30.9.16

A Última Dona

A Última Dona
Lídia Jorge
1992
Romance

E ainda mais um furto do picnic! Foi o terceiro livro da autora que li e gostei muito. Um pouco diferente dos outros que havia experimentado. Uma escrita mais clara, mais simples, mas uma história mais bizarra.

Um homem leva a sua nova amante para uma casa misteriosa, A Casa do Leborão, onde poderão passar cinco dias juntos sem que ninguém os identifique. Mas esta casa é mais estranha do que aparenta ser e, por debaixo de uma aura de puro descanso e relaxamento, acontecem coisas incompreensíveis.

Um misto de sonho e realidade, terminamos o romance sem saber exactamente onde estamos, quem somos e o que se passou realmente. Segundo a sinopse, o livro é uma "ode ao amor", mas não senti nada disso. Penso que se trate mais de um certo universo kafkiano em que um homem solitário na sua vida conjugal se remete a realizar o seu sonho, a sua idealização da mulher perfeita que encontra nesta rapariga que levou para aqui. Quando esta se afasta dele para todo o sempre (não direi como), a sua reacção é tão errática que podemos compreender que este personagem não amava realmente a rapariga: ele apenas buscava nela o ideal de todas as mulheres da sua vida misturadas numa criatura inexistente, não humana.

Daí a casa também estar fora da realidade. Não ser humana. O facto de nenhuma das outras pessoas ter rosto pode ter muitos significados, mas penso que seja algo relacionado com o facto de o Engenheiro, o homem, não conseguir afastar da sua mente a imagem ideal dos lábios rubros e pele de espuma do mar. Assim, não faria sentido que qualquer outra pessoa tivesse rosto, um discurso coerente. No entanto, os diálogos entre os vários intervenientes podem revelar-nos algumas coisas. O homem que ama o cão, o que poderá significar? E todas as palavras fatalistas dos empregados, em que revelam que a casa está diferente mas, ainda assim, completamente igual?

Serão estas palavras algum tipo de referência à nossa realidade, fora do livro, em que nos afastamos uns dos outros voluntariamente sendo que com isso as nossas vidas ficam limitadas à escuridão e máscara?

Refere-se também na sinopse que este livro foi muito controverso na altura, mas não consigo compreender porquê. Haverá neste mistério alguma significação política que me escapa?

Um livro estranho e envolvente. Fica a sugestão :)


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