• Vício Intrínseco

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    Vício Intrínseco
    Paul Thomas Anderson
    Filme
    2014
    7 em 10

    Fomos ao cinema! Devo dizer que estava uma fila gargantuesca, toda ela para ver as Cinquenta Merdas da Sombra aquele filme que vocês sabem. Tanto que chegámos à sala e já o filme tinha começado há cinco minutos! Portanto, ao início, foi um pouco difícil de acompanhar.

    Seguimos a história de Doc, um tipo que trabalha como detective privado e que representa em si toda a broa de ervanárias dos anos 70 americanos. Aliás, todo o filme representa esse tipo de actividade. Depois da sua ex-namorada se lhe dirigir, ele começa uma investigação que o leva até aos meandros do tráfico e consumo de drogas variadas. O filme é um pouco complexo precisamente por causa disto. Sendo que a perspectiva da narrativa é toda pela parte de Doc, passam-se uma série de coisas que à primeira vista são incompreensíveis, mas que possuem significado dentro do contexto. O complicado é tentar passar sobre aquilo que é real ou fantástico e descobrir esse tal significado. Assim, de certa forma - especialmente na parte final - a narrativa é um pouco confusa. Talvez tivesse sido mais fácil de seguir se eu estivesse no mesmo estado que Doc (dava vontade, dava)

    O mais interessante deste filme é o conjunto de personagens que nos é apresentado. Toda a gente, de uma forma ou de outra, está a alucinar com alguém, alguma coisa ou alguma situação. Normalmente motivados pelo consumo de droga. Mas são todos boas pessoas, até os psicopatas nazis, se virmos a coisa conforme a perspectiva de cada um. Isto traz uma mensagem muito positiva em relação a este grupo de pessoas, os hippies, a freakalhada, sobretudo porque toda esta gente está muito bem construída dentro do argumento e passam para nós de forma altamente realista. Poderemos estabelecer teorias sobre que pessoas realmente existem e quais são apenas imaginação. Pessoalmente, acredito que toda esta gente é real, tal como é real a dinâmica entre cada um. Isto apenas pode ser conseguido por um trabalho de actor que, não sendo espectacular, está dentro das expectativas.

    O filme tem imagens bastante fortes, apesar de não nos apresentar grandes paisagens. Ainda assim, em termos de cinematografia, temos alguns momentos que ficam na mente. Para mim, a cena da corrida à chuiva e as bandeirinhas vermelhas do local das obras foram os que mais me marcaram.

    Outro ponto forte da película é a banda sonora. Com sons da época que retrata caindo profusamente sobbre os nossos ouvidos, é um prazer ouvir isto, como se se tratasse de uma colectânea dos anos 70.

    É um filme que requer uma certa dose de concentração, mas que no final - se pensarmos bem nele - acaba por ser fiel retrato e homenagem ao movimento da época, embora toque apenas de leve em alguns temas que seriam importantes no contexto histórico. Ainda assim, creio que gostaria de rever este filme, mas desta feita debaixo da manta e em casa.
  • O Tintureiro Francês

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    O Tintureiro Francês
    Paulo Larcher
    2014
    Romance Histórico

    Livro que recebi como Ring no BookCrossing.

    Num século XVII, em Portugal, um grupo de pessoas reune-se para ir a França resgatar um tintureiro, que trará sucesso à fábrica das lãs instituída pelo Marquês de Pombal. Pela sinopse, ninguém diria que grande parte do livro (cerca de metade) é uma épica história de aventuras marítimas, tendo como personagem principal uma mulher - Teresa - disfarçada de homem. A partir do meio, já o tintureiro francês está em Portugal, ficamos a saber mais sobre as técnicas de tintura de tecidos da época e o que aconteceu a Teresa na última parte das suas aventuras.

    O livro está escrito numa linguagem muito adequada à época, o que torna tudo bastante interessante e revela uma grande pesquisa pela parte do autor. Infelizmente, a narrativa perde-se frequentemente por momentos altamente descritivos que são muito maçudos, especialmente no respeitante à anatomia dos barcos utilizados. Como as palavras nauticas utilizadas são do meu completo desconhecimento, foi muito difícil acompanhar estas descrições. Na segunda parte, o detalhe dado às técnicas de tinturaria é bastante interessante, mas ainda assim um pouco difícil de seguir e, quiçá, desnecessário para o desenrolar narrativo.

    O livro tem interesse até aos momentos finais devido a este realismo impresso nas palavras. A cena final, então, acaba por ser demasiado fantasiosa para o teor que o livro tinha estabelecido até ali e calha bastante mal, tendo em conta tudo o que lemos.

