Nihon Sekai 2014
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Momento de me vestir. Por alguma razão, depois de insistências diversas, disseram que nos era permitido trocar de roupa nos bastidores mas só a partir das três. Ora, eu queria mudar de roupa antes, portanto fui para a casa de banho. Que era mista, gelada e horrorosa. Enfim, ignorando o pobre rapaz que se esforçava para tirar tinta azul da cara, mudei de roupa muito rápido, para ninguém me ver num estado menos vestido. Que frio! Que frio nos pés! Que chão horrível! Iuca!
Sabendo que era muito pouco provável que me tirassem fotografias, pois levava um cosplay de uma personagem obscura, numa versão ainda mais obscura da personagem, fui para o terraço beber imperiais. Foi nesse momento que descobri que tinham fechado o terraço ao resto do evento, motivo pelo qual ainda estava mais cheio! Percebe-se mais ou menos, que estava toda a gente a ir para lá jogar às cartas mas que ninguém consumia. Mas mesmo assim, muito má onda. E os preços das coisas! Café a um euro e meio, imperial a dois euros e meio... Perguntei à antipática da empregada se aquilo era assim todos os dias. "Somos uma esplanada, praticamos preços de esplanada!" Minha menina, praticamos preços de esplanada abusiva ao pé do rio dirigidas à classe média-alta de turistas britânicos e pessoas pseudo-posh. Aqui na minha zona a imperial tá a cinquenta cêntimos. .____.
Entretanto, duas mocinhas tiraram-me uma foto. :) Fiquei muito feliz, se bem que não tenho esperanças que esse par de fotos apareça no mundo virtual.
Enquanto esperava pelo concurso, assisti ao que se passava no palco. Passei por uma demonstração de artes marciais, mas que não captava muito a concentração do público pois a música não era animada o suficiente. Depois, vi umas moçoilas a dançar uns bailados coreanos. Acho bem que se dance e tudo o mais, mas - pessoalmente e *sem intenção de ofender ninguém* - não gosto das músicas. Mas sim, dançavam bem, isso não se coloca em questão. Entretanto as coisas estavam meio atrasadas, portanto o apresentador tinha por força que entreter um público ávido de palminhas, coisa que foi obtida por um par de jovens que tinham uns moves dançáveis muito interessantes e esqueletónicos. :3 Durante este tempo vim a confirmar, mais uma vez, que já não gosto de OPs de anime e que as acho a todas vulgares e chatíssimas. Confirma-se: eu não tenho piada.
Encontrei uma moça que encontro sempre e que trás sempre a t-shirt do YFC e a quem digo sempre a mesma coisa. A tua t-shirt é linda. Eu estive lá e eu compreendo a beleza interna da tua t-shirt. Tu és uma pessoa maravilhosa por teres essa t-shirt. Viva YFC! E eu digo sempre a mesma coisa porque é verdade. :)
Começa o concurso. Descalço-me. Chão frio. E agora vem um momento altamente explicativo.
Quando vi as regras do concurso, não gostei delas. Achei que estavam demasiado detalhadas para um concurso de pequena envergadura e que davam pouca liberdade de escolha se uma pessoa quisesse realmente ganhar. Mas eu não quero realmente ganhar. Eu quero fazer coisas. Então, decidi participar de forma a que fosse muito difícil de me avaliarem, se não impossível. Para começar, não levei um fato complexo. Levei o fato mais simples que tenho, caracterização mínima, sem props. sem nada. Depois, como skit, decidi fazer algo extremamente parvo.
Para começar, trabalhei com o meu amigo R. para produzir uma música inesquecível, uma cover vanguardista do senhor que mais contribuiu para o espalhar das oliveiras em Portugal e arredores. Depois, fiz uma performance baseada nessa música com conotações altamente obscuras e representativas do nada. Isto, no fundo, para dizer que um actor não precisa de nada para fazer teatro, para além de público. Não é preciso guarda roupa, não é preciso cenário, não é preciso efeitos visuais, não é preciso sequer um bom texto. Porque sim, é possível fazer teatro baseando-nos inteiramente numa música tão idiota, ridícula e sem significado como a Cabritinha do Quim Barreiros.
E eu realmente não sei o que aconteceu. As pessoas riram-se, apesar da minha baixa forma (já da última vez que tinha utilizado este cosplay estava doente) a coisa correu bem, mas isto foi totalmente inesperado! Porque eu fiquei em Terceiro Lugar! Fiquei super-hiper-mega-ri-contente e muito motivada para ir tirar umas fotos com este fato e fazer outro skit absurdo em breve! Muito obrigada! Espero que tenham gostado, pois no fundo, apesar de todas as coisas anti-sistema que este skit significava, o objectivo era entreter e mostrar algo diferente ao público. Gosto muito de vocês, público. :)
Com o prémi, cinco euros na Loja Neko, comprei o DVD "O Reino dos Gatos", do Studio Ghibli. Podia ter comprado cinco autocolantes ou dois porta chaves, mas achei melhor dar outros cinco euros e ficar com um DVD de um filme que ainda não tinha visto.
