• Bohemian Rhapsody

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    Bohemian Rhapsody
    Bryan Singer
    2018
    Filme
    5 em 10

    O inacreditável filme que foi escolhido para as nomeações dos óscares. A tentativa de contar a história dos Queen que se tornou na história do Freddie Mercury e que se tornou num filme apropriado para passar nas tardes de Domingo num qualquer canal generalista.

    O certo é que é um filme bom para fãs, porque tem um tipo a imitar de forma mais ou menos competente a diva do rock e porque cantam as canções mais famosas e cantam-nas a quase todas. Algumas ficaram com a história por contar, noutras contaram a história de uma forma um pouco estranha, como se tudo ficasse magicamente resolvido pelo toque mágico do Freddie.

    Ele próprio é apresentado como uma pobre e infeliz vítima de circunstâncias abusadoras, vendo-se maltratado por todos os lados, acossado por fãs, jornalistas e pessoas menos amigas, sempre isolado e nada apaixonado pela vida que não fosse a do excesso. Que nem por isso é bem caracterizado, porque todos se limitam a beber champanhe e nem cigarros há por aí além.

    A forma como a doença é abordada também é extremamente conservadora e faz com que o acontecimento perca a relevância e o seu sentido de trágico.

    Para além disso, o Freddie não era assim tão disforme nos dentes.

    Odiei.
  • Os Cães Ladram Facas

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    Os Cães Ladram Facas
    Charles Bukowski
    2018 (Antologia)
    Poesia
    Se há quem diga que o poeta é um fingidor e que a sua vida normalmente e naturalmente é bastante pacata e isolada, Charles Bukowski é a famigerada "excepção à regra" que tem de nos vir incomodar. Porque temos uma pessoa feia, traumatizada, violenta e muito bezana que escreve exclusivamente sobre esses temas e sobre outras coisas bezanas. E que o faz de uma maneira fantástica.
     
    A poesia de Bukowski, que experimentei pela primeira vez com este livro (que li todo de uma assentada, diga-se de passagem) é violenta, estranha. É directa, um discurso dirigido com exactidão a um leitor imaginário que, certamente, tem tanto ódio dentro de si como o autor. Ele não se faz rogado em criticar e violentar com palavras todas as coisas que desconsidera ou despreza. Bukowski despreza muita coisa. Os sóbrios, as mulheres, os ricos, os convencidos, os petulantes, os outros escritores.
     
    Apesar de ser uma pessoa execrável, os seus poemas contém uma beleza bizarra, uma pequena emoção que se esconde atrás de um não-verso. Um pequeno detalhe que demonstra, de forma sincera e agressiva, o que o autor realmente sente sobre o assunto, uma profunda infelicidade disfarçada de indiferença e de bom humor.
     
    Uma boa antologia e fiquei com vontade de ler mais da (vasta) obra do autor!

  • Toda a Luz Que Não Podemos Ver

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    Toda a Luz Que Não Podemos Ver
    Anthony Doerr
    2014
    Romance
    Este é um livro que, apesar de espesso, se lê numa penada. Uma escrita contagiante e viciante, com uma história um pouco inverosímil mas ainda assim bastante curiosa.
     
    Uma rapariga cega vive em Paris, guiando-se pela memorização de uma maquete à escala da cidade. O seu pai é serralheiro no Museu de História Natural. Algures na Alemanha, um rapaz é excelente a manipular objectos electrónicos, sobretudo rádios. Há um diamante. E a segunda guerra mundial estala.
     
    Acompanhamos as personagens ao longo de todos os anos da guerra, partindo do pressuposto do seu encontro e observando a sua sensibilidade em relação ao universo - mais ou menos visual - que os rodeia. Assistimos à violência consentida a que as crianças dos dois espectros da guerra eram submetidas, admitindo situações de grande injustiça mas que, ainda assim, acabam por ser pouco tocantes devido à indiferença com que o autor as maltrata.
     
    Apesar de ser uma leitura muito interessante, precisamente porque está escrito no presente do indicativo (o que faz com que os nossos olhos procurem constantemente a palavra seguinte), as personagens ficaram aquém das minhas expectativas, sendo o final estranhamente conveniente para impressionar.
     
    Fica a nota para as descrições das paisagens, que estão muito bem conseguidas e que nos levam directamente para as maravilhosas praias de Saint Malo.

  • The Man Who Killed Don Quixote

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    The Man Who Killed Don Quixote
    Terry Gilliam
    2018
    Filme
    9 em 10
    Há quantos anos não dave eu uma nota tão alta ao que quer que fosse? Este épico de Terry Gilliam, que tanto esforço, tempo, dedicação e paciência demorou a fazer, entrou-me no coração e lá ficou.

    Com uma graça e actualidade surpreendentes, Gilliam adapta o livro de D. Quixote com uma exactidão irrepreensível misturado com uma liberdade original que apenas beneficia a primeira história. Não irei contar muito sobre a narrativa, para não estragar o filme aos que aí vierem, mas posso dizer que faz um jus extremo ao livro e que se nota que o autor não só o leu atentamente como viveu (tal como quase todos os que o leram) as verdadeiras aventuras do Cavaleiro da Triste Figura.

