1.12.14

Nihon Sekai 2014

Nihon Sekai 2014
Evento

Tinha ido a este evento há dois anos. No ano passado não pude ir pois estava no Porto, mas a memória indicava-me que tinha sido bem divertido portanto este ano não o iria perder! Sabia que não iam lá estar as mesmas pessoas de há dois anos e que já não ia ser num lugar recôndito como a Azambuja, mas porque não? No entanto... Durante toda a semana passada estive doente com uma ligeira gripe, alguma febre e muita, muita tosse. Será que ia conseguir fazer a minha performance em condições? Será que conseguiria sobreviver ao evento e depois ainda ir de fim de semana para casa do Qui? Será que tudo isto iria ser possível?

Será como veremos.

Este ano o evento foi no Clube Ferroviário de Santa Apolónia, um bar onde há frequentemente eventos e concertos, associado ao pessoal ferroviário da estação ferroviária. Santa Apolónia. Acordei bem cedo para chegar a horas do primeiro workshop e desloquei-me com a minha maleta cor de rosa quadrúpede pelo sistema de transportes subterrâneo e autocarros. Depois, caminhei. Diziam que o local era a 700 metros da estação de Santa Apolónia mas a mim, doente como estava, pareceram-me 70 kilómetros. Cheguei lá acima deitando os bofes pela boca. Encontro uma fila e pergunto qual é a ponta. Ninguém sabe. De repente, a fila desaparece. E lá na ponta, rodeada por uma aura de luz azulada, qual Santa Senhora do Ó abençoando as pedras da calçada, estava a Ana-san.

"Deixa-me entrar..."

sussurrei com a voz que me restava.

E ela deixou-me entrar. Obrigada, Santa Senhora Ana, que abres as portas dos eventos e me permites dar entrada neles. ;___________;

Lá chegada, ainda não tinham aberto as portas oficialmente, já o evento estava composto. Numa primeira observação, vi um grande auditório com muitas bancas bastante bem organizadas em filas horizontais, permitindo passagem em dois largos corredores e uma parte à frente de um palco bem simpático. Antes disso, um pequeno foyer com sofás onde se podia jogar algo em televisões e um bar. Desloquei-me até ao local indicado no mapa (que se veio a revelar inútil, pois a organização física do espaço era muito diferente da esperada) onde deveria estar o bengaleiro. Ora, ninguém sabia do bengaleiro. Depois de se descobrir que o bengaleiro era efectivamente ali, ninguém sabia dos papéis para se assinalarem as bagagens. Felizmente, o mastermind do bengaleiro é conhecido e amigo, pelo que arranquei um papel do meu bloco de notas, escrevi lá o meu nome e deixei aos seus cuidados a minha maleta cor de rosa quadrúpede e o meu casaco roxo que era da minha avó.

E fui tomar um café ao terraço. A vista dele é como a que se encontra na imagem:



Lá, estive à conversa com a Ana-san e um amigo dela que iria dar uma palestra sobre o Japão. Foi um aconversa muito interessante, pois o jovem - tendo vivido no Japão - tinha histórias para contar e locais de compras para recomendar. Gostaria de ser como ele e ter a capacidade de ler livros em Japonês. Assim, poderia ler a biografia do Gackt, que comprei há anos e nunca fui capaz de ler.

Seguidamente, o primeiro workshop! Um workshop de Magic!

Quando este jogo, Magic The Gathering, apareceu todos os miúdos da minha escola andavam malucos com eel. Eu adorava ver as cartas e ler as descrições, que sempre me pareceram bastante filosóficas. No entanto, eu tinha um problema... Eu sou uma menina. E as meninas, evidentemente, não podiam jogar Magic. Estava escrito nas regras inaudíveis das escolas. Muito insisti eu, mas tudo o que me permitiram foi jogar uma versão alterada em quem tivesse a carta mais forte ganhava. Portanto, nunca aprendi a jogar. Tudo mudou durante este evento.