Consegui despedir-me do pessoal decentemente desta vez e para despir o fato e colocar-me à civil de novo deixaram-me ir para os camarins. Lá, estive à conversa com a Cátia - que fez o excelente trabalho de organizar este concurso, em que correu tudo nos eixos. :) Só não consegui encontrar as moças do Monte da Caparica para ir de barco com elas, desculpem... :<
Assim, no geral, pareceu-me um excelente evento. O espaço era muito bom, se bem que a inesperada enchente de pessoas o tornou muito pequeno. Mas o facto de ter estado tão cheio significa que foi um sucesso e que para o ano teremos de ter um Nihon Sekai num lugar muito maior. Foi bom para encontrar pessoas, conversar, fazer um skit bizarro, comprar uma linda camisola, ver a vista... Enfim, foi só o início de um fim de semana maravilhoso!
Portanto, obrigada e até à próxima! Agora, o que estavam todos à espera....
Nihon Sekai 2014
Evento
Tinha ido a este evento há dois anos. No ano passado não pude ir pois estava no Porto, mas a memória indicava-me que tinha sido bem divertido portanto este ano não o iria perder! Sabia que não iam lá estar as mesmas pessoas de há dois anos e que já não ia ser num lugar recôndito como a Azambuja, mas porque não? No entanto... Durante toda a semana passada estive doente com uma ligeira gripe, alguma febre e muita, muita tosse. Será que ia conseguir fazer a minha performance em condições? Será que conseguiria sobreviver ao evento e depois ainda ir de fim de semana para casa do Qui? Será que tudo isto iria ser possível?
Será como veremos.
Este ano o evento foi no Clube Ferroviário de Santa Apolónia, um bar onde há frequentemente eventos e concertos, associado ao pessoal ferroviário da estação ferroviária. Santa Apolónia. Acordei bem cedo para chegar a horas do primeiro workshop e desloquei-me com a minha maleta cor de rosa quadrúpede pelo sistema de transportes subterrâneo e autocarros. Depois, caminhei. Diziam que o local era a 700 metros da estação de Santa Apolónia mas a mim, doente como estava, pareceram-me 70 kilómetros. Cheguei lá acima deitando os bofes pela boca. Encontro uma fila e pergunto qual é a ponta. Ninguém sabe. De repente, a fila desaparece. E lá na ponta, rodeada por uma aura de luz azulada, qual Santa Senhora do Ó abençoando as pedras da calçada, estava a Ana-san.
"Deixa-me entrar..."
sussurrei com a voz que me restava.
E ela deixou-me entrar. Obrigada, Santa Senhora Ana, que abres as portas dos eventos e me permites dar entrada neles. ;___________;
Lá chegada, ainda não tinham aberto as portas oficialmente, já o evento estava composto. Numa primeira observação, vi um grande auditório com muitas bancas bastante bem organizadas em filas horizontais, permitindo passagem em dois largos corredores e uma parte à frente de um palco bem simpático. Antes disso, um pequeno foyer com sofás onde se podia jogar algo em televisões e um bar. Desloquei-me até ao local indicado no mapa (que se veio a revelar inútil, pois a organização física do espaço era muito diferente da esperada) onde deveria estar o bengaleiro. Ora, ninguém sabia do bengaleiro. Depois de se descobrir que o bengaleiro era efectivamente ali, ninguém sabia dos papéis para se assinalarem as bagagens. Felizmente, o mastermind do bengaleiro é conhecido e amigo, pelo que arranquei um papel do meu bloco de notas, escrevi lá o meu nome e deixei aos seus cuidados a minha maleta cor de rosa quadrúpede e o meu casaco roxo que era da minha avó.
E fui tomar um café ao terraço. A vista dele é como a que se encontra na imagem:
Lá, estive à conversa com a Ana-san e um amigo dela que iria dar uma palestra sobre o Japão. Foi um aconversa muito interessante, pois o jovem - tendo vivido no Japão - tinha histórias para contar e locais de compras para recomendar. Gostaria de ser como ele e ter a capacidade de ler livros em Japonês. Assim, poderia ler a biografia do Gackt, que comprei há anos e nunca fui capaz de ler.
Seguidamente, o primeiro workshop! Um workshop de Magic!
Quando este jogo, Magic The Gathering, apareceu todos os miúdos da minha escola andavam malucos com eel. Eu adorava ver as cartas e ler as descrições, que sempre me pareceram bastante filosóficas. No entanto, eu tinha um problema... Eu sou uma menina. E as meninas, evidentemente, não podiam jogar Magic. Estava escrito nas regras inaudíveis das escolas. Muito insisti eu, mas tudo o que me permitiram foi jogar uma versão alterada em quem tivesse a carta mais forte ganhava. Portanto, nunca aprendi a jogar. Tudo mudou durante este evento.
Escolhi um baralho azul, caracterizado por ser sobre a inteligência, introspecção e sabedoria, mas que se revelou muito fraco. Aprendi as regras e experimentei jogar. Peço desde já desculpa ao jovem com quem eu estava a jogar, pois essencialmente ele tinha de jogar por mim também, pois eu só fazia coisas parvas. Ainda assim consegui bloquear a carta mais maligna dele com um Claustrofobia e só isso já me deixou contente. Não sei se voltarei a jogar ou se passarei a fazê-lo frequentemente, mas o jogo até é bastante simples e com treino acho que chegava lá! :) E fiquei com o baralho, cujo conteúdo era uma montanha de ilhas e uma montanha de dragonetes e uma nuvem com ar maligno!
