30.6.15

Sidonia no Kishi: Daikyuu Wakusei Seneki

Sidonia no Kishi: Daikyuu Wakusei Seneki
Seshita Hiroyuki - Starchild Records
Anime - 12 Episódios
2015
5 em 10
 
Terminando a Season de Primavera de 2015. Pelos vistos não há melhor da season, já que estava vendo apenas três. Aliás, o melhor da season só vai terminar dentro de uns meses. Enfim, este foi, mais uma vez, uum anime incapaz. Para saberem mais sobre a primeira season, vejam aqui. Apesar de a minha opinião anterior não ser muito positiva, decidi ver a segunda parte por ter lido algures que iam falar sobre Blame!, um manga que amo de paixão. Infelizmente, de Blame! nada se falou. A segunda season de Sidonia no Kishi continua com os mesmos problemas.

Quiçá ainda mais exacerbados.

Nesta parte da história eles buscam encontrar os alienígenas maléficos e destruí-los, com ajuda de uma nova amiguinha que se tornou meio entidade maléfica mas que é boazinha na mesma. Isto é, em termos narrativos não temos nada de especial. Sobreviveria o anime com força do desenvolvimento dos seus personagens. Mas estes, que pena, continuam a ser patéticas crianças com problemas de crianças. Em minha opinião, eles teriam mais coisas com que se preocupar do que as suas competições infantis e beijinhos secretos e a amiguinha que é tão inadaptada (por ser, afinal de contas, um monstro horroroso. Apesar de simpático). Mas nada isto acontece, o que acaba por se reflectir nas suas prestações respeitantes a combates galácticos.

Estes procuram ser algo de espectacular, mas a animação digital em nada contribui para isto. Simplesmente não funciona. Existem cenas horríveis e, sendo que esta season se dedica mais aos personagens, as expressões faciais têm uma plasticidade ineficaz que nada transmite sobre emoções ou estados de espírito. Se na primeira season poderíamos perdoar isto por ser uma "experiência", na segunda season já deveriam ter colmatado as falhas. Parece-me inadmissível que, para além de não corrigirem nada, ainda façam coisas piores.

Musicalmente, tudo nos leva a acreditar no épico. Mas de épico esta série não tem nada.

Talvez tenha sido um erro ver esta season. No fundo, senti-a quase como uma perda de tempo. Embora ver anime nunca seja perda de tempo. Um paradoxo.

JoJo's Bizarre Adventure: Stardust Crusaders - Egypt Arc

JoJo's Bizarre Adventure: Stardust Crusaders - Egypt Arc
Tsuda Naokatsu - David Production
Anime - 26 Episódios
2015
6 em 10
 
Vamos à segunda parte da terceira parte de Jojo's Bizarre Adventure! Para saberem mais sobre esta, cliquem aqui. :) Foi o último anime da season de Inverno de 2015 a terminar, dos que estava a vendo.

A história começa exactamente onde a primeira season nos deixou: os nossos amigos estão em busca de Dio e acabam de chegar ao Egipto, onde os esperam novos oponentes e inimigos. Mais uma vez, cada um ou dois episódios são dedicados a um inimigo diferente, com o seu próprio estilo e o seu stand único. Isto significa que todas as lutas são completamente diferentes umas das outras. No fundo, tudo isto acaba por servir como exemplos seguidos de exemplos para demonstrar a versatilidade dessa invenção que é o conceito de "stand". Muitas vezes, isto dá azo a lutas muito interessantes e emocionantes, devido às diversas capacidades que cada um dos personagens tem. Mas, outras vezes, poderá ser um pouco aborrecido. Em alguns episódios dedicamo-nos à comédia, a situações ridículas e bizarras (de acordo com o título) que têm pouco a acrescentar. São divertidas, mas no geral é uma série um pouco cansativa por intercalar tantas lutas umas com as outras. Em algumas usam a força bruta, em outras usam a sua perspicácia, são todas tão diferentes que não há nada que se possa dizer sobre elas.

A única coisa que têm em comum são o estilo e a estética. Isto é, sem dúvida nenhuma, o ponto forte do franchise.As texturas, as cores, toda a paleta visual é muito apelativa, fascinante, única. Os diveresos ambientes proporcionados pelos diferentes inimigos e stands dão uma grande variedade artística que é parte integrante e essencial deste anime.

Esperava eu que, durante esta segunda season, houvesse mais algum tipo de desenvolvimento no respeitante a personagens, mas - infelizmente - continuam a ser iguais a si próprios. A sua concepção, como terei referido no comentário anterior, é bastante sólida, são todos personagens interessantes e com os quais nos identificamos imediatamente, com toda a sua caracterização que tanto dá para momentos de intensidade como para eventos mais leves. Mas gostaria que lhes tivesse sido dada alguma oportunidade de crescer enquanto seres humanos, o que teria toda a lógica devido a todos os problemas em que se meteram. É uma série longa e todos, nós e personagens, parecemos esquecer-nos de qual o primeiro objectivo da viagem. Só ao rever a série com o Qui é que recordei.