    No entanto, foi um livro que me cativou bastante e que se lê com fluidez.
  • Zettai Karen Children

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    Zettai Karen Children
    Kawaguchi Kaiichiro - TV Tokyo
    Anime - 51 Episódios
    2008
    6 em 10

    Há algum tempo que não via uma série tão longa. Porque norlmalmente séries deste tamanho acabam por ser bastante medianas e com pouco interesse. Esta não varia muito desse parâmetro.

    Num universo onde há "espers", pessoas com poderes especiais como o teletransporte e a telequinese, três meninas são do mais poderoso que há. Por isso, lutam contra as forças do mal, todos os episódios. O problema aqui é que os poderes dos "espers" não se limitam a poderes psíquicos no geral, mas passam por toda uma gama de super-poderes e super-vilões que fazem tudo e mais alguma coisa. Assim, o conceito acaba por se tornar num inimigo-da-semana perfeitamente vulgar, um qualquer shounen de batalha com o seu quê de comédia à mistura. Não achei graça.

    Temos um trio de personagens que começa por ser interessante, pois são crianças. No entanto, não estão caracterizadas como crianças, transformando-se muito convenientemente em adultas mamalhudas conforme é necessário fazer as pessoas rirem-se ou não. Para mais, como em todo o trio num shounen em anime, só a que está no meio quando se faz a pose é que é importante. É ela a especial, a que tem os poderes mais fortes, de tal forma que sem ela as outras não se lembram de usar os seus próprios poderes. Isto é, se tens o poder do teletransporte, porque vais a correr atrás do mau em vez de... Te teletransportares? Existe um antagonista que aparece logo ao início e que está simplesmente ali, quer do lado certo quer do lado errado, sem muita coisa a prendê-lo à terra. Passa por pouco convincente e apenas como mecanismo narrativo, já que a história acaba por se limitar em "como a miúda do meio tem mais poderes que toda a gente".

    Em termos de animação, temos episódios em que mal se repara nela e outros, aqueles com lutas mais importantes, em que é bastante boa. Os cenários não são muito detalhados, mas o design dos personagens está realista dentro do contexto.

    Musicalmente, temos muito pouca coisa com OPs e EDs muito dentro do género.

    Mais um anime igual a todos os outros.
  • Tales of the Street Corner

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    Tales of the Street Corner
    Osamu Tezuka - Mushi Productions
    Anime - Filme
    1962
    7 em 10
     
    E para finalizar, um pequeno filme um pouco mais antigo. Aqui, acompanhamos a vida dos personagens que habitam um beco sem saída, entre postes de electrecidade e posters que estão na parede.
     
    Desenvolve-se entre todos eles uma série de histórias, histórias de sobrevivência, histórias de amor, que são interrompidas pelo aparecimento de um poster um pouco maligno, muito parecido (coincidência ou não) com o Estaline. Com a mudança dos posters na parede, vemos a evolução de um regime e de repente situamo-nos dentro de uma guerra da qual será muito difícil escapar, seja-se rato, traça ou urso de peluche.
     
    Com algumas cenas de animação delicadamente tocantes, de uma fluidez que ainda hoje parece ser difícil de obter, o foco principal deste anime são os vários desenhos dos posters, que são muitos e estão sempre a dançar. A imaginação que foi necessária para criar tantas imagens, cada uma delas única e altamente detalhada, é um ponto a valorizar bastante.
     
    A paleta de cores é bastante escura e limitada, sendo que não há muito uso de sombras. Dentro da opção estilística aqui apresentada, é algo que faz bastante sentido e acaba por funcionar muito bem, embora a menina - única pessoa verdadeira que aparece - necessitasse de algo que a diferenciasse um pouco dos outros personagens.
     
    Apesar do final trágico, de morte e destruição, esta curta metragem traz-nos mais uma vez uma mensagem de esperança ambientalista. É um anime marcante para a sua época, altamente moderno até para os conceitos de hoje em dia, que deve ser visto por todos aqueles com interesse na história do anime.

  • Legend of the Forest

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    Legend of the Forest
    Osamu Tezuka - Tezuka Productions
    Anime - Filme
    1987
    7 em 10
     
    Seguidamente, avançamos um pouco no tempo para ver uma animação experimental com uns toque de modernidade. O tema é a natureza e a sua destruição pela parte do homem, mas também como esta dá sempre a volta e é impossível destruí-la totalmente.
     
    Ao som de Tchaikovski, vemos duas histórias distintas. Primeiramente, acompanhamos a história de um esquilo que, ao perder a sua árvore de residência, é criado por uma outra árvore. Ao crescer, descobre que pode voar, pois é um esquilo voador. O estilo de animação varia entre algo que poderia ser considerado um desenho técnico, numa cena espectacular de fuga e sobrevivência, passando para uma opção estilística muito mais ocidental, numa mistura de Looney Toons e Disney. No entanto, a narrativa não se conjuga em nada com a destes dois estilos. É como se fosse um Bambi em que tudo corresse ainda pior, de forma realista, emocionante e até tocante. À medida que o nosso personagem cresce, também o seu desenho vai mudando, até atingir uma certa maturidade que é necessária para o desfecho moral da história.

