Este País Não É Para Velhos
0
Este País Não É Para Velhos
Ethan Coen & Joel Coen
Filme
2007
8 em 10
Sem ideias sobre o que ver numa calma noite, decidimo-nos por mais um filme dos Irmãos Coen, dos quais gosto sempre imenso.
Este é um filme que fala de uma fuga e de uma perseguição. Chego, com ele, a uma certa conclusão sobre os filmes dos Coen... Todos eles se tratam de uma viagem visual por um ideal Americano corrupto e desmembrado, uma imagem de uma realidade que, se não aconteceu, poderia perfeitamente ter acontecido naquele contexto. Desta vez a viagem é feita pelos confins de um estado árido e desértico.
Um homem comum encontra, por acaso, uma cena de morte e horror, com muita droga e muito dinheiro. Decide apoderar-se do dinheiro e esse é o seu primeiro erro: a partir desse momento vê-se perseguido por um psicopata muito escrupuloso, com ideias sobre a vida bastante distintos dos das pessoas comuns. Para além dessa pessoa, também é procurado por mais uma série de gente. No fundo, ele deseja apenas escapar mas... Parece que é inevitável.
Recheado de diálogos interessantíssimos e muito filosóficos, este é um filme que sobrevive sobretudo com as suas personagens, que estão muito bem construídas e, sem dúvida, interpretadas de forma excelente. É sobretudo curioso este nosso "psicopata", pois o seu código moral é muito intricado e difícil de interpretar, mas claramente existe e ficamos muito curiosos com ele.
Como disse anteriormente, o filme é uma viagem. Isso é caracterizado por imagens muito fortes dos elementos típicos deste local Americano, com um uso de fotografia agudo que funciona muito bem. Outro elemento curioso é o facto do filme não ter quase nenhuma música a acompanhá-lo: é uma narrativa feita de silêncios que, por sua vez, causam mais ansiedade do que qualquer ruído poderia.
Um filme original, que dá que pensar. Como sempre, estes irmãos estão lá.
By : ladyxzeus
Read or Die
0
Read or Die
Masunari Koji - J.C. Staff
Anime - 26 Episódios + 3 Episódios
2003
6 em 10
Há algum (bastante) tempo atrás este anime foi apreciado no meu clube, mas eu não o vi na altura. Desde então que sempre tive uma certa curiosidade em vê-lo, sobretudo tendo em conta o título. Infelizmente, comecei por ver o OVA que, comparativamente à série, é bastante menos despretensioso e, por isso funiona melhor.
Este é um anime sobre algumas pessoas que têm o poder de controlar o papel, transformando-o em objectos laminados, projécteis e armas em geral. No OVA temos uma história muito simples, uma explicação do passado de duas personagens que depois virão a vir moderadamente importantes na série. Uma delas (The Paper) caiu-me logo no goto: gostei imenso dela e pensei logo em fazer cosplay. Mas depois de ver a série, em que ela não sofre mais nenhum tipo de desenvolvimento, perdi a ideia. Enfim, na série, uma sequela, temos três raparigas que tentam proteger uma autora de livros de uma estranha máfia livreira. A história desenvolve-se na exploração dessa entidade maléfica e explicações sobre o que fazem e porquê. É de certa forma interessante e original, mas acaba por se perder a paixão pelos livros que ligava todas as personagens: o facto do objecto em causa (o mote para toda esta aventura) ser um livro é puramente inconsequente.
As personagens, apesar de serem bastantes, também não sofrem grande caracterização. Com excepção de Anita, a mais irritante delas todas, as raparigas acabam por ser ignoradas em detrimento da primeira, que vive praticamente todas as aventuras sozinha. De resto, elas não sofrem desenvolvimento, sobretudo no respeitante à evolução do "não gostar de ler" para passar a gostar de ler (o que teria sido previsível e bem-vindo). De resto, as personagens passam grande parte do tempo a chorar e a gritar o que, apesar do poder vocal das actrizes, é bastante desconcertante e incomodativo. Também não se compreende o porquê de se passar muito tempo a relatar a vida diária numa escola, pois as relações com estas personagens também não têm qualquer relevância.
