25.6.17

Fanny Owen

Fanny Owen
Agustina Bessa-Luís
1979
Romance

Foi a minha primeira experiência com esta autora e devo dizer que fiquei muito impressionada. Um livro viciante!

Conta a história dos amores e desamores entre José Augusto e Fanny Owen, amigos de Camilo Castelo Branco. A história é simples e trágica, mas o que cativa neste livro não é a narrativa: é a forma como tudo está escrito e descrito. A autora é uma mestra das palavras e localiza este livro num tempo passado, como se tivesse sido realmente escrito no século XIX. O vocabulário utilizado é antiquado, mas isto funciona perfeitamente dentro do contexto. Para mais, segundo consta, os diálogos dos personagens são retirados das suas cartas e diários, o que imprime um imenso realismo a toda a obra.

Este livro é um excelente repositório de descrições dos hábitos da época, muito mais do que se tivesse sido escrito na própria época. Assistimos tanto aos bailes repletos de vestidos e tecidos luxuosos como às conversas e dramas pessoais da gente regular, que sem d´+uvida vê a vida de uma forma diferente.

Fiquei muito entusiasmada com este livro e espero poder ler mais desta autora em outras ocasiões.


Osso Vaidoso

Osso Vaidoso
Concerto
 
A Casa da Cerca, aqui em Almada, tem organizado os chamados "Concertos ao Pôr do Sol", a propósito de uma instalação artística sobre os cinco sentidos que lá está exposta. É um concerto mensal e o deste mês foi Osso Vaidoso, uma banda que adoro, como provavelmente sabem. :)
 
Estavam instalados sobre a relva, iluminados por lâmpadas amarelas, rodeados por um morcego ou outro. Havia uma certa aura de magia no meio disto tudo, associada aos sons dolorosos daquela guitarra e à poesia das letras das músicas.
 
Apresentaram-se com uma nova formação, incluindo um membro que nos oferecia a samplagem de alguns beats que, juntamente com aquilo que já conhecíamos, apenas acrescentou mais textura a estes sons. Mostraram-nos um novo álbum, "Miopia", que usa nas músicas poemas de alguns consagrados poetas. São músicas que, com a guitarra crua e a voz possante, nos mostram um lado negativo, um lado mau, um lado... Maroto.
 
Enquanto isso, a querida vocalista queixava-se que tinha frio, fome, sede, xixi... Tadinha, o ambiente estava mesmo contra ela! Mas tudo isto demonstrava uma química muito especial entre os membros da banda.
 
No final tocaram para nós alguns sons mais conhecidos do primeiro álbum "Animal", sempre com cuidado para não abusar muito da linguagem (havia muitas crianças a assistir).

Um concerto muito agradável, com música muito poderosa e que nos deixa a pensar.

The Salesman

The Salesman
Asghar Farahdi
2016
Filme
6 em 10

Este filme foi o vencedor do óscar para melhor filme estrangeiro no último ano. No entanto, devo dizer que não o achei nada de especial e até considero que tem coisas imperdoáveis.

Um casal tem de sair da sua casa porque o prédio se está a desmoronar. São actores e neste momento estão a encenar a peça "The Salesman". Mudam-se para outra casa, onde a antiga inquilina tinha uma profissão um pouco duvidosa. Por isso, não é surpreendente quando a nova habitante da casa é atacada no banho por um antigo cliente da anterior. A partir daí desenvolve-se um drama pessoal em que a mulher tenta encontrar um equilíbrio entre a sua vida e o trauma e o homem começa uma busca obsessiva e incessante por vingança.

Mas, apesar de os personagens estarem bem caracterizados e possuirem uma grande dimensão humana, existem muitos erros narrativos neste filme, como por exemplo... Se os vizinhos ajudaram a mulher, porque é que não disseram logo ao marido quando ele chegou? Se ela gritou assim que foi atacada, como é que o atacante teve tempo de tirar as meias? E assim por diante.

Para além disso, há o início de algumas narrativas paralelas (por exemplo, o confronto com o outro actor) que acabam por ficar a meio sem ser exploradas.

Foi um filme um pouco novelesco e,sobretudo, muito desapontante.

Um Quarto com Vista

Um Quarto com Vista
 Edward Morgan Forster
1903
Romance

Os romances desta época têm uma tendência muito incomodativa de me chatearem de morte, sobretudo quando são escritos por senhores ingleses que admiram a sua capacidade de serem senhores ingleses.

Este livro é um resumo da vida quotidiana do meio rural britânico, tendo como mote a visita a Itália de uma rapariga que, se a pudermos caracterizar em uma palavra, é parva. A viagem a Itália, que aparentava ser o foco principal do livro, acaba por se remeter à irrelevância perante os acontecimentos que atingem os personagens no seu regresso à sociedade inglesa. Esta é retratada de uma maneira plena de orgulho próprio e um certo patriotismo bacoco, mas ainda assim com uma certa dose de autocrítica, na medida em que a rapariga parva acaba por descobrir que sofreu alterações emocionais fatigantes na sua viagem.

Outro aspecto que não gostei é o facto de o livro estar narrado da perspectiva feminina e ainda assim  conseguir ser essencialmente machista, dominador e redutor. Quando a personagem diz que se sente inferiorizada pela ideia de que "sou mulher e deveria estar sempre a pensar em homens", os quea rodeiam, homens e mulheres, levam-na ainda mais ao ridículo, provando que sendo fekminina é precisamente esse o único pensamento que tem.

Não apreciei de todo este livro, embora compreenda a sua importância histórica.

87ª Feira do Livro de Lisboa

87ª Feira do Livro de Lisboa

 Este ano não estava muito motivada para ir à Feira do Livro. Não estava com muitos fundos para investir em ainda mais livros e, sobretudo, comecei uma TBR enorme e não preciso de ainda mais livros (lol). Ainda assim, o Qui queria ir e a Ana-san e o pessoal iriam estar por lá, portanto consegui convencer-me a mim própria para fazer este passeio.

Fomos de barco e subimos a Avenida da Liberdade toda a pé, o que demorou o seu tempo. Isto significa que assim que cheguei à Feira propriamente dita já estava mais para lá do que para cá e, sobretudo, cheia de fome. Apetecia-me imenso, imenso, imenso!, um cachorro quente! No entanto, na banquinha dos cachorros não havia salsichas vegetarianas... Este ano a Feira estava muito bem servida de bancas de comida um bocadinho mais alternativas (para não usar o epíteto "gourmet"), pelo que havia muito por onde escolher. Acabei por comer uma espécie de crepe enrolado com salmão, que estava muito bom - apesar de o preço ser ligeiramente proibitivo. Enquanto comia, estava um palco com uma senhora a demonstrar as receitas de um livro de culinária. Só me apetecia dizer-lhe "dá-me isso para eu comer, dá pra mim dá!"

Depois fizemos o nosso circuito habitual, da direita para a esquerda, passando primeiro pelos alfarrabistas. Este ano fiquei especialmente surpreendida pelo valor dos livros: não havia nem um volume a menos de cinco euros! O que, de certa forma, contribuiu muito para o meu auto-controlo. Enquanto isso, ia telefonando à Ana-san, que se encontrava sempre no canto oposto do sítio onde estávamos, hahaha ^_^

Deste lado da feira, o elemento mais curioso a acontecer foi uma feirante que me queria obrigar a comprar um livro horroroso, com um vulcão em erupção na capa, chamado "Dianética - o Poder da Mente sobre o Corpo". Foi muito difícil explicar-lhe que não tencionava que a minha mente se apoderasse do meu corpo.

Quando demos a volta ofereceram-nos umas latinhas de cidra Strongbow, muito pequeninas mas muito fresquinhas. No entanto, talvez devido aos excessos da noite anterior, a cidra caiu-me muito mal e fiquei cheia de dores de barriga e puns :(

Do outro lado, desta feita, havia bancas bastante mais interessante. Perdi algum tempo numa que tinha livros sobre paganismo, sendo que havia muitos muito interessantes. Tive foi vergonha de ir espreitar a banca das publicações espíritas, tema que tenho explorado ultimamente apesar de não ser do meu especial interesse. 

Assim , saí da feira com um único livro: !Os Jardins de Luz, de Amin Maalouf. Escolhi-o porque li um volume deste autor há pouco tempo e gostei imenso, pelo que quis expermintar outro!

Só mesmo quando estávamos a ir embora encontrámos o pessoal! Ainda deu para vermos os livros que uns e outros havíamos comprado!

E assim se passou uma Feira do Livro com contenção de custos...

