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  • Levantado do Chão

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    Levantado do Chão
    José Saramago
    1980
    Romance

    Este foi um livro de Saramago que, sendo muito saramaguiano na mesma, me deixou um pouco desapontada. Confesso que não aprecio muito a literatura portuguesa que se foca na pobreza e na agressividade da vida campestre, sobretudo quando relacionadas com temas como a guerra ou as colónias.

    Um romance visceral, quase uterino, conta a história da família Mau-Tempo, que vai vogando pelos campos de Portugal sem grande objectivo sem ser o de sobreviver à fome, à seca, ao lixo. As personagens são confrontadas com diversas situações em que, por vezes, lhes é permitido sonhar um pouco com um novo e diferente tipo de vida.

    Sonhos cortados pela raiz, ou afogados num balde à nascença, porque existe um conjunto de figuras negras, nunca as mesmas, que sob a égide de um Salazar fantasmagórico destroem, maltratam e matam, sem nunca permitir que o trabalhador, com fome, com sede, com caspa, tenha uma vida feliz para além dos seus dedos grossos.

    Mas, como digo, este não é um tema que me agrade.

  • Todos os Nomes

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    Todos os Nomes
    José Saramago
    1997
    Romance

    Recebi este livro do Saramago numa actividade do BookCrossing, que confesso já não recordar qual era. Já há algum tempo que o queria ler, pois um amigo mo havia recomendado muito vivamente. Li-o de uma assentada e penso que, não sendo dos melhores do autor, é uma obra distinta.

    Neste livro, que é sobre todos os nomes, só há uma pessoa com nome: o Sr. José. O Sr. José trabalha na conservatória do registo civil e vive numa casa pegada a este edifício, ao qual pode aceder por uma porta no seu quarto. Um dia, durante o seu trabalho, encontra um verbete de uma mulher que o fascina. Passará o resto das páginas em busca dessa pessoa, comentendo crimes inusitados e muito inesperados.

    No fundo, este é um livro sobre a identidade e que fala sobre uma questão que eu gosto de discutir: a definição que um nome dá à nossa identidade. Afinal, o que é um nome? Para que serve um nome? O nome da mulher misteriosa, que tanto apaixona o Sr. José, acabará por significar alguma coisa? Os nomes que as coisas têm, significam alguma coisa? O próprio nome de José...

    Escrito com a simplicidade que tanto caracteriza o autor, é um livro que brota de uma inocência simples, observando de forma quase infantil a progressão da vida e as significâncias da morte. E, no fundo, porque chamamos as coisas como chamamos?

    Agora estará disponível para novas viagens! :)
  • José e Pilar

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    José e Pilar
    Miguel Gonçalves Mendes
    2010
    Filme
    8 em 10

    Tinha visto este filme no cinema pouco após a morte de José Saramago, numa sessão comentada pela própria Pilar del Rio, sua esposa. Gostei tanto na altura que agora o quis rever com o Qui. Portanto, aqui vai um pequeno comentário sobre este filme que tanto me maravilhou.

    Este é um documentário intimista que nos mostra, qual camera indiscreta, os pequenos momentos da vida de Saramago e da sua esposa Pilar. Atarefadíssimos com o trabalho que nunca os larga, passam juntos todos os eventos, os melhores e os piores, rodeados de pessoas que mal compreendem a sua dimensão pessoal mas, sobretudo, acompanhados um pelo outro.

    Mais do que um documentário, este é o retrato de uma história de amor.

    Com imagens simples e sinceras, assistimos a revelações do grande autor que nos dizem muito mais do que o esperado sobre as suas crenças e sobre a sua personalidade. É um filme que nos revela muito de pessoal sobre este personagem que sempre me nutriu tanta curiosidade.

    Talvez a única parte que tenha gostado menos tenham sido aquelas pequenas intermissões encenadas, que tanto tiram da naturalidade do filme.

    De resto, um filme que recomendo a todos os fãs do autor ou de qualquer tipo de literatura. :)

  • A Jangada de Pedra

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    A Jangada de Pedra
    José Saramago
    1986
    Romance

    Eventualmente o livro mais bizarro de Saramago que tive o prazer de ler.