    Com efeitos especiais extraordinários e paisagens bastante conhecidas por nós (existe mesmo uma secção passada em Portugal, apesar de todas as dificuldades), acompanhamos uma aventura maravilhosa, encantadora, cheia de humor e uma verdeira paixão pela arte de fazer um filme.

    Um filme surpreendente e estelar.
  • Blindspotting

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    Blindspotting
    Carlos López Estrada
    2018
    Filme
    6 em 10

    Um filme surpresa.

    Em Oakland, um tipo que esteve preso vive os últimos três dias da sua pena suspensa. Tem de se esforçar ao máximo para que nada aconteça que o faça parecer um criminoso, mas parece que as ondas do destino não são favoráveis.

    Este é um filme muito divertido, que nos mostra com simplicidade e de forma sincera o processo de adaptação da faixa marginal de Oakland aos modernos hipsters que estão a invadir todas as casas. Também permite um excelente desenvolvimento aos personagens, que conseguem expandir-se e encontrar novas formas de viver dentro do seu contexto, terminando com um tom de bom-humor, aceitação e realização.

    Narrado de forma muito dinâmica e bastante criativa, temos um showdown de discursoss cantados, um hip-hop casual que parece fazer parte da própria linguagem desta comunidade. Também temos uma mostra quase publicitária deste bairro, desta cidade, que demonstra que nem tudo o que vemos nos filmes - mesmo que falem sobre pessoal ligado a drogas e a armas - tem de ser um sítio esconso, horrível e sujo.

    Não deixem passar este filme ao lado.

  • Absurdistão

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    Absurdistão
    Gary Shteyngart
    2006
    Romance

    Absurdistão é um romance absurdo. Foi-me oferecido pelo Natal.

    Conta a história de um judeu russo riquíssimo e muito obeso, que está a viver nos Estados Unidos a boa vida do estudante e filantropo artístico. O seu pai, pouco antes de morrer, ordena que volte para a Rússia, de onde não mais pode sair devido aos crimes do primeiro. Então, acaba por ir parar a uma estranha terra, o Absurdistão, que fica ali algures entre o Irão e a Rússia. Lá, envolve-se em batalhas pelo poder e numa guerra sem sentido nenhum em que se afunda cada vez mais.

    É um livro muito curioso e muito estranho, mas que vale a pena pela sucessão do discurso e, talvez, enquanto análise biográfica do autor (que, confesso, não conheço nem nunca tinha ouvido falar). A personagem de Misha parece um auto-retrato grotesco, assim como todas as relações sociais - nomeadamente com mulheres. As descrições hediondas do pénis do personagem e das suas actividades, assim como os relatos do corpo massivo de Misha a engurgitar-se com comidas nojentas, tornam a narrativa num festim dos horrores verbal.

    No entanto, no meio de todo este caos, desperta um personagem que - físicamente rejeitado - acaba por se demonstrar como uma pessoa sensível, preocupada e intimamente maravilhada com o mundo "das pessoas normais", querendo ajudá-las ao máximo até que a sua inocência, finalmente, lhe demonstra que nada o poderá salvar.

    ULeitura muito interessante, que recomendo pela simples bizarria.

  • First Man

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    First Man
    Damien Chazelle
    2018
    Filme
    6 em 10
    Tenho estado um pouco motivada para a ideia das viagens espaciais, por isso este filme calhou-me muito bem. Conta a história da missão Apollo, que levou o primeiro homem à Lua (Neil Armstrong). Segue esta figura ao longo de toda a narrativa, construindo uma ligação emocional que - penso - tenta mimar a excitação corrente nos anos 60 em que tais eventos se passavam.

    Infelizmente, o filme é apressado, saltando muitas partes do projecto que - menos interessantes - poderiam ser igualmente importantes. Há um foco especial nas tragédias que vão acontecendo, sendo que é dada uma aura a Neil Armstrong que vai pouco de encontro ao sonho  lunar. Mostram-no como pessoa ausente, desfazada, inadaptada, pouco interessante e, por isso, nunca se sabe muito bem porque é que é ele o escolhido para a missão. Os feitos espectaculares que faz em testes não convencem, porque o actor nunca mostra confiança, nem alegria, nem nenhuma outra emoção que seja diferente de "estou triste porque SPOILER aconteceu".
     
    O facto de a narrativa da missão Apollo ser focada nesta dor contida no personagem, faz com que tudo pareça menos realista e que o feito de lá terem chegado pareça irrisório, já que a contemplação da nova realidade não é feita de cara lavada mas sim ainda plena de uma emoção sofrida que, sejamos sinceros, cansa rapidamente.
     
    Fica uma nota especial para os cenários e efeitos. Nunca imaginei que os primórdios da exploração espacial fossem tão... Frágeis. Torna tudo muito mais assustador, porque ficamos a sentir na pele o perigo que estes astronautas corriam, em nome de um sonho e em nome da ciência.
     
    Pena que nem sonho nem ciência estejam presentes.

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