21.6.17

Olhos Azuis, Cabelo Preto

Olhos Azuis, Cabelo Preto
Marguerite Duras
1986
Romance

Avanço desde já que nunca gostei especialmente desta autora.

Este é um romance muito curto, leitura para uma hora e meia, que fala da relação entre homem-mulher, explorando as suas fragilidades: ciúme, traição, inconsequência e falta de dedicação. Tudo isto seria uma excelente ideia, se a autora se tivesse dado ao trabalho de caracterizar minimamente os seus personagens.

O único personagem que vive realmente é o fugaz "olhos azuis cabelo preto", que aparece uma vez e acaba por ser o tema de conversa recorrente entre o homem e a mulher que, por alguma razão ainda estão juntos e partilham uma cama de hotel. Para quê? Não se explica.

Para além do mais, os personagens estão constantemente a chorar. Qualquer coisa que se lhes diga, choram. Qualquer coisa que aconteça, choram. Qualquer referência às boas memórias do "olhos azuis cabelo preto"... Choram. Que melodrama!

Não achei mesmo graça nenhuma a este livro. Não recomendo.

Fogo Pálido

Fogo Pálido
Vladimir Nabokov
1962
Romance 

Foi o primeiro livro do autor que li depois de "Lolita", que passou pelas minhas mãos há muitos anos atrás. Cheguei à conclusão de que o pobre Vladimir não regula muito bem da pinha.

Um livro muito recordatório de Joyce, pela forma de escrita e, talvez, pelo tema abordado, relata-nos uma estranhíssima história de um poema, um poeta e um misterioso reino do norte e sua família real.

Shade, um poeta famoso (penso que inventado) escreveu o poema "Fogo Pálido". Agora, um dos seus mais próximos amigos (supostamente) decidiu publicá-lo acompanhado por uma análise detalhadíssima. No entanto, esta análise trata quase em exclusivo daquilo que o amigo influenciou no poema. Isto é: conta a história do amigo como se o poema tivesse sido escrito para ele. O que é muito estranho, porque o poema não se pode interpretar dessa forma, mesmo que seja inventado, mesmo que não exista. Fala simplesmente de outros assuntos!

Mas o analista insiste que o poema é sobre ele e sobre o seu fantástico e amado reino de Zemla, onde houve grandes acontecimentos relativos à deposição e fuga do rei, que se vem a saber muito mais tarde que terá mais influência na vida do autor do poema do que possamos imaginar.

Nabokov inventa palavras e frases, inventa uma história que, não fazendo sentido, é muito engraçada. Portanto, para quem só conhece a sua obra mais popular, sugiro que tentem este livro. Irá certamntew surpreender-vos!

Festa da Casa da Cerca 2017

Festa da Casa da Cerca 2017
Festa
Foram raras as vezes que tive oportunidade de ir a esta festa, a da Casa da Cerca. Gosto muito desse espaço, pois tem um jardim botânico lindíssimo. Sábado passado, decidimos passar por lá para ver uns concertos.
 
Chegámos um pouco atrasados e o concerto que q1ueríamos ver já estava quase no fim. Era Cacique 98, uma banda com raízes moçambicanas que estava a dar tudo por tudo para que toda a gente dançasse. Infelizmente, começou uma trovoada com chuva torrencial. Até soube bem, porque estava imenso calor, mas esconder-nos debaixo das árvores foi insuficiente. Fugimos para a estufa, onde estava um bafo medonho.
 
Havia espalhados pelo espaço vários elementos alimentares e lojinhas com artesanatos variados. Como terão feito com a chuva?
 
Passado um pouco vimos que estava existindo uma performance de dança e teatro à porta da Casa da Cerca propriamente dita. Tanta gente lá estava que achámos melhor nem assistir.
 
Finalmente, chegou o DJ Lizardo, que pôs toda a gente, efectivamente, a dançar (tendo sucesso onde outros falharam), com mixes e viagens à descoberta do indie pop mais antigo e obscuro.
 
Depois ainda fomos a um bar novo que um amigo abriu, mas eu já não dizia coisa com coisa :)
 
E assim se passou Sábado.

Level E

Level E
Kato Toshiyuki - Studio Pierrot
Anime - 13 Episódios
2011
5 em 10

Consideremos que o mundo em que vivemos está densamente povoado de seres alienígenas que se esforçam ao máximo para que ninguém dê por eles. Consideremos que um amigo nosso vem a ser alien e, para mais, é um poderosíssimo príncipe das entidades espaciais. Só que havia perdido a memória. Que aventuras poderão acontecer?

Este é um anime leve que faz do seu próprio conceito uma comédia. Isto seria uma boa ideia, se as piadas da comédia fossem, de alguma forma, engraçadas. As piadas baseiam-se essencialmente numa crítica sarcástica a outros géneros de anime, com referências aqui e ali, sendo que os personagens acabam por cair dentro do estereótipo daquilo que, precisamente, tentam parodiar. A paródia não é de todo evidente, repare-se.

A arte é colorida e brilhante e os designs têm uma aura um bocadinho old-school, apesar de o anime ser desta década. Mas, em termos de animação, temos muito pouca coisa para ilustrar, sendo que quase tudo se baseia em movimentos repetitivos e rítmicos que se esforçam por imprimir alguma piada às situações que, claro, não a têm.

A música é essencialmente irrelevante, sendo que a OP e ED, apesar de serem sons interessantes, não se conjugam com nada do que existe na série.

Um anime que se esquecerá rapidamente.

14.6.17

Mirai Nikki

Mirai Nikki
Hosoda Naoto - Asread
Anime - 26 Episódios
2011
5 em 10

Este é daqueles animes tão famosos e tão populares que uma pessoa tem sempre dificuldade em criar uma expectativa. Assim, fui para este anime sem saber quase nada sobre ele. Tudo o que sabia é que havia uma miúda maluca, uma yandere (talvez o exemplo primordial deste tipo de dere). E agora, que o vi, fiquei um pouco triste. Porque este anime tem uma ideia base que funcionaria bem. Se não fosse tudo o resto.

Um jovem inadequado, como muitos, tem um diário no telemóvel e fala com os seus amigs imaginários. Um dia descobre que estes amigos imaginários são reais e que o seu diário prevê o futuro. Agora, está envolvido num battle royale em que terá de matar os outros utilizadores de diários para ser o rei da cocada preta. Ora, isto ao início é uma excelente ideia: um jogo de sobrevivência em que sabemos sempre o próximo passo e podemos alterá-lo de alguma maneira. Mas a partir do primeiro terço da série, a situação dá uma volta bizarra e agora é o mundo que vai ser destruído e ai coiso.

Os personagens também são demasiado unidimensionais para que o foco na sua relação funcione. O rapaz é um verme, que faz tudo para sobreviver e não tem qualquer tipo de qualidade que lhe permitisse vencer o jogo se este se passasse no mundo real. Claro que no final já é ágil, forte e poderoso, por alguma razão que não se compreende. E a rapariga, está essencilmente focada em ser uma obsessiva máquina de matar, sem nada que explique a sua dedicação sem ser um bizarro trauma passado que não parece ter grande relação com os eventos actuais. Aliás, que personagemnesta série não tem um trauma passado?

A arte é simplesmente feia. Os designs são improváveis, com erros anatómicos constantes e pouco profissionais, sendo que as cenas de animação também revelam uma má utilização de orçamento que poderia ter sido utilizado em, por exemplo, arranjar desenhadores de keys que soubessem desenhar. Os cenários também são pouco detalhados e muito infantilizados.

Já a banda sonora também revela muito más opções. Se a OP e ED dão um certo thrill à expectativa, tudo o resto é banal, pouco coerente e retira qualquer efeito emocional que estas cenas poderiam ter.

Portanto, mais uma vez: uma ideia boa, completamente destroçada.

As Ilhas Desconhecidas

As Ilhas Desconhecidas - Notas e Paisagens
Raul Brandão
1924
Livro de Viagem

Comecei uma nova TBR, que consiste em ler todos os livros do escritório da minha mãe. O primeiro que arrebanhei foi este. Confesso que não esperava muito dele. Foi, no entanto, uma leitura maravilhosa e surpreendente!

Nos idos anos 20, um homem visita as ilhas pela primeira vez. Este é o relato das suas experiências. Raul Brandão mostra-nos, através de um olhas suavemente impressionista, as paisagens a azul e verde das ilhas, a força da natureza e da floresta, o medo do mar, o poder das ilhas enquanto matéria viva e orgânica, que o homem tenta conquistar mas sai sempre defraudado. Porque existe neste relato um poder de imagem, um remeter para um universo fantástico povoado de estranhos monstros e criaturas, que quase não corresponde a uma realidade. Mas, tendo ido aos Açores, a verdade é que o relato está tão bem feito, tão verdadeiro e sincero que apenas nos dá vontade de voltar.

