24.11.14

The Wind Rises

The Wind Rises
Hayao Miyazaki - Studio Ghibli
Anime - Filme
2013
9 em 10

Duas double sessions, muitos filmes. Falaremos bastante deste nos tempos vindouros.

Durante muito tempo, sempre houve anúncios de que o Sr. Miyazaki se ia reformar, que ia deixar de fazer filmes e todas essas coisas. Na verdade, três ou quatro filmes foram o seu "último filme". Então, deixei de acreditar que ele se fosse reformar. Mas apareceu o "Wind Rises", que viria a ser o filme definitivo. Ouvi e li críticas agressivas, intenso desapontamento dos fãs. Mas, apesar de todas as subversões, quando terminei de ver este filme, decidi comigo própria: é este o filme definitivo. Para finalizar uma era, seria necessária uma obra prima. E aqui está ela. Acredito que este filme venha a ser um dos exemplos pilar para todos os visionantes. Acredito que este se tornará um filme essencial.

Para começar, neste último filme, o Sr. Miyazaki decide cortar todas as relações com o passado. Assim, apresenta-nos um filme de não-ficção, inspirado na vida e obra de uma pessoa que realmente existiu, passado no mundo real, relatando coisas que efectivamente aconteceram. Para além do mais, é um drama. E, finalmente, não será de todo o mais apropriado a crianças muito pequenas.

A pessoa escolhida para protagonizar este filme chamava-se Horikoshi Jirou. Na impossibilidade de se tornar piloto de aviões, o seu fascínio desde criança, torna-se um dos mais importantes engenheiros a trabalhar nos primórdios da Mitsubishi. E desenha, com sucesso relativo, aquilo que virão a ser os aviões que proliferaram durante a segunda guerra mundial e que interviram de forma muito importante no seu desfecho.

O tema é o sonho. Jirou sonha constantemente com o seu ídolo - Caproni - uma pessoa de um passado mais remoto, que desenhou aviões. Tendo este homem como exemplo, Jirou sonha em construir o melhor avião. Ele não quer uma máquina de guerra, ele não se interessa sobre o destino que irá ser dado ao seu avião. Ele deseja construí-lo pelo simples prazer de criar. E aqui, desde já, se estabelece uma força na personagem impossível de contornar. É um sujeito estranho, este, que fala de forma monocórdica e trabalha a toda a hora, sem dormir, fumando e fumando. Será um indício de autismo? Mas são estas pequenas coisas, que ao início são irritantes, que definem o personagem como uma pessoa real e única dentro do seu contexto.

Paralelamente ao sonho dos aviões, o vento levanta-se de outra forma. Desenrola-se uma história de amor de contornos trágicos, mas com sentimentos tão puros que não podemos deixar de desejar que sejam simplesmente felizes. É uma história comovente e muito realista, falando da epidemia de tuberculose que decorria na época, não só no Japão mas um pouco por todo o mundo. Os momentos do casal são extremamente simples, mas com um romance implícito que vem apenas a tornar a conclusão ainda mais triste, apesar de lógica e necessária.

No respeitante à animação, temos o melhor que este estúdio tem para oferecer, e ao qual já estamos bem habituados. Como a história não se passa num mundo fantástico, e sim no mundo real, não temos grandes complexidades estruturais ou extremamente originais. No entanto, há tal delicadeza no detalhe dos cenários, profundidade e suavidade que este filme se torna surpreendentemente belo. Os cenários são pintados por meios tradicionais e apesar de existir um tratamento digital, sobretudo evidente na cena do terramoto, este integra-se bastante bem e não nos faz estranhar. Em todos os desenhos técnicos se revela uma pesquisa profunda sobre o tema. É também de notar o excelente trabalho de fotografia e enquadramento, que nos trazem cenas muito realistas e, sobretudo, muito belas. 

Gostaria também de falar da excelente animação de todas as cenas de sonho, em que viajamos em cima de aviões impossíveis e em que Jirou se consegue aperceber dos seus erros, aprendendo e evoluindo. Cada cena representa um pilar importante na evolução, no vencer dos medos e na concepção do avião ideal, que depois tem a sua inspiração final dentro do romance. Estas cenas de sonho transladam-se também para cenas em que o personagem se encontra extremamente concentrado. São a única parte fantástica do filme e trazem uma frescura estonteante e inspiradora.

Musicalmente, temos um tema recorrente, interpretado em vários tempos e vários instrumentos, conforme seja mais adequado à situação. É um tema muito positivo, que acrescenta ao filme uma onda de optimismo que não corresponde à realidade. Quero eu dizer que este filme apresenta todos os temas, o sonho, o romance, sob uma perspectiva muito positiva. E a verdade, aquilo que aconteceu no mundo real, no nosso mundo, não podia ter sido pior.

E é por isto que me apaixonei por este filme.

A narrativa tem vários elementos autobiográficos. Miyazaki não só fala sobre uma pessoa por quem terá a maior consideração: ele revisita-se em várias cenas. Temos muitos momentos que nos recordam filmes anteriores, como Porco Rosso e A Viagem de Chihiro, o que demonstra uma capacidade auto-crítica de louvar. Mas o mais importante, para mim, é o momento em que nos apercebemos do verdadeiro conceito do filme. Acredito que nunca o Estúdio Ghibli fez algo tão negativista, apesar de o apresentar sob uma luz de  aparente felicidade.

Porque, apesar dos aviões serem o sonho de Jirou e de ele dedicar a sua vida à sua concepção, a verdade é que estaríamos todos melhor se ele tivesse abandonado o seu sonho logo antes de ele existir. Porque Jirou construiu os aviões. E depois veio uma bomba atómica. E qual é a moral disto tudo? Por vezes os sonhos são belos, mas as consequências são tão destrutivas que temos de ter a capacidade de avaliar quais os sonhos que se devem tornar realidade ou não. Foi o que Jirou, enquanto personagem (enquanto pessoa?) não conseguiu fazer.

Assim, o final apresenta-se muito agridoce, controverso e intenso. A cena final é subtil e maravilhosa, tornando toda a experiência do filme muito extrema.

Assim, gostaria de recomendar a toda a gente que veja este filme. É a obra de arte que vem a provar a verdadeira capacidade de Miyazaki, é o seu filme definitivo. É a película que condensa todo o trabalho de uma geração e que vem finalizar uma era na indústria cinematográfica e de anime. Será certamente uma peça importantíssima no crescimento do anime como arte visual e acredito que a sua importância será devidamente reconhecida quando os ânimos acalmarem. Pois o filme não corresponde às expectativas. No entanto, cria novas expectativas. E a essas, ultrapassa-as.

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