Finalmente, temos uma banda sonora intensa, característica, por vezes brutalizante em algumas cenas. Desta vez, a ED é um tom de jazz instrumental que liga muito bem com as consequências da série, apesar de ser - em opinião de muitos - muito calma para o contexto.

Foi, mais uma vez, uma grande experiência assistir a Jojo e viver com este grupo todas estas aventuras. Agora, fico à espera das outras partes. Espero que tenham ganho dinheiros bastantes com estas para continuarem com este fantástico projecto!

29.6.15

Arraial Pride 2015

Arraial Pride 2015
Festival
À semelhança do ano passado, decidimos celebrar a liberdade de género nesta festa, aberta a tudo e a todos, a decorrer no Terreiro do Paço, em Lisboa. Tinha combinado encontro noutro sítio mas, encontrando amigos pelo caminho, cheguei ao local por volta das oito horas. Lá nos sentámos, apreciando as bancas que nos rodeavam. Comidas variadas, representantes de festas e bares simpatizantes e artesanatos vários.

Uma pessoa que nos tirava fotografias como se nós não nos apercebessemos da sua presença.

Enquanto isso, ouvíamos um concerto coral. Creio que o nome do agrupamento era "Jazzy". Enfim, era agradável até certo ponto. Coros de música pop variada são sempre interessantes. Mas os solistas deixavam um pouco a desejar. Talvez não ajudasse que estivéssemos mesmo atrás das colunas e ouvíssemos estas vozes em toda a sua potência.

Depois do jantar e de uma aventura por lojas de conveniência, voltamos. Voltamos para ouvir

La Terremoto de Alcorcón

Esta pessoa, aparentemente, é um ícone gay espanhol (espanhola? Bem, não interessa por aí além) que aparece frequentemente em televisões variadas com as suas paródias da melhor música pop. Melhor? Bem, o melhor azeite.

Canta as músicas da moda que todos conhecemos em Espanhol, dança que nem uma perdida e é fonte profunda de diversão. Posso garantir que, enquanto lá estivémos e ela se requebrou no palco, todo o público se estava a passar grandemente. Isso, mais que a inerente qualidade musical, é o mais importante para este tipo de coisas. Beber e dançar! Vinho entornado por cima de mim, nem o meu livro escapou!

A sua figura é curiosa e a sua energia é inspiradora. Mas quando há ruído e luzes em demasia, começo a ficar perturbada. Assim sendo, não ficámos até ao fim.

Embora tenha ficado na festa relativamente pouco tempo, fiquei feliz por ter - mais uma vez - participado nesta celebração. Para mais, veio mesmo a calhar a decisão dos Estados Unidos em declarar a união entre todas as pessoas constitucional e legal! Viva!



Apocalypse Now

Apocalypse Now
Francis Ford Coppola
1979
Filme
9 em 10

Nunca tinha visto o Apocalypse Now. Lembro-me de ser pequena e de o meu pai ter muita vontade de me mostrar este filme. Mas... Eu era pequena. Não era apropriado. Agora percebo que, realmente, não ia perceber o filme. Que ia ficar impressionada. Agora sou crescida, bem grande! E achei que Apocalypse Now é o exemplo de genialidade.

Para mim, a guerra nunca foi coisa que fizesse sentido. Qualquer a razão, sempre considerei que matar pessoas indiscriminadamente não é uma atitude correcta para seres que se dizem racionais. Aqui, o exemplo é uma guerra que, entre todas as outras, é possivelmente a que menos sentido fez. Vietname. Uma guerra perdida desde a origem, desde a sua concepção. Uma guerra feita para matar uma geração. Para a perturbar. Que, devido a isso, tem consequências emocionais até aos dias de hoje. Este filme fala do Apocalipse. O apocalipse agora, neste momento. Uma guerra que de tão ilógica, poderia ser um retrato do fim do mundo.

Um soldado conturbado, traumatizado pelos eventos passados nesta guerra, tem uma missão: ir até aos confins de um rio para assassinar um general que, dizem, enlouqueceu. A loucura rodeia-o. E ele tem de sobreviver com o único objectivo de voltar a causar destruição. Seguimos rio acima para encontrar momentos cada vez mais bizarros, inspirados por uma estética muito surreal e bastante psicadélica, dentro do contexto de floresta e nevoeiro. Pelo caminho, encontramos situações que têm tudo de doido, com protagonistas que se perderam na senilidade da situação e apenas encontram um escape, uma saída, na morte, no horror e no sacrifício de outras vidas.

