31.3.13

Merry Christmas Mr. Lawrence

Merry Christmas Mr. Lawrence
Nagisa Oshima
Filme
1983
9 em 10

Sei lá, às vezes os filmes valem a pena pela experiência de os ver e pelas pessoas com quem os vemos. E depois há aqueles que além disso têm o Bowie.

Lawrence é um soldado inglês que, como outra meia dúzia de centenas de soldados ingleses, foi capturado pelos japoneses durante a segunda guerra. Ao contrário dos outros, Lawrence é fluente em Japonês. Por isso, até se dá bem com os seus captores e serve de mediador entre eles e os seus companheiros, no caso pouco frequente de haver problemas. Porque todos obedecem aos japoneses. Porque eles têm espadas e uma maneira de viver mesmo estranha, matam-se por tudo e por nada. Até ao dia em que aparece o Bowie (Cellier de seu nome, mas Bowie). E este gajo não é como os outros. Primeiro porque é maluco. E depois porque desafia a autoridade. A autoridade é personificada por Yonoi (o pianista Ryuuchi Sakamoto), que é um gajo tradicionalmente mau. E por Hara (Takeshi, grande nome do cinema japonês do qual eu nunca tinha ouvido falar. Santa ignorância!) que é um gajo mau que às vezes é simpático e que gosta muito do Lawrence.

São estas as relações do filme e o filme é todo sobre elas. Porque não são relações quaisquer. São relações dotadas de uma força sentimental exuberante e trágica, de uma mobilidade quase homoerótica. A caracterização das personagens dá profundidade fractal aos sentimentos que os personagens desenvolvem e o seu culminar é ilustrado por algumas cenas curtas mas muito fortes. Comer flores, os beijinhos, as borboletas, a canção de natal. Isto não podia acontecer se não houvesse um trabalho de actor intenso por detrás desta construção, muito evidente em todos os quatro actores. Mas sobretudo no Bowie, porque ele naturalmente já tem o ar de demónio que os japoneses lhe atribuiram.

Em contraste com a negatividade destas relações o colorido do filme é muito leve, uma ilha quase paradisíaca onde toda a gente é bem tratada, apesar de uns serem os prisioneiros e os outros serem os aprisionadores. As cenas de flashback da cabeça do Bowie estão muito bonitas e filmadas de forma a que tudo pareça estar, efectivamente, dentro de uma memória. E isto tudo é coroado por uma banda sonora infalível, autoria do nosso amigo Yonoi (ou Sakamoto). São músicas alucinantes que trazem um ambiente estranho e surreal às situações, nada adequadas à época mas muito próprias do local imaginário para onde nos remetem.

E depois tem o Bowie. É naquela...

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