Análise: Urotsukidoji - A Lenda do Supra Demónio
A propósito de irmos conhecer o autor de Urotsukidoji, que foi a mente perversa por trás da criação de hentai de tentáculos, achei por bem ler o seu manga mais famoso "The Legend of Overfiend" (Urotsukidoji). Sim, o manga é hentai e, não, não é SFW (óbvio!) e sim, tem muitos muitos tentáculos demoníacos.
Digamos que este manga é estranho porque está extremamente bem desenhado. Até chega a fazer impressão, porque é quase como estivessemos a ver pintura renascentista, mas em vez de orarem a deus estão em posição missionário (entre outras).
O manga acompanha as aventuras e desventuras muito sexuais de um rapazinho do nono ano e da sua namorada, que estão sempre acompanhados por um demónio extremamente apanhado por satirismo, até que se revela que o dito do rapaz é o demónio do mal supremo e que o seu filho será, portanto, o mal supremo.
O manga tem os seus momentos sensuais, nota-se que o autor este muito tempo a estudar várias maneiras prazerosas de fazer o amor, quer o mecanismo fornicatório seja um pénis regular ou os tentáculos malucos dos demónios. A rapariga é violada a cada três páginas, no entanto este manga empodera mais as mulheres do que qualquer Rumiko da vida: afinal, os tipos violam as miúdas, mas as raparigas demónio TAMBÉM violam os tipos, é tudo muito libertário e igualitário.
Com uma arte extaordinária, por vezes grotesca, por vezes cheia de sentido de humor, este é um manga clássico que - apesar de ser muito badalhoco - me encheu as medidas e será, certamente, inesquecível.
Fica a nota de que temos uma cat girl com as orelhas no sítio anatomicamente correcto.
Análise: No Coração desta Terra - Que Terra?
Livro literalmente encontrado no lixo, e que se veio a revelar uma obra máxima da literatura contemporânea.
Estamos na África do Sul, em pleno Apartheid, e lidamos com as confusas memórias de uma mulher, Magda.
Magda tem uma relação estranha com o pai, Magda tem uma relação estranha com a vida. Magda já não se recorda bem do que aconteceu: vive com os seus criados, todos negros como deveria ser, e matou o seu pai. Ou se calhar não, se calhar ele está muito velhote e xexé.
Com esta confusão mental, pareceria difícil escrever um livro sobre semelhante personagem. No entanto, Coetzee consegue fazê-lo de forma magistral, colocando por palavras bem bonitas o quanto do desespero desta mulher toca na realidade, apesar de estar bastante afastado dela porque Magda está louca.
Apesar de ser um livro bastante complexo, lê-se muito bem e é altamente viciante. É uma obra que toca no factor social, mas sobretudo no factor pessoal da personagem, que é vibrantemente confusa, mas com toda a razão.
Assim, estamos no coração desta terra, mas que terra? A África do Sul, a África em si, ou o país pessoal em que Magda se encontra? Fica a dúvida para sempre.
Análise: 17-26 - A Arte de Tatsuki Fujimoto
Conhecemos Tatsuki Fujimoto pela sua mais famosa obra, Chainsaw Man. Por isso, fiquei agradavelmente surpreendida com este conjunto de curtas, que são adaptações de vários one shots escritos no período de 10 anos entre 2017 e 2026.
Cada história é única e realmente fascinante. As que mais me impressionaram foram as da galinha e a do quadro. São histórias surrealistas, mas apegadas a uma realidade muito forte e muito concreta, a realidade do próprio autor, que ele altera e molda nestas histórias para servir uma espécie de moral pessoal.
Mas o mais extraordinário é sem dúvida a animação, que é lindíssima e espectacular. Se cada pequenina história por si só não tem nada de especial, os efeitos visuais transformam-nas em algo de muito belo e de muito atractivo.
Gostei muito deste conjunto de curtas, e recomendo.
Análise: Takopii no Genzai - O Alien e o Assunto Sério
Por vezes encontramos um anime, um simples OVA, que acaba por significar muito mais do que aquilo que esperávamos. Takopii no Genzai é um desses animes, algo aparentemente simples e muito infantil que se revelou um anime muito mais relevante do que o que eu esperava.
Tudo começa quando Takopi, um alien tipo polvo do Planeta Feliz, vem para a Terra com o objectivo de fazer todos muito felizes. Má a sua sorte que vai parar às mãos de uma menina que sofre bastante, ela é vítima de bullying.Análise: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas - O nome fala por si só
Peça criada e depois encenada por Tiago Rodrigues, foi publicada em formato literário após a estreia da peça, que trouxe muitos azedumes ao público, conforme veremos a seguir.
Livremente inspirado na história de Catarina Eufémia, brutalmente assassinada no Estado Novo por - simplesmente - se estar a manifestar, esta peça/livro fala-nos de todas as Catarinas que existem dentro de nós, das Catarinas que desejam e necessitam de matar um fascista.
Uma família, todos chamados Catarina, faz um fascista como prisioneiro e estão preparados para o matar. Mas uma das Catarinas hesita, afinal o fascismo já não significa muito para as gerações mais novas. E é essa dúvida, essa falta de memória colectiva, que nos leva para o monólogo mais violento de que há memória, a altura em que o público da peça se manifesta, atira coisas, se revolta. Porque é realmente uma coisa revoltante e horrível, o tal discurso fascista, que toca nos pontos dolorosos deste tipo de regime em alinhamento com a actualidade.