Fica a primeira nota, dirigida a todos os jovens que joguem Magic comigo, de que eu não sou um você. Eu sou um tu.
Qaundo saí do workshop, tudo tinha mudado... O evento, que estava composto, estava neste momento a rebentar pelas costuras. Como o workshop de cosplay das Kurinhas tinha sido adiado para as duas da tarde, decidi ir almoçar para ver se depois de almoço a coisa acalmava e podia tirar umas fotos e comprar umas coisas. Decidi não mais ir ao workshop de cosplay, pois estragava os meus planos de me vestir com tempo e paciência (vestir o cosplay, não é que estivesse sem roupa este tempo todo).
Como abomino conscientemente todo o conceito de noodles automáticos cancerígenos, perguntei ao segurança que estava à porta onde se comia por ali perto. Ele indicou-me um cruzamento e encontrei um magnífico restaurante onde por cinco euros me enfardei de pastéis de bacalhau e de imperial. Chamava-se "O Freixo" e foi excelente, pois a comida veio boa e rápida. Antes de voltar, decidi ir à estação de Santa Apolónia levantar dinheiro. E nesta ida e vinda aconteceu a parte mais desagradável, em que sem dúvida posso ter contribuído. Mas foi sem má intenção. Passo a relatar:
No restaurante estava um grupo de jovens pertencentes ao evento, que foram levantar dinheiro. Como fui também levantar dinheiro nessa altura, caminhei sempre uns passos atrás deles. Ora, um dos jovens era um rapaz que estava muito bem pintado com eyeliner e batom, com uma bandelete na cabeça muito bonita. Na verdade, o jovem estava muito bem vestido, mas percebi que era um rapaz porque tinha a sombra da barba. No caminho de regresso, um grupo de miudagem atrevida começa a gritar "És gajo ou gaja?" E realmente o rapaz ficou desconfortável. Eu, na minha vontade de o defender, sussurro para os putos, de forma audível "É um gajo pá!" Mas só depois de o dizer é que me cai em cima a realidade de que eu não sabia com que género o jovem se identificava. Portanto mais valia ter ficado calada, pois o que eu disse poderá ter sido mais ofensivo do que os putos a gritar. Mas, fique sabendo o jovem, que a minha intenção não foi maléfica e que achei realmente que o seu outfit estava muito interessante (e que era por isso que estava sempre a olhar para ele no restaurante). Fiquemos todos amigos :)
No regresso tentei tirar umas fotografias e comprei alguns objectos. As fotografias... Foi complicado. É que não havia espaço de manobra suficiente para pedir às pessoas que se afastassem cinco passos de mim para que eu tirasse uma foto! Assim, tenho muito poucas e a maioria são cândidas. Coloca-las-ei no fim do post, portanto mantenham-se atentos! Quanto às compras, o evento estava muito completo em termos de bancas de artistas (e os artistas são bons artistas), havendo apenas uma loja de merchandising. Assim, o meu loot do evento foi:
- Uma camisola La Cerise
- Um autocolante do Zorro que ganhei numa rifa (se vissem a minha histeria quando vi um autocolante do Zorro...)
- Um baralho de iniciantes de Magic The Gathering, azulinho
- Um DVD da Ghibli (já saberão por quê)
Sabendo que era muito pouco provável que me tirassem fotografias, pois levava um cosplay de uma personagem obscura, numa versão ainda mais obscura da personagem, fui para o terraço beber imperiais. Foi nesse momento que descobri que tinham fechado o terraço ao resto do evento, motivo pelo qual ainda estava mais cheio! Percebe-se mais ou menos, que estava toda a gente a ir para lá jogar às cartas mas que ninguém consumia. Mas mesmo assim, muito má onda. E os preços das coisas! Café a um euro e meio, imperial a dois euros e meio... Perguntei à antipática da empregada se aquilo era assim todos os dias. "Somos uma esplanada, praticamos preços de esplanada!" Minha menina, praticamos preços de esplanada abusiva ao pé do rio dirigidas à classe média-alta de turistas britânicos e pessoas pseudo-posh. Aqui na minha zona a imperial tá a cinquenta cêntimos. .____.
Entretanto, duas mocinhas tiraram-me uma foto. :) Fiquei muito feliz, se bem que não tenho esperanças que esse par de fotos apareça no mundo virtual.
Enquanto esperava pelo concurso, assisti ao que se passava no palco. Passei por uma demonstração de artes marciais, mas que não captava muito a concentração do público pois a música não era animada o suficiente. Depois, vi umas moçoilas a dançar uns bailados coreanos. Acho bem que se dance e tudo o mais, mas - pessoalmente e *sem intenção de ofender ninguém* - não gosto das músicas. Mas sim, dançavam bem, isso não se coloca em questão. Entretanto as coisas estavam meio atrasadas, portanto o apresentador tinha por força que entreter um público ávido de palminhas, coisa que foi obtida por um par de jovens que tinham uns moves dançáveis muito interessantes e esqueletónicos. :3 Durante este tempo vim a confirmar, mais uma vez, que já não gosto de OPs de anime e que as acho a todas vulgares e chatíssimas. Confirma-se: eu não tenho piada.
