O Dia dos Prodígios
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O Dia dos Prodígios
Lídia Jorge
1979
Romance
Já há algum tempo que queria ler algo desta autora. Na verdade, cheguei a comprar um livro a propósito de uma troca de outro repetido. Mas depois apareceu este pelo BookCrossing, um RABCK, e pensei em lê-lo primeiro, já que é a primeira obra da autora.
Confesso que fiquei dividida. Por um lado percebo que seja uma obra importante dentro do seu contexto socio-político, mas não fui capaz de me embrenhar totalmente. Este livro passa-se numa pequena aldeia algarvia, o que desde já é curioso. Quando falamos de aldeias portuguesas, são sempre as aldeias do norte ou do Alentejo. Nunca no Algarve. Nesse aspecto, temos logo um ponto para a originalidade. No entanto, precisamente por causa deste mote geográfico, o livro está escrito num palavreado muito típico, em que todos os personagens (incluindo o próprio narrador) relatam os acontecimentos com um sotaque pouco discernível e quase estranho, pela falta de actualidade e pelo exagero da terminologia.
Talvez sejam erros de uma edição antiga, talvez sejam erros de um autor pouco experiente, mas a verdade é que me causou uma certa irritação a repetição constante de algumas palavras e expressões, como "cu", "urina" e "mão em pala". Para mais, existem coisas como enumerações incompletas ("ele sabe três coisas" e depois só diz uma) que me levam aos arames. Toda a narrativa remete para um esgar de nojo, em que todos os acontecimentos não possuem qualquer beleza gráfica, mas antes um habituar aos elementos da natureza em que estes deixam de ser interessantes para serem simplesmente grotescos, apesar da sua normalidade.
Quanto ao dia dos prodígios propriamente dito, este poderá ter interpretações diversas. Será a cobra? Será o soldado? Será a revolução? Será a previsão do futuro? Esse foi o elemento mais interessante do livro, ver como todos estes elementos influenciam os personagens que, sem dúvida - apesar das descrições vagas - estão muito bem caracterizados.
No entanto, parece-me que o livro depende demasiado da forma como está escrito para que a história seja convenientemente aprofundada. Parece um rol de palavras enumeradas, apenas um jeito de falar. De certa forma caracteriza uma terra e uma "cultura", mas será que isso é o suficiente?
Nota: mas gostei imenso do nome dado aos pirilampos... "Luz-em-cus" :p
Nota: mas gostei imenso do nome dado aos pirilampos... "Luz-em-cus" :p
By : ladyxzeus
Le Chevalier d'Eon
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Le Chevalier d'Eon
Furuhashi Kazuhiro - Production I.G.
Anime - 24 Episódios
2006
7 em 10
Já alguma vez disse aqui o quanto eu gosto de animes históricos? Provavelmente... Le Chevalier d'Eon é um anime sobre a corte francesa, mas com um pequeno twist sobrenatural.
d'Eon é um jovem aristocrata da corte de Versalhes, cuja irmã é misteriosamente assassinada. Em busca do assassino da rapariga, d'Eon torna-se espião para os reis e é enviado em diversas viagens. Nestas, acaba por descobrir que há algo mais para além de um assassinato no meio de tudo isto... Para mais, a alma da irmã possui-o nos momentos mais inusitados, levando a que seja um pouco difícil distinguir quem é quem...
Este anime tem uma narrativa misteriosa e muito interessante, que nos deixa sedentos de curiosidade em saber o que realmente se passa. Há uma aura gótica que envolve tudo isto, com estranhas ligações mágicas e religiosas que nos trazem dúvidas ao mesmo tempo que revelam a história. Esta pode ser um pouco complexa, mas no final todas as pontas acabam por se unir e o resultado é muito satisfatório. Parece tratar-se de uma reinvenção da história da Revolução Francesa, mas ainda antes da época correcta.
Os personagens são realistas, mesmo dentro do contexto fantástico, havendo soberbo desenvolvimento das suas características, sobretudo naqueles considerados "os principais". As suas dúvidas têm sempre consequências, mais ou menos graves, e o misto de sentimentos que têm uns pelos outros acaba por contribuir muito para o desenvolvimento narrativo. d'Eon em especial, tem uma questiúncula curiosa, que é o facto de estar possuído pela "alma" da irmã o que leva a que ele próprio comece a ser incapaz de distinguir a sua própria identidade.
Nesse aspecto, poderíamos ter tido um melhor uso dos designs, já que muitas vezes é difícil distinguir um do outro, mesmo pela voz. Quanto ao resto, estão historicamente alinhados, o que é sempre um prazer de ver, quer em termos de design quer em termos de cenários. As cenas de acção estão bem coreografadas e levam os personagens a situações de extremos, perfeitamente caracterizadas pelas suas expressões.
