15.8.17

A Rede Social

A Rede Social
David Fincher
2010
Filme
6 em 10

Este filme estava a dar na televisão e, como é um dos filmes preferidos do Qui, ficámos a vê-lo.

É uma biografia sobre o Facebook. Sobre os seus primórdios e a sua criação. Mark Zuckerberg é um pequeno génio da informática que, devido à sua incapacidade social, decide criar uma rede social inspirada nas redes sociais das faculdades americanas, a que dá o nome de TheFacebook. Para isso conta com a ajuda e inspiração de alguns amigos. Mas quando os lucros e o sucesso saem do seu controlo, revela-se que este jovem afinal é menos simpático do que parecia e, agora, está prestea  a enfrentar uma série de processos judiciais por razões que ele próprio desconhece.

Dou uma classificação mediana a este filme porque, na verdade, não lhe encontrei grande interesse técnico em termos narrativos. No entanto, é o tipo de filme que nos deixa a pensar sobre a nossa própria situação actual. Hoje em dia, é rara a pessoa que não tem uma completa dependência pelo facebook (eu inclusa). O vício da popularidade, em ter amigos, em ter feedback, tudo isso é caracterizado neste filme desde a sua origem: porque, afinal, toda a rede social foi criada no desespero de se ter uma rede social. E, no fundo, tudo isso é falso.

É um filme que nos deixa a pensar sobre nós próprios e na nossa maneira de interagir com a internet.

Glass Mask

Glass Mask
Hamatsu Mamoru - Tokyo Movie Shinsha
Anime - 51 Episódios
2005
7 em 10

De vez em quando, muito raramente, existe um anime que eu gosto realmente, mas realmente mesmo muito, de ver. Este foi um deles!

Remake de um dos meus animes preferidos dos anos 70, Glass Mask, do qual cheguei a fazer cosplay da personagem principal, Maya Kitajima, é um anime que nos conta a história de uma rapariga que ama o teatro e tem o sonho de o fazer para o resto da vida. Seguimos o seu crescimento enquanto actriz e enquanto pessoa, fazendo papéis cada vez mais difíceis e explorando cada vez mais novas técnicas que lhe irão permitir cumprir com o mais complicado: tornar-se a actriz escolhida para interpretar uma peça perdida e lendária.

Para mim, o mais importante deste anime são as personagens. Os seus dramas pessoais são perfeitamente realistas e a forma como estes são usados para a interpretação das peças é feito com grande mestria. A exploração dos exercícios de teatro e da forma como cada personagem os ultrapassa é inspirador e muito motivador para qualquer pessoa que deseje envolver-se no meio artístico.

Infelizmente, não se trata de um anime perfeito. O seu principal problema encontra-se no ritmo. Muitas vezes, na transição dos episódios, há muitos detalhes que se perdem e que nos deixam  desorientados no seguimento da narrativa. Existem também falhas dentro dos próprios episódios, em que certas acções são ignoradas. Também a arte não é nada de extraordinário, com designs pouco detalhados, cenários mal cuidados e uma animação abaixo da média.

Fica a nota para a brilhante actuação das actrizes de voz, que a deram a tantos personagens como as intervenientes do anime.

Recomendo bastante, sobretudo a fãs do mundo do teatro!

A Festa do Chibo

A Festa do Chibo
Mario Vargas Llosa
2000
Romance

Um romance político do meu querido Vargalhosa, mas que não apreciei muito. Afinal, sendo o Vargalhosa peruano, será que pode apresentar-se como crítico de um regime de um país que não é o dele? É que este livro é sobre o regime ditatorial da Rapública Dominicana (que eu nem sabia que tinha tido um regime ditatorial)

Seguindo três linhas narrativas, conta a história da ascensão e queda de Trujillo, o ditador, com as consequências para aqueles que perpretaram o crime. O livro fala-nos dos horrores do regime, do medo da população, dos apetites sexuais dos seus intervenientes e, no fundo, do pavor que é viver neste tipo de situação.