Escolhi um baralho azul, caracterizado por ser sobre a inteligência, introspecção e sabedoria, mas que se revelou muito fraco. Aprendi as regras e experimentei jogar. Peço desde já desculpa ao jovem com quem eu estava a jogar, pois essencialmente ele tinha de jogar por mim também, pois eu só fazia coisas parvas. Ainda assim consegui bloquear a carta mais maligna dele com um Claustrofobia e só isso já me deixou contente. Não sei se voltarei a jogar ou se passarei a fazê-lo frequentemente, mas o jogo até é bastante simples e com treino acho que chegava lá! :) E fiquei com o baralho, cujo conteúdo era uma montanha de ilhas e uma montanha de dragonetes e uma nuvem com ar maligno!

Fica a primeira nota, dirigida a todos os jovens que joguem Magic comigo, de que eu não sou um você. Eu sou um tu.

Qaundo saí do workshop, tudo tinha mudado... O evento, que estava composto, estava neste momento a rebentar pelas costuras. Como o workshop de cosplay das Kurinhas tinha sido adiado para as duas da tarde, decidi ir almoçar para ver se depois de almoço a coisa acalmava e podia tirar umas fotos e comprar umas coisas. Decidi não mais ir ao workshop de cosplay, pois estragava os meus planos de me vestir com tempo e paciência (vestir o cosplay, não é que estivesse sem roupa este tempo todo).

Como abomino conscientemente todo o conceito de noodles automáticos cancerígenos, perguntei ao segurança que estava à porta onde se comia por ali perto. Ele indicou-me um cruzamento e encontrei um magnífico restaurante onde por cinco euros me enfardei de pastéis de bacalhau e de imperial. Chamava-se "O Freixo" e foi excelente, pois a comida veio boa e rápida. Antes de voltar, decidi ir à estação de Santa Apolónia levantar dinheiro. E nesta ida e vinda aconteceu a parte mais desagradável, em que sem dúvida posso ter contribuído. Mas foi sem má intenção. Passo a relatar:

No restaurante estava um grupo de jovens pertencentes ao evento, que foram levantar dinheiro. Como fui também levantar dinheiro nessa altura, caminhei sempre uns passos atrás deles. Ora, um dos jovens era um rapaz que estava muito bem pintado com eyeliner e batom, com uma bandelete na cabeça muito bonita. Na verdade, o jovem estava muito bem vestido, mas percebi que era um rapaz porque tinha a sombra da barba. No caminho de regresso, um grupo de miudagem atrevida começa a gritar "És gajo ou gaja?" E realmente o rapaz ficou desconfortável. Eu, na minha vontade de o defender, sussurro para os putos, de forma audível "É um gajo pá!" Mas só depois de o dizer é que me cai em cima a realidade de que eu não sabia com que género o jovem se identificava. Portanto mais valia ter ficado calada, pois o que eu disse poderá ter sido mais ofensivo do que os putos a gritar. Mas, fique sabendo o jovem, que a minha intenção não foi maléfica e que achei realmente que o seu outfit estava muito interessante (e que era por isso que estava sempre a olhar para ele no restaurante). Fiquemos todos amigos :)

No regresso tentei tirar umas fotografias e comprei alguns objectos. As fotografias... Foi complicado. É que não havia espaço de manobra suficiente para pedir às pessoas que se afastassem cinco passos de mim para que eu tirasse uma foto! Assim, tenho muito poucas e a maioria são cândidas. Coloca-las-ei no fim do post, portanto mantenham-se atentos! Quanto às compras, o evento estava muito completo em termos de bancas de artistas (e os artistas são bons artistas), havendo apenas uma loja de merchandising. Assim, o meu loot do evento foi:
  • Uma camisola La Cerise
  • Um autocolante do Zorro que ganhei numa rifa (se vissem a minha histeria quando vi um autocolante do Zorro...)
  • Um baralho de iniciantes de Magic The Gathering, azulinho
  • Um DVD da Ghibli (já saberão por quê)

Momento de me vestir. Por alguma razão, depois de insistências diversas, disseram que nos era permitido trocar de roupa nos bastidores mas só a partir das três. Ora, eu queria mudar de roupa antes, portanto fui para a casa de banho. Que era mista, gelada e horrorosa. Enfim, ignorando o pobre rapaz que se esforçava para tirar tinta azul da cara, mudei de roupa muito rápido, para ninguém me ver num estado menos vestido. Que frio! Que frio nos pés! Que chão horrível! Iuca!