Encontrei uma moça que encontro sempre e que trás sempre a t-shirt do YFC e a quem digo sempre a mesma coisa. A tua t-shirt é linda. Eu estive lá e eu compreendo a beleza interna da tua t-shirt. Tu és uma pessoa maravilhosa por teres essa t-shirt. Viva YFC! E eu digo sempre a mesma coisa porque é verdade. :)
Começa o concurso. Descalço-me. Chão frio. E agora vem um momento altamente explicativo.
Quando vi as regras do concurso, não gostei delas. Achei que estavam demasiado detalhadas para um concurso de pequena envergadura e que davam pouca liberdade de escolha se uma pessoa quisesse realmente ganhar. Mas eu não quero realmente ganhar. Eu quero fazer coisas. Então, decidi participar de forma a que fosse muito difícil de me avaliarem, se não impossível. Para começar, não levei um fato complexo. Levei o fato mais simples que tenho, caracterização mínima, sem props. sem nada. Depois, como skit, decidi fazer algo extremamente parvo.
Para começar, trabalhei com o meu amigo R. para produzir uma música inesquecível, uma cover vanguardista do senhor que mais contribuiu para o espalhar das oliveiras em Portugal e arredores. Depois, fiz uma performance baseada nessa música com conotações altamente obscuras e representativas do nada. Isto, no fundo, para dizer que um actor não precisa de nada para fazer teatro, para além de público. Não é preciso guarda roupa, não é preciso cenário, não é preciso efeitos visuais, não é preciso sequer um bom texto. Porque sim, é possível fazer teatro baseando-nos inteiramente numa música tão idiota, ridícula e sem significado como a Cabritinha do Quim Barreiros.
Podem ouvir a música aqui em breve.
E aqui, em breve, a versão Uncut, também conhecida por Jam.
Claro que isto tudo, apesar de estúpido e ridículo, tem uma explicação altamente filosófica por trás. Na verdade, na inscrição pediam que explicássemos o nosso skit. A explicação que mandei foi a seguinte:
Antes de mais, é importante contextualizar a personagem. O manga e anime
de origem apareceram na vanguarda dos anos 70, num Japão cada vez mais
feminizado que procurava o lugar da figura feminina na sociedade. Assim,
aparece este anime, que fala sobre a luta de uma rapariga em se tornar
numa actriz reconhecida, fazendo uso dos seus talentos e aprendizagem
nesse campo. Portanto, consideremos: a
personagem é actriz. E para se fazer teatro são necessárias duas coisas:
actor e público. Assim, este skit aparece pegando nesse conceito. Para
ilustrar a ideia, produzi uma música original - juntamente com um amigo
que explora a música experimental - que se trata de uma cover
vanguardista de uma música tradicional sobejamente conhecida por todos. A
música trará reminiscências da vanguarda setentista, sendo que a letra
também aborda o papel da mulher da forma exactamente oposta à do anime:
nesta música a mulher é reduzida a espécimen e ridicularizada. Assim, a
personagem irá entrar numa espiral descendente, em que recebe o "leite"
metafísico, não da mãe mas sim do homem, denegrindo-se e humilhando-se
como ser humano, mas elevando-se como personagem social. Em termos
cénicos, dado adquirido de que o cenário não é condição necessária ao
teatro, decidi metaforizar os termos "peito", "mama" e "leite",
representando cada "animal" (homem) em pacotes de leite, orientados no
espaço como quadrantes cardeais, com uma significância absurdista com
influências de Ionesco. Para representar o final "a cabra", aquilo que
oferece o "leite primordial", o mais importante, utilizarei uma caneca
tradicional (assim unindo os pontos vanguarda e tradição portuguesa) das
festas da cidade de Tomar, contendo o branco representativo. No final, o
efeito pretendido será o espanto, absurdidade e incoerência,
transportando o skit de cosplay para o campo do teatro do absurdo, minha
preferência como actriz. Assim se espera um skit de pouco efeito
cómico, pouco compreensível para o público, mas com interesse teatral
mínimo, para adição ao portfolio daquela que vos escreve.
E eu realmente não sei o que aconteceu. As pessoas riram-se, apesar da minha baixa forma (já da última vez que tinha utilizado este cosplay estava doente) a coisa correu bem, mas isto foi totalmente inesperado! Porque eu fiquei em Terceiro Lugar! Fiquei super-hiper-mega-ri-contente e muito motivada para ir tirar umas fotos com este fato e fazer outro skit absurdo em breve! Muito obrigada! Espero que tenham gostado, pois no fundo, apesar de todas as coisas anti-sistema que este skit significava, o objectivo era entreter e mostrar algo diferente ao público. Gosto muito de vocês, público. :)
Com o prémi, cinco euros na Loja Neko, comprei o DVD "O Reino dos Gatos", do Studio Ghibli. Podia ter comprado cinco autocolantes ou dois porta chaves, mas achei melhor dar outros cinco euros e ficar com um DVD de um filme que ainda não tinha visto.