As vozes ajudam também a isto, sendo que na maior parte das vezes temos boas interpretações. Musicalmente, posso considerar um anime um pouco fraco, já que as peças são pouco inspiradas e pouco associáveis à época em que nos encontramos no contexto, sobretudo a OP e ED que têm tons demasiado pop.
No entanto, é um anime altamente recomendável, quer para fãs de animes históricos, quer para fãs de mistério ou de acção. É muito polivalente e uma excelente história de mistério fantástico.
By : ladyxzeus
Non Non Biyori Repeat
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Kawatsura Shinya - TV Tokyo
Anime - 12 Episódios
2015
6 em 10
Depois da Primeira Season talvez não fosse inesperado que esta segunda instância aparecesse para ver no meu clubezinho elitista. No entanto, fiquei extremamente desapontada com o que fizeram: porque esta segunda season não é uma sequela, mas antes um reinventar da primeira, com novas situações e alguns personagens diferentes.
No entanto, em imitação das típicas séries americanas dos anos 90 (10 seasons e nada acontece), não há qualquer tipo de desenvolvimento narrativo ou das personagens que faça esta série valer a pena. São todos exactamente iguais ao que conhecíamos e não existe nenhuma nova situação inusitada neste anime da vida diária que demonstre que os personagens crescem de alguma forma durante as suas actividades. Não há nenhuma nova descoberta ou aprendizagem que seja extremamente diferente da primeira instância e, assim, o anime vive exclusivamente das belas imagens reveladas pela arte.
Esta, continua exemplar, mas não há nenhuma diferença nas paisagens que demonstre que houve uma evolução, física ou outra, o que acaba por tornar a beleza e o brilho obsoletos.
Musicalmente, temos temas semelhantes que são evocativos de uma vida em paz no campo.
Assim, posso garantir que esta segunda season é bastante inferior à primeira, na medida em que é exactamente igual. Por isso, aquando a nossa votação, será um rotundo não.
By : ladyxzeus
Morangos Silvestres
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Morangos Silvestres
Ingmar Bergman
1957
Filme
7 em 10
Mais à noite vimos este filme, a minha estreia com o famoso autor. Um poema a preto e branco, uma exploração da memória.
Um homem velho vive apenas com a sua governanta. Vai ser premiado por ter feito 50 anos ao serviço da medicina, mas decide ir sozinho de carro. Acompanha-o a sua nora. Mas, o que se passa com este homem, que se vê atormentado por pesadelos?
O autor coloca em cheque as diferenças inter-geracionais de forma pungente e bela, contrastando a inocência descerebrada da juventude com o terror da velhice, o terror da incapacidade. E, ao mesmo tempo, desenvolve-se a história do seu filho que, afinal, sofre como um idoso prematuro e não encontra nada de bom na vida. Assim, o personagem encontra uma espécie de felicidade final, uma aceitação da vida perante a juventude perdida, apenas encontrada pelo confronto entre este e os os jovens que encontra pelo caminho.
As imagens podem ser a preto e branco, mas há um uso fascinante da luz e sombra, sendo que - não vendo cores - podemos imaginar todo um ambiente gráfico de beleza extraordinária. Este grafismo é sempre mais evidente nas sequências dos sonhos, que podem mesmo ser aterrorizantes.
Ao mesmo tempo, existem alguns momentos de humor, sobretudo sobre ideias religiosas ultrapassadas. Infelizmente, muitos deles são também sobre a figura feminina, retratada como passiva e estupidificante, o que não é muito interessante para o momento actual em que vivemos.
Ainda assim, gostei muito do filme e fiquei muito curiosa para ver outros do autor, sobretudo aquele em que a Morte joga xadrez com um homem.
O Dia Seguinte
Mas a viagem ainda não terminou! No dia seguinte, apesar de perdermos o pequeno almoço, fomos almoçar a um desses restaurantes à beira da estrada onde se come sempre lindamente. Comi choco frito. Depois, seguimos até Palmela para vermos as suas atracções, nomeadamente o castelo. No entanto, lá chegados, começou a chover torrencialmente, uma chuva muito fria, pelo que nos recolhemos dentro do carro. Fomos também ver o miradouro, que era mesmo ao pé. Palmela parecia estar desabitada, mas parecia também uma vila muito simpática!
Deixo-vos umas fotofotos, para ficarem com vontade de visitar :)
By : ladyxzeus
A Culpa é das Estrelas
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A Culpa é das Estrelas
Josh Boone
2014
Filme
5 em 10
Este fim de semana foi dia dos namuraduhs e, por isso, aproveitei um voucher da Odisseias para ir passear com o Qui. Fomos a Palmela, onde ficámos instalados num complexo turístico, num quarto com uma cama, uma mesa e um microondas. Também tinha uma varanda!