Depois do atentado, seguimos os horrores da tortura para aqueles que o cometeram e também as consequências políticas do acto, em que as pessoas que pareciam mais inocentes se revelam com uma fibra moral inabalável.

Não é que seja um livro mau, mal escrito ou algo do género. Apenas não sinto que o tema tenha a importância devida para o autor e que, por causa disso, exista um exagero na revelação das situações por mera antipatia.

Kimi no Na wa.

Kimi no Na wa.
Shinkai Makoto - CoMix Wave Films
Anime - Filme
2016
6 em 10 

O Qui estava curioso com este filme, pois foi o filme mais visto no Japão do último ano e, para além disso, está com classificações superiores a 80% em todos os sites de referência. Queríamos, sem dúvida, saber a razão deste estrondoso sucesso. Agora, depois de ver o filme, compreendo a causa da popularidade, mas devo dizer que discordo.

Shinkai Makoto é um dos meus realizadores de anime preferidos, sendo que vi praticamente toda a sua obra desde os seus tempos de estudante. Os seus temas envolvem sempre encontros e desencontros separados por um espaço-tempo inultrapassável, sendo que tudo isto é coroado por uma arte quasi-divina e uma animação superior em todos os aspectos, o que se torna ainda mais extraordinário pelo facto de Shinkai fazer praticamente tudo sozinho no seu apartamento.

Kimi no na wa. (Your Name) aparece como uma das suas primeiras grandes produções: finalmente foi dado um orçamento ao autor conforme ele merecia. E Shinkai não fez por menos.

Ora, aqui a questão prende-se, talvez, com o meu conhecimento da obra do autor. Este filme acaba por não trazer nada de novo ao panorama, quer em termos narrativos quer em termos de tema. Um rapaz da cidade e uma rapariga do campo trocam de corpo, apenas para descobrir mais tarde que nunca poderão vir a conhecer-se por razões que depois serão explicadas. Se ao início esta troca é engraçada e cândida, rapidamente cai no esquecimento narrativo, a partir do momento em que se revela que as causas são históricas e sobrenaturais, numa espécie de golpe publicitário a uma região pouco conhecida e ao seu folclore (repare-se que os últimos trabalhos do autor são todos spots de publicidade). A apoteose final é exagerada e a conclusão melodramática e desnecessária.

As personagens também não têm uma caracterização suficientemente sólida para que as suas trocas façam sentido em termos sociais. Nenhum dos intervenientes tem uma personalidade marcada e os seus desejos estão reduzidos a "eu gostava de ter uma vida diferente". Isto no caso da rapariga, pois o rapaz não aparenta ter qualquer tipo de sonhos futuros.

Sem dúvida que a arte é espectacular, mas isso é apenas o que se espera de um Shinkai cheio de dinheiro. No entanto, existe aqui um facilitismo nos cenários: muito detalhados, mas com técnicas de rotoscópio isso não é assim tão complicado. No fundo, trata-se da cópia de uma fotografia com uma animação veloz. Existem nuvens, o principal talento do autor, existem meteoros brilhantes. Mas, para mim, a única parte verdadeiramente interessante da animação foi a sequência de flashback.

Também a música sabe a pouco: temos um conjunto de peças muito pop em que o autor parece tentar remeter-nos para uma espécie de videoclip, em contraposição a situações instrumentais muito dramáticas que não são nada mais do que o vulgar neste tipo de anime.

Enquanto peça individual, trata-se de um filme acima da média, claro. Mas penso que as classificações exageradas se devem ao facto de o espectador comum não estar de todo habituado a este tipo de animação. Assim, dentro do contexto do autor e do anime desse ano, trata-se de um filme dentro da normalidade.

Timbuktu

Timbuktu
Paul Auster
1999
Romance

em princípio, deveria gostar deste livro, já que é sobre um cão. Mas foi uma experiência algo desapontante.

