25.6.17

Fanny Owen

Fanny Owen
Agustina Bessa-Luís
1979
Romance

Foi a minha primeira experiência com esta autora e devo dizer que fiquei muito impressionada. Um livro viciante!

Conta a história dos amores e desamores entre José Augusto e Fanny Owen, amigos de Camilo Castelo Branco. A história é simples e trágica, mas o que cativa neste livro não é a narrativa: é a forma como tudo está escrito e descrito. A autora é uma mestra das palavras e localiza este livro num tempo passado, como se tivesse sido realmente escrito no século XIX. O vocabulário utilizado é antiquado, mas isto funciona perfeitamente dentro do contexto. Para mais, segundo consta, os diálogos dos personagens são retirados das suas cartas e diários, o que imprime um imenso realismo a toda a obra.

Este livro é um excelente repositório de descrições dos hábitos da época, muito mais do que se tivesse sido escrito na própria época. Assistimos tanto aos bailes repletos de vestidos e tecidos luxuosos como às conversas e dramas pessoais da gente regular, que sem d´+uvida vê a vida de uma forma diferente.

Fiquei muito entusiasmada com este livro e espero poder ler mais desta autora em outras ocasiões.


Osso Vaidoso

Osso Vaidoso
Concerto
 
A Casa da Cerca, aqui em Almada, tem organizado os chamados "Concertos ao Pôr do Sol", a propósito de uma instalação artística sobre os cinco sentidos que lá está exposta. É um concerto mensal e o deste mês foi Osso Vaidoso, uma banda que adoro, como provavelmente sabem. :)
 
Estavam instalados sobre a relva, iluminados por lâmpadas amarelas, rodeados por um morcego ou outro. Havia uma certa aura de magia no meio disto tudo, associada aos sons dolorosos daquela guitarra e à poesia das letras das músicas.
 
Apresentaram-se com uma nova formação, incluindo um membro que nos oferecia a samplagem de alguns beats que, juntamente com aquilo que já conhecíamos, apenas acrescentou mais textura a estes sons. Mostraram-nos um novo álbum, "Miopia", que usa nas músicas poemas de alguns consagrados poetas. São músicas que, com a guitarra crua e a voz possante, nos mostram um lado negativo, um lado mau, um lado... Maroto.
 
Enquanto isso, a querida vocalista queixava-se que tinha frio, fome, sede, xixi... Tadinha, o ambiente estava mesmo contra ela! Mas tudo isto demonstrava uma química muito especial entre os membros da banda.
 
No final tocaram para nós alguns sons mais conhecidos do primeiro álbum "Animal", sempre com cuidado para não abusar muito da linguagem (havia muitas crianças a assistir).

Um concerto muito agradável, com música muito poderosa e que nos deixa a pensar.

The Salesman

The Salesman
Asghar Farahdi
2016
Filme
6 em 10

Este filme foi o vencedor do óscar para melhor filme estrangeiro no último ano. No entanto, devo dizer que não o achei nada de especial e até considero que tem coisas imperdoáveis.

Um casal tem de sair da sua casa porque o prédio se está a desmoronar. São actores e neste momento estão a encenar a peça "The Salesman". Mudam-se para outra casa, onde a antiga inquilina tinha uma profissão um pouco duvidosa. Por isso, não é surpreendente quando a nova habitante da casa é atacada no banho por um antigo cliente da anterior. A partir daí desenvolve-se um drama pessoal em que a mulher tenta encontrar um equilíbrio entre a sua vida e o trauma e o homem começa uma busca obsessiva e incessante por vingança.

Mas, apesar de os personagens estarem bem caracterizados e possuirem uma grande dimensão humana, existem muitos erros narrativos neste filme, como por exemplo... Se os vizinhos ajudaram a mulher, porque é que não disseram logo ao marido quando ele chegou? Se ela gritou assim que foi atacada, como é que o atacante teve tempo de tirar as meias? E assim por diante.

Para além disso, há o início de algumas narrativas paralelas (por exemplo, o confronto com o outro actor) que acabam por ficar a meio sem ser exploradas.

Foi um filme um pouco novelesco e,sobretudo, muito desapontante.

Um Quarto com Vista

Um Quarto com Vista
 Edward Morgan Forster
1903
Romance

Os romances desta época têm uma tendência muito incomodativa de me chatearem de morte, sobretudo quando são escritos por senhores ingleses que admiram a sua capacidade de serem senhores ingleses.

Este livro é um resumo da vida quotidiana do meio rural britânico, tendo como mote a visita a Itália de uma rapariga que, se a pudermos caracterizar em uma palavra, é parva. A viagem a Itália, que aparentava ser o foco principal do livro, acaba por se remeter à irrelevância perante os acontecimentos que atingem os personagens no seu regresso à sociedade inglesa. Esta é retratada de uma maneira plena de orgulho próprio e um certo patriotismo bacoco, mas ainda assim com uma certa dose de autocrítica, na medida em que a rapariga parva acaba por descobrir que sofreu alterações emocionais fatigantes na sua viagem.

Outro aspecto que não gostei é o facto de o livro estar narrado da perspectiva feminina e ainda assim  conseguir ser essencialmente machista, dominador e redutor. Quando a personagem diz que se sente inferiorizada pela ideia de que "sou mulher e deveria estar sempre a pensar em homens", os quea rodeiam, homens e mulheres, levam-na ainda mais ao ridículo, provando que sendo fekminina é precisamente esse o único pensamento que tem.

Não apreciei de todo este livro, embora compreenda a sua importância histórica.

