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  • O Teu Rosto Será o Último

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    O Teu Rosto Será o Último
    João Ricardo Pedro
    2011
    Romance

    Livro curtinho que recebi no BookCrossing.

    Através de episódios curtos, aparentemente sem conexão entre eles, forma-se a história de uma família assombrada pela guerra colonial, num contexto doloroso e humano. Cada capítulo conta uma história, por vezes com personagens recorrentes, por vezes com pessoas que não sabemos quem são, mas que estão intimamente envolvidas na narrativa geral, apenas revelada no final.

    Enquanto isso, acompanhamos o crescimento de Duarte, um jovem que tem um fantástico talento para o piano. Apesar desse talento, existe uma relação de amor-ódio com o instrumento (com a qual me identifico), que tende a cair no exagero, no momento de libertação sobretudo.

    A prosa é muito interessante. Através de várias perspectivas de enumeração, o efeito é sarcástico e humorístico, apesar de haver muito sofrimento por detrás das palavras. Talvez esta técnica tenha sido utilizada demasiadas vezes, tendo sido melhor que o autor a guardasse para momentos mais específicos, sem abusar do efeito.

    No geral, gostei bastante. Como se lê num instante, acho que não se perde nada em experimentar.
  • Livro Sem Ninguém

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    Livro Sem Ninguém
     Pedro Guilherme-Moreira
    2014
    Romance

    Quando vou jantar com o meu pai (quase todas as semanas) ele tem o hábito de ir à Fnac. Costumamos ir ao Colombo, só por questões relacionadas com dentro ou fora de mão, e lá está ele na Fnac. Às vezes já ele comprou cinco livros quando eu chego, bem, a verdade é que quase sempre compra um, dois ou sete livros cada vez que lá vai. (Lê todos). Desta vez fui dar com ele na secção de Economia e ele revelou-me, com muita tristeza, que nesse dia não ia comprar livros. Então... Eu comprei um! Olhei para este livro e achei uma gracinha. Fui ler a sinopse, achei fofinha. Li algumas páginas, pareceu-me giro... E aqui está ele na minha montanha. Preciso mesmo de umas prateleiras novas!

    Mas... Não há bela sem senão. É sem dúvida um livro muito atractivo, mas foi um pouco diferente daquilo que eu esperava. Vamos ver...

    Este é um livro onde não há pessoas. Há poucos animais, muitas plantas e, sobretudo, os objectos das pessoas. É pelos movimentos dessas coisas que acabamos por perceber o que se vai desenrolando nesta rua onde cada casa tem uma cor. Ora, o grande defeito é que em cada casa vive um ser - que supomos que seja uma pessoa porque usa chapéus de chuva, óculos e sapatos, entre outros - que acaba por ser um estereótipo, daqueles feios. Temos os velhos, temos a adolescente grávida, temos ciganos, temos gays e uma pessoa que não se percebe muito bem o que é. A florista faz arte, no café vê-se quem morre (o café até parecia ser bom, com a sua variedade de chás, mas é um bocado tétrico). Ah e temos a origem de todos os males, que são os drogados. Foi esta a primeira coisa que não gostei: cada estereótipo está etiquetado com uma faixa de "bom" ou "mau". Para o autor, todos os ciganos são violinistas e todos os drogados são maus. E pelos vistos o autor também vive nos anos 90, porque os drogados andam a dar no cavalo ao lado das casas das pessoas.

    Também pensei que o livro pudesse ser confuso, dado que não há exactamente personagens. Ou não deveriam haver. A verdade é que a cada personagem acaba por ser dado o nome de um objecto. A bengala, a gramática verde clara, o lenço aos quadrados, os sapatos vermelhos, os óculos azuis, as camisas negras. Cada um é o habitante de uma das casas. Para isso mais valia ter feito tudo com pessoas e ter-lhes dado os nomes de José, Manela e Isaura.

    Gostei da descrição das mudanças na horta, embora me tenha parecido que para haver tanta vida vegetal a horta deve ser enorme. Mas foi essencialmente isso o que gostei. Porque de resto a história é vulgar, um crime passional, um acidente, um assalto. A sinopse dizia que através dos objectos se ia falar de intolerância e justiça e muitas coisas, mas isso é verdadeiramente impossível quando os personagens não têm a profundidade das pessoas reais.

    Ainda assim, o problema pode ser meu. Vamos submeter o livro ao teste do BookRing!
  • Debaixo de Algum Céu

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    Debaixo de Algum Céu
    Nuno Camarneiro
    2013
    Romance

    Tinha visto no jornal demasiadas ovações a este livro, vencedor do Prémio Leya 2012. Já começava a ganhar-lhe raiva quando li a sinopse. Qualquer coisa como "vida dos vários inquilinos de um prédio ao pé do mar". E achei que era interessante! Então aproveitei a Feira do Livro para o comprar (foi o mais caro deles todos)

    Foi uma surpresa absoluta. Eu pensava que ia ser um livro denso, cheio de humor, afinal como poderíamos falar da vida dos inquilinos de um prédio se não lhes acontecessem coisas espectaculares e fora do normal? Mas foi exactamente o oposto. Tudo o que lhes acontece é normal. Mas como os conhecemos, como são os nossos vizinhos, parecem coisas extraordinárias.

    Tudo se passa em apenas sete dias, entre o Natal e o Ano Novo. Pelo meio falta a luz e é nessa noite escura que são feitas as grandes decisões de todas as personagens, que acabam por ter a sua resolução no novo ano. Cada dia é relatado pelo narrador e depois analisado por um dos habitantes do prédio. Não gostei muito das partes dos habitantes do prédio, pois todos eles diziam muitos palavrões. Ao início as suas vozes pareciam-me muito distintas umas das outras, mas a partir do meio comecei a pensar que eram todas a mesma pessoa, pois o estilo narrativo, a maneira de falar, era igual para todas.

    O livro é depressivo e é trágico. O final é agri-doce, com coisas que terminam e coisas que recomeçam. Não é um final feliz, nem é bem um final. Porque a vida continua e este livro é sobre a vida. A vida das pessoas, que somos nós.

    Recomendo, mas não para todos. Não é um livro que nos faça sentir muito bem. A história é forte pela maneira como se conecta à nossa realidade, a de hoje em dia, a que estamos a viver neste momento.
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