Consegui despedir-me do pessoal decentemente desta vez e para despir o fato e colocar-me à civil de novo deixaram-me ir para os camarins. Lá, estive à conversa com a Cátia - que fez o excelente trabalho de organizar este concurso, em que correu tudo nos eixos. :) Só não consegui encontrar as moças do Monte da Caparica para ir de barco com elas, desculpem... :<
Assim, no geral, pareceu-me um excelente evento. O espaço era muito bom, se bem que a inesperada enchente de pessoas o tornou muito pequeno. Mas o facto de ter estado tão cheio significa que foi um sucesso e que para o ano teremos de ter um Nihon Sekai num lugar muito maior. Foi bom para encontrar pessoas, conversar, fazer um skit bizarro, comprar uma linda camisola, ver a vista... Enfim, foi só o início de um fim de semana maravilhoso!
Portanto, obrigada e até à próxima! Agora, o que estavam todos à espera....
FOTOS!!
By : ladyxzeus
Martian Successor Nadesico
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Martian Successor Nadesico
Satou Tatsuo - Xebec
Anime - 26 Episódios
1996
5 em 10
Realmente, eu acho que tenho um problema. Tenho vários, até. Como, por exemplo, ter escrito 30 posts neste blog só neste mês. O que a desocupação faz às pessoas... Mas bem, o meu problema de hoje é diferente.
O meu problema, acho eu, é que devo ter perdido o sentido de humor no dia em que chumbei pela oitava vez a osteologia. Porque, por mais que me digam que há animes de comédia muito engraçados e me digam para os ver e eu, efectivamente, os veja... Eu não lhes acho piada! Foi o que aconteceu com Nadesico.
Vem dos 90s, mas não o consideraria um clássico. Essencialmente, trata-se de um tributo mais ou menos engraçado às séries de mecha do antigamente. Para isso, temos um conjunto de pessoas improváveis que estão numa nave espacial e lutam dentro de robots contra inimigos também improváveis. Para lutarem, inspiram-se numa série inventada (uma série dentro de uma série), um tokusatsu com todas as características necessárias para ser generalista.
Há uma ligação entre o fantástico da série inventada e a realidade, que também não foge muito à invenção. Essa é a parte mais interessante. Infelizmente, a história tem muitos pontos em que lhe falta lógica e senso comum e os personagens não têm densidade suficiente, nem graça, para apoiar isto. Na verdade, aparentam todos ser recortados de pacotes de leite meio-gordo, reunindo-se à volta de um personagem principal sem características distintivas, num harém típico. Existem muitos, muitos personagens, tantos que a certa altura deixamos de dar conta de quem é quem, mas nenhum é especialmente interessante ou cativante.
em termos de animação, não está má para a época, embora haja erros flagrantes em certos aspectos do design de personagens (olhos na testa). De resto, temos robots que se mexem bastante bem e as cenas da série inventada têm um certo ar retrospectivo, tributo aos clássicos.
Para se apreciar esta série será, sem dúvida, precisa uma certa dose de bom humor que eu não consegui recuperar quando finalmente passei a osteologia (ao vigésimo quinto exame).
By : ladyxzeus
Space Battleship Yamato 2199
0
Space Battleship Yamato 2199
Izubushi Yutaka - Xebec
Anime OVA - 26 Episódios
2012
7 em 10
Izubushi Yutaka - Xebec
Anime OVA - 26 Episódios
2012
7 em 10
Saberão certamente que eu, pessoalmente, não gosto muito de comparar animes com outros animes. Ou com o que quer que seja. No entanto, hoje será necessário. Pois isto trata-se de um remake da série de 1974, por Leiji Matsumoto, Space Battleship Yamato. Poderão ler a minha opinião sobre ela aqui.
Quase trinta anos depois, a forma de celebrar uma das grandes Space Operas da história do anime talvez seja, realmente, fazer um OVA em que voltamos a tratar da história, mas com algumas melhorias que apenas seriam possíveis com a evolução da indústria e das técnicas. As minhas impressões primárias foram "está tão diferente!", seguidas de "afinal está muito parecido...", finalizando com "é completamente diferente". Isto é bom é certa medida, mas noutros aspectos o anime original é bastante superior.
Para começar, temos uma melhoria flagrante no que respeita à arte. Desta feita temos uma grande dedicação aos cenários espaciais, que são extremamente bonitos, e na concepção de cidades alienígenas, aspecto que não tinha sido tocado no original. Muitas cenas são puramente digitais, com um uso de CG exacerbado, sobretudo na estrutura da nave espacial Yamato. Se isto joga bem com o aspecto geral do anime, muito moderno, brilhante e limpo, não posso deixar de recordar com carinho a granulosidade do anime original, que tinha aquele groove dos 70s que torna tudo sempre mais engraçado.