O autor também fala muito dos hábitos das pessoas que vivem nestas terras inóspitas. A maneira de vestir, falar, comer, trabalhar. Mostra-nos como é trabalhada a terra na agricultura, mostra-nos a criação de gado. Mostra-nos a pesca e a caça da baleia. Sem temores, sem pruridos. As coisas tal e qual como são. O que, nos anos 20, nas ilhas, eram bastante terríveis.

Este livro transportou-me a um mundo mágico. E, sabendo que esse mundo existe realmente, traz uma saudade, uma vontade de voltar. Como se nunca tivéssemos de lá saído e estivéssemos no continente a fazer férias.

Batman Begins

Batman Begins
Cristopher Nolan
2005
Filme
6 em 10

Antes do famoso "Cavaleiro das Trevas" que tanto popularizou o mais popular dos inimigos do Batman, a trilogia de Nolan tem este filme: "Batman Begins". Aqui, vemos o jovem Bruce Wayne e o processo de criação da figura de Batman.

Após o seu trauma de infância, Wayne decide que deseja ser um vingador. Mais que um vingador, um protector da justiça. Existe aqui uma dualidade de sentimentos: o desejo de retaliação pela morte dos pais contra o desejo de continuar a sua obra através da protecção das pessoas. Com inimigos como Scarecrow envolvidos, este é um filme que explora o personagem através da superação dos seus medos e, assim, a criação de um símbolo através deles.

Mas, se essa é a principal qualidade do filme, existem outros elementos que são mutio pouco adequados a semelhante figura. Por exemplo, a forma como Bruce Wayne é um patético quando está fora da máscara. A história de amor mal enjorcada que foi martelada ali, protagonizada por uma actriz com muito pouco mérito. E as próprias cenas de acção, pecam por um exagero flagrante e poderiam ter sido reduzidas ao mínimo (especialmente aquela perseguição de carros absurda).

Todo o filme parece ser uma introdução. Uma introdução com duas horas, mas deixa-nos sempre o pensamento de "o que virá a seguir, quando começa realmente a história?". Parece-me funcionar bem como primeiro elemento de uma trilogia, mas como filme individual fica um pouco aquém das expectativas.

NOS Primavera Sound 2017

NOS Primavera Sound 2017
Festival de Música
Quando saiu a notícia de que o Aphex Twin tocaria em Portugal, no Porto, no festival Primavera Sound, eu soube imediatamente que não poderia perder a oportunidade de o ver. Afinal, esteve desaparecido durante anos e pode voltar a desaparecer a qualquer momento! Mas, colocou-se imediatamente um problema: festival começava na quinta... E na quinta-feira é dia de trabalho! Assim, decidi ir apenas no Sábado, que era precisamente o dia do concerto que mais queria ver. :)

Tentei arranjar umas viagens de avião, daquelas por dez euros, mas já não estavam disponíveis. Portanto, parti no comboio das nove da manhã, ao lado de um fulano que ia a ver coisas no computador com os fones, impedindo-me de sair do meu lugar junto da janela para fazer alguma coisa (como experimentar as fantásticas casas de banho do comboio ou ir à mala apanhar o meu lanche da manhã). Fui depois para a estação de S. Bento, pois o AirBNB que havíamos alugado em conjunto (eu, o Qui e mais quatro amigos) era nessa zona.

Deixando as malas na residência, constatava-se que fazia parte de estranho edifício. Era no quarto andar, sem elevador, sem comunicador para abrir a porta da rua e, para chegarmos ao apartamento que nos competia, tínhamos de passar pelo meio das casas das outras pessoas: o corredor do prédio era também o hall de entrada dos apartamentos. A casa era idosa, com condições precárias, apesar de ter uma cama confortável. A cozinha horrorosa, a casa de banho toda peluda. Mas talvez ffosse porque já tinha estado habitada pelos gremlins nos dois dias anteriores.

Depois fomos para o recinto do festival. Fomos de Uber, que nos levou até uma entrada toda catita com meninas da Uber a receber-nos. Utilizámos este meio de transporte porque um amigo precisava de levar uma mala, que deixou no bengaleiro. Mas eu e o Qui não entrámos logo no festival. Antes disso, estivemos a apanhar sol junto da praia. Só depois troquei o meu bilhete por uma catita pulseira roxa e rosa e por um cartão de plástico. Os dois juntos permitiam acesso permanente até às três da manhã ao festival. Os dois separados não serviam de nada. Perdesse-se um, já não se entrava.

No primeiro dia, as sandes que o Qui tinha levado haviam sido retidos pelos cops. No entanto, a minha garrafa de água, através dos meus truques altamente simpáticos de, simplesmente, ser brutalmente honesta e dar a água à senhora, entrou pacificamente.

O espaço, o Parque da Cidade, é muito bonito e cheio de relva. Tudo estava muito bem organizado, existindo uma série de palcos que, estando todos muito junto uns dos outros, não interferiam em nada na apreciação dos concertos que estavam a decorrer. Ofereceram-nos uns sacos muito jeitosos com  toalhas de piquenique lá dentro, o que tornava o acto de sentar muito agradável. Claro que isso não impedi que eu fosse brutalmente mordida por pulgas, ao longo de ambos meus pés...

O primeiro concerto que vimos foi o da Elza Soares. Já apanhámos a meio. A senhora estava sentada num trono, mas ainda assim tinha uma presença em palco invejável. Não conhecia bem, mas fiquei a adorar as músicas, a voz, tudo poderosíssimo. As ideias, os conceitos, tudo isto com uma perspectiva antiga: uma espécie de proto-funk que saiu das ruas para dizer a verdade da forma mais brutal e crua possível. Ela ainda fez um encore, coisa rara, e nunca soubemos a solução do mistério: afinal, como é que ela vai sair dali?


Depois fomos explorar e jantar algo. Havia muitas opções de comida, não especialmente baratas e escolhi o lado vegetariano da vida, comendo um caril de grão que estava mesmo muito óptimo. Entretanto, o Qui havia-me revelado o segredo de que além de jola sobrevalorizada este festival vendia bebidas brancas ao mesmo preço da jola sobrevalorizada. Isto foi óptimo, porque poupei imenso dinheiro bebendo muito devagarinho e tive de ir muito menos vezes à casa de banho. Tinham o sistema de pagar uma caução pelo copo, que depois poderia ser devolvido ou, o que fizemos, levado para casa como recordação. Quanto às casas de banho, que estávamos a falar de xixi, eram aceitáveis, perdendo a qualidade à medida que a noite ia progredindo. Vi cenas estranhas, como branca no meio dos cagalhões. A parte que mais me espantou pela positiva foi o facto de  amaior parte das casas de banho eram unissexo. Apesar de tudo, isto continua a ser incompreensível para as pessoas em geral, porque havia uma fila masculina e uma fila feminina. Revoltou-me grandemente!

Andámos por aqui e por ali e depois vimos Death Grips. Tinha ficado a conhecer esta banda nos dias anteriores, mas adorei o concerto. Se bem que foi um concerto diferente... Já me doía os pés, portanto sentei-me e apenas ouvi o concerto. E foi brutal. Um hip-hop cheio de core, violento, cheio de dicas que à primeira vista não passam de ruído mas que, à medida que nos vamos envolvendo na sonoridade hipnótica, começam a fazer um sentido profundo e visceral. Entretanto havia descoberto que se me transformasse num calhau as pessoas perdiam a tendência de ir contra mim, coisa que me causa pânico nos concertos. Portanto, passei o resto do festival perspectivada como um calhau. :)


Depois fomos para o palco principal, onde vimos Metronomy. Achei uma parvoíce de banda, um pseudo-indie cheio de estilo que não tinha conteúdo nenhum. De seguida vimos Japandroids, mas não me cativou e portanto nem vi com atenção.