    Um grupo de pessoas faz coisas bizarras e, nesse momento, os pirinéus partem-se ao meio e a Península Ibérica começa a navegar mar afora. Essas pessoas depois encontram-se e desenvolve-se uma relação entre elas, para além do facto de os governos do mundo estarem a tentar lidar com a situação de dois países andarem a divagar pelo oceano.

    Ao contrário de outros livros de Saramago, este pareceu-me estranhamente incongruente e, de certa forma, pouco planificado. Existem elementos da história que acontecem quase "por acaso", sendo que parece que subitamente o autor encontrava problemas (como o choque iminente com os Açores) e depois os solucionava de uma forma qualquer. Isto foi deveras estranho.

    Para além disso as relações desenvolvidas entre os personagens, tão bem caracterizadas ao início, acabam por se tornar inconsequentes. Há por todo o livro uma imensa carga simbólica (no novelo de lã, na pedra em forma de barco, etc.) que, infelizmente, me escapou completamente. Ela está lá, mas qual o seu significado? Gostaria de ler alguma análise sobre este livro para que o possa compreender melhor, portanto se alguém tiver alguma sugestão será bem vinda :)

    Apesar de tudo isto, o livro é muito rico em detalhes "Saramaguianos", tendo um discurso pleno de leveza e humor e trazendo sempre à baila temas difíceis, mas com tanto carisma que não podemos deixar de nos rir deles.

    Um livro curioso que, como sempre, dá vontade de escrever.

  • O Homem Duplicado

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    O Homem Duplicado
    José Saramago
    2002
    Romance

    Depois, para variar, um pouco de Saramago, o que é sempre bom :)

    Este é um dos seus livros fantasistas, surrealistas digamos assim, passados na vida real e no agora. Um homem, professor de história do secundário, sente-se um pouco deprimido. O seu colega de matemática recomenda-lhe um filme. Qual o seu espanto quando um dos actores figurantes é igual a ele!

    A partir daí, faz tudo para o descobrir, sendo que o seu encontro terá consequências estranhamente fatais O livro é muito engraçado, na medida em que as coisas estão descritas com toda a naturalidade, como se semelhante situação fosse de facto possível. Saramago, como sempre, escolhe as palavras a dedo e todo o conjunto funciona com uma calma impressionante, um contar de uma história tão real como estranha

    No entanto, talvez não seja uma das obras primas do autor, porque por vezes se perde um pouco nos detalhes e nas próprias palavras: isto é, Saramago tanto se divertia a escrever que se esquecia de que mais alguém o ia ler.

    O final é absolutamente hilariante, mas também muito assustador.

    Não fiquei curiosa em ver o recente filme que foi baseado neste livro.

  • O Conto da Ilha Desconhecida

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    O Conto da Ilha Desconhecida
    José Saramago
    1997
    Conto

    Para rematar, uma história de Saramago. Muito bela, em toda a sua simplicidade.

    Um homem quer um barco. Após grandes complicações burocráticas o rei dá-lhe um. Aí começa a curiosidade deste conto: que castelo é este, que portas são estas? O que representam estas portas e como se podem relacionar com a realidade da vida humana? Com estas questões em mente, o leitor é enviado para o barco. E aí começam os problemas... Não há tripulantes que queiram ir aonde o homem quer: em busca da ilha desconhecida.

    É muito interessante a análise que o autor faz do humano, enquanto pessoa, de forma tão simples e reduzida mas ainda assim tão profunda. O que são os desejos? O que são os sonhos? E, em conclusão, será que o facto de procurarmos realizar o sonho é o sonho em si? O que interessa mais, encontrar a Ilha Desconhecida ou procurá-la? Será que o facto de a procurarmos é, já em si, a Ilha Desconhecida?

    Isto é, de facto, uma contemplação muito melancólica e muito bela.

    Não posso dizer muito mais sobre este conto porque é uma história curta e simples, mas recomendo a todos que o leiam. É um instante! Deviam substituir o complicado Memorial do Convento por este conto nas escolas, talvez assim os estudantes criança passassem a gostar mais desta maravilhosa pessoa que foi (e é= José Saramago.

  • Alabardas

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    Alabardas
    José Saramago
    2014
    Romance (Inacabado)

    Este livro foi-me oferecido no Natal do ano passado pela minha caríssima irmã. Fiquei muito feliz, porque Saramago nunca é demais e, certamente, tinha curiosidade em saber o que seria esta sua obra póstuma.