Quanto à história, ao início é bastante semelhante: a Terra está prestes a ser destruída e a única forma de a salvar é conduzir Yamato até ao planeta Iscandar e obter a peça essencial para evitar o apocalipse. Durante a primeira metade do anime, a série seguiu em linhas gerais a mesma estrutura narrativa do original, com algumas variações importantes, sobretudo no respeitante aos personagens. Falaremos disso mais tarde. A partir da segunda metade, há já algumas variações que me desagradaram bastante. Para começar, o inimigo Gamiliano (as pessoas azuis) é apresentado como uma força muito mais poderosa do que no original. E para além disso perdeu-se completamente o facto de os Gamilianos, apesar de diferentes no aspecto, serem portadores de uma grande humanidade. Na verdade, são apresentados como uma força antagonista puramente maligna, sendo que o anime mostra muitas vezes provas de que são um povo conquistador e injusto, em que há facções motivadas para a revolta. No original, a guerra Gamiliana contra a Terra era muito mais simples e pura: queriam simplesmente salvar o seu planeta. Não tinham intenção de conquistar pelo puro prazer de aumentar o seu território e, no fundo, eram pessoas tão boas como nós. Também no final da história há uma variação na parte mais comovente da narrativa, que trata da chegada a Iscandar e das revelações feitas ao personagem principal.
Falando dos personagens, há uma diferença muito evidente, bastante positiva. É um sinal dos tempos, na verdade. Nesta versão da história, há muito mais mulheres. Na verdade, o elemento positivo é essencial, desenvolvendo-se histórias amorosas paralelas à narrativa principal. Isto é de certa forma importante para trazer um realismo próprio à situação. Se nos 70s seria normal que um grupo de homens fosse para o espaço apenas acompanhado por uma enfermeira, nos 10s é evidente que a equipa é constituída em partes iguais de homens e mulheres. Existem variações ligeiras em quase todos os personagens, mas as mais evidentes são naqueles que anteriormente eram o alívio cómico e que hoje em dia são tão considerados como os outros: o médico e o robot. Não só os seus designs estão mais realistas como a ambos é dada uma função importante no seio de Yamato, que não tinham anteriormente. Tive pena de, desta vez, o gato não ter ido a Iscandar. Com todas estas diferenças, mais ou menos importantes, é natural que o decurso da história se tenha tornado um pouco diferente. Agora temos grandes paixões e o arquétipo da equipa shounen está diluído. Isto torna todo o anime um pouco mais directo para o espectador, mas retira grande parte do charme que existia no original. Também os antagonistas, que não tinham muito tempo de antena, sofrem algum desenvolvimento, o que é uma coisa boa. Mas considerando que este se baseia bastante numa história amorosa, acaba por cair dentro da normalidade (que era uma coisa que o Yamato original não tinha: normalidade)
Musicalmente, há um piscar de olho muito simpático à banda sonora original, sendo que são utilizadas novas versões, remasterizadas, das músicas que já todos conhecíamos. Para além disso, há uma grande variedade nos temas utilizados, sendo que todos e cada um representam algo bem bonito. Em termos de efeitos sonoros, estão bem utilizados de forma geral, trazendo um bom grau de emoção às situações.
Vi este anime agora porque apareceu no meu clube habitual para discutir. No entanto, acho injusto que tenha sido este o escolhido, ao invés do original. Esta é uma boa série, uma boa homenagem, e está muito apropriado à sua época, trazendo modernidade a um franchise que sofreu bastante com a evolução da inústria e rapidamente se tornou obsoleto. No entanto, no aspecto emocional e humano a série original é bastante superior. Por isso, irei recomendá-la primeiro. Depois, se tiverem interesse, vejam esta versão.
By : ladyxzeus
Pacific Rim
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Pacific Rim
Guillermo del Toro
Filme
2013
6 em 10
Pelos vistos o Guillermo del Toro é fã de mechas, portanto porque não fazer um filme de mechas virado para o mercado ocidental?
Neste universo, a civilização está a ser atacada a partir de dentro: uma fissura no Oceano Pacífico anda a libertar monstros, os Kaiju, e há duas opções para defender a humanidade. Robôs gigantes, os Jaeger, e uma parede. Não funcionando a parede, vamos aos robôs. Sobram poucos, é verdade, mas ainda servem.
Para conduzir o robô principal, que se vem a revelar essencial, chamado Gypsy Danger, temos dois pilotos com traumas na vida passada, que se vão conhecendo, apreciando e apoiando até conseguirem vencer todas as forças do mal.
O filme tem claras influências do anime Japonês e tokusatsus, da sua concepção à estrutura. As relações entre os personagens são muito previsíveis, apesar de serem emocionantes e de, no final, trazerem um sorriso.
A melhor parte do filme foi sem dúvida o alívio cómico (nome que passarei a dar a "comic relief"), protagonizado por dois cientistas meio malucos, que aparecem como antagonistas um do outro ao início e que - também de forma previsível - se unem para chegar a conclusões. É graças a eles que ficamos a conhecer mais sobre os Kaiju, que é a parte sobre a qual estava mais curiosa (o que são e ao que vêm). Se bem que segundo as suas explicações não faria sentido haver um Kaiju grávido. Mas acho que se perdoa.
Temos uma grande riqueza em efeitos especiais, que são apenas perturbados pela flagrante evidência da animação digital. De certa forma, acho que o filme teria funcionado muito melhor se tivessem sido utilizadas marionetas, fatos e maquetes. Mas isso gastaria mais dinheiro, certamente.