Sabendo que era muito pouco provável que me tirassem fotografias, pois levava um cosplay de uma personagem obscura, numa versão ainda mais obscura da personagem, fui para o terraço beber imperiais. Foi nesse momento que descobri que tinham fechado o terraço ao resto do evento, motivo pelo qual ainda estava mais cheio! Percebe-se mais ou menos, que estava toda a gente a ir para lá jogar às cartas mas que ninguém consumia. Mas mesmo assim, muito má onda. E os preços das coisas! Café a um euro e meio, imperial a dois euros e meio... Perguntei à antipática da empregada se aquilo era assim todos os dias. "Somos uma esplanada, praticamos preços de esplanada!" Minha menina, praticamos preços de esplanada abusiva ao pé do rio dirigidas à classe média-alta de turistas britânicos e pessoas pseudo-posh. Aqui na minha zona a imperial tá a cinquenta cêntimos. .____.

Entretanto, duas mocinhas tiraram-me uma foto. :) Fiquei muito feliz, se bem que não tenho esperanças que esse par de fotos apareça no mundo virtual.

Enquanto esperava pelo concurso, assisti ao que se passava no palco. Passei por uma demonstração de artes marciais, mas que não captava muito a concentração do público pois a música não era animada o suficiente. Depois, vi umas moçoilas a dançar uns bailados coreanos. Acho bem que se dance e tudo o mais, mas - pessoalmente e *sem intenção de ofender ninguém* - não gosto das músicas. Mas sim, dançavam bem, isso não se coloca em questão. Entretanto as coisas estavam meio atrasadas, portanto o apresentador tinha por força que entreter um público ávido de palminhas, coisa que foi obtida por um par de jovens que tinham uns moves dançáveis muito interessantes e esqueletónicos. :3 Durante este tempo vim a confirmar, mais uma vez, que já não gosto de OPs de anime e que as acho a todas vulgares e chatíssimas. Confirma-se: eu não tenho piada.

Encontrei uma moça que encontro sempre e que trás sempre a t-shirt do YFC e a quem digo sempre a mesma coisa. A tua t-shirt é linda. Eu estive lá e eu compreendo a beleza interna da tua t-shirt. Tu és uma pessoa maravilhosa por teres essa t-shirt. Viva YFC! E eu digo sempre a mesma coisa porque é verdade. :)

Começa o concurso. Descalço-me. Chão frio. E agora vem um momento altamente explicativo.

Quando vi as regras do concurso, não gostei delas. Achei que estavam demasiado detalhadas para um concurso de pequena envergadura e que davam pouca liberdade de escolha se uma pessoa quisesse realmente ganhar. Mas eu não quero realmente ganhar. Eu quero fazer coisas. Então, decidi participar de forma a que fosse muito difícil de me avaliarem, se não impossível. Para começar, não levei um fato complexo. Levei o fato mais simples que tenho, caracterização mínima, sem props. sem nada. Depois, como skit, decidi fazer algo extremamente parvo.

Para começar, trabalhei com o meu amigo R. para produzir uma música inesquecível, uma cover vanguardista do senhor que mais contribuiu para o espalhar das oliveiras em Portugal e arredores. Depois, fiz uma performance baseada nessa música com conotações altamente obscuras e representativas do nada. Isto, no fundo, para dizer que um actor não precisa de nada para fazer teatro, para além de público. Não é preciso guarda roupa, não é preciso cenário, não é preciso efeitos visuais, não é preciso sequer um bom texto. Porque sim, é possível fazer teatro baseando-nos inteiramente numa música tão idiota, ridícula e sem significado como a Cabritinha do Quim Barreiros.

Podem ouvir a música aqui em breve.
E aqui, em breve, a versão Uncut, também conhecida por Jam.

