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Análise: Pardalita - Uma miúda gosta de outra miúda...
Há sempre uma altura da nossa vida em que somos adolescentes. E os adolescentes são caracterizados por terem sentimentos muito intensos: eles amam intensamente, odeiam intensamente e têm um medo muito intenso também.
É essa intensidade que é demonstrada neste volume de banda desenhada nacional, assinada por Joana Estrela e publicada pelo Planeta Tangerina, editora sobretudo dedicada ao público infantil. E é precisamente ao público infanto-juvenil que esta obra é dirigida, abordando um assunto que pode ser um pouco difícil de digerir por pais e educadores:
O que acontece quando uma miúda gosta de outra miúda?
A nossa narradora descobre-se a si mesma na relação com o outro: Pardalita é o objecto de afecto, mas desconhece-o. O facto de ser nominada um "pardal" tem uma importância significativa: um passarinho pequeno, frágil, mas com um poder oculto de psicopompo que tem uma força de atracção irresistível. Conhecem-se na escola, um ambiente neutro mas habitado por uma fauna que pode ser a maior crítica de si mesma. E a narradora envolve-se no mundo do teatro, um detalhe que achei fascinante, para estar mais próxima da rapariga de quem gosta.
As dúvidas e ansiedades são expressas em desenhos simples, mas com muito dinamismo, acção e movimento, como se pode ver neste painel que cito:
O teatro é uma fonte de cultura e aprendizagem, mas também é uma fonte de poder social. Subitamente, a nossa narradora não se vê confinada aos limites dos seus amigos de sempre: agora também tem todos os amigos que estão no palco e nos bastidores, e com esse novo poder poderá ganhar a coragem para se declarar, o que vem a ser consumido numa curiosa viagem a Lisboa (os personagens são do Norte), em que perante as cores e a paisagem fluvial, Pardalita aceita a sua nova companheira e - assim - se inicia uma relação.
O que vai acontece no futuro é o mistério da vida adulta. Se um dia somos crianças, somos uma menina que recolhe um passarinho nas suas mãos para o amar e cuidar, no dia seguinte talvez esse pardal precise da liberdade de voar ou, talvez, aceite a domesticação do amor.
Por isso, quando uma miúda gosta de outra miúda, as coisas podem não ser tão simples como neste livro, mas quem nos dera que fossem sempre assim tão belas.
Análise: O Velho e a Espada - Quando da paixão se faz um filme
Iniciamos o nosso novo modelo de revies com O VELHO E A ESPADA, filme de Fábio Powers, que fomos assistir numa sessão especial de exibição na sala de espectáculos da Universidade Lusófona.
Conheci o Fábio Powers há muitos anos num evento que este organizou em Castelo Branco. Já nessa altura, o realizador alimentava a ideia de fazer um filme que fosse algo tipicamente português mas também muito ligado ao universo de fantasia de jogos (narrativos e digitais) e animes. Após anos de trabalho e dedicação, espremendo as pedras do amor e paixão pelo cinema, o resultado final está à vista como um filme de puro entretenimento.
"O Velho e a Espada" conta a história de um homem, idoso e alcoólico, que não tem qualquer objectivo de vida, e subitamente se vê envolvido na luta contra os demónios que habitam o Alentejo mais profundo, tendo na sua posse uma espada mágica e demoníaca (criada da visão do realizador e construída por Paula Nunes, @asheriabot no Instagram, amiga que muito prezo e admiro pelo seu talento multifacetado).
Este velho que agora possui a espada, interpretado pelo saudoso António da Luz, irá viver uma aventura inesquecível - para ele e para nós. A espada, com voz de João Loy, é sarcástica e cheia de personalidade, e os diálogos entre estes dois personagens inusitados são das partes mais engraçadas do filme.
Mas o que torna esta história quase mágica é o choque com a realidade em que nos encontramos porque, em falta de conclusão o realizador optou por fazer algo tão absurdo como corajoso: quebrar a quarta parede. Com isso, o filme dá uma volta inesperada, e conseguimos avaliar que - sim - este conto não é real, é apenas um filme, mas na ideia do nosso MC é tudo realidade. Então ficamos na dúvida se a magia se encontra no alcoolismo e na força da bebida, ou se por outro lado foi tudo uma espécie de elaborada piada para com o pobre personagem, para lhe animar a vida ou algo mais.
"O Velho e a Espada" foi seleccionado para vários festivais de cinema, tendo até sido premiado no Brasil. Afinal, trata-se de uma história cómica e improvável, mas que também muito caracteriza o interior do nosso país: triste, abandonado, alcoolizado e um misto de religioso e supersticioso.
Tenho muito orgulho em poder dizer que conheço este realizador, e ainda mais orgulho em saber que do seu esforço e da sua paixão nasceu um filme tão engraçado e que vem preencher a grande lacuna de cinema fantástico em Portugal.