Mas é um filmezinho divertido. Boa pipoca.
Nota: para mim o nome será sempre o Rim Pacífico. Por outro lado temos o Rim Agressivo. Os dois juntos fazem o Sistema Renal Passivo-Agressivo.
By : ladyxzeus
A Most Wanted Man
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A Most Wanted Man
Anton Corbijn
Filme
2014
6 em 10
Para a segunda double session começamos com este filme.
O derradeiro filme de Phillip Seymor Hoffman, falecido recentemente. O actor interpreta um investigador de actos terroristas, em Hamburgo, que se envolve num complicado caso em que tem tanto que salvar um emigrante ilegal checheno como prender um famoso muçulmano que, advogando pela paz no exterior, trafica fundos para comprar armas para a guerra islâmica.
O filme tem uma narrativa bastante simples e é baseado num livro do famoso escritor de policiais John le Carré. Nunca li um livro do senhor quadrado e agora também não desejo ler. Pois a história, como aqui demonstrada, está básica demais e não capta o meu interesse com suficiente intensidade.
Assim, o filme vive muito das suas personagens, nomeadamente o protagonista - Günther. Este personagem tem as suas camadas de complexidade e está perfeitamente interpretado, embora este papel não seja o trabalho definitivo do actor. Aliás, nota-se - aliado ao personagem - uma exasperação e cansaço, que já poderiam predizer o estado mental do actor e as consequências decorrentes. Quanto aos outros personagens, nenhum deles é interessante o bastante, estando muito presos a dramatizações e esperanças adolescentes.
Não direi que o final fosse previsível, mas faz bastante sentido. Fiquei bastante feliz por não terem continuado com a história para além do que já foi dito, pois tornaria o filme desnecessariamente longo.
By : ladyxzeus
How to Train Your Dragon 2
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How to Train Your Dragon 2
Dean DeBlois e Chris Sanders - Dreamworks
Animação - Filme
2014
6 em 10
Dean DeBlois e Chris Sanders - Dreamworks
Animação - Filme
2014
6 em 10
Depois de treinarmos o primeiro dragão, temos de ver a sequela!
Cinco anos depois do primeiro filme, a vida na aldeia de Berk é bastante boa e divertida, com dragões como animais de estimação. Mas Hiccup e Toothless vão por outros caminhos, tentando mapear as ilhas e descobrir outro dragão da mesma espécie. O que eles encontram é (bem, nem tanto assim) surpreendente.
Neste filme são apresentadas novas personagens, com uma nova aliada e dois novos antagonistas, mais poderosos que os anteriores. Há um certo piscar do olho às associações de protecção aos animais e ao treino positivo. O design das novas criaturas tem o seu interesse. Mas de resto, o nível do filme mantém-se, se é que não se reduziu um pouco.
O ambiente está mais negro, há mais cenas de acção. Citando o Qui, tudo sintomas de uma sequela. Para mais, há alguns pontos em aberto que chamam pelo terceiro filme. Isto é, um filme tão agradável sofreu com o poder do franchising.
Em termos de animação, há algumas variações, nomeadamente o uso de marionetas em alguns momentos, sendo que nem sempre a animação é puramente digital. Achei que a luta final poderia ter sido um pouco mais espectacular. Na verdade, o final poderia ter sido um pouco diferente e não me deixaria tantas dúvidas em relação ao futuro dos personagens (e, sobretudo, dos dragões)
Existe um ênfase grande no romance e em momentos musicais, mas não é suficientemente credível para nos emocionarmos grandemente com a tragédia que aparece mais tarde.
No geral, achei o filme menos interessante e menos divertido do que o primeiro. Não deixa de ser um filme simpático, mas podia ter ficado na gaveta.
By : ladyxzeus
The Wind Rises
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The Wind Rises
Hayao Miyazaki - Studio Ghibli
Anime - Filme
2013
9 em 10
Duas double sessions, muitos filmes. Falaremos bastante deste nos tempos vindouros.
Durante muito tempo, sempre houve anúncios de que o Sr. Miyazaki se ia reformar, que ia deixar de fazer filmes e todas essas coisas. Na verdade, três ou quatro filmes foram o seu "último filme". Então, deixei de acreditar que ele se fosse reformar. Mas apareceu o "Wind Rises", que viria a ser o filme definitivo. Ouvi e li críticas agressivas, intenso desapontamento dos fãs. Mas, apesar de todas as subversões, quando terminei de ver este filme, decidi comigo própria: é este o filme definitivo. Para finalizar uma era, seria necessária uma obra prima. E aqui está ela. Acredito que este filme venha a ser um dos exemplos pilar para todos os visionantes. Acredito que este se tornará um filme essencial.
Para começar, neste último filme, o Sr. Miyazaki decide cortar todas as relações com o passado. Assim, apresenta-nos um filme de não-ficção, inspirado na vida e obra de uma pessoa que realmente existiu, passado no mundo real, relatando coisas que efectivamente aconteceram. Para além do mais, é um drama. E, finalmente, não será de todo o mais apropriado a crianças muito pequenas.