87ª Feira do Livro de Lisboa

87ª Feira do Livro de Lisboa

 Este ano não estava muito motivada para ir à Feira do Livro. Não estava com muitos fundos para investir em ainda mais livros e, sobretudo, comecei uma TBR enorme e não preciso de ainda mais livros (lol). Ainda assim, o Qui queria ir e a Ana-san e o pessoal iriam estar por lá, portanto consegui convencer-me a mim própria para fazer este passeio.

Fomos de barco e subimos a Avenida da Liberdade toda a pé, o que demorou o seu tempo. Isto significa que assim que cheguei à Feira propriamente dita já estava mais para lá do que para cá e, sobretudo, cheia de fome. Apetecia-me imenso, imenso, imenso!, um cachorro quente! No entanto, na banquinha dos cachorros não havia salsichas vegetarianas... Este ano a Feira estava muito bem servida de bancas de comida um bocadinho mais alternativas (para não usar o epíteto "gourmet"), pelo que havia muito por onde escolher. Acabei por comer uma espécie de crepe enrolado com salmão, que estava muito bom - apesar de o preço ser ligeiramente proibitivo. Enquanto comia, estava um palco com uma senhora a demonstrar as receitas de um livro de culinária. Só me apetecia dizer-lhe "dá-me isso para eu comer, dá pra mim dá!"

Depois fizemos o nosso circuito habitual, da direita para a esquerda, passando primeiro pelos alfarrabistas. Este ano fiquei especialmente surpreendida pelo valor dos livros: não havia nem um volume a menos de cinco euros! O que, de certa forma, contribuiu muito para o meu auto-controlo. Enquanto isso, ia telefonando à Ana-san, que se encontrava sempre no canto oposto do sítio onde estávamos, hahaha ^_^

Deste lado da feira, o elemento mais curioso a acontecer foi uma feirante que me queria obrigar a comprar um livro horroroso, com um vulcão em erupção na capa, chamado "Dianética - o Poder da Mente sobre o Corpo". Foi muito difícil explicar-lhe que não tencionava que a minha mente se apoderasse do meu corpo.

Quando demos a volta ofereceram-nos umas latinhas de cidra Strongbow, muito pequeninas mas muito fresquinhas. No entanto, talvez devido aos excessos da noite anterior, a cidra caiu-me muito mal e fiquei cheia de dores de barriga e puns :(

Do outro lado, desta feita, havia bancas bastante mais interessante. Perdi algum tempo numa que tinha livros sobre paganismo, sendo que havia muitos muito interessantes. Tive foi vergonha de ir espreitar a banca das publicações espíritas, tema que tenho explorado ultimamente apesar de não ser do meu especial interesse. 

Assim , saí da feira com um único livro: !Os Jardins de Luz, de Amin Maalouf. Escolhi-o porque li um volume deste autor há pouco tempo e gostei imenso, pelo que quis expermintar outro!

Só mesmo quando estávamos a ir embora encontrámos o pessoal! Ainda deu para vermos os livros que uns e outros havíamos comprado!

E assim se passou uma Feira do Livro com contenção de custos...

21.6.17

Olhos Azuis, Cabelo Preto

Olhos Azuis, Cabelo Preto
Marguerite Duras
1986
Romance

Avanço desde já que nunca gostei especialmente desta autora.

Este é um romance muito curto, leitura para uma hora e meia, que fala da relação entre homem-mulher, explorando as suas fragilidades: ciúme, traição, inconsequência e falta de dedicação. Tudo isto seria uma excelente ideia, se a autora se tivesse dado ao trabalho de caracterizar minimamente os seus personagens.

O único personagem que vive realmente é o fugaz "olhos azuis cabelo preto", que aparece uma vez e acaba por ser o tema de conversa recorrente entre o homem e a mulher que, por alguma razão ainda estão juntos e partilham uma cama de hotel. Para quê? Não se explica.

Para além do mais, os personagens estão constantemente a chorar. Qualquer coisa que se lhes diga, choram. Qualquer coisa que aconteça, choram. Qualquer referência às boas memórias do "olhos azuis cabelo preto"... Choram. Que melodrama!

Não achei mesmo graça nenhuma a este livro. Não recomendo.

Fogo Pálido

Fogo Pálido
Vladimir Nabokov
1962
Romance 

Foi o primeiro livro do autor que li depois de "Lolita", que passou pelas minhas mãos há muitos anos atrás. Cheguei à conclusão de que o pobre Vladimir não regula muito bem da pinha.

Um livro muito recordatório de Joyce, pela forma de escrita e, talvez, pelo tema abordado, relata-nos uma estranhíssima história de um poema, um poeta e um misterioso reino do norte e sua família real.

Shade, um poeta famoso (penso que inventado) escreveu o poema "Fogo Pálido". Agora, um dos seus mais próximos amigos (supostamente) decidiu publicá-lo acompanhado por uma análise detalhadíssima. No entanto, esta análise trata quase em exclusivo daquilo que o amigo influenciou no poema. Isto é: conta a história do amigo como se o poema tivesse sido escrito para ele. O que é muito estranho, porque o poema não se pode interpretar dessa forma, mesmo que seja inventado, mesmo que não exista. Fala simplesmente de outros assuntos!

Mas o analista insiste que o poema é sobre ele e sobre o seu fantástico e amado reino de Zemla, onde houve grandes acontecimentos relativos à deposição e fuga do rei, que se vem a saber muito mais tarde que terá mais influência na vida do autor do poema do que possamos imaginar.

Nabokov inventa palavras e frases, inventa uma história que, não fazendo sentido, é muito engraçada. Portanto, para quem só conhece a sua obra mais popular, sugiro que tentem este livro. Irá certamntew surpreender-vos!