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  • Perguntem a Sarah Gross

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    Perguntem a Sarah Gross
    João Pinto Coelho
    2015
    Romance

    Recebi este livro pelo BookCrossing, através de um longo ring que já se vinha prolongando por algum tempo. Eu fui a última mas, mesmo assim, peguei logo no livro. Lê-se bem, mas.... Há sempre um mas, não é?

    Para começar, este livro é passado num ambiente que parece tão pouco familiar como inverossímil: a escola americana, escola privada cheia de idiossincrasias. No entanto, todas elas, assim como o mapa da escola e como as personagens que vão aparecendo, acabam por ser absolutamente desnecessárias ao desenvolvimento da história. O autor atira para todos os lados: quer falar do holocausto, quer falar do racismo, quer falar de perseguidores sexuais e pedofilia. No entanto, não é capaz de se focar em um dos temas e explorá-lo em detalhe, sendo que todos os caminhos se concluem em lado nenhum.

    Como se a passagem pela escola e o encontro de todos os personagens tenha sido indififerente!
     
     De resto, o livro foca-se bastante nos terrores e horrores do holocausto nazi. A recolha destas experiências e a tentativa de as colocar em papel foi bastante mal sucedida, porque a forma de escrever bem humorada retira muito do factor pânico das situações. Para além disso, há uma sucessão de cenas cada vez mais melodramáticas e muito foleiras (tocar violino no funeral?) que tiram o realismo da história e afastam-na para uma fantasia cinematográfica mal adaptada ao fundo literário.

    Portanto, um livro que se lê bem mas que não é especialmente bom. Agora, penso que  regressará a casa :)

  • O Meu Irmão

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    O Meu Irmão
    Afonso Reis Cabral
    2014
    Romance

    Dizia eu ainda há pouco qe já não confiava no prémio Leya. Assim, quando me enviaram este livro na Troca de Natal do BookCrossing, fiquei de pé atrás. Para mais, o autor esreveu-o aos 24 anos. E pela descrição na aba do livro, parece um belíssimo cromo. No entanto, temos de admitir: este cromo escreve bem para cacete!

    Este livro fala de sobre muito mais do que pensaríamos inicialmente. Um homem, professor na faculdade de letras, tem quatro irmãs mais velhas e um irmão mais novo. Este, tem síndrome de Down. Quando os pais morrem, ele decide - contra todas as expetativas - ficar com a guarda de Miguel, o rapaz deficiente (que, por esta altura, já tem quarenta anos). A história começa quando eles vão para a pequena aldeia do Tojal passar uma semana, tendo apenas uma única amília, ela própria com seus problemas, como vizinhos.

    Poderíamos pensar que este livro se completaria como uma comiseração do problema da deficiência. No entanto, o autor trata-a de forma crua e, precisamente por isso, muito realista. Ter um "mongolóide" à sua guarda não é tarefa fácil, por mais que nos esforcemos por provocar o amor, e o autor consegue fazer com que essa questão se reflicta nos seus personagens.

    Também não é um livro que fale do isolamento das aldeias portuguesas (tema recorrente na nossa literatura), sendo que esta aparece mais como pano de fundo para o desenvolvimento do personagem do que outra coisa.

    e é esse o ponto que roça a genialidade deste livro. A história não é sobre o deficiente. A história não é, de todo, sobre os problemas que estas pessoas enfrentam no dia a dia. Aliás, todos eles são frequentemente referidos como seres inferiores que podem aser troçados e abusados pelos elementos mais fortes, contra todas as expectativas do políticamente correcto. Este livro, na verdade, fala sobre a incapacidade de um homem em sentir uma ligação emocional com os outros. Sendo que, neste momento, o foco é o irmão deficiente.

    Por isso a sua luta constante contra o sujeito de afecto do irmão. Por isso o forçar constante por regr4as, por obediência, por uma estabilidade que seria impossível, devido aos problemas físicos e mentais do rapaz. Este é um livro que fala sobre uma pessoa horrível. E a forma como o autor nos demonstra isso, a nos que até nos identificávamos com o narrador e compreendíamos a sua dor, é feita com uma subtileza e mestria arrepiantes.

    Por isso, gostaria de mandar um mail a este rapaz dizendo: sois um cromo, mas escreves pra caralho.

  • Que Importa a Fúria do Mar

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    Que Importa a Fúria do Mar
    Ana Margarida de Carvalho
    2013
    Romance

     Recebi este livro pelo BookCrossing, num Ring. 

