• Anomalisa

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    Anomalisa
    Charlie Kaufman & Duke Johnson
    2015
    Filme
    8 em 10

    Gosto de ver os nomeados para Óscar de animação. Os outros é-me indiferente, mas para mim a animação é importante. Tendo isto em conta, vimos este filme nomeado e foi uma experiência maravilhosa e espectacular.

    Um escritor de auto-ajuda vai a outra cidade dar uma palestra. Mas ele tem um problema: para ele, todas as pessoas têm a mesma voz. São todos iguais. Os seus amigos, a sua mulher, o seu filho, são todos a mesma pessoa. Claro que isso deixa uma pessoa um pouco insatisfeita com a vida em geral. Mas, subitamente, ele ouve uma voz diferente! E encontra uma mulher chamada Lisa.

    A narrativa é muito forte, apesar de ser rápida. Tudo se passa num único dia. É uma história humana e intimista, um relato da depressão e da incapacidade de lidar com o mundo que nos rodeia. E isso não seria possível sem duas personagens fortíssimas, que se encontram e desencontram num momento muito intenso, um momento de amor puramente efémero porque nada pode vencer o estado catatónico em que o homem se alojou.

    Para além disso, temos uma animação revolucionária e puramente brilhante. Para começar, temos um elemento de stop-motion com marionetas feitas por impressão 3D, uma coisa nova. Mas estes bonecos estão integrados com um elemento digital tão forte como discreto. Isto faz com que as expressões e os movimentos do corpo sejam altamente realistas, de uma forma que chega a impressionar pelo grafismo perfeito (que só tem a melhorar quando versões de melhor qualidade forem lançadas). Para mais, todos os cenários são altamente detalhados, criando um mundo altamente realista e enquadrado nas coisas que realmente existem. Existem algumas sequências surrealistas muito intensas, que acrescentam mais densidade emocional à história e, para além disso, estão tão bem executadas que reflectem a qualidade técnica da animação.

    Também temos uma banda sonora exemplar, muito bem enquadrada com cada cena mas com peças únicas e memoráveis.

    Já vimos o filme há uns dias, mas ainda não deixo de pensar nele. Se este filme não ganha o óscar de animação, significa que Hollywood não está preparado para filmes desta magnitude.

  • A Lição de Anatomia

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    A Lição de Anatomia
    Philip Roth
    1983
    Romance

    Livro que me foi oferecido pelo meu aniversário, provavelmente tendo em conta que chumbei mil milhões de vezes a anatomia antes de conseguir passar a essa disciplina maléfica.

    Conta a história de um escritor famoso que se vê atormentado por uma dor física incapacitante. Este homem, um judeu odiado pelos seus pares devido àquilo que escreveu, está a sofrer bastante e tenta encontrar coisas que o libertem desta dor nas costas. Essas coisas são o vodka e as ganzas, assim como o entretenimento fornecido por um harem de quatro mulheres muito diferentes umas das outras.

    O romance tem uma estrutura muito sólida e a narrativa progride de forma lógica, pontuado por vezes por alguns flashbacks que explicam elementos como a relação que o personagem tem com a figura feminina. Este desenvolvimento dado às mulheres acaba por ser um pouco fastidioso, assim como o discurso pornográfico do fim do livro, em que o personagem desiste de ter lógica e cede a uma loucura psicológica iminente.

    A forma como o personagem tenta mudar de vida, como meio de se libertar da dor, é quase inspirador, excepto que é inconsequente. Nunca sabemos se o personagem vai conseguir ser uma pessoa saudável, emocional e físicamente. Isto deixa água na boca para saber um pouco mais, coisa que não acontece e pode ser um pouco frustrante.

    De resto, o livro está escrito de forma excelente e é uma leitura altamente viciante. Também tem algumas imagens bastante belas que tornam a narrativa bastante intensa em certos momentos. Gostei imenso de o ler!

  • A Última Tentação de Cristo

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    A Última Tentação de Cristo
    Martin Scorcese
    1988
    Filme
    7 em 10
    Confesso que este espaço anda um pouco descurado. Este filme já foi visualizado a semana passada mas, não sei, tenho andado tão ocupada com minhas novas tarefas que acho que me esqueci de escrever. Talvez também tenha sido por essa inactividade que agora somos menos três pessoas observando atentamente todas as coisas que se fazem quando não apetece estudar...

    Mas o filme! O filme! Estávamos no café quando o Qui diz que há um filme sobre Cristo em que este escolhe uma vida normal a ser o salvador. Achei piada ao conceito, então fomos vê-lo para casa.

    Desde o início que o filme se estabelece como uma fantasia, o que me parece ter sido um erro. Porque a história poderia realmente ter acontecido desta forma. Jesus vive atormentado, fabricando cruzes para a execução de outros judeus, sempre perseguido por vozes e visões divinas que não o deixam sossegar. Por isso, afastou todas as pessoas que acreditam que ele tem a função de salvar o povo judeu e, consequentemente, toda a humanidade. Perdido nestas visões, Jesus começa a fazer discursos que aparentam ser apenas um reflexo da sua loucura. Não tanto mensagens de deus, mas sim alterações psicológicas que afectam grandemente o seu comportamento.