Até que foi momento, momento final, momento brilhante, momento de ver o Aphex Twin. Como descrever este concerto? Foi uma brutalidade, foi um exercício de resistência física e emocional, mas foi sobretudo uma experiência transcendental plena de detalhes que até agora estou a tentar compreender. Não o podíamos ver, ao artista, escondido na sombra, disfarçado pela luz que o rodeava. E os ecrãs, muitos ecrãs, mostravam as imagens mais improváveis: nós. O público aparecia nos ecrãs, com as suas imagens mutadas em milhões de padrões e cores. Enquanto isso, luzes e lasers levavam-nos para um planeta tão orgânico como puramente digital. Mas um digital defeituoso, um computador viral. Porque o som, por vezes calmo, transmitia sempre uma sequência de nervosismo. Samples do próprio, samples do próprio disfarçado de outra pessoa, samples de amigos, nada de famoso, nada de histérico. Ainda assim, uma sequência autobiográfica e contemplativa que, junto com as imagens, ironizava todo o contexto, gozando connosco (tantas imagens dos palhaços de Portugal!) e também com ele próprio. De resto, foram duas horas a fritar ovos. E pipocas. Fritar tudo. Não parei de dançar um segundo, porque nem havia espaço para bater palmas. Seguido, seguido, cada vez mais violento, cada vez mais agressivo, um animal selvagem que se dirigia para nós para nos comer o cérebro às fatias, um ácido que entrou nas nossas mentes deixando-as em papa e, após recuperação, cheias de imagens subliminares.

Foi a melhor experiência musical que tive nos últimos anos.



Depois, voltámos de autocarro. Não sabia em que posição haveria de me meter, porque me doía tudo xD

No dia seguinte arrumámos tudo, deixámos as nossas malas num bengaleiro público que também era uma loja de souvenires e fomos almoçar. No dia anterior havíamos descoberto um restaurante com pizzas caseiras baratíssimas e lá voltámos. Depois fomos passear pelas lojas hipsters do Porto, o que foi uma situação horrorosa, porque tudo o que eu queria era estar sentada a apanhar sol, em vez de estar a ver coisas demasiado caras para serem coerentes.

Voltámos no comboio das sete. Adormeci.

Agora estou aqui. Ainda estou a pensar.

13.6.17

O Porquê da Vida

O Porquê da Vida
Léon Denis
1885
Ensaio

Como sabem, na minha visita a São Miguel tive uma "conversa fraterna" com um membro da Sociedade Espírita de Ponta Delgada. No final, ele ofereceu-me este livro, com uma grande dedicatória que ainda estou a tentar compreender (caligrafias difíceis...), dizendo que me iria dar mais algumas luzes sobre a perspectiva espírita da vida.

Devo confessar que... Não. Não me deu nada de novo.

Este livro é estranho porque, afirmando que vai dar soluções para as questões essenciais da vida, não passa de um resumo da matéria dada por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos. As próprias frases estão estruturadas de forma tão semelhante que quase se assemelham a uma cópia. O senhor Denis parece não ter tido nenhum contacto que lhe permitisse dar-nos novidades sobre o estado da arte desta corrente espiritual.

Além disso, esta edição está recheada de estranhíssimas ilustrações, quase todas as páginas, que consistem em grandes planos de um mapa dizendo o lugar onde o autor nasceu e depois veio a falecer.

Fiquei realmente desapontada.

História de Um Cão Chamado Leal

História de Um Cão Chamado Leal
Luís Sepúlveda
2015
Novela
Havia oferecido este livro à minha irmã a propósito do Natal do ano passado, sendo que o encontrei agora quando buscava mais livros para compor a minha nova TBR (falando nela, já tenho uma nova! Vou demorar algum tempo a deitá-la abaixo, desta vez, hahaha ;))

Este é um conto, novela infantil em que o autor revela a sua paixão pela cultura do Povo da Terra, o povo Mapuche que foi expulso (e continua a ser) das suas terras pelos colonizadores. Afmau é um cão pastor alemão que é encontrado por um jaguar, que depois o leva para junto das pessoas, onde cria laços com uma nova família. Quando os colonizadores chegam, raptam este animal e, mais tarde, forçam-no a perseguir o seu próprio povo. Será que ele vai poder conseguir operar algum tipo de vingança?

Não se diria que é uma vingança, pois os cães não possuem esse tipo de discernimento, mas a verdade é que as contemplações de Afmau revelam muita amizade e lealdade perante o povo que o acolheu. O cão relata os momentos e eventos culturais do seu povo, a forma como este se liga com o mundo que os rodeia e se integra na natureza. Isto teria tido muito mais beleza se o autor não fizesse uma sucessão de palavras em mapuche, em que o livro quase se torna num glossário em vez de uma narrativa.

Também não gostei do final, porque o homem poderia ter optado por salvar Afmau em vez de se tratar a si próprio primeiro. De certa forma, dá uma má imagem ao Povo da Terra.

Este livro é rico em ilustrações que, sendo vectorizadas, acabam por trazer muita dinâmicao à narrativa e uma certa textura naturalista.

Lê-se numa hora e é divertido!

Merde Actually

Merde Actually
Stephen Clarke
2006
Romance

Recebi este livro numa BookBox do BookCrossing. Escolhi-o pois o pessoal do fórum tinha estado a falar dele há algum tempo. Afinal, descobri mais tarde, falavam de "One Year in the Merde", que é a prequela. Este aparece em sua continuação, mas não se perde nada se for lido sozinho.

Um jovem inglês que vive em Paris decide escrever um livro a contar as suas experiências estranhas com o povo francês, que é mal-educado e difícil de compreender para a perfeitamente sã mente inglesa. Este livro conta a forma como Paul, o personagem principal, acaba com a sua namorada que é maluca e tem uma família maluca, abre um café inglês em que todos são malucos, dá umas trancadas em outras francesas malucas e acaba por encontrar o amor da sua vida, que por sinal também é uma francesa maluca.

Isto é, é toda a gente louca menos ele.

Ou será que, afinal, o personagem não passa de um idiota? Isso parece-me muito mais provável.

As situações inusitadas perdem, então, a piada: o personagem é um idiota. Internacionalmente idiota. A forma como os franceses são vistos é ofensiva, redutora e insuportavelmente pedante. A forma como os ingleses são vistos em comparação não é muito melhor.

Um livro em que o autor manifesta o seu absoluto desconhecimento pela sociedade alheia e demonstra uma falta de abertura e integração abismal. Fazer disto um livro parece-me um  belíssimo golpe de mau gosto.

9.6.17

Sakamichi no Apollon

Sakamichi no Apollon
Watanabe Shinichiro - Tezuka Productions
Anime - 12 Episódios
2012
7 em 10

Tempo de antena para um anime completamente diferente! Como alguns saberão, hoje em dia tenho vindo a explorar muito o jazz enquanto cultura e género musical, sobretudo através de programas de rádio que oiço nas minhas longas aventuras condutórias. Assim, um anime sobre jazz veio mesmo a calhar!

Algum tempo depois do pós-guerra, no Japão, este género começa a insurgir-se entre a comunidade  e, claro, algumas pessoas querem mesmo tocá-lo. É isso o que descobre um jovem, um pouco inadaptado, estudante de piano clássico, que conhece um baterista que não se insere muito bem na sociedade por estar sempre do contra, nas lutas e a arranjar sarilhos. Começa a frequentar uma sala de ensaios onde este toca, fazendo novos amigos. Assim se começa a desenvolver uma história de amor e amizade, em que as pessoas e suas famílias se encontram ligadas por algo mais forte: a música.

A história tem um desenvolvimento original na medida em que é perfeitamente realista. Os personagens são cativantes, sendo que cada um deles é um solitário à sua maneira mas acabam por descobrir algo que os une e que se pode transformar numa das suas "favourite things" Também é plausível e bastante comovente a forma como tudo acaba por correr mal, não apenas pela força do acaso mas pelas próprias acções dos personagens. O autor acaba por, no final, arrumar tudo num futuro que, não sendo risonho, nos traz forte melancolia e saudade pelo passado.

Temos uma animação cuidada, sobretudo nos momentos musicais, em que os gestos dos personagens realmente correspondem ao que está a ser tocado. A paleta de cores é suave, com muitos castanhos, o que torna o ambiente deste passado perdido em algo remoto mas ainda assim facilmente identificável pelo espectador. Os designs são realistas e pouco dados a extremos, o que funciona muito bem dentro deste contexto.

Finalmente, a música. Como não falar sobre a música? Com um conjunto de standards tocados de formas originais e muito pessoais e também algumas peças originais, este é um anime muito completo para todos os apreciadores do género musical. É muito refrescante ver como ao início nem todos são perfeitos nos seus instrumentos, sendo que a evolução é patente com o progredir do anime E as versões cantadas, apesar do fortíssimo sotaque nipónico, têm realmente muito charme.

Gostei muito deste anime, relaxante, bem pensado e muito musical. Recomendo!

Watchmen

Watchmen
Alan Moore & Dave Gibbons
Graphic Novel

Comprei este livro no passado Anicomics. O Qui sempre mo havia recomendado e achei que seria um óptimo volume para acrescentar à nossa crescente colecção. No entanto, talvez este livro tenha chegado às minhas mãos de leitora na altura errada, porque senti que não o apreciei devidamente.