Parece que o fazem para se divertir. Para se libertar. Mas o que significa tudo isto, a um nível mais profundo? Será que a guerra, afinal de contas, é apenas a conjugação de um grupo de gente louca que precisa da morte para se sentir bem? Tudo isto é caracterizado no espectáculo final. Encontram, pois, uma nova civilização, lideradas pelo general, uma espécie de deus da morte. Esse, sim, é a personificação da guerra. Uma pessoa que está caracterizada de forma impecável, na sua luta interior, no seu desespero. Mas também é ele a figura humana que simboliza toda a falta de sentido que existe numa luta entre povos, entre ideologias, entre aqueles que discordam uns dos outros. Porque este homem discorda de toda a gente. Portanto, mata. Tortura. Destrói. Não é isso o que faz uma guerra?

Momentos finais são altamente duvidosos. Afinal, o nosso protagonista liberta-se da guerra, depois da sua missão, ou toma o lugar de deus, já que viver no mundo real é demasiado difícil para ele? Foi o que vimos no início, a sua inadaptação, a sua dependência das "missões". Fica a dúvida, a ambiguidade. Certamente que o irão lá buscar, mas irá pacificamente?

Todo o ambiente do filme nos remete para um pesadelo. Nada faz sentido e o clima recriado acaba por ser tanto engraçado como extremamente assustador. Nada disto seria possível sem um perfeito trabalho de imagem e fotografia, aproveitando paisagens que, de tão maravilhosas e luxuriantes, acabam por ser atemorizadoras e claustrofóbicas. É um filme que não se dedica muito a grandiosas cenas de acção (exceptuando talvez todos aqueles helicópteros), mas que pulsa vivo à conta de diálogos incisivos e absurdos, que apenas ajudam na caracterização deste mundo apocalíptico em que estamos condenados a cair uma e outra vez.

Enfim, um filme exemplar. Acabei de o ver e já estou com vontade de o ver outra vez.

28.6.15

Tudo São Histórias de Amor

Tudo São Histórias de Amor
Dulce Maria Cardoso
2014
Contos

Este foi o outro livro que obtive quando troquei o que estava repetido, de que já falei anteriormente. Há muito tempo que tinha visto este volume nas livrarias e desde aí que ambicionava obtê-lo. Afinal, a capa é giríssima! Fiquei muito feliz por o conseguir arranjar e posso dizer que gostei imenso de cada um dos contos que aqui estão.

São doze contos ao todo, com algo em comum: histórias de amor. Amor apaixonado, amor fraterno, amor filial, todo o tipo de amor. São todos contos bastante diferentes, sendo que dois deles falam de assuntos da vida real, duas tragédias muito noticiadas na sua época. É uma nova maneira de ver as situações e acaba por ser, de certa forma, bastante comovente.

Os temas são variados e actuais, apesar de em muitos contos haver um regresso à terra, às origens, às pequenas aldeias que estão perdidas no tempo. É uma escrita cheia de identidade e personalidade, detalhada, bem pensada, planeada, estudada. Por vezes, é uma leitura difícil. Mas cada história dá sempre, sem dúvida, algum tipo de sentimento, que por vezes é positivo mas que, na maior parte, é um pouco perturbador.

A minha história favorita foi a da velha e do cão. São histórias com um pouco de sonho dentro delas.

Fica uma autora para descobrir mais. Um exemplo daquilo que eu, um dia, gostaria de escrever.

Ex Machina

Ex Machina
Alex Garland
2015
Filme
6 em 10

Já vi este filme na segunda fiera, mas esqueci-me de falar sobre ele. Portanto, aqui está o comentário!

Uma mistura de ficção científica/cyberpunk com um thriller psicológico, este filme segue as acções de um grupo muito restrito de personagens num ambiente fechado e longínquo. Perdidos no meio da floresta estão um cientista louco, génio da programação, e a sua criação, um robot de contornos femininos para o qual tem de se determinar a existência, ou não, de inteligência artificial. Para o determinar, é chamado um jovem, também génio da programação, que tem de falar com o robot (Ava) e descobrir mais sobre ele.

À medida que o filme se desenvolve, coisas estranhas começam a acontecer nesta casa, ficando o personagem e o espectador em dúvida sobre quem é realmente a entidade boa no meio desta situação. Se por um lado o cientista louco é, realmente, completamente louco, será que a existência de inteligência no robot pode ser algo patente ou é apenas uma máquina? De uma forma ou de outra, começam a ocorrer atitudes que nos levam a crer que o robot é efectivamente detentor de sentimentos.

Tudo isto cai por terra com o final muito inesperado, em que Ava revela um sentimento "maligno" algo que não é nem humano nem máquina, uma mistura dos dois que acaba por cair muito mal perante a expectativa criada ao longo de todo o filme.

Em termos de efeitos especiais, temos um filme bastante aceitável, com um bom desenho de maquinaria e boa utilização do digital.