    Trata-se de um romance inacabado, os três primeiros capítulos daquilo que seria a sua última obra. Aqui, apenas são introduzidos os personagens e o tema do livro. A grande questão que se levanta é "porque é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas". A partir daí, Saramago tencionava desenvolver uma história da qual só temos os contornos iniciais. O grande potencial deste livro revela-se logo nestes curtos capítulos, escritos com a graça, candura e ironia que caracterizam o autor. Fiquei extremanente triste quando terminou a primeira parte do livro, porque estava cheia de vontade de saber como iria continuar, o que iria acontecer, como se iria desenrolar o livro.

    Esta edição tem algumas notas do autor sobre o livro, em que ele fala do seu potencial, das suas intenções e das mudanças de título. Seguidamente, dois artigos que referem sentimentos pessoais sobre estes capítulos perdidos. Gostei bastante do primeiro, que revela um conhecimento grande sobre o autor e sobre a sua pessoa (enquanto ser humano), mas o segundo pareceu-me escusado, porque referia apenas "Conheço Artur Paz Semedo" e debitava pessoas que poderiam ter, ou não, relação com a personagem. Foi muito aborrecido.

    É um livro triste, não pelo conteúdo mas pela consequência: Saramago deixou algo inacabado. Porque é que as pessoas têm de morrer? Pela mesma razão pela qual têm de nascer, disse o Qui. Ainda assim, fiquei com lágrimas nos olhos.
  • As Pequenas Memórias

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    As Pequenas Memórias
    José Saramago
    2006
    Autobiografia

    Quando estive no Porto da última vez, na sempre fofinha companhia do Qui, quis muito passar na famosa Livraria Lello. E o que melhor para trazer de recordação do que um livro? Escolhi este pelo título. Afinal, também eu estava produzindo "pequenas memórias"...

    Foi com alguma surpresa que o descobri como uma espécie de autobiografia, sem ordem cronológica, apenas relatos de pequenos momentos da infância deste autor, que gosto imenso, um amor de paixão. São minúsculas narrativas inseridas num passado esquecido, pelos olhos de um adulto que agora avalia o que foi ser criança numa época de pobreza e dificuldades. Ainda assim, com momentos de alegria, momentos de brincadeira. Mas digamos que os eventos tristes são bastante mais frequentes.

    A imagética relatada, as descrições de paisagens, do sol, das terras, do céu, das pessoas, tudo isso remete-nos para um lugar que, tendo existido realmente, parece que saiu da fantástica imaginação do autor. Tudo isto regado com aquela pequena ironia que tanto o caracteriza, trazendo à tona a realidade das situações que, sendo por vezes terríveis, acabam por se tornar um pouco indiferentes: apenas memórias.

    Também podemos debater qual o funcionamento real das nossas memórias. Saramago diz muitas vezes que não sabe se o que escreve são memórias verdadeiras ou falsas, coisas que existiram mesmo ou que se calhar ele inventou com o passar do tempo. Isto levou-me a pensar nas minhas próprias lembranças e foi um exercício muito interessante.

    É um livro para ser lido apenas para quem ama este autor e queira saber um pouco mais sobre ele.
  • Caim

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    Caim
     José Saramago
    2009
    Romance

    Apetecia-me ler um livro do Saramgo. Tinha saudades do seu humor tão especial e das palavras todas que ele sabia. Tinha este no Kobo e assim foi.

    Uma reinvenção do Antigo Testamento da Bíblia, requer algum conhecimento prévio das histórias originais. Por isso, às vezes dou graças ao facto de ter andado tantos anos num colégio católico. Tudo começa com a criação da humanidade, Adão e Eva. Depois Caim e Abel. Caim mata Abel e deus condena-o a viajar pelo mundo sem destino. O que deus não percebe é que Caim começa a vaguear entre o passado e o futuro, entre os vários presentes, e assiste a todas as coisas que deus faz, concluindo que as faz injustamente.