Então, estabelecemos aqui que as forças do mal estão representadas pelo fascista. No entanto, as forças vingativas estão fragilizadas, esquecidas. Talvez porque há muita gente hoje em dia que gosta de culpar os outros pelas suas próprias acções políticas, e muita gente saudosa de um tempo que nunca existiu para elas mas que, para quem existiu, é uma memória de pesadelo.
Uma peça extraordinariamente relevante, e que merece toda a premiação que recebeu. Fico ansiosa por conseguir arranjar bilhetes para uma próxima e eventual sessão.
Análise: Dragon Heart - A Happy Science contra-ataca
DISCLAIMER: Este filme ainda não saiu na Happy Science Europa. Por isso não está disponível para visualização. Mas graças aos poderes do El Cantare, um amigo fez amizade com uma representante da Ciência Feliz e ela enviou-nos o link do filme. Assim sendo, eu sou especial. Vocês não.
Adiante.
Este novo filme profético não nos dá muito mais informações morais, éticas ou religiosas do que vimos anteriormente. Neste filme, um casal de primos literalmente morre nos primeiros minutos e são orientados por um dragão com uma careca na cabeça a viajar pelo Inferno.
Ora, o Inferno da Happy Science não é de todo um lugar feliz. Para lá vão aqueles que não cumprem as regras do El Cantare, como por exemplo, pessoas que acreditam no aquecimento global (depois foi esclarecido que o aquecimento global é uma invenção chinesa, como é ÓBVIO). As imagens do Inferno são bastante divertidas, salvo uma excepção para um momento absolutamente pavoroso, em que até gritei, em que os demos e succubus e cenas aparecem todos seguidos num tipo de AI muito mal feito.
Felizmente os nossos protagonistas salvam-se do Inferno, mas não conseguem tirar de lá ninguém, porque mesmo que as pessoas tenham sido vítimas de pecados, o facto de os terem feito impede-os de encontrar a iluminação. É nessa altura que descobrimos, o que foi muito surpreendente, que existe uma caverna mágica por baixo do Everest onde pessoas sábias treinam as suas capacidades místicas por forma a chegar mais próximo do El Cantare que é o deus entre todos os deuses: o deus em que os outros deuses acreditam.
Por isso, quando se sentirem desamparados, lembrem-se que o El Cantare tem o aval até de Jesus. Mas portando-se mal em vida, vão parar ao Inferno, não interessa se fizeram alguma coisa de jeito ou não. Isto é tudo muito rígido, mas é assim que deve ser, foi assim que o Happy Science-mor decidiu e por isso é assim que é.
O mais surpreendentemente nisto tudo foi o homem ter escrito mais de 1000 livros em vida, pré-AI. Talvez tenha sido inspiração divina? O mais provável é que não.
Análise: The Sopranos - Se até o mafioso vai à terapia, tu também podes ir!
Os Sopranos. O show que mudou a televisão como a conhecemos. Lançado em 1999 pela HBO, mostrou-nos que 1. A televisão podia passar violência; 2. A televisão podia passar dramas familiares intensos; 3. A televisão pode realmente fazer alguma diferença.
Esta série acompanha a família Soprano que, como o nome certamente indica, é uma família muito importante da máfia. Acompanhamos Tony Soprano nas suas desventuras mafiosas, na relação com os membros da sua família directa e por afinidade, e observamos sem qualquer dúvida a evolução, crescimento e envelhecimento de cada um dos personagens.
Tony Soprano admite que algo de errado não está certo, então decide-se a ir à terapia em busca de ajuda. Por isso, sim! Se o padrinho da máfia vai tratar da sua saúde mental, TODOS NÓS PODEMOS (e devemos) IR TAMBÉM!!!! Mas após a série, chegamos à fatalidade da conclusão: um mafioso é uma pessoa desiquilibrada, que ama bebés e animais, que tem uma vida aparentemente normal, mas que não hesita em causar a morte, a dor e o sofrimento se com isso ganhar mais dinheiro ou respeito. Portanto, um mafioso é sempre um psicopata, por mais amoroso que seja na sua vida familiar.
E é esta vida familiar que torna tudo muito engraçado. Porque os filhos do Tony descobrem a profissão do pai e não sabem bem como lidar com isso. Porque a mulher do Tony é igualmente um osso duro de roer, mas também é altamente emotiva e em busca de um amor verdadeiro que a complete. E a família emprestada, os outros mafiosos todos, as relações com eles são muito bem estabelecidas, mas ainda assim não livres de vinganças pelas razões mais inusitadas (para nós, pessoas normais em 2026), desde a homossexualidade, até à traição directa com a polícia (que é toda uma outra personagem colectiva).
Apesar de não me ter envolvido o suficiente para considerar os Sopranos como parte da minha própria família (o que é bom, acho eu?), foi uma série mesmo muito viciante, que me manteve totalmente fixa durante toda a sua duração.
E fica a moral: FAÇAM TERAPIA!

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