O Público
O Público
Federico Garcia Lorca | Ninho de Víboras
1930 | 2020
Teatro
Um amigo ia participar nesta peça como actor, então fomos vê-lo todos juntos. E sem dúvida que por esta peça já valeu o passe da Mostra de Teatro de Almada!
Soube depois que este espectáculo mereceu uma pesquisa detalhada e muito cuidada do texto, que por si só é difícil, complexo e estranho. As opções cénicas funcionaram perfeitamente e, como um todo, conseguimos uma percepção onírica do tema, o tema do teatro enquanto teatro.
Com cenografia e figurinos originais e impecáveis, actores divididos por uma série de personagens - cada uma mais absurda que outra - o texto correu na direcção do público sem filtro e sem pudor. Algumas opções seriam chocantes, se estivessem noutro contexto. Assim, a estranheza infiltra-se em nós e deixa uma marca.
Uma marca incompreensível, mas que está lá.
Máscara e Danças Rituais
Máscara e Danças Rituais
António Pinelo Tiza
2013
Não-Ficção
Comprei este livro num alfarrabista, porque é um assunto que me interessa bastante. É uma tese de doutoramento muito bem estruturada, que nos fala dos hábitos ibéricos para as celebrações do solstício de inverno, de como as tradições pagãs se misturaram com as cristãs ao longo dos tempos, resultando em festas com personagens mascaradas e danças com paus.
O tema é extremamente interessante e está muito bem explorado na introdução e enquadramento histórico. Aprendi muitas informações novas! De resto, como uma tese que se preze, tem uma espécie de "estudo epidemiológico" sobre o conhecimento que os jovens das regiões do Norte da Península Ibérica têm sobre estas festas, e os resultados são animadores - na perspectiva do autor.
Infelizmente a escrita não é a melhor, com alguns erros de grafia e gramática que emperram um pouco a leitura. Ainda assim, gostei mesmo muito!
Jangada
Jangada
Romeu Correia | Grupo de Teatro da Academia Almadense
1966 | 2021
Teatro
Mais uma peça para a Mostra de Teatro de Almada, para a qual tinha o passe.
Nunca tinha visto um texto de Romeu Correia.... E a verdade é que o Grande Romeu Correia é um bocadinho chato. Temos aqui uma comédia de costumes, em que vamos do presente para o passado numa correria, tentando compreender a relação entre os vários elementos de uma família burguesa que quer, a todo o eito, ser muito rica e influente.
Os actores estavam mesmo muito bem, pois a relação entre toda a família era muito engraçada e cheia de manias. No entanto, o texto peca por inconsequente, com uma relevância actual duvidosa, e personagens tipo muito bem estabelecidas.
Não sabia até agora que este texto era deste autor e.... Acho que agora sei mais um pouco sobre ele.
Simbiose
Simbiose
Novo Núcleo Teatro
2021
Teatro
Uma peça muito estranha que vi na Mostra de Teatro de Almada. Tinha passe para a Mostra.
Um grupo de actores jovens aparenta estar numa festa, e logo aparenta estar na praia. Com um texto bizarro, dividido em diferentes secções aparentemente não conectadas, eles fazem actividades de praia. Ao fundo, um vídeo com vários elementos.
O grande problema é que, no meu entender, estes elementos estavam todos separados e não formam um só, isto é, não formam a tal simbiose. Assim, fiquei sem perceber o que se passava, do que falavam, quem era quem, o que faziam. Também me faz uma certa confusão ver meninos da faculdade a fingir que têm 30 anos.
No final, terminou com um piquenique com o público e ofereceram-me uma mini. Valeu a pena, então.
Matei o meu pai e foi estranho
Matei o meu pai e foi estranho
André Diniz
2021
Graphic Novel
Um dos novos sucessos da banda desenhada brasileira, com uma história pungente e um drama familiar.
Zaqueu é diferente de toda a gente. É pobre, é albino, é artista. Ninguém se identifica com ele e ele não se identifica com ninguém. Quando descobre um segredo do seu pai, que sempre o maltrata com opiniões machistas e malévolas, decide matá-lo. E isso é muito estranho.
A história é perturbadora e plenamente realista, num povoado de desenhos que nos mostram o bulício da cidade de São Paulo com grande exactidão. As personagens são fortes porque podemos encontrá-las em qualquer sítio. Por isso, a história bate fortemente dentro do leitor.
Apenas achei que a diferença entre "negros" e "brancos" era pouco óbvia, o que tornava o facto de Zaqueu ser albino um pouco difícil de entender.
De resto, um álbum quase perfeito.
Porque Escolhi Viver
Porque Escolhi Viver
Yeonmi Park
2015
Auto-biografia
Recebido na Chuva de Livros de aniversário, este foi um livro que me deixou de pé atrás e logo se revelou uma leitura altamente viciante.
Yeonmi Park é uma refugiada da Coreia do Norte. Nesta auto-biografia, numa linguagem simples e sem pudor, ela fala da sua vida nesse país inventado e da sua fuga, com as consequências inerentes.
A visão da Coreia do Norte é a de um país de fantasia, algo quase distópico mas que na realidade existe. Alguns dos momentos levam-nos a pensar que tudo é inventado, que as coisas não podem ser assim. Como é que a comida preferida de alguém pode ser cabeças de libélulas. Como é que uma criança pode nunca ter visto um pavão, ou um elevador.
Mas essa visão é ainda mais perturbadora quando percebemos o que acontece aos que se escapam: a escravatura, o tráfico humano. E após essa libertação, compreendemos que "podemos sair da Coreia do Norte, mas ela nunca sai de dentro de nós". Porque Yeonmi, na sua sinceridade, torna-se altamente influenciável, continua a responder à sociedade como um autómato. Busca libertar-se, mas será que o vai conseguir?
Um livro real e perturbador pela estranheza dessa realidade.
The Rapture
Ai Weiwei
Exposição
Ai Weiwei instalou-se em Portugal após pesquisar a arte à volta do mundo. A arte do mundo comove-o, tal como o comove o estado do mundo. Nas suas obras encontramos o quotidiano e encontramos o significado das coisas de todos os dias. Porque uma caixa de takeaway de porcelana fina ou um cabide de cristal ultrapassam a normalidade do objecto, para encontrarem um lugar onde se instalar dentro do conceito da arte.
Com obras monumentais, carregadas de significados perturbadores, o artista procura explorar os acontecimentos globais e mostrá-los ao mundo sob uma forma que, não sendo totalmente perceptivel, encontra caminho entre a sensibilidade das pessoas. O uso das técnicas tradicionais de cada país em que se instala fornece toda uma visão globalizadora, que permeia cada peça e permite o desenvolvimento de um processo tanto imaginativo como figurativo.
Presentes também estão o humor e a humildade, a humildade do relato simples, do relato dos acontecimentos reais tornando-os paranormais, tornando-os anormais.
Valeu a pena ir a esta exposição, patente até ao mês passado na Cordoaria Nacional. The Rapture é mais que um rapto, mas a verdade é que rapta a nossa emoção para a colocar numa caixa hermética e, ao mesmo tempo, infinita.