Mr. Bones é o companheiro canino de Christmas, um poeta sem-abrigo que se encon tra às portas da morte. Mr. Bones reflecte no seu passado com o adorado dono e no destino que terá após a sua morte. Depois, procura uma nova vida, sem grande sucesso, sempre interrompido por estranhos sonhos em que o dono lhe diz sábias palavras e o tenta orientar para o sucesso e conforto.

O problema principal deste livro está na caracterização de Mr. Bones enquanto cão. Os seus pensamentos e reflexões estão demasiado humanizados, de forma a que o cão, um animal, tem conhecimento de coisas que seriam impossíveis para o seu pequenino cérebro irracional. As imagens de desejos de futuro, a contemplação de Timbuktu enquanto paraíso de reencontro, tudo isso são conceitos que seriam alienígenas para um canídeo.

O autor esforça-se também por caracterizar um pouco a forma de vida do sem-abrigo no contexto da época, mas o facto de não existirem muitos pontos de referência geográficos torna tudo um pouco difuso.

Não recomendaria.

4.8.17

Vinte e Zinco

Vinte e Zinco
Mia Couto
1999
Novela

Este livro aparece na sequência de uma colecção temática da Editorial Caminho, com o mote do "25 de Abril", em 1999. Esta é a perspectiva de Mia Couto sobre a data em causa. Ora, eu por norma não gosto do Mia Couto. Sempre o achei um pedante que se acha muito especial por inventar palavras novas. Mas este livro foi, de certa forma, uma experiência diferente, porque tudo o que eu tinha por defeito do autor se dilui nesta narrativa.

Nos dias imediatamente antes e após o 25 de Abril em Lisboa, um grupo de habitantes de uma pequena aldeia africana não sabe o que fazer. Ora, um deles é agente da PIDE e tem muitos traumas sobre os quais se podem falar. É na relação destes personagens, as revelações sobre a realidade em oposição às sequências mágicas e feiticeiras dos hábitos locais, que o autor se baseia para nos mostrar a consequência imediata da revolução.

A caracterização dos personagens é curta mas essencial, sendo que poderiam todos ter sido um pouco mais explorados se houvesse mais "tempo". A forma como tudo está descrito é muito simples, quase infantil, apesar da brutalidade de algumas das situações. E quanto às palavras inventadas, elas fluem com toda a naturalidade, assemelhando-se em tudo às suas partes que figuram realmente no dicionário.

Será este o primeiro passo para fazer as pazes com o autor? Quem sabe... ;)

Federico García Lorca - Antologia

Federido García Lorca - Antologia
Federico García Lorca
Anos 20
Poesia

Esta é uma antologia poética do autor espanhol que compreende três dos seus livros: "Romancero Gitano", "Poeta En Nueva York" e "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías". É uma edição espanhola, o que torna a leitura um pouco mais difícil para mim, mas ainda assim é perfeitamente compreensível na generalidade.

E, devo dizer, foram dos poemas mais extraordinários que li ultimamente. Lorca mostra-nos nas suas palavras uma Espanha rural, perdida, violenta e quente, muito sensual mas ao mesmo tempo brutalmente destrutiva. Cada poema tem uma densidade própria, sendo que algumas das palavras, alguns versos, alguns conceitos, nos caem no estômago como um soco, uma pedra atirada directamente até à nossa consciência.

Tendo sempre presente a ideia da morte trágica protagonizada por este poeta, a sua poesia justifica plenamente o que poderia ter acontecido, a injustiça, o horror de se viver num regime em que até um simples poema pode ser considerado subsersivo e contra os ideais do sistema. E a verdade é que Lorca denuncia as injustiças uma e outra vez, sem nunca pensar por um momento que ele próprio poderia vir a ser vítima das mesmas.

O meu preferido foi, realmente, o "Romancero Gitano", sendo que "Poeta En Nueva York" nos mostra uma poesia um pouco mais directa e menos metafórica, com mais realidade vista de outra perspectiva do que o universo fantasioso e mágica da lua cigana.

De todos os modos, é uma poesia descorçoada e absolutamente fascinante. Recomendo vivamente!