    Assim, Caim é - como personagem - a "consciência" de deus, aquele que vê e tenta impedir as coisas terríveis que foram feitas em nome do poder divino e da sua manutenção. De Sodoma e Gomorra até ao Dilúvio Universal, Caim vê, toca e critica todas as coisas que deus faz, discutindo com ele e com os seus anjos até ao fim dos tempos.

    Caim serve como a voz humana às injustiças divinas. Rejeitou deus ao início e cada vez mais, de forma inócua e natural, recusa que ele seja o gerador do amor. Considera, na verdade, que deus é o gerador das guerras, as maiores e as menores, e que sem ele estaríamos todos melhor.

    Isto é, o personagem é a voz do autor. É uma auto-inserção por forma a criticar o que Saramago entendia pelo exagero da religião e todos os problemas que daí advêm.

    Facto é que o livro é extremamente divertido e muito bem escrito. Não será a obra prima do autor (mas é a última), mas vale a pena ler só pelo factor de entretenimento.
  • As Intermitências da Morte

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    As Intermitências da Morte
    José Saramago
    2005
    Romance

    O bom de Saramago é que ele nos dá sempre questões para pensar. Desta vez a pergunta é "e se não houvesse morte?" Exactamente, o que aconteceria se ninguém morresse? É precisamente assim que começa este livro. No dia 1 de Janeiro e daí por diante ninguém morre. E assim se estabelecem as relações políticas e sociais entre o governo do país imaginário, a realeza, o clero, os filósofos, os meios de comunicação e todas as indústrias secundárias e terciárias que lidam com a morte.

    Mas então acontece o belo. E o belo é a perspectiva da morte. Porque a morte, não sendo humana e nem sequer se escrevendo com éme maiúsculo (tal como ela faz questão de apontar), também sente. E neste caso, ela sente amor.

    É um livro muito bonito, apesar de não começar como tal. A morte é apenas o mote para uma conversa sobre o sentido da vida e sobre a falta dela também. Saramago explora todas as perspectivas com a leveza de uma borboleta, utilizando do seu poder descritivo tão sintético e sarcástico como usual para nos dar a conhecer todas as faces deste dado (claramente um D20).

    De resto, fica aqui um excerto para ler com banda sonora:


    (...)Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão. Eram onze horas quando a campainha da porta tocou. Algum vizinho com problemas, pensou o violoncelista, e levantou-se para ir abrir. Boas noites, disse a mulher do camarote, passando o limiar, Boas noites, respondeu o músico, esforçando-se para dominar o espasmo que lhe contraía a glote, Não me pede que entre, Claro que sim, faça o favor. Afastou-se para a deixar passar, fechou a porta, tudo devagar, lentamente, para que o coração não lhe explodisse. Com as pernas tremendo, acompanhou-a à sala de música, com a mão que tremia indicou-lhe a cadeira. Pensei que já se tivesse ido embora, disse, como vê, resolvi ficar, respondeu a mulher, Mas partirá amanhã, A isso me comprometi, Suponho que veio para trazer a carta,. que não a rasgou, Sim, tenho-a aqui nesta bolsa, Dê-ma então, Temos tempo, recordo ter-lhe dito que as pressas são má conselheiras, Como queira, estou ao seu dispor, Di-lo a sério, é o meu maior defeito, digo tudo a sério, mesmo quando faço rir, Nesse caso atrevo-me a pedir-lhe um favor, Qual, Compense-me de ter faltado ontem ao concerto, Não vejo de que maneira, Tem ali um piano, Nem pense nisso, sou um pianista medíocre, Ou o violoncelo, é outra coisa, sim, poderei tocar-lhe uma ou duas peças se faz muita questão, Posso escolher, perguntou a mulher, Sim, mas só o que estiver ao meu alcance, dentro das minhas possibilidades. A mulher pegou no caderno da suite número seis de bach e disse, Isto, É muito longa, leva mais de meia hora, e já começa a ser tarde, Repito-lhe que temos tempo, Há uma passagem no prelúdio em que tenho dificuldades, Não importa, salta-lhe pr cima quando lá chegar, disse a mulher, ou nem será preciso, vai ver que tocará ainda melhor que rostropovitch. O violoncelista sorriu, Pode ter a certeza. Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch, que não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de música., de partituras, era o próprio johann sebastian bach compondo em cöhen o que mais tarde seria chamado de opus mil e doze, obras elas quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta sem, que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher. Quando ele terminou, as mãos delas já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se dera, à mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e tirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaxo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum,, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte, ninguém morreu.
  • O Evangelho Segundo Jesus Cristo