Vista da Varanda
Pois então fomos ao bar do complexo beber um café e umas jolans e, depois de uma luta dos empregados contra a box da televisão, apanhámos este filme a um terço da sua duração. Por isso, acho justo comentá-lo, sobretudo porque já tinha lido o livro.
Comparativamente, a história é mantida na sua totalidade, com excepção daqueles momentos em que os personagens fazem gráficos um para o outro. No entanto, a performance de todos os participantes torna este filme menos que mediano. Para começar, os personagens deveriam estar doentes, muito doentes. No entanto, os actores actuam como se fossem adolescentes normais e cheios de energia, com excepção de um ou dois momentos. Também há vários erros de edição e montagem, sobretudo aqueles relacionados com o transporte da garrafa de oxigénio.
O tema é forte, mas um dos momentos fulcrais (o encontro final com o autor mau) é resumido por forma a tornar-se mais um elemento da história de amor. Esta, é triste mas acaba por não impressionar pois não conseguimos acreditar que estas pessoas estão realmente perto da morte.
Achei curiosa a forma como eles mostram as mensagens que foram escritas, mas isto também infantiliza um filme que, sendo sobre adolescentes, tem um tema demasiado forte para ser levado de forma tão leve.
E depois acabou o filme e começaram as notícias que relatavam uma tempestade imensa e cheias por todo o país. As outras pessoas que estavam lá ligaram o rádio, que eu depois mudei para a Antena 2, que estava a dar ópera.
By : ladyxzeus
As Cidades Invisíveis
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As Cidades Invisíveis
Italo Calvino
1972
Romance (?)
Tinha muita curiosidade em ler este livro e, por um golpe de sorte, apareceu disponível para um RABCK no BookCrossing. Ainda demorei um pouco a chegar até ele (maldita lista de leitura!) mas agora já o li. Foi um instante, bastaram duas viagens de autocarro!
Marco Polo e Kublai Khan estão nos jardins suspensos deste e falam sobre a vida. Ao início não se percebem muito bem, mas depois começam a saber a língua um do outro. E de que falam? Das cidades do reino que Marco Polo visitou nas suas viagens. E são muitas cidades, todas diferentes, com curtas descrições.
São simplesmente fascinantes. Cada cidade contém em si uma crítica para a sociedade actual, cada cidade é única e cada cidade são todas as cidades que existem no nosso mundo. Nelas, as pessoas vivem com mais ou menos felicidade, mas revela-se que é tudo um mito e que muitas delas têm gémeas, espelhos, onde as pessoas têm outra visão da vida, oposta, irreal. Nesse aspecto, talvez o autor se tenha prolongado um pouco demais nesta divisão indivisível, nas cidades do fim.
Algumas são muito belas, outras são muito feias. Mas nenhuma parece um sítio muito bom para se viver. A minha preferida foi a cidade onde só há canalizações e banheiras, sem edifícios, onde mulheres tomam banho a toda a hora.
Pelo meio das descrições destas cidades que também são nossas, existem momentos filosóficos nas conversas de Marco Polo com o seu patrão. Estes momentos são densos, mas ajudam muito a explicar a visão do autor sobre a vida e sobre a polis em si.
Por outro lado, o Qui reparou que todos os nomes das cidades são de mulheres e que, por isso, talvez estas cidades sejam uma visão do autor sobre as mulheres que ele algum dia conheceu. Se assim for, torna o livro muito mais romântico do que se poderia esperar.
Foi uma leitura muito interessante e fiquei fascinada. Só não roubo o livro para mim porque o meu pai já o tem, portanto é como se o tivesse também. :p
By : ladyxzeus
Poesia Ortónima
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Poesia Ortónima
Fernando Pessoa
Anos 20
Poesia
Esta colecção de livros saiu com o Jornal Expresso, mas só fiquei com alguns (o meu StepFather só compra o jornal de vez em quando). Trata-se de uma colecção com a obra essencial do nosso muito querido Fernando Pessoa.
Com este volume, vemos alguma da sua poesia, aquela que foi escrita por ele e não por nenhum dos outros malucos. De qualquer forma, ficamos a saber um pouco mais sobre o autor através dos seus poemas e a conclusão a que chego é que ele estava completamente doido ou, pelo menos, extremamente deprimido.
Pois todos os poemas falam de uma vida sofrida e de um desejo de morte. Diz ele que "O Poeta é um fingidor", mas não me parece que ele esteja a fingir quando fala do horror emocional que sente. Os poemas são muitas vezes belos, outras vezes indiferentes. Um ou outro chega a ser cómico. Mas todos eles falam da infelicidade do autor, o que me deixa um pouco triste porque ele haveria de ter sido boa pessoa e ninguém merece estar envolvido neste spleen
Deixo aqui o poema que mais gostei, que é parte de um poema um pouco maior.
Chuva Oblíqua - II
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro....
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruíd da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
By : ladyxzeus

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