Este é um livro que fala dos super-heróis depois de deixarem de ser super-heróis. Num universo semi-distópico em que Nixon continua a ser presidente e a perseguição aos comunistas é cada vez mais acérrima, os super-heróis foram dispensados das suas funções de protectores da justiça, porque no fundo faziam mais mal que bem. Afinal, não passavam de seres humanos. Quase todos eles, pelo menos. Agora, desde o brutal assassinato de um veterano da equipa, Roscharsch - um dos heróis do passado que nunca revelou a sua identidade - procura descobrir o assassino e envolver os outors antigos amigos na sua busca.

No entanto, há algo mais forte que eles que está sempre um passo à frente. E assim começa uma riquíssima análise pessoal de cada um dos intervenientes desta história, que sofrem uma caracterização e desenvolvimento raramente vistos neste formato de banda desenhada. Cada um deles tem os seus momentos de felicidade, os seus pequenos momentos de vida diária. Mas por trás de cada uma destas figuras, podemos analisar os problemas que vieram do facto de terem todos sido super-heróis, da incapacidade que têm de se afastar das suas personagens passadas e, sobretudo, dos problemas que têm na interacção com o mundo que os rodeia. Afinal, este mundo deseja que eles por um lado sejam pessoas normais e inseridas na sociedade, mas por outro lado ainda precisa de vigilantes que os protejam e ajudem.

As revelações são surpreendentes e a cada volta que a história dá mais percebemos a ironia da construção de certas personagens, da loucura em oposição à moralidade e da perfeição física em oposição a uma crueldade crescente.

As cenas estão desenhadas num estilo que não me agrada muito, num ponto de vista puramente pessoal, mas possuem uma dinâmica incrível, na medida em que não existem cenas de acção profundamente elásticas mas existem momentos de profundidade emocional que não poderiam ter o efeito desejado se não fosse a qualidade da arte.

Existem cenas, também, que transmitem uma extrema beleza, nomeadamente as contemplações e divagações filosóficas em Marte e até mesmo a cena fatídica do final que, não sendo gráficamente brutalizante, é muito forte em termos de desenvolvimento e desfecho.

Um livro que gostaria de ler numa outra ocasião, mais calma. Recomendo.

4.6.17

Miracleman

Miracleman
O Escritor Original
1986
Banda Desenhada

Ofereci este livro, uma edição integral em Português, ao Qui pelo seu aniversário. Entretanto, li-o antes dele. :p

Miracleman é o que veio depois de Marvelman. Um herói feito para combater a popularidade da DC, que acabou por se perder no tempo e no espaço. Em 1986, o "escritor original" pega no personagem e dá-lhe uma nova interpretação. O que acontece quando o herói, quando o homem que está por trás do herói, esqueceu tudo e não passa de um homem de meia idade a tentar fazer a sua vida normal? E como é que a presença dos seus poderes irá influenciar a sua vida?

Esta é uma banda desenhada de extrema violência, nunca injustificada, que faz uma análise aguda e contundente dos seus personagens, permitindo uma variedade de interpretações para estabelecer a verdadeira profundidade das suas acções. O vilão está concebido de uma forma simplesmente brilhante, sendo que os super-poderes de Miracleman acabam por dominar a própria personalidade do homem por trás da máscara.

A arte é de uma brutalidade surpreendente, com imensos detalhes que só poderiam ser detectados numa segunda ou terceira leitura, com um uso de estilos mistos que envolvem todos os tipos de arte. Este não é um comic de todo normal. é surpreendente, fascinante e comovente.

O final é positivo, mas apesar de tudo fica uma nota interrogativa. Afinal, é preferível entregarmo-nos à perfeição rejeitando a nossa própria humanidade?

Um livro genial, que me orgulho de ter na minha colecção.

Marvel 2099 - Primeiras Aventuras

Marvel 2099 - Primeiras Aventuras
Banda Desenhada
1999
 
Finalmente, um colume que contém algumas aventuras dos nossos heróis Marvel preferidos, mas em 2099. Este foi um projecto do final dos anos 90, que tencionava dar uma nova imagem aos heróis, dando-lhes novos nomes, novas personalidades e um novo mundo para viverem, protegerem e povoarem.

Neste volume há histórias do Homem-Aranha, do Punisher e dos X-Men. Gostei muit das histórias do aranha, que são completamente diferentes do habitual. Neste mundo, os super-heróis estão completamente banidos, pelo que os mascarados são perseguidos pelas próprias autoridades. Assim, não se trata tanto do caso de "fazer justiça pelas próprias mãos", mas mais de uma procura pela auto-suficiência e sobrevivência.

O universo está bem caracterizado nos cenários, embora os movimentos dos personagens perante eles sejam um pouco descuidados. Os designs novos também são bastante curiosos, afastando-se bastante dos arquétipos da era.

Foi uma leitura gira e não me importava de ler mais aventuras.
 

A Canção do Carrasco

A Canção do Carrasco
Banda Desenhada
1997
 
Este é um volume dos X-Men, da Marvel, que combina os três capítulos da série "A Canção do Carrasco". Infelizmente, não consegui apreciar devidamente estes comics, porque não tinha contexto prévio para conseguir inserir os personagens no tempo-espaço das suas personalidades.
 
O problema dos X-Men, desta vez, é o rapto de Jean e Cyclop por uma entidade alienígena maléfica, para além do ferimento infligido a Charles Xavier por um terrorista. Vários X-Men e outros mutantes procuram salvar os seus companheiros e acabam por vencer um monstro terrível e muito horrendo.

Os desenhos da Marvel, fiquei a ver, são um pouco diferentes. Utilizam linhas mais finas e os designs dos personagens são um pouco mais humanos e brutais, não se exigindo a todos que tenham corpos perfeitos. No entanto, são utilizadas tantas ores que os desenhos acabam por ficar um pouco confusos, sendo as vinhetas menos dinâmicas comparativamente ao que havia lido antes.

Não fiquei com vontade de ler mais X-Men.
 

Super-Heróis

Super-Heróis
Banda Desenhada - 18 Volumes
1995

Esta é uma colecção em 18 volumes das revistas quinzenais de Batman, Liga da Justiça, Super-Homem e SuperBoy que foram publicadas entre 1995 e 1996 em Portugal, pela Abril/Controljovem. Inclui algumas séries semanais, nomeadamente a Queda do Morcego (e o seu regresso) e o prólogo para a Hora Zero.

Foi uma excelente maneira de onhecer, mais uma vez, alguns dos personagens mais icónicos da banda desenhada e comics americanos. Fiquei a saber um pouco mais sobre Batman e como Bruce Wayne ficou incapacitado durante algum tempo. Fiquei a conhecer a Catwoman, que adorei em fiquei com vontade de fazer cosplay de (embora, talvez, com um fato um pouco menos expositivo). Por outro lado, não gostei de conhecer o SuperHomem, que é um boneco, nem a Wonder Woman, que é uma parva, e muito menos o SuperBoy, que é muito irritante.

Também não gostei muito de ler as histórias aqui incluídas da Liga da Justiça, que eram todas demasiado improváveis.

Além disso, esta colecção tem o grande defeito de interromper o Regresso do Morcego, passando da parte das aventuras de Bruce Wayne imediatamente para a luta contra Azrael.

Em termos de desenho, são comics muito dinâmicos, com um uso de vinhetas muito interessante, mas em termos de cores pareceu-me tudo muito repetitivo.

Foi uma boa experiência, apesar de tudo!

Sci-Fi Harry

Sci-Fi Harry
Kodera Katsuyuki - ADDD
Anime - 20 Episódios
2000
6 em 10

Este anime passa-se nos States. Harry é um miúdo um pouco solitário, que não se dá bem com as outras pessoas e é constante vítima de bullying. Até ao dia em que descobre que tem poderes paranormais e extrasensoriais. A partit daí, inicia-se a sua aprendizagem, mas também uma perseguição por parte de vários grupos que desejam controlar os seus poderes.

Os personagens são interessantes na medida em que se distinguem da típica personalidade japonesa sempre presente nos animes. Apesar da dub ser nipónica, conseguimos identificar este grupo de jovens como puramente ocidentais. O seu desenvolvimento é, no entanto, bastante previsível dentro do contexto, assim como a evolução das suas relações pessoais.

Artisticamente, temos um estilo que já se perdeu no início do milénio, dedicado a um ultrarrealismo dos designs, inseridos num ambiente escuro e opressivo com cores reduzidas e insistência nas sombras. Os cenários não são especialmente detalhados, pelo que se não fosse pelos personagens seria um pouco difícil de localizar este anime num país em específico.