Gostei especialmente da música, que dá um aspecto ligeiramente surreal às situações e potencia o efeito "thriller" da narrativa.

Mas, no geral, é um filme que traz muito pouco de novo ao género e que não estimula grandes possibilidades de debate.

24.6.15

os da minha rua

os da minha rua
Ondjaki
2012
Contos

No passado Natal recebi um livro repetido. Isto é, duas pessoas tomaram a excelente decisão de me oferecer o mesmo livro. Estas duas pessoas não têm qualquer relação uma com a outra, o que é sem dúvida curioso. Enfim, tive de trocar um deles e troquei-o por dois livros. Um deles é este, que acabo de terminar. Escolhi-o porque já há algum tempo que vinha tendo uma curiosidade sobre este autor Angolano, que para mais é contista. Gosto tanto de contos!

Este é um conjunto de pequenas histórias sobre a infância em Luanda, pequenos momentos da vida do autor. São coisas muito pequeninas, mas são únicas e muito emocionais. Senti que com este livro o autor não partilhou apenas a sua infância, mas uma série de sentimentos, saudade, amor, amizade, coisas puras que apenas podem ser recordadas com uma certa dose de melancolia, equiparada à felicidade que estas memórias podem trazer.

As descrições são vívidas, senti-me mesmo junto ao narrador (autor) enquanto ele relatava os acontecimentos das suas pequenas histórias. Mas mais que as descrições do universo físico, impressionam as do universo emocional e pessoal, dando ao leitor a oportunidade de também ter estes sentimentos. Tendo isto em conta, gostei sobretudo da história em que o tio dá banho ao cão.

Foi uma leitura rápida, mas muito prazerosa, ler este livro fez-me muito feliz, apesar de os momentos sere (como tantos) tão curtos.

Shirobako

Shirobako
Mizushima Tsutomu - Sotsu Agency
Anime - 24 Episódios
2014
6 em 10

Interrompemos a programação habitual para ver um anime para o meu clube e para variar um bocadinho da longa série a que venho assistindo.

Este é um anime curioso: um anime sobre fazer anime. Seguindo as vidas de diversos personagens, cada um ligado a uma fase diferente da produção de uma série do género, relata-nos todo o processo de criação de uma forma simples, directa e, por vezes, divertida. O anime foca-se na criação de duas séries diferentes, uma primeira e segunda parte, com todos os problemas e complicações que, porventura, serão comuns na produção deste tipo de coisa. É interessante o processo de aprendizagem dos personagens, que começam como novatos e vão ganhando experiência, pois podemos extrapolá-la para o nosso próprio conhecimento: tome-se o espectador como uma tabula rasa, que cresce juntamente com a série. É-nos dada muita informação e torna-se numa experiência interessante: será que na produção de Shirobako aconteceram todos estes problemas, tal e qual os relatados? Quanto dos autores, do estúdio de produção, quanto das suas emoções  e sentimentos, poderá estar implícito na série?

Os personagens não têm muita complexidade. Cada um deles representa uma fase de produção e os seus problemas pessoais são também os problemas dessa fase criativa. Quando evoluem, o anime evolui com eles. No entanto, não os podemos distinguir como "pessoas", isto é, não têm em si o drama humano necessário para que sejam únicos, para que se separem da sua função na série. Para mais, a maioria dos seus problemas está relacionado com a gestão do tempo, o que - embora realista de certa forma - acaba por ser ligeiramente repetitivo.

A arte tem o seu interesse por mostrar as diversas fases, do storyboard à arte final. No entanto, as imagens mais primordiais poderiam ter um tipo de produção diferente, pois o retoque digital está muito presente e torna estes elementos pouco realistas. Falando no digital. existem alguns momentos de CG evidente que poderiam ter sido evitados com um planeamento diferente.

Musicalmente, temos uma banda sonora bastante aceitável. OPs e EDs divertidas e apropriadas ao género de coisa a que vamos assistir, com sonoros no parênquima que trazem grande energia aos momentos. Fique a nota, também, para os actores de voz, que muitas vezes interpretaram outros membros da sua profissão. Deverá ser uma experiência estranha para eles, mas o resultado está bastante bom.

Uma série curiosa para fãs de anime, mas que não terá grande interesse para aqueles que nunca experiênciaram este tipo de media.

22.6.15

O Assassino Cego

O Assassino Cego
Margaret Atwood
2000
Romance

Este foi o outro livro da Margaret Atwood que recebi de empréstimo. Demorei um pouco mais a atravessá-lo, pois é bem grande e tem a sua complexidade.

"O Assassino Cego" é o nome de uma história dentro de uma história, um livro que uma das personagens supostamente escreveu e que tem muito de fantasia. Este livro dentro do livro relata uma história de amor impossível, entre pessoas de classes sociