Archive for terça-feira, abril 14

  • Análise: Tetsuwan Atom - O Menino que é um Roboto

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    Estavamos em 1963, estava Portugal preso numa ditadura católica, quando Osamu Tezuka acha que seria boa ideia passar para a imagem animada o seu manga TETSUWAN ATOM. Assim começa uma revolução que nos permite, até aos dias de hoje, ver animação com histórias sérias, de qualidade que, mesmo que dirigidas a crianças, são transversais a todas as idades.

    Tetsuwan Atom, ou Astro Boy, é um menino que - por mero acaso - também é um robot. Ele faz coisas de menino, gosta de coisas de menino. Brinca, vai ao circo, luta contra alguns meliantes, salva algumas pessoas. Tem uma série de poderes já equipados de origem, sendo o mais evidente a bota turbo que lhe permite voar. No entanto, este menino-robot também tem dúvidas que talvez sejam demasiado humanas para uma máquina.

    Um dos exemplos deste elemento, um dos que mais me comoveu, aparece logo no segundo episódio, em que Atom se questiona *porque é que não tem mãe*. Esta é uma dúvida frequente em crianças órfãs, o que é o caso deste robot. Ele sabe que tem pai, considera o seu criador como pai. Mas e a mãe? Todos os meninos que conhece têm uma mãe, porque é que Atom não pode ter? Então, ele procura criar uma figura materna, procurando-a noutros robots. No entanto, isso não é possível, pois - nesta fase - ele ainda é o único robot consciente. Achei isto extremamente doloroso, e até verti uma lágrima.

    Felizmente, Tezuka tem a bondade de não deixar Atom completamente só e oferece-lhe uma irmã (Uran), com quem as brincadeiras se tornam ainda mais divertidas.

    Talvez o único defeito deste anime, que tem uma animação extraordinária para a época, seja o facto de que o valor de produção foi escolhido para manter a longevidade da série, em vez de manter a qualidade. Assim, temos muitos episódios repetidos, e outros que não sendo exactamente iguais têm a mesma história.


    Tetsuwan Atom é de uma genialidade incrível, em que se mistura inocência com heroísmo, sempre pontuado por um grande desejo pacifista de um autor que viu a bomba atómica. Atom é um herói inusitado, porque tudo o que ele gostaria seria ser apenas um menino. E, precisamente por isso, é tão inspirador.


  • Análise: Sousou no Frieren - A Dor da Imortalidade

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     Um dos animes mais aclamados dos últimos tempos, e que tem dado o que pensar e dado azo a muitos debates. Sousou no Frieren (A Jornada para o Além, em PT-BR) fala-nos de, precisamente, Frieren: uma elfa milenar que participou em tempos na luta contra as forças do mal, com sucesso, e que agora enceta uma nova viagem. O porquê desta viagem é algo de belo e transcendente: ela deseja encontrar o Herói da sua party antiga, que estará no mundo dos mortos após ter falecido por excesso de idade. Pelo caminho, com ajuda da sua nova equipa, irá viver momentos nostálgicos que lhe dirão sempre a mesma conclusão: vem, viver a vida amor, que o tempo que passou, não volta mais.

    Mas não só de pequenos snippets da vida diária se compõe este anime: temos momentos de acção absolutamente fabulosos, com uma animação espectacularizada que acaba por equilibrar com os outros episódios mais calmos e mais focados no dia a dia dos nossos viajantes.

    Cada personagem, em ambas as parties, tem o seu quê de único, sendo que o autor (suponho que do manga?) faz um esforço consciente para dar uma backstory válida aos que já morreram e um desenvolvimento pessoal e emocional aos que cá estão. Assim, não podemos caracterizar nenhuma destas personagens com uma ÚNICA palavra. Tomemos o exemplo da própria Frieren: muitos comentários afirmam que ela é autista. Pessoalmente, acho que a personagem é muito mais complexa do que isso (e que não tem qualquer característica autista nem neurodivergente). Frieren é uma maga poderosíssima, mas ainda assim com um toque de humildade. É estudiosa e extremamente curiosa, mas o facto de ter crescido num isolamento quase total não permite que compreenda na totalidade o comportamento humano dos seus companheiros. Isso dá azo a muitos mal entendidos, que tornam a série mais leve e engraçada nos momentos calmos. Assim, Frieren pode ser uma elfa, uma entidade quase imortal, mas a dor da sua imortalidade é evidente, tornando-a numa personagem multifacetada. 