Sendo que no OVA a arte está bastante mais cuidada, não podemos dizer que o grafismo da série seja mau. Apesar dos designs muito simples e da falta da detalhe em geral, temos cenas de animação bastante satisfatórias, se bem que poderiam ser um pouco mais longas (considerando cenas de acção) para podermos observar melhor os movimentos, que até são interessantes. As cores são pouco variadas, mas no geral o aspecto funciona bem. Gostaria de ter visto um pouco mais de cuidado nas imagens de livros e papéis, que estão - essencialmente - em branco: isto não faz muito sentido pois todos os livros (excepto o famoso "Livro em Branco") têm letras.
Musicalmente, temos alguns momentos bastante intensos, com uma OP jazzística muito interessante. De resto, não há muita coisa que distinga esta banda sonora de um shounen comum.
Um anime que poderia ter sido excelente e entrar para o meu top de favoritos, se não tivesse cometido tantos erros. De resto, fica um piscar de olho para a ideia que, apesar de tudo, é bastante boa. :)
By : ladyxzeus
Tytania
0
Tytania
Ishiguro Noboru - Artland
Anime - 26 Episódios
2008
6 em 10
Anime criado pela mesma pessoa que está por trás do sempre amado e genial Legend of the Galactic Heroes, funciona como uma versão do mesmo. Mas mais infantil, menos inteligente e infinitamente mais básico.
A história tem muitos pontos em comum: um império maléfico, mas com um pouco mais para além disso, está em oposição com um grupo de rebeldes, com um pouco mais para além disso. Infelizmente o "mais para além disso" é mesmo muito pouco. Assim, temos uma narrativa altamente simplificada, que não faz um uso correcto de todos os seus personagens. Estes, apesar de estarem em oposição uns com os outros, são esquecíveis e aparentam estar ali, na sua maioria, apenas para satisfazer um certo ego vaginal. Não têm qualquer tipo de densidade e muitas vezes perdem o seu objectivo para existir. Isto acontece de tal forma que a maioria dos personagens apresentados inicialmente acaba por ser esquecido, em preferência do nosso "principal", um jovem cheio de ideias (que nunca são relatadas, mas estão lá!) e com muito bom ar que luta por um mundo melhor. Infelizmente, nunca temos um vislumbre sobre esta poética ideia do "mundo melhor" e temos então um personagem oco sem ideologia.
Podemos admitir que a arte está bastante aceitável. Sem erros de maior, temos uma paleta brilhante e designs complexos, apesar de completamente ilógicos. Nunca hei-de perceber como, nestes exércitos, estão todos vestidos de maneira diferente, mas isso é crime constante de todos os animes e séries que falam sobre um ambiente bélico. Os cenários não têm grande detalhe, mas estão bem explorados e, no geral, a forma como a imagem está descrita acaba por ter um efeito de originalidade bem patente. Poderia ter havido, ainda assim, mais detalhe na maquinaria e armamento.
Também a música não é totalmente infeliz. Com um início e final epopeicos, inspira-nos a viver esta luta entre facções de forma muito clássica, tomando livre inspiração nos temas que nos apaixonaram no passado.
Em conclusão, Tytania é um Legend of the Galactic Heroes mais acessível mas muito menos interessante. Assim, recomendo essa versão anterior que, de qualquer modo, não precisava de tentativa de melhoramento.
By : ladyxzeus
Kaze no Tairiku
0
Kaze no Tairiku
Mashimo Koichi - Production I.G.
Anime - Filme
1992
5 em 10
Era para ter ido ao cinema, mas como não me apeteceu sair de casa cá fiquei a ver este filme.
Estilisticamente, exemplo perfeito para a sua década, mas nos outros aspectos é indistinguível de qualquer outro anime de fantasia. Curioso como este tema, a fantasia pura e dura, se perdeu um pouco ao longo dos tempos e, hoje em dia, são produzidos tão poucos animes com ele. Enfim, uma party de três pessoas (um tank, um priest e uma miúda) encontra-se numa cidade misteriosa onde havia diversas riquezas. Eles viajam por um continente destruído, mas não há grandes explicações sobre o que se passou e o que levou o mundo a tornar-se assim. Na verdade, não há explicações sobre nada, espera-se simplesmente que o visionante viva a aventura destes três sem se questionar sobre nada. Assim, o anime deixa um sabor a incompleto, aparentando fazer parte de algo muito maior e mais complexo.
