christopher Hallam
    Thomas Hardy
    Fergus Hume
    H. R. F. Keating
    Ellis Peters
    C. L. Pirkis
    Lennox Robinson
    David G. Rowlands
    Pamela Sewell
    Edgar Wallace
     
    Ora bem, como criticar uma antologia de contos? Não tenho vagar para os criticar um a um. No geral a qualidade deles é bastante boa. Apesar de existirem alguns que relatam casos quase sem interesse, mistérios que realmente podiam ficar para resolver porque nem todos somos mentes curiosas, e apesar de existirem alguns com um estilo de escrita um pouco... Bem, um pouco... São todos bastante bons. O meu preferido foi "Uma Mulher às Direitas"

    Mas isto leva-me a pensar que eu realmente não me interesso grandemente por policiais. Não há personagem, nem desenvolvimento, não há grande história que não seja o caso e a sua resolução, não há grandes momentos literários. É como um episódio do CSI, mas com menos tecnologia. Consequentemente creio que passarei a evitar este género.
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