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    O Evangelho Segundo Jesus Cristo
    José Saramago
    Romance
    1991

    Ora bem, toda a gente sabe que Saramago é (era) Ateu. Então porque raios foi ele escrever sobre Jesus Cristo? Terá sido para criticar a igreja, terá sido para ofender, terá sido para irritar, isso ninguém vai saber (excepto, talvez, a Pilar) O que interessa, o essencial a retirar daqui, é que foi um bom resultado.

    Este livro é mais denso e menos humorado do que os outros que tenho lido dele. É mais difícil de seguir, requer mais concentração. E enrola muito, mas no final percebemos o porquê de tanta enrolação. Vemos a vida de Cristo em detalhe, mas antes de Deus se lhe ter anunciado e só um bocadinho depois de ele se tornar messias miraculoso. Isto leva a uma construção do "personagem" extremamente detalhada e justifica os seus actos e a sua aceitação para carregar a palavra de Deus.

    Deus e Diabo são outros "personagens" muito interessantes. Em conversas de Jesus com eles, Saramago dá a entender que Deus não é nada boa pessoa (se é que deus é pessoa) e está a exigir os sacrifícios dos homens pelo seu próprio egoísmo. Por outro lado, o Diabo parece ser uma pessoa sensata e ponderada, que não deseja ver o sangue que Deus profetiza.

    Como sempre, extremamente bem escrito, com momentos muito belos que jorram amor por todos os lados.

    Se isto não é crítica aos Católicos, parece. Mas, seja-se Católico, Protestante, Helénico Neoclássico ou Neopagão vale sempre a pena ler este livro.
  • José e Pilar

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    José e Pilar
    Miguel Gonçalves Mendes
    Documentário
    2010
    8 em 10

    Fui ver este filme inserido no Festival do Silêncio. Acabei por ir sozinha mas não faz mal, porque valeu muito a pena.

    Este documentário segue a vida de José Saramago e Pilar del Rio, sua actual viúva, durante a concepção do livro "A Viagem do Elefante". Estava à espera que fosse um filme muito chato cheio de imagens paradas, mas a realidade é que é muito divertido. Saramago era uma pessoa muito divertida e é isso o que vemos neste filme.

    Vemos directamente as suas opiniões, a correria para cumprir a agenda, a sua doença e, sobretudo, uma história de amor. O amor entre José e Pilar é demonstrado como uma coisa extremamente bonita, de uma serenidade e simplicidade tocantes.

    Este filme inspirou-me. Quero ser assim como Saramago foi. Simples, muito ocupado mas sempre com uma palavra interessante para dizer. E rodeado de amor. 

    A Pilar estava lá para responder a perguntas, mas tive de me ir embora logo no início (se adivinharem porquê vão se rir de mim). Mas gostaria de lhe escrever, para dizer apenas "Obrigada por ter amado José Saramago e por ter tomado conta dele" 

    Filme recomendado mesmo para quem não conheça a obra. Para quem não conheça provavelmente vai inspirar à sua leitura. Também fica a curiosidade de saber o que faz exactamente a fundação José Saramago, hei-de investigar.

  • Memorial do Convento

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    Memorial do Convento
    José Saramago
    1982
    Romance Histórico

    Livro candidamente cedido pelo meu pai, que - aparentemente - está encarregado de escrever uma impossível adaptação para o cinema independente. E livro que, confesso, eu também queria ler. Porque toda a gente o odeia. Porque todo o aluno do secundário tem sido obrigado a lê-lo. E, por isso, odeiam-no. E depois disto, eu compreendo porquê. Não partilho do sentimento, mas compreendo. É um livro complicado, denso, pesado e complexo. Considerando que a maioria dos adolescentes não gosta de ler (ou gosta de vampiros), consigo imaginar o desagrado em serem obrigados a consumir esta obra. Existem outros livros do Saramago igualmente encantadores mas mais simples, nomeadamente a História do Cerco de Lisboa, mas foram logo escolher este. Enfim, que se dane. Eu cá gostei.