Em termos de música, não se apresenta nada de extraordinária, com excepção de abertura e final bastante coerentes e de um estilo rock que eu gosto muito mas que já não se ouve assim tanto por aí.

Um bom anime negro, para variar.

Bungaku Shoujo

Bungaku Shoujo
Tada Shunsuke  - Production I.G.
Anime - Filme
2010
6 em 10

Um filme que fala sobre livros, mais ou menos.

Um rapaz do primeiro ano do secundário conhece uma senpai com uma característica fascinante: ela come livros. Obriga-o a fazer parte do clube de literatura, onde ele escreve "snacks" para ela comer à hora do lanche. Mas quando um dia, por acaso, ele encontra no hospital a sua amiga de infância, que está internada por tentativa de suicídio, começa uma onda de mistério e ansiedade até ao desenlace final.

O ambiente do filme é bastante interessante, com a exposição da loucura dos personagens até ao extremo, mas a conclusão acaba por ser um pouco lugar-comum, sendo que não havia de todo necessidade de o filme ser tão longo. Houvesse terminado numa nota menos positiva, talvez tivesse tido mais efeito emocional no espectador.

A arte é simples, com um bom uso de cenários e uma paleta de cores muito simbólica na relação com a estação do ano retratada. Os designs, no entanto, são bastante fracos, sendo que o estilo anatómico sugere a existência de muitos erros, sobretudo na expressão.

A música será, talvez, a melhor parte deste anime, com utilização de uma série de peças que em muito contribuem para a caracterização emocional de cada cena.

Um filme normal.

31.5.17

3-gatsu no Lion

3-gatsu no Lion
Shinbou Akiyuki - Shaft
Anime - 22 Episódios + 1 Special
2016
6 em 10

Este anime foi recomendado no meu clube e afirmado como uma das grandes revelações do ano que passou. No meu entendimento, este não passa de um anime que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo e acaba por não conseguir ser nenhuma delas.

Um jovem é altamente talentoso no jogo de tabuleiro shogi (semelhante ao nosso xadrez). No entanto, porque tem traumas na vida, não cuida de si próprio. Então, vai viver com três irmãs que o querem ensinar a ser uma pessoa melhor, apesar de também elas terem problemas na vida. Elas têm gatos que, diga-se de passagem, são claramente a parte mais deliciosa do anime.

Ora bem, tendo isto em conta esperamos um anime que se foque no desenvolvimento dos personagens através da relação entre eles e, também, através da prática do jogo em que estão. E o anime tenta realmente fazer isto, mas acaba por confundir os seus objectivos. Se existem episódios muito focados no jogo, existem outros em que isto é esquecido para que se fale um pouco da vida diária das três raparigas. Entretanto, o desenvolvimento de todos é muito previsível e, a cada revelação, só conseguimos pensar "então está bem".

O anime não tem foco suficiente no jogo para que o espectador o possa aprender, mas também não tem suficiente material emocional na construção da personagem para que esta seja realisticamente humana e altamente identificável com as nossas próprias questões.

A arte é um pouco estranha. Os designs estão actuais com as tendências dos últimos tempos, mas não sei exactamente se gosto destas pessoas coradas e sem nariz. Aliás, o facto de estar toda a gente sempre corada torna um pouco difícil de interpretar as suas expressões faciais. De resto, temos cenários completos, apesar de simples, com uma pintura de alta qualidade.

Musicalmente, temos temas indie-pop que me dizem muito pouco, mas poderão ser apreciados por outros.

Dizem que apenas 0,5% dos animes existentes são realmente bons. Este não é um deles,

Festa da Amizade 2017

Festa da Amizade 2017
Festa
Ainda antes de existir a famosa Festa do Avante, já o Partido Comunista Português celebrava a sua existência com a Festa da Amizade. Após algum tempo sem se realizar, mudou-se aqui para o pé de casa, pelo que este ano decidimos ir. Foi a primeira vez que estive nesta festa e, embora tenha ficado um pouco desapontada, gostaria de voltar no ano que vem para voltar a experimentar.

Ora, a festa está situada num jardim que tem um campo de futebol. No campo, estava instalado um palco um pouco precário e, quando chegámos, estava a tocar uma banda de rock mais pesadote. Viemos a descobrir mais tarde que se tratava do concurso de bandas, para definir quem irá tocar no Palco Novos Valores da Festa do Avante propriamente dita! Infelizmente, chegámos já no fim da última banda.

Descendo um pouco, para a secção do jardim, estavam comes e estavam bebes, muito acessíveis e muito baratos, com o sistema de senhas a que o Avante já nos habituou (e que penso que funciona muito bem, reduzindo bastante as filas). Ao lado dos bebes estava uma banca com livros à venda, todos eles sobre a causa vermelha. Achei que seriam leituras um pouco pesadas para o meu estado emocional dos últimos tempos...

Sentámo-nos em frente a um outro palco, de menores dimensões, onde passava fado, entrecortado pela bateria do palco principal. Quando esta se calou, subiu ao palquinho um senhor com botas de biqueira de aço que se propôs a fazer uma performance poética. Foi fasicnante! Recitou Ary dos Santos e Vinicius de Moraes, de uma forma tão potente que ficou toda a gente agarrada à sua voz! Isto sim, um verdadeiro espectáculo revolucionário!

Depois, começaram a levantar a festa, o que foi uma pena. Mas, afinal, não se poderia continuar com música noite adentro a um dia de semana com os vizinhos todos a dormir.

Apesar de no geral a festa me ter parecido um churrasco de grandes proporções, até foi engraçada. Para o ano, espero poder ir!

Os Memoráveis

Os Memoráveis
Lídia Jorge
2014
Romance

Comecei a ler este livro no avião de regresso dos Açores. Tive a oportunidade de receber este último romance de Lídia Jorge (uma das minhas autoras portuguesas predilectas) através de uma BookBox do BookCrossing. :)

Apesar de eu achar que o tema da ditadura e subsequente revolução está mais do que explorado, existem muitos que são de opinião contrária e pensam que se deve continuar a falar o máximo possível deste assunto. É nessa linha que surge este livro, que conta sob forma de uma espécie de reportagem diversas versões do que terá acontecido no próprio dia do 25 de Abril, pelos seus intervenientes.

Uma mulher é convidada a fazer uma reportagem para a televisão americana sobre a revolução dos cravos. Para isso, baseia-se numa fotografia que encontrou entre os pertences do pai, procurando todas as pessoas que lá estão retratadas para as entrevistar. Cada uma conta a sua versão da história e cada uma delas tem problemas decorrentes da sua intervenção no acontecimento, que são mais ou menos explicados à medida que a narrativa se desenrola. No entanto, todas estas histórias estão tão explicadas, tão exploradas, que o livro não aparece como novidade e torna-se numa leitura bastante aborrecida.

A ideia paralela da descoberta da verdade sobre o pai da personagem principal é também ela um pouco esgarçada. Pensa-se que os problemas deste homem também possam ser devidos à revolução, que afinal só trouxe problemas pessoais a esta gente toda (apesar de ter sido boa para todas as outras pessoas), mas a sua caracterização apenas nos indica que tudo acontece pela sua própria teimosia.

Um livro um pouco desapontante e sem dúvida o mais fraco que li desta autora.

Logan

Logan
James Mangold
2017
Filme
6 em 10

Um filme de super-heróis que se afasta do modelo dos filmes de super-heróis.

Numa reinterpretação dos famosos mutantes da Marvel, Logan é uma lufada de ar fresco na indústria na medida em que é um filme completamente diferente. Alguma coisa (não se explica exactamente o quê) destruiu os mutantes do mundo e sobram muito poucos. Logan, o famoso Wolverine, trabalha agora como motorista de limusines. Para além disso, algo de estranho lhe está a acontecer: está idoso, doente, com falta de vista, os seus poderes de regeneração estão cada vez mais fracos. O que irá ele fazer quando se descobre uma criança mutante com poderes semelhantes aos seus, que deverá ser resgatada de uma empresa farmacêutica com ideiais sociais pouco claros?

Se a história tem muito de original, a sua resolução acaba por ser absolutamente previsível, logo desde a apresentação das cartas do jogo. É um filme muito violento, mas as cenas estão filmadas de tal forma que não conseguimos criar um laço com as personagens: parece um gameplay de um jogo qualquer.

O ritmo é, também, previsível, com o momento de pausa para recuperar energias seguido de um grande momento de acção, sendo que o desenrolar de tudo isto acaba por se tornar um pouco aborrecido, pois as cenas em si não contribuem muito para o desenvolvimento da relação entre os personagens.