A pessoa escolhida para protagonizar este filme chamava-se Horikoshi Jirou. Na impossibilidade de se tornar piloto de aviões, o seu fascínio desde criança, torna-se um dos mais importantes engenheiros a trabalhar nos primórdios da Mitsubishi. E desenha, com sucesso relativo, aquilo que virão a ser os aviões que proliferaram durante a segunda guerra mundial e que interviram de forma muito importante no seu desfecho.
O tema é o sonho. Jirou sonha constantemente com o seu ídolo - Caproni - uma pessoa de um passado mais remoto, que desenhou aviões. Tendo este homem como exemplo, Jirou sonha em construir o melhor avião. Ele não quer uma máquina de guerra, ele não se interessa sobre o destino que irá ser dado ao seu avião. Ele deseja construí-lo pelo simples prazer de criar. E aqui, desde já, se estabelece uma força na personagem impossível de contornar. É um sujeito estranho, este, que fala de forma monocórdica e trabalha a toda a hora, sem dormir, fumando e fumando. Será um indício de autismo? Mas são estas pequenas coisas, que ao início são irritantes, que definem o personagem como uma pessoa real e única dentro do seu contexto.
Paralelamente ao sonho dos aviões, o vento levanta-se de outra forma. Desenrola-se uma história de amor de contornos trágicos, mas com sentimentos tão puros que não podemos deixar de desejar que sejam simplesmente felizes. É uma história comovente e muito realista, falando da epidemia de tuberculose que decorria na época, não só no Japão mas um pouco por todo o mundo. Os momentos do casal são extremamente simples, mas com um romance implícito que vem apenas a tornar a conclusão ainda mais triste, apesar de lógica e necessária.
No respeitante à animação, temos o melhor que este estúdio tem para oferecer, e ao qual já estamos bem habituados. Como a história não se passa num mundo fantástico, e sim no mundo real, não temos grandes complexidades estruturais ou extremamente originais. No entanto, há tal delicadeza no detalhe dos cenários, profundidade e suavidade que este filme se torna surpreendentemente belo. Os cenários são pintados por meios tradicionais e apesar de existir um tratamento digital, sobretudo evidente na cena do terramoto, este integra-se bastante bem e não nos faz estranhar. Em todos os desenhos técnicos se revela uma pesquisa profunda sobre o tema. É também de notar o excelente trabalho de fotografia e enquadramento, que nos trazem cenas muito realistas e, sobretudo, muito belas.
Gostaria também de falar da excelente animação de todas as cenas de sonho, em que viajamos em cima de aviões impossíveis e em que Jirou se consegue aperceber dos seus erros, aprendendo e evoluindo. Cada cena representa um pilar importante na evolução, no vencer dos medos e na concepção do avião ideal, que depois tem a sua inspiração final dentro do romance. Estas cenas de sonho transladam-se também para cenas em que o personagem se encontra extremamente concentrado. São a única parte fantástica do filme e trazem uma frescura estonteante e inspiradora.
Musicalmente, temos um tema recorrente, interpretado em vários tempos e vários instrumentos, conforme seja mais adequado à situação. É um tema muito positivo, que acrescenta ao filme uma onda de optimismo que não corresponde à realidade. Quero eu dizer que este filme apresenta todos os temas, o sonho, o romance, sob uma perspectiva muito positiva. E a verdade, aquilo que aconteceu no mundo real, no nosso mundo, não podia ter sido pior.
E é por isto que me apaixonei por este filme.
A narrativa tem vários elementos autobiográficos. Miyazaki não só fala sobre uma pessoa por quem terá a maior consideração: ele revisita-se em várias cenas. Temos muitos momentos que nos recordam filmes anteriores, como Porco Rosso e A Viagem de Chihiro, o que demonstra uma capacidade auto-crítica de louvar. Mas o mais importante, para mim, é o momento em que nos apercebemos do verdadeiro conceito do filme. Acredito que nunca o Estúdio Ghibli fez algo tão negativista, apesar de o apresentar sob uma luz de aparente felicidade.
Porque, apesar dos aviões serem o sonho de Jirou e de ele dedicar a sua vida à sua concepção, a verdade é que estaríamos todos melhor se ele tivesse abandonado o seu sonho logo antes de ele existir. Porque Jirou construiu os aviões. E depois veio uma bomba atómica. E qual é a moral disto tudo? Por vezes os sonhos são belos, mas as consequências são tão destrutivas que temos de ter a capacidade de avaliar quais os sonhos que se devem tornar realidade ou não. Foi o que Jirou, enquanto personagem (enquanto pessoa?) não conseguiu fazer.
Assim, o final apresenta-se muito agridoce, controverso e intenso. A cena final é subtil e maravilhosa, tornando toda a experiência do filme muito extrema.
Assim, gostaria de recomendar a toda a gente que veja este filme. É a obra de arte que vem a provar a verdadeira capacidade de Miyazaki, é o seu filme definitivo. É a película que condensa todo o trabalho de uma geração e que vem finalizar uma era na indústria cinematográfica e de anime. Será certamente uma peça importantíssima no crescimento do anime como arte visual e acredito que a sua importância será devidamente reconhecida quando os ânimos acalmarem. Pois o filme não corresponde às expectativas. No entanto, cria novas expectativas. E a essas, ultrapassa-as.
By : ladyxzeus