Claro que isto tudo, apesar de estúpido e ridículo, tem uma explicação altamente filosófica por trás. Na verdade, na inscrição pediam que explicássemos o nosso skit. A explicação que mandei foi a seguinte:

Antes de mais, é importante contextualizar a personagem. O manga e anime de origem apareceram na vanguarda dos anos 70, num Japão cada vez mais feminizado que procurava o lugar da figura feminina na sociedade. Assim, aparece este anime, que fala sobre a luta de uma rapariga em se tornar numa actriz reconhecida, fazendo uso dos seus talentos e aprendizagem nesse campo. Portanto, consideremos: a personagem é actriz. E para se fazer teatro são necessárias duas coisas: actor e público. Assim, este skit aparece pegando nesse conceito. Para ilustrar a ideia, produzi uma música original - juntamente com um amigo que explora a música experimental - que se trata de uma cover vanguardista de uma música tradicional sobejamente conhecida por todos. A música trará reminiscências da vanguarda setentista, sendo que a letra também aborda o papel da mulher da forma exactamente oposta à do anime: nesta música a mulher é reduzida a espécimen e ridicularizada. Assim, a personagem irá entrar numa espiral descendente, em que recebe o "leite" metafísico, não da mãe mas sim do homem, denegrindo-se e humilhando-se como ser humano, mas elevando-se como personagem social. Em termos cénicos, dado adquirido de que o cenário não é condição necessária ao teatro, decidi metaforizar os termos "peito", "mama" e "leite", representando cada "animal" (homem) em pacotes de leite, orientados no espaço como quadrantes cardeais, com uma significância absurdista com influências de Ionesco. Para representar o final "a cabra", aquilo que oferece o "leite primordial", o mais importante, utilizarei uma caneca tradicional (assim unindo os pontos vanguarda e tradição portuguesa) das festas da cidade de Tomar, contendo o branco representativo. No final, o efeito pretendido será o espanto, absurdidade e incoerência, transportando o skit de cosplay para o campo do teatro do absurdo, minha preferência como actriz. Assim se espera um skit de pouco efeito cómico, pouco compreensível para o público, mas com interesse teatral mínimo, para adição ao portfolio daquela que vos escreve.

E eu realmente não sei o que aconteceu. As pessoas riram-se, apesar da minha baixa forma (já da última vez que tinha utilizado este cosplay estava doente) a coisa correu bem, mas isto foi totalmente inesperado! Porque eu fiquei em Terceiro Lugar! Fiquei super-hiper-mega-ri-contente e muito motivada para ir tirar umas fotos com este fato e fazer outro skit absurdo em breve! Muito obrigada! Espero que tenham gostado, pois no fundo, apesar de todas as coisas anti-sistema que este skit significava, o objectivo era entreter e mostrar algo diferente ao público. Gosto muito de vocês, público. :)

Com o prémi, cinco euros na Loja Neko, comprei o DVD "O Reino dos Gatos", do Studio Ghibli. Podia ter comprado cinco autocolantes ou dois porta chaves, mas achei melhor dar outros cinco euros e ficar com um DVD de um filme que ainda não tinha visto.

Consegui despedir-me do pessoal decentemente desta vez e para despir o fato e colocar-me à civil de novo deixaram-me ir para os camarins. Lá, estive à conversa com a Cátia - que fez o excelente trabalho de organizar este concurso, em que correu tudo nos eixos. :) Só não consegui encontrar as moças do Monte da Caparica para ir de barco com elas, desculpem... :<

Assim, no geral, pareceu-me um excelente evento. O espaço era muito bom, se bem que a inesperada enchente de pessoas o tornou muito pequeno. Mas o facto de ter estado tão cheio significa que foi um sucesso e que para o ano teremos de ter um Nihon Sekai num lugar muito maior. Foi bom para encontrar pessoas, conversar, fazer um skit bizarro, comprar uma linda camisola, ver a vista... Enfim, foi só o início de um fim de semana maravilhoso!

Portanto, obrigada e até à próxima! Agora, o que estavam todos à espera....

FOTOS!!







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