Penso que esta foi uma forma de matar os X-Men como os conhecemos, para que venha daí uma nova geração.

Legally Blonde

Legally Blonde
Robert Luketic
2001
Filme
4 em 10

Aconteceu uma raridade: ver um filme com a minha mãe, em casa, por mero acaso. Curiosamente, já tinha visto este filme antes e a minha mãe estava a gostar, pois falava de assuntos que ela conhecia.

Uma miúda um pouco atrasada mental decide, para reconquistar o seu namorado, estudar direito em Harvard. Infelizmente, o seu estilo de vida é incompatível com a faculdade, pelo que ela se tem de renovar. E vem-se a descobrir que ela é muito mais inteligente do que parece!

Este é o tipo de filme tão parvo e patético que uma pessoa nem sequer precisa de pensar para o acompanhar. As piadas são engraçadas, embora todas elas um pouco redutoras e machistas. O empoderamento feminino aparece aqui retratado pela capacidade de bem vestir e de conquistar a entidade masculina, o que não só é inexacto como é idiota.

A história é simplíssima e a resolução nada menos que esperada.

Apesar de tudo, dá para um ou outro sorriso.

Doukyuusei

Doukyuusei
Nakamura Shouko - A-1 Pictures
Anime - Filme
2016
6 em 10

Este filme foi recomendado no meu clube, então fui vê-lo à desgarrada. Com o Qui. Mal sabia eu que era um BoysLove. O Qui ficou altamente traumatizado. E eu também, porque este não era, de todo, o BL que eu lhe queria mostrar!!!

É um romance muito simples, simpático, sem muito que se lhe diga. Dois rapazes começam a estudar música juntos e acabam por apaixonar-se. Depois acontecem os pequenos dramas adolescentes de todas as relações entre adolescentes, as meias palavras, as confusões, e por aí em diante. O anime segue quatro diferentes fases da relação, mas nenhuma delas nos leva a qualquer tipo de conclusão, como se a relação fosse tão efémera que nem sequer precisássemos de saber o que vai acontecer no futuro.

A arte é um pouco estranha, na medida em que é muito suave mas muito pouco detalhada. A animação e design dos personagens está bastante boa, mas os cenários apresentam-se muitas vezes incompletos o que, fazendo parte do estilo minimalista, acaba por não ficar bem num filme com uma hora.

A banda sonora é igualmente simples, sendo que muitas músicas que nos trazem curiosidade sobre como seriam, estão incompletas.

Apesar de tudo, rimo-nos bastante com o filme, por isso leva uma nota mediana.

Kobato.

Kobato.
Mitsuyuki Masuhara - Madhouse Studios
Anime - 24 Episódios
2009
6 em 10

Há quanto tempo não via um anime que me enchesse mesmo, mesmo, meeesmo as medidas? Apesar de não ser um anime perfeito, gostei tanto dele que - digo desde já - estou convencida em fazer um cosplay da personagem principal! =D

Kobato é uma menina um pouco pateta, assim como eu, sem grandes talentos. Vem com um estranho cão de peluche que lhe diz que ela tem de fazer as pessoas felizes de forma a coleccionar os seus sentimentos felizes para que o seu desejo se torne realidade. Assim, o anime é uma sucessão de episódios em que Kobato faz coisas que, se ao princípio parecem muito inusitadas, fazem todo o sentido quando a situação chega ao fim. São ocasiões muito belas e inspiradoras, em que a inocência acaba por vencer todos os problemas.

A arte, no entanto, deixa um pouco a desejar em termos de anatomia, sobretudo anatomia facial. Apesar de Kobato mudar de roupa muitas vezes, os seus designs são menos detalhados que o desejado, embora haja essa necessidade para se manter o nível de produção coerente. Também não há muitas cenas que revelem grandes técnicas de animação.

Musicalmente, temos alguns temas absolutamente fabulosos, enquanto que outros não passam da mediocridade, o que torna a OST muito irregular.

De todos os modos, o anime que mais gostei nos últimos tempos.

Metro 2033

Metro 2033
Dmitry Glukhovsky
2005
Pós-Apocalíptico

Ganhei este livro na ida Convenção do BookCrossing de há uns anos atrás e o Qui ficou com ele. Li-o nos Açores. :) Só agora, quando estava à procura dos dados para por no blog, descobri que se trata de um franchising enorme e que até tem um jogo de vídeo!

É um livro muito interessante, apesar de ter várias pequenas falhas que deixam que pensar. Em 2033 a humanidade vive reduzida ao metro de Moscovo, deivdo a um desastre nuclear que destruiu quase toda a vida à superfície. Quando na estação de VKNYh começam a aparecer seres estranhos e muito maléficos, um jovem - Aryon - tem de viajar por todas as linhas de metro de forma a salvar o que resta da humanidade.

Mas este metro está organizado numa sociedade em miniatura e existem todos os tipos de ideologias e crenças, que muitas vezes são incompatíveis umas com as outras. Assim,t emos uma estação de neonazis em oposição a uma Linha Vermelha comunista. E depois, o perigo da superfície, onde vivem monstros mutantes horrendos e muito perigosos.

No entanto, algumas coisas ficam por explicar. Por exemplo, como se livram dos dejectos. Que é da outra fauna urbana sem ser os ratos. Como é que as luzes de emergência continuam a funcionar. Onde é que arranjam roupa. E assim por diante. São pequenos detalhes da construção do universo que, se esclarecidos, o tornariam muito mais rico.

De resto, é uma leitura simples, rápida e muito cativante. O final foi um pouco forçado e, sendo imprevisível, seria escusada a "revisão da matéria dada" no último capítulo.

É um livro que não alimenta nada, mas que é muito divertido!

Ora Ponha Aqui o Seu Pézinho!

Ora Ponha Aqui o Seu Pézinho!
Relato da fantástica viagem desta parola e sua entidade maternal à ilha do Senhor São Miguel, com todas as atribulações inerentes a estar no meio da floresta rodeadas de água por todos os lados.

Pois bem... A minha mãe tinha de ir aos Açores a uma reunião e achou por bem que eu fosse com ela. Afinal, já tinha feito uma Viagem à Macaronésia, mas nunca tinha estado na ilha principal. Assim, aviámos malas, deixei o Qui com comida e água e tomámos um avião da Ryanair. Esta companhia fez com que viajar para as ilhas fosse muito mais acessível, embora as condições de conforto do bólide voador não sejam as mais perfeitas. Assim, eu e a minha entidade maternal, doravante conhecida como Minha Mãe, fomos separadas na viagem. Mas graças a um truque de uma entidade qualquer juntámo-nos mais tarde.

Chegámos e, desta forma, se inicia nesta saga o seu

Primeiro Capítulo
De como obtive revelações espirituais diversas

Ao chegar fomos buscar o carro que a minha mãe havia alugado com toda a antecedência. No entanto, o senhor que estava no atendimento do aluguer dos carros provavelmente sofria de algum distúrbio mental, pois na plenitude da sua má-vontade não nos queria dar o carro (previamente alugado!) sem que comprássemos um seguro cinco vezes mais caro. Após uma lavagem cerebral emitida pela minha mãe, lá conseguimos um Renault todo branquinho. Ficámos também a saber que eu não o poderia conduzir sem pagar um extra de 25€ ao dia, embora tal estivesse estabelecido quando se fez o negócio no continente. Vá-se lá saber.

Pois portanto, a primeira parte foi dirigirmo-nos a Ponta Delgada, onde a minha mãe iria ter a tal reunião. Trata-se de uma vila toda branca com as bordinhas pretas, com casinhas baixinhas. Estava tudo decorado para a festa do Senhor Santo Cristo, coisa em que as pessoas acreditam e que poderia ter tudo consequências fatais, como veremos de seguida. Em frente o mar, muito semelhante a um rio só que infinito. Por todo lado, flores e velas gigantes (penso que se chamem círios). Almoçámos num lugar chamado "A Favorita", onde comi o tradicional "bife à regional". Achei muito horrível, porque o molho é todo baseado em vinho e o bife propriamente dito não era nada interessante...

Fomos atrás de uma multidão e descobrimos uma fila para uma "roda". Ora, esta "roda" era onde punham as crianças indesejadas para serem alimentadas pelo clero, nos tempos do antigamente. Hoje em dia, coloca-se um objecto - viemos a descobrir que tem de ser dinheiro - que será trocado por um objecto sagrado de igual valor. Pensei em colocar um lenço de papel sujo, porque era o que tinha.