    Na segunda parte, um ditador em tudo semelhante ao Fidel Castro destrói a floresta com a sua maquinaria. As pessoas da floresta, entre animais, fadas e cogumelos que andam (!), têm de tomar uma decisão em relação ao que hão-de fazer. Acabam por decidir por uma via pacífica que, ao não funcionar, acaba por levar à vitória da natureza. Também esta secção tem influências ocidentais, com um grande toque de Fantasia nos elementos feéricos. No entanto, a caracterização moderna do ditador como elemento destruidor, não só da humanidade mas de tudo o que a rodeia, é um toque que faz toda a diferença.

    Esta curta metragem poderá passar um pouco desapercebida pelo seu estilo admitidamente ocidental, mas sem dúvida que vale a pena dar-lhe uma olhadela.

  • Pictures at an Exhibition

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    Pictures at an Exhibition
    Osamu Tezuka - Mushi Productions
    Anime - Filme
    1966
    8 em 10

    Como estive doente, as celebrações do Dia dos Namuraduhs, também conhecido por SãoValentimerda, foram transladadas para a noite entre segunda e terça feira de Carnaval. Para uma noite calma, sugeri vermos este pequeno filme, que tinha sido sugerido pelo meu clube. Como me esqueci de o levar, vi-mo-lo no Youtube, onde está juntamente com uma série de outros (que vimos a seguir)

    Osamu Tezuka, o pai do manga tal como o conhecemos e também do anime, passou os seus anos 60 trabalhando numa série de animações experimentais, exercícios de imaginação e técnica que não podem passar desapercebidas a qualquer fã de anime. Utilizando a animação como ferramenta de crítica social, Tezuka mostra-nos o melhor que a época tinha para dar, com resultados que ainda hoje são espectaculares.

    Neste pequeno filme, vamos visitar uma exposição ao som de música clássica (se bem que um pouco vanguardista). Passamos por quadros diversos, muitos deles que mostram pessoas famosas, cada um com um estilo distinto, e de repente podemos olhar para alguns em específico e imaginar a história que está por trás deles. Criticando todas as coisas, modernas para a época mas ainda actuais, desde a destruição da natureza à cirurgia plástica, passando por uma sequência impressionante sobre a guerra, podemos ver curtos momentos de animação sublime, diferente, sem regras e fazendo uso de toda uma imagética que viaja por todos os estilos comuns da altura.

    A história que mais me impressionou foi a do jardineiro do jardim electrónico que, com um toque da infantilidade que os desenhos animados tinham como estigma, aborda o assunto de forma poética e com um toque de sadismo.

    As sequências são muito vivas, embora a paleta de cores seja reduzida, o que faz todo o sentido tendo em conta o período histórico em que se insere.

    É um filme que todos podem ver e que vale realmente a pena, tanto em termos históricos como em termos artísticos propriamente ditos. A genialidade de Tezuka não se encontra na popularidade dada por animes como Astro Boy ou o Kimba, mas nestas pequenas coisas que, estando livres das convenções televisivas e censura, ultrapassam as barreiras do políticamente correcto e criam algo fundamentalmente único.
  • Fathers and Sons

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    Fathers and Sons
    Ivan Turgenev
    1862
    Romance

    Recebi este livro pelo BookCrossing e literatura russa faz sempre bem à saúde. Se bem que este livro é tão antigo e tão cheio de pó que me questiono se foi ele que me deixou doente... Para mais, é bastante estranho ler uma coisa russa em inglês, nunca tinha feito semelhante coisa.

    Livro marcante na sua época, caracteriza a diferença entre gerações de uma Rússia já de si dividida. Apesar de ser um clássico, é uma leitura bastante leve, com muitos diálogos que abordam estas diferenças e que explicam então o que define a velha guarda destas novas pessoas, que o autor chama de "niilistas". Note-se que foi também a partir deste livro que o tema se popularizou ao longo do século XIX.

    É curioso, e com bastante humor à mistura, como estes niilistas aparecem. O principal é o jovem Bazarov, que ignora todas as convenções e recusa a obedecer a qualquer regra, aparecendo desprovido de sentimentos. Ironicamente, cai vítima desses mesmos sentimentos, acabando por morrer por mero acaso (uma morte hilariante por sinal, pelos diálogos que daí nascem)

    Os outros personagens também são apresentados de forma um pouco caricatural, do sonhador Arkady ao dandy Pavel, acabando cada um deles por demonstrar uma faceta da sociedade russa da época.

    Não será um clássico com a profundidade emocional que um Tolstoi ou um Dostoiévski nos dão, mas mesmo assim é uma leitura bastante divertida.
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