    E assim prossegue a narrativa, cheia de elementos místicos e simbólicos que pegam em menções artísticas desta figura e a transfiguram para esta realidade alternativa. A narrativa envolve um confronto entre o desejo humano e o desejo divino o que, no fundo, acaba por ser a clássica luta entre o bem e o mal.

    No entanto, toda a estrutura narrativa associada à imagética violenta tornam o filme numa viagem quase surrealista numa realidade alternativa de uma história que todos conhecemos tão bem. E a conclusão é que Jesus não deixa de ser homem e que o seu sacrifício pode deixar dúvidas em relação à mensagem que deus gostaria de passar. Porque não sabemos se depois há milagre ou se tudo não passa de uma imaginação pérfida e frenética associada a todo o sofrimento.

    Um filme que se tornou um clássico e que certamente vale a pena ver.
  • Ore Monogatari!!

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    Ore Monogatari!!
    Asaka Morio - Madhouse Studios
    Anime - 24 Episódios
    2015
    7 em 10

    Anime que vi de propósito para o meu clube. Foi uma série que me deu um gozo enorme ver e que adorei de todo o coração.

    Gouda Takeo é um adolescente grande, forte e um pouco feioso. Por isso, nenhuma rapariga gosta muito dele. Em vez disso disso, preferem declarar-se ao seu melhor amigo, Sunakawa. Mas no dia em que ele salva uma rapariga de ser molestada no comboio, tudo parece mudar... E assim começa "A Minha História de Amor".

    É um shoujo que pode ser considerado um pouco atípico. Para começar, é visto da perspectiva de um personagem masculino que, por sinal, não tem qualquer tipo de sucesso com o público feminino. No entanto, a rapariga também não é fonte de desejo extraordinário. Não é um anime que fale de competição ou de dilemas ou dramas ou nada do género. Conta apenas os pequenos momentos felizes de uma relação, com todas as dúvidas e ansiedades que isso possa trazer.

    Esta história, simples e cheia de candura, depende dos seus personagens. Estes são caracterizados, na totalidade, como boas pessoas, de confiança e com características únicas. Cada um terá os seus defeitos, mas no fundo são elevados como indivíduos únicos e plenos de bondade. Isto pode levar a um certo exagero nas reacções, que poderão tornar-se aborrecidas para um espectador menos motivado. Para mim, foi uma viagem que me fez muito feliz. Na verdade, não pude deixar de associar Takeo ao meu querido Qui e, em consequência, de me projectar um pouco numa auto-inserção em Yamato (a rapariga). Sei que isto é incorrecto e pouco objectivo, mas que hei-de fazer? Eu estava cheia de corações...

    A animação é simples, com cores suaves e tonalidades pastel nos cenários. Estes, podem não ser muito detalhados mas funcionam na perfeição como pano de fundo para esta história de amor. Há uma extrema variedade nas expressões e designs de roupa dos personagens, coisa que apreciei muito. Mas pareceu-me que o aspecto mais positivo do design foi a caracterização da adolescência moderna, do agora, com todos os seus pequenos detalhes.

    Musicalmente, temos um tema recorrente amoroso e que fica na cabeça por muito tempo. Este tema, e outros efeitos sonoros, levem a que a história seja sempre feliz, mesmo nos momentos considerados dramáticos. OP e ED, apesar disto, são bastante vulgares.

    Este é um anime diferente, porque é uma história feliz. A prova de que nem sempre precisamos de um drama espectacular para termos um bom anime. Também a prova de que uma série deste género pode trazer sempre sentimentos felizes a quem a vê. :)

  • O Coração das Trevas

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    O Coração das Trevas
    Joseph Conrad
    1902
    Novela

    Livro que me foi oferecido pelo Stepfather em celebração do meu aniversário! Só estou a lê-los agora, os dos meus anos... Foi um livro difícil de encontrar, mas que me foi cedido porque eu tinha recentemente visto o filme Apocalypse Now, cuja parte final foi inspirada nesta obra.

    É uma curta novela, originalmente editada em três fascículos numa revista, que fala numa misteriosa viagem pelo rio Zaire, até ao chamado "coração das trevas". Estes homens vão em busca de um oficial do governo que se perdeu de tal forma na floresta que acabou por criar um culto que o rodeia e se baseia na violência e na sua capacidade vocal para convencer os outros dos seus ideiais.

    Estes, acabam por não ser referidos totalmente, pois o homem em questão é encontrado em tal estado de fraqueza e loucura que tudo o que resta é o horror. Mas o horror vivido pelos marinheiros até chegarem aos seu destino, e no regresso, afecta de tal forma o capitão (o nosso narrador) que ele próprio é absorvido pelas trevas e passa a viver também esse pesadelo.

    O livro descreve em profundidade as paisagens, os hábitos, tudo com uma aura de terror infundado que se torna cada vez mais vívido à medida que se aproximam do objectivo final. Quando finalmente o narrador consegue conversar com o causador de todo este problema, descobre-se que afinal não há nada para dizer: apenas para sentir e para contemplar.

    Assim, temos um sobrevivente. Mas à custa de que emoções?

    Um livro curto, rápido, forte e violento. Sem dúvida, memorável.
  • Profundo como o Mar

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    Profundo como o Mar
    Jacquelyn Mitchard
    1996
    Romance

    Livro que recebi pelo BookCrossing, o primeiro Ring de uma nova membra :) Na verdade, não é o tipo de romance que me desperte o interesse à primeira vista, mas como era a primeira vez que esta nova amiga estava a participar, quis logo inscrever-me!

    Este romance foi surpreendente de duas formas: por um lado foi uma boa leitura na primeira parte, mas a segunda parte ficou um pouco aquém das expectativas criadas por aquela. Tudo começa quando, num encontro de antigos estudantes, o filho de três anos de uma mulher desaparece sem deixar rastro. A partir daí, desenvolve-se todo o circo policial a que já nos habituámos em filmes americanos do género. 

    Esta primeira parte é estranhamente boa, pois há um desenvolvimento profundo dos vários personagens perante esta situação de impossibilidade e incapacidade de fazer alguma coisa. Beth, a mãe, sofre uma mudança psicológica radical, que é descrita com mestria ao longo desta secção. Se ao início poderíamos ter todas estas pessoas como detestáveis (algo que os autores americanos modernos muito insistem em fazer, por razões que eu não compreendo) rapidamente ganhamos um novo sentimento por elas. Não será pena, nem piedade, nada de tão complexo, apenas um desejo imenso de saber como é que vão evoluir e dar a volta a situação.

    Infelizmente, isto perde-se bastante na segunda parte do livro quando "algo" acontece que os faz ganhar uma nova perspectiva. A partir daqui, todo o desenvolvimento dado aos personagens parece ser ignorado, para elevar Beth a um estrato emocional altamente plácido e equilibrado que não joga com as descrições dadas até ali. Para além disso, os elementos narrativos são um pouco previsíveis e a história do "porquê" poderia ter sido trabalhada de outra forma.

    Para além disso, fiquei duvidosa em relação a alguns elementos da própria escrita. Por exemplo, sempre que o livro está da perspectiva da criança, Vincent, há uma alteração no estilo demasiado infantil, como se todas as crianças não tivessem inteligência emocional. Também há uma mistura nos nomes, que poderá ter sido da edição, que pode ser um pouco confusa. Para além disso, a autora está sempre a recorrer a comparações que muitas vezes são estranhas e numa linha de pensamento vulgar.

    Ainda assim, gostei bastante! Espero que a nova membra continue a partilhar estes livros! :)

  • Kokoro Connect

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    Kokoro Connect
    Oonuma Shin - Silver Link
    Anime - 13 Episódios + 4 Specials
    2012
    6 em 10

    Um anime muito interessante que joga com elementos da psique humana.

    Cinco jovens pertencem a um clube na escola que não tem muito interesse relativo. No entanto, uma figura misteriosa decide brincar com eles. Ao início, subitamente, começam a trocar de corpo uns com os outros. Isto é, a mente de um passa para o corpo de outro e assim por diante. Isto leva a que, progressivamente, eles descubram mais uns sobre os outros e sobre os problemas que os atormentam.

    É um conceito muito interessante e o desenvolvimento dos personagens está muito bem estabelecido. Se em termos narrativos temos alguns arcos (em que os "truques" que acontecem aos personagens diferem), temos uma evolução progressiva em que estes jovens enfrentam os seus problemas e, com ajuda uns dos outros, acabam por os ultrapassar. No entanto, achei que as relações amorosas, nomeadamente o triângulo, foram um pouco forçadas e pouco naturais, sendo que o foco não deveria ter entrado por aí para um confronto ideal entre a mente e as crises da mente. Ainda assim, são todos personagens cheios de conteúdo e valor, dispostos em várias camadas e com uma verdadeira natureza humana.

    A arte é bastante simples, com um estilo muito moderno e fluído. Mas não há grandes cenas de acção nem cenários vívidos que possam elevá-la a outro estatuto. Assim, o anime acaba por se disfarçar um pouco sob uma camada de fatia-de-vida, o que pode levar o visionante menos atento a ignorá-lo e a perder estes fantásticos personagens.

    Temos uma variedade musical elevada, com várias EDs e OPs, mas que está bastante limitada ao pop mais comum destes anos 10.

    Assim, temos um anime que poderemos considerar incompleto, pois se dedica totalmente à concepção e desenvolvimento dos personagens, cumprindo - nesse aspecto - o objectivo na sua plenitude, enquanto que nos outros elementos acaba por ser bastante regular.

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