Para mais, as personagens que nos são apresentadas não têm qualquer característica distinguível, aparecendo amorfas e insignificantes. Também não sofrem qualquer tipo de desenvolvimento, o que teria sido interessante dentro do contexto e nos poderia ter ajudado a saber um pouco mais sobre este universo.
O ponto alto do filme será, talvez, a arte. Bastante característica da época, é também fonte de cenários altamente detalhados, apesar da paleta de cores bastante escura que torna alguns aspectos um pouco indistinguíveis uns dos outros, sobretudo no respeitante a sombras.
Musicalmente, temos uma banda sonora pouco original e muito simples.
Temos, assim, um filme perdido dos anos 90 que não poderá ser um sucesso, nem nessa altura nem agora.
By : ladyxzeus
Midori: Shoujo Tsubaki
0
Midori: Shoujo Tsubaki
Harada Hiroshi
Anime - Filme
1992
8 em 10
É com grande alegria que o post que ultrapassa a barreira dos mil seja um excelente e recomendável exemplo de animação experimental num tema muito pouco falado em anime. Foi o Qui que o descobriu, por mero acaso.:)
Inspirado num manga pelo rei do Guro, Suehiro Maruo, trata-se da trágica história de Midori, uma menina que após a morte dos seus pais é entregue a circo de freaks, que a maltratam de todas as formas possíveis. Até à chegada de um anão que faz magia "ocidental", que se apaixona por ela e a protege, relativamente dos acontecimentos. É uma história triste, sem um final feliz ou satisfatório, mas que serve apenas como mote para a terrífica experiência visual em que este anime se torna.
A animação é extremamente simples, uma produção independente estimulada pelo realizador Harada Hiroshi que, espectacularmente, desenhou todos os momentos deste filme. O filme está formulado de tal forma que se assemelha a um teatro de sombras de papel, sendo que na realidade a história original era um desses teatros. Assim, a animação mantém-se integra com a ideia original, servindo bastante bem como homenagem. Apesar da simplicidade da animação, existe um detalhe profundo no design dos personagens e nos cenários, o que torna o visionamento numa experiência agradável (apesar dos momentos sangrentos e horríveis). De resto, existem algumas cenas em que se investe numa animação desregrada, muito experimental e original, que nos levam até um reino de pesadelo e magias terríveis, ultrapassando os limites da mais perturbada imaginação.
Adicionando a tudo isto temos uma banda sonora perturbadora e assustadora, que torna a narrativa, que já de si é pesada, numa experiência brutalizante.
É um anime horrível, tratando de temas horríveis, nada agradável para uma noite sem sonhos. No entanto, foi das coisas mais interessantes que vi ultimamente e não deixarei de o recomendar.
By : ladyxzeus
Ashita no Joe
0
Ashita no Joe
Dezaki Osamu - Mushi Productions
Anime - 79 Episódios
1970
5 em 10
É com muito orgulho que anuncio que chegámos ao milésimo post neste espaço! Talve em breve faça uma pequena celebração, mas queria só dizer a toda a gente. :) Tem sido muito agradável partilhar convosco estes meus comentários mais ou menos malcheirosos sobre coisas diversas :) É também com orgulho e um certo sentimento de dever cumprido que este milésimo post é sobre um marco histórico na indústria do anime como o conhecemos hoje: Ashita no Joe.
Estreado na televisão há 45 anos, é um anime bem presente na sua época e que definiu todo um género. Foi um dos primeiros animes de desporto com uma ligação bastante forte ao lado negro da sociedade, tema que vem evoluindo desde essa altura para outros animes de que tanto gostamos. Assim, é um anime muito importante em termos históricos e, apenas por isso, todos deviam experimentar vê-lo. Conhecimento nunca é demais, já dizia o meu Professor.
No entanto, olhando objectivamente para este anime, mesmo se tentarmos tirar os óculos dos anos 10 e tentarmos regressar um pouco à época que é retratada nele, tem algumas falhas que me levam a dar-lhe uma nota um pouco mais baixa que a minha média. Comecemos pelo início.
Este anime conta uma história simples, um "coming of age" de um rapaz que, tendo sido abandonado pelos pais e que não tem nada que o ligue às outras pessoas, acaba por se envolver num meio desportivo do boxe, começando a ganhar uma força diferente e desenvolvendo relações. É precisamente nesse aspecto que a história não funciona. Para este tipo de narrativa precisamos de um personagem forte que, mesmo assim, esteja aberto à progressão e evolução. E, infelizmente, Joe não é assim. Simplesmente não combina com a sua personalidade.