Vimos o lugar onde o Antero de Quental decidiu por termo à vida da sua barba e vimos também o busto dele, onde se constata que realmente tinha uma grande barba. O lugar da fatalidade é um banquinho. Queria ter tirado uma foto lá sentada, mas estava uma pessoa a olhar para o telemóvel no mesmo lugar. Lá se manteve durante toda a nossa visita ao centro.

De resto, fui reparando que a principal vida vegetal de Ponta Delgada se trata de uma espécie de árvore deficiente fística e mental, que só tem troncos enormes com folhitas na ponta.

 Árvore def



 Onde o Antero de Quental decidiu ir para outra dimensão



Entretanto, chegou a hora da reunião. A minha mãe havia conversado com um amigo dela dos Açores, o Senhor Filipe, que faz parte da Associação Espírita da ilha. Ora, como eu havia lido recentemente O Livro dos Espíritos, que até me tinha sido oferecido por tal pessoa, achámos por bem que eu tivesse uma "conversa" fraternal com ele para que pudesse esclarecer as minhas dúvidas.

Estivemos a falar mais de duas horas! Devo dizer que não esclareci muito as dúvidas (afinal, que seria de nós sem elas?) mas foi uma conversa interessantíssima. Não revelarei muito sobre o que falámos, mas foi mesmo muito curioso ver como as nossas crenças se entrecruzavam, apesar das diferentes interpretações. Fiquei mesmo com vontade de aprender mais! O Senhor Filipe foi muito simpático e ofereceu-me um livro sobre o sentido da vida. Espero ter dúvidas neste também! ;) A parte boa desta associação é que eles também têm um cariz social muito forte: alimentam os sem-abrigo da ilha, que estão todos identificados por eles, sendo que tentam prevenir situações de risco, entre outras coisas. Afinal, podemos ter uma religião qualquer: se a usarmos para coisas boas, é sempre uma coisa fixe. :)




Depois, fomos para o nosso alojamento. Era um alojamento local (uma casa reconvertida para isso), numa terra chamada Nossa Senhora do Campo. Não posso contar muito sobre ele, por ordens superiores, mas devo dizer que foi dos sítios mais relaxantes que visitei nos últimos tempos. Se ficasse lá uma semana teria vindo recuperada de todas as minhas maleitas! Deixo-vos só a vista da janela do nosso quarto:



Claro, fui tirando muitas fotografias dentro do carro. Esta terra é pequenina e não tinha absolutamente ninguém. Tinha uma estátua dedicada à raça de cães típica da ilha, o Fila de S. Miguel. Como tenho um paciente dessa raça, achei muito engraçado! Além disso, vi um destes em bebé a passear com uma mitra e disse olá. Curiosamente, fui reparando, ninguém nesta ilha se vestia bem. Era tudo chunga.





Fomos jantar ao restaurante O Jaime, que tem várias sucursais todas chamadas Jaime por toda a cidade. Infelizmente, o Jaime propriamente dito teve alguns problemas pessoais e entretanto dedica-se à bebida. Portanto, o restaurante estava completamente vazio. O que era um pouco triste, porque o senhor era muito simpático e a comida estava boa. Embora...! Bem, eu comi uma coisa muito, muito estranha. Era uma fritada de peixe e eu pedi aquilo convencida que seria algo semelhante a douradinhos Pescanova. Mas eram pedaços aleatórios de quatro peixes diferentes, incluindo uma cabeça. Estava muito bom, apesar de tudo, eram peixes muito saborosos e dava para distinguir perfeitamente o sabor de cada um. Só não comi a cabeça, porque nem sequer sei como é que aquilo se arranja.




Depois fomos dormir, em preparação para um fantástico....

Segundo Capítulo
De como nos perdemos na montanha arriscando as nossas próprias vidas

Neste segundo dia da nossa estadia, experimentámos um excelente pequeno almoço composto de queijos variados, pães açoreanos, ovos cozidos  e outras coisas diversas que eu não sei o que eram. Depois, seguimos viagem.

Primeiro fomos tomar café à Caloura. Tem o mar e o mar faz uma piscina. E tem pedras.


Ora, uma das características essenciais desta ilha é que todos os lugares que não são perto do mar são montanhas. Montanhas com 200% de inclinação, ao que parece, porque íamos morrendo e não haveria ninguém para contar a história. A minha mãe lá foi conduzindo, curva a curva, subindo longamente as imensas florestas, encontrando gado vacum vadio, tractores vacuns vadios e autocarros completamente descontrolados. Curiosamente, a técnica de condução da minha mãe inclui apitar em todas as curvas e entrar nelas em contra-mão, o que torna tudo ainda mais excitante do que seria se não corrêssemos um perigo mortal.

Assim, chegámos à nossa primeira lagoa: a Lagoa do Fogo.





Depois descemos tudo outra vez.


Fomos a Ponta Delgada outra vez, para comprar umas coisas e souvenires, coisas que só há lá (apesar de não serem muitas, são giras).

Depois subimos tudo outra vez.


E chegámos às Sete Cidades. Existe um miradouro onde dá para ver as duas lagoas, a verde e a azul, as duas juntas. Mesmo ao lado está um proto-hotel gigantesco, abandonado, que deve ser fascinante. Claro que ninguém me deixou lá ir...





Depois fomos almoçar a um restaurante junto das lagoas, chamado S. Nicolau. Pedi hambúrgueres de novilho. Repare-se: de novilho. Ora, estando nos Açores e dizendo "de novilho" na ementa, seria de esperar que fosse um novilho nascido, criado, brutalmente picado e transformado em habúrguer, tudo nos Açores. Mas não. Era um hambúrguer congelado da Iglo. Além disso, a minha mãe comeu umas lapas que pareciam estar mais que passadas, com um cheiro horroroso.

Mas vimos as lagoas de perto. :)







Posteriormente, voltámos a subir a montanha. Fomos parar lá não sei onde, mas subitamente vimos uma placa que indicava outra lagoa: a Lagoa do Canário. Estava bem escondida, mas encontrámo-la!|





Depois... Já sabem? Pois é. Descemos tudo outra vez! =D

Fomos parar a um Farol, que estava fechado e não tinha grande graça. Começámos a reparar em outros carros alugados: todos com matrículas novas e de cores claras. Quando estávamos a sair do Farol, chegaram dois desses.





Regressámos a base. Adormeci uns minutos. Mas logo depois tínhamos de acordar, pois havíamos combinado com o Senhor Filipe jantar na Ribeira Nova, num restaurante que ele conhecia. O restaurante chamava-se Alabote e comi maravilhosamente bem. Partilhei com o Senhor Filipe uns filetes com molho de manga e um folhado de cherne. Tudo óptimo, óptimo, óptimo!



Após tão cansativo dia, caímos na cama e roncámos. Para seguirmos para o

Terceiro e Último Capítulo
De como visitámos o habitat natural do pum e apanhámos uma carga de nervos.

No terceiro dia, só tínhamos até meio da tarde para podermos ver mais coisas. Então, decidimos ir às Furnas. A principal característica das Furnas é que se trata de um local onde o planeta está a dar puns. Cheira tudo a pum e saem puns da terra. As pessoas utilizam os puns da terra para cozinhar cozido. Tem de se ter muito cuidado para não cair lá dentro, ou ficamos cozinhados também. Em frente deste rabo do mundo, está uma lagoa, a Lagoa das Furnas.









A minha mãe quis mostrar-me as Termas Dona Beija. Um sítio muito bonito, fez-me muita pena não ter nem fato de banho nem a depilação feita... Águas termais, quentes (piscinas a 39ºC) e um ambiente lindíssimo!






Almoçámos no restaurante Miroma. Finalmente, FINALMENTE, comi o bife que merecia. Finalmente! Estava tão tenro e tão bom e tão bom!

Para finalizar a viagem, fomos ao Jardim Botânico Terra Nostra. Foi das coisas mais maravilhosas que vi. A qualquer momento poderia aparecer uma fada ou outro mito qualquer. Tirei mil milhões de fotos e ficava lá a viver para sempre!















E chegou a hora de voltar para casa! E aqui foi a parte mais enervante: as senhoras da Ryanair, em vez de fazerem o check-in como pessoas normais, começaram a fazê-lo um a um a todas as pessoas da sala de espera, até as que estavam sentadas! O voo atrasou-se, foi o caos! Depois, dentro do avião, uma senhora insistia que queria ficar junta com a sua mãe, mas ninguém dava o lugar ao lado, pelo que se empatou ainda mais o descolar: as pessoas não se podiam sentar! Também foi o caos! E, chegadas a Lisboa, uns idiotas de uns turistas queriam-nos roubar o táxi! Baaaaaah

Mas foi uma viagem muito boa e, sobretudo, muito relaxante. Quero voltar lá com vocês todos! =D