    Gostei porque isto é uma coisa maravilhosa. Saramago tem (tinha?) um poder descritivo fascinante e, sobretudo, ele adorava escrever. E eu adoro ler coisas que foram amadas enquanto foram escritas. Por ele, acho que tinha continuado a escrever até ao infinito, do tipo "eu não tenho mais nada para dizer, mas vou continuar a escrever sobre isto porque me apetece e porque gosto". Pensando bem, foi precisamente isso o que ele fez.

    Numa mistura de personagens reais, caracterizados de tal forma e com tal detalhe que se tornam ainda mais palpáveis, e fictícios, caracterizados com tanta simplicidade que se tornam apenas em pessoas de qualquer era, Saramago conta a história do megalómano projecto (que eu nem nunca vi) do Convento de Mafra. Projecto esse que inclui bois e pedregulhos gigantes, todos eles descritos até ao infinito.

    No fundo, este livro é a história de uma época. Mais no fundo ainda, este livro é só uma história de amor. Foi dita muita coisa, mesmo muita coisa, montanhas de detalhes completamente irrelevantes e que ainda assim precisamos mesmo de saber. Para no fim ser de uma candura e de uma simplicidade comoventes.

    É uma coisa lindíssima, que recomendo a toda a gente. Requer um bocadinho de paciência e perseverança, mas vale muito a pena.
  • A Viagem do Elefante

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    A Viagem do Elefante
    José Saramago
    Romance
    2008

    Mais uma vez, Saramago surpreende pela sua simplicidade. Não pode haver nada mais simples do que esta história: Salomão, um elefante que já tinha vindo da Índia, vai de Portugal à Áustria acompanhado pelo seu condutor Subhro. E é só isto. Neste livro vemos as aventuras deste elefante enquanto caminha de Portugal a Espanha, de Espanha à Itália, da Itália aos Alpes e dos Alpes a Viena. Só que as aventuras do elefante não são nada de especial. São apenas caminhar, comer, dormir, fazer um milagre e lembrar-se da Índia. Mas descritas com tanta graça e mestria que se torna um prazer ler este livro.

    Como habitual, temos personagens que podiam ser qualquer indivíduo. Mas sendo qualquer um, são - efectivamente - indivíduos, excelentemente caracterizados e com personalidades fortes e bem definidas. Nem uma personagem é esquecida, até os figurantes são únicos e possuem uma vida só deles. Isto contribui para a riqueza da história e para o detalhe do ambiente em que estamos. Este ambiente, a Europa do século XIV, é descrito com graciosidade, usando de comparações com a actualidade a que o narrador pertence.

    Uma beleza extraordinária, derramando sensibilidade a cada palavra. Saramago é, sem dúvida, um dos Escritores da nossa era.
  • Ensaio Sobre a Cegueira

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    Ensaio Sobre a Cegueira
    Fernando Meirelles
    Filme
    2008
    7 em 10

     Inspirado no homónimo livro do grande Saramago, este filme tenta responder a uma pergunta simples: e se toda a gente ficasse cega? É o que acontece, numa cidade desconhecida povoada de pessoas desconhecidas. Não foi a primeira vez que vi este filme, mas continua sempre a ser impressionante.

     A realização faz recurso a técnicas que, muito bem executadas, criam todo um ambiente de horror e desespero propícios à história e adequados à obra original. A obra original continua a ser muito mais horripilante e devastadora, mas ainda assim este filme faz-lhe jus. As cenas são muito intensas e há um grande esforço da produção em caracterizar bem o ambiente em que o filme se passa. Só não gostei de terem acrescentado a traição do Médico à história, dado que ela não estava no livro nem fazia ali falta.

     Os actores, todos grandes nomes, estão muito bem, sobretudo a Julianne Moore que faz o dificílimo papel de Mulher do Médico. Mas o mais impressionante são as pessoas que fazem de cegos, isto é, todos os figurantes e toda essa gente inominada que povoa o filme.

    A música também me pareceu bem, embora por vezes pareça inadequada. A música que o Velho da pala pôs para todos ouvirem pareceu-me muito pouco apropriada ao ambiente que se vivia naquele hospício.

     Um filme muito impressionante e muito bem feito. É justo para com o livro, mas o último continua a ser claramente superior.


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