Temos, então, um personagem principal irascível, insuportável e detestável, com o qual é impossível que alguém se identifique se não para desejar que ele perca todos os combates. As suas atitudes nunca melhoram, ele parece nunca estabelecer uma ligação com quem quer que seja. Tudo aquilo que faz é negativo e a sua personalidade, apesar de carismática, não permite algo tão simples como... Gostar dele. Talvez nos anos 70 este seja o modelo ideal de desportista mas, para mim, foi impossível ganhar qualquer afeição por Joe. Quanto aos outros personagens, temos um treinador que faz muito pouco além de gritar, um grupo de crianças que serve mais como alívio cómico do que outra coisa, duas mulheres em extremos opostos que não revelam grande personalidade (excepto que são o contrário uma da outra e Joe, evidentemente, terá de escolher de quem gosta mais) e um parceiro de equipa que acaba por ser o personagem mais interessante da colecção.
A narrativa processa-se de forma rápida, sem gastar tempo em coisas inúteis como treinos dos desportistas ou mesmo combates. Dedica-se mais a lutas de rua e às maldades que Joe vai deixando à sua passagem. Até a parte supostamente mais intensa, aquela em que Joe está na prisão, acaba por ser repetitiva e não nos transmite qualquer tipo de sentimento de horror.
Em termos artísticos, mesmo para a época a animação não é extraordinária. Apesar de termos um design de personagens bastante limpo, existem repetições infinitas das mesmas frames, o que levam a combates extremamente repetitivos e pouco ou nada coreografados. Gostei bastante, ainda assim, da utilização de cores e sombras. A paleta é muito reduzida (o que faz sentido para uma série longa nesta década), mas está bem usada em termos gráficos, apesar de alguns erros que o olho mais atento detecta facilmente.
Musicalmente, temos um tema que é repetido constantemente mas que, sendo tão belo, não cansa. Este tema e suas variações constituem toda a banda sonora do anime, incluindo as OPs e EDs que têm aquele aspecto "épico" das músicas antigas mas com uma interpretação algo fraca.
Assim, é um anime histórico que vale a pena conhecer, mas que - apesar de tudo - não fica na memória pela qualidade.
By : ladyxzeus
Garden Dreams
0
Garden Dreams
Fumi Yoshinaga
Manga - 1 Volume/4 Capítulos
1999
6 em 10
Comprei este manga no Anicomics, pois é de uma autora que amo de paixão (apesar de eu não saber muito sobre manga, continuo a ter os meus preferidos ;) ). Esperava um romance homoerótico cheio de classe, mas encontrei algo ligeiramente diferente.
Dois bardos viajam de Este para Oeste e acabam por se encontrar com um solitário Barão, um senhor feudal que não convive com ninguém excepto a sua filha. Algumas coisas acontecem, de forma muito rápida, e passamos para um flashback que nos conta a razão pela qual o Barão é tão solitário.
Pareceu-me a mim que esta história necessitava de mais alguns painéis para funcionar devidamente. As coisas processam-se demasiado rápido, sem um desenvolvimento coerente que nos permita perceber bem a relação entre os personagens. Esta é explicada com uma simplicidade quase exasperante, que acaba por as caracterizar de forma um pouco minimalista e simplória.
No entanto, a narrativa desenvolve-se de forma coerente e existe um romantismo muito intenso e clássico, que agarra o leitor imediatamente e provoca uma imersão dentro destas histórias de amor, levando os nossos sentimentos ao extremo. Aqui se revela aquilo que eu amo nesta autora. Infelizmente, tudo é quebrado por um final altamente anti-climático, mas ainda assim com um certo humor infantil, que relativiza toda a inocência da história que lemos até agora.
A arte é simples, sem grandes detalhes nos cenários, mas com um design de personagens muito agradável, tendo em atenção roupas e hábitos do universo (simples) que foi criado para esta história. Existem, também, algumas cenas belas envolvendo flores diversas.
Ainda assim, não é o tipo de manga que recomendaria a um leitor experiente.
By : ladyxzeus