    Existem alguns livros que se podem definir numa única palavra. A deste é: petulante. Cada vez mais me convenço que para um livro ter sucesso em Portugal e ganhar prémios em geral tem de falar sempre de temas relacionados com a ditadura ou a guerra colonial. Mas neste caso em específico, a autora não faz de todo um bom trabalho.

    Duas histórias se misturam aqui: a do homem que esteve preso no Tarrafal e a da jornalista que o está a entrevistar. Existe uma obsessão com uma mulher perdida a quem o homem enviou umas cartas. E descrições altamente detalhadas dos horrores horríveis e horrendos da dita prisão.

    No entanto, passa-se aqui uma coisa que não funciona de todo: a escrita. A autora mistura os seus conceitos altamente modernos e plenos de "piada" com coisas que não estão adequadas à época. Por exemplo, porque é que uma pessoa nos anos 40-50 faria "um link entre sinapses"?

    Para além disso, a autora faz questão de dizer frequentemente que este livro é um livro. Uma espécie de quebra da quarta parede, mas que apenas dá toda uma aura de auto-glorificação à escrita.

    Um livro que me irritou pela personalidade que transmite. Cada vez mais desisto do Prémio Leya.
  • O Teu Rosto Será o Último

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    O Teu Rosto Será o Último
    João Ricardo Pedro
    2011
    Romance

    Livro curtinho que recebi no BookCrossing.

    Através de episódios curtos, aparentemente sem conexão entre eles, forma-se a história de uma família assombrada pela guerra colonial, num contexto doloroso e humano. Cada capítulo conta uma história, por vezes com personagens recorrentes, por vezes com pessoas que não sabemos quem são, mas que estão intimamente envolvidas na narrativa geral, apenas revelada no final.

    Enquanto isso, acompanhamos o crescimento de Duarte, um jovem que tem um fantástico talento para o piano. Apesar desse talento, existe uma relação de amor-ódio com o instrumento (com a qual me identifico), que tende a cair no exagero, no momento de libertação sobretudo.

    A prosa é muito interessante. Através de várias perspectivas de enumeração, o efeito é sarcástico e humorístico, apesar de haver muito sofrimento por detrás das palavras. Talvez esta técnica tenha sido utilizada demasiadas vezes, tendo sido melhor que o autor a guardasse para momentos mais específicos, sem abusar do efeito.

    No geral, gostei bastante. Como se lê num instante, acho que não se perde nada em experimentar.
  • Debaixo de Algum Céu

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    Debaixo de Algum Céu
    Nuno Camarneiro
    2013
    Romance

    Tinha visto no jornal demasiadas ovações a este livro, vencedor do Prémio Leya 2012. Já começava a ganhar-lhe raiva quando li a sinopse. Qualquer coisa como "vida dos vários inquilinos de um prédio ao pé do mar". E achei que era interessante! Então aproveitei a Feira do Livro para o comprar (foi o mais caro deles todos)

    Foi uma surpresa absoluta. Eu pensava que ia ser um livro denso, cheio de humor, afinal como poderíamos falar da vida dos inquilinos de um prédio se não lhes acontecessem coisas espectaculares e fora do normal? Mas foi exactamente o oposto. Tudo o que lhes acontece é normal. Mas como os conhecemos, como são os nossos vizinhos, parecem coisas extraordinárias.

    Tudo se passa em apenas sete dias, entre o Natal e o Ano Novo. Pelo meio falta a luz e é nessa noite escura que são feitas as grandes decisões de todas as personagens, que acabam por ter a sua resolução no novo ano. Cada dia é relatado pelo narrador e depois analisado por um dos habitantes do prédio. Não gostei muito das partes dos habitantes do prédio, pois todos eles diziam muitos palavrões. Ao início as suas vozes pareciam-me muito distintas umas das outras, mas a partir do meio comecei a pensar que eram todas a mesma pessoa, pois o estilo narrativo, a maneira de falar, era igual para todas.

    O livro é depressivo e é trágico. O final é agri-doce, com coisas que terminam e coisas que recomeçam. Não é um final feliz, nem é bem um final. Porque a vida continua e este livro é sobre a vida. A vida das pessoas, que somos nós.

    Recomendo, mas não para todos. Não é um livro que nos faça sentir muito bem. A história é forte pela maneira como se conecta à nossa realidade, a de hoje em dia, a que estamos a viver neste momento.
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