    A questão da imortalidade sempre me foi querida, até estou (há anos) a trabalhar numa história com esse tema. Neste anime, a situação torna-se especialmente pungente: o tempo que passou não mais irá voltar, e as coisas que não foram ditas nunca mais poderão ser reveladas à pessoa certa na hora certa. E, agora que a nossa elfa tem uma segunda party, não irá deixar de aproveitar a oportunidade para FALAR, para dizer o que sente, e para aproveitar melhor o tempo que - infinito para ela - passa demasiado rápido para os outros.

    Foi um anime que apreciei muito, sendo a minha classificação de 7/10 para a primeira season. A segunda season é menos relevante, parecendo ser mais uma temporada de transição do que algo que realmente acrescenta à história. É uma história bonita, que dá que pensar, e que correu bem pois está altamente popular.



  • Análise: Mobile Suit Gundam (mas só UC)

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     Estamos no ano de 1979 e uma figura de génio surge no panorama do anime: Tomino. Este homem tem alguns elementos de personalidade fixos: é agressivamente pacifista, gosta de máquinas e gosta de distribuir chapadas. Comecemos pelas máquinas.

    Gundam, os Mobile Suits, Kidou Senshi, são máquinas de guerra invencíveis e imbatíveis, uma mistura de arma com escudo, cujo nome terá sido idealizado como "arma tão poderosa que consegue proteger uma barragem". Os Gundams são quase mágicos, na medida em que certos pilotos, aqueles nascidos já no espaço, conseguem ter um maior controlo sobre eles com a força da mente. São os chamados Newtypes, um conceito de humanidade muito interessante: a partir do momento em que nascemos no espaço, seremos considerados ainda como seres que pertencem a um planeta?

    Desde que vi Gundam a primeira vez, há muitos anos, gostei logo da ideia das Colónias, cilindros gigantes que orbitam à volta da Terra e que têm as suas próprias civilizações e comunidades. No entanto, nessa altura ainda não tinha compreendido bem a implicação de que as pessoas que nascem no espaço poderiam, efectivamente, considerar-se diferentes dos terráqueos e - por isso - ter uma razão para começarem uma guerra de independência.

    É nesta linha que surge o Principado de Zeon. Apesar de ser um principado, apesar de ter uma tendência bélica em tudo semelhante ao poderio do Eixo do Mal que vivemos nós próprios na Terra, Zeon acaba por ser um dos meus "mitos" preferidos. Em representação da luta contra as forças da Terra, a Federation, temos o misterioso Char Aznable. Ele conduz um Mobile Suit Zaku vermelho, o que torna tudo mais especial e espectacular, e a sua evolução enquanto personagem é como o vinho da adega da Ferreirinha: à medida que envelhece, fica mais gostoso.

    Isto porque a história do Universal Century em Gundam não se limita à Guerra do Um Ano: Char disfarça-se em Zeta como Quattro Bagina (um nome excelente, diga-se de passagem) para lutar contra uma equipa de pilotos que insiste que a Terra é o único lugar válido para se viver, tendo como objectivo desgraçar os habitantes da colónias. Em ZZ ele desaparece para dar lugar a outra antagonista excelente, Haman Karn, cujo maior desejo é restaurar os direitos governamentais à muito jovem princesa de Zeon. E, finalmente, tudo culmina com Char atirando uma Colónia para cima do planeta num auto de fé de destruição total, o que nos remete quase para o Nazismo.

    Como poderão reparar, Char Aznable é um dos meus antagonistas (vilão? Anti-herói?) favoritos de sempre. A Haman está num lugar bem próximo como personagem favorita do franchise inteiro, até fiz cosplay dela sem grande sucesso. Ainda gostaria de refazer esta personagem, num outro design. Também gosto muito do Noah Bright, falemos um pouco sobre ele.

    Bright, capitão almirante da nave de guerra White Base, vê a sua vida toda a andar pra trás quando a Colónia onde fizeram uma pausa para apanhar os Gundams é atacada e a sua nave (de guerra) fica cheia de civis. Crianças, nomeadamente. E o pior disto tudo é que ninguém faz aquilo que ele pede, nem aquilo que ele ordena, nem nada do que ele quer. Por isso, o recurso estilístico para resolver esta situação é.... Correr toda a gente à base da chapada! Yay! Gosto imenso desta atitude desesperada, e à medida que o personagem vai crescendo, também a sua paciência vai diminuindo.

    De resto, Tomino é anti-guerra. Em Gundam UC não conseguimos definir exactamente quem são os bons, nem quem são os maus.

    Se por um lado Zeon tem um design altamente nazi, e ideias bélicas muito ligadas a uma monarquia imaginária, do outro lado os Feddies também têm objectivos de guerra muito malévolos que envolvem o domínio completo das Colónias. Nada é preto no branco, sendo que a única coisa de que temos a certeza é que: a guerra mata, a guerra destrói, a guerra é muito, mas mesmo muito, merdosa.

    Suponho que Tomino tenha vivido a guerra na realidade, daí ter exposto o seu trauma, as suas ansiedades mas - também - o seu sonho de paz através de uma obra que disfarça tudo isto atrás de robots gigantes com espingardas e espadas mecânicas.

    Não posso despedir-me sem antes deixar uma nota para a animação genial de todas as quatro partes do anime (ZZ, com menor valor de produção, tem alguns momentos que deixam muito a desejar, tho). A realização deste anime é em tudo semelhante a um filme de cinema, com uso de perspectivas, cores e efeitos de luzes que nos remetem a uma realidade total. Podemos estar a viver na fantasia do Space Opera, mas a forma como tudo está dirigido e montado dá-nos um extremo realismo, e permite que realmente nos identifiquemos com as várias personagens.

    Também não disse que detesto o Kamille, porque ele faz tudo errado e é um vegetal. Enfim, é um anime que nos traz mesmo emoções fortes.

    Para sempre irei recomendar Mobile Suit Gundam. Mas só UC.



  • Análise: Chainsaw Man - A História de Reze

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     Supostamente um dos grandes candidatos ao Oscar de Animação, mas que não chegou a ser seleccionado, e supostamente o melhor filme de anime alguma vez produzido pela MAPPA, e também supostamente o melhor anime do transacto ano de 2025... Digamos que este filme, sequela imediata do anime de Chainsaw Man, tinha tudo para ser um sucesso e - realmente - foi um sucesso.

    Mas não é sobre sucesso ou popularidade que quero falar: isso é um denominador comum a todos os últimos shounens da moda, e Chainsaw Man - apesar de ser de qualidade ligeiramente superior - não deixa de ser um shounen da moda, altamente amado, altamente partilhado e com uma fandom obsessiva (como o deveriam ter os melhores animes, diga-se de passagem).

    O que realmente gostaria de dispersar por aqui é o facto deste filme, realizado por um mero freelancer usualmente renegado à key animation, se trata de uma obra maior da animação japonesa da actualidade. Este realizador essencialmente desconhecido faz um trabalho excelente na adaptação do manga, oferecendo dinamismo, fluidez e cores a uma história que - na sua simplicidade shounenesca - acaba por se tornar apaixonante.

    Denji acha-se meio estranho numa nova situação: está apaixonado. Uma rapariga muito sedutora e cheia de flirt, Reze, atrai-o sem que haja uma justificação lógica. Afinal, o amor (a paixão?) não precisa de regras. Infelizmente, rapidamente é revelado que esta bela rapariga afinal é um dos demónios que Denji tem de destruir: o Bomb Demon, demónio bomba perigosíssimo.

    Existem algumas cenas que me marcaram especialmente: quando Denji e Makima vão ao cinema, e essencialmente descreve o filme que vamos ver de seguida; e a cena da piscina, que é muito melancólica mas também muito cativante.


    Além de uma animação excelente, com momentos de grande virtuosismo, a própria história tem o seu quê de muito comovente, na medida em que o pobre Denji - que é uma criança crescida, que não conhece as relações humanas, que não conhece o amor - é seduzido para depois ser imediatamente traído pelo demónio bomba, que engana o nosso MC perdido de desejo e, com isso, lhe ensina duas coisas: sim, a paixão existe e é maravilhosa; e não, nem sempre as coisas são aquilo que parecem.

    De resto, temos uma cena bastante icónica do Angel Demon de lingerie.

    Fiquei muito surpreendida por ter gostado tanto deste filme, e a minha classificação final é de 8/10. Como desfã (o contrário de fã?) de animes para rapazes adolescentes, foi desafiante ver este anime mas, em conclusão, muito satisfatório.

    Reze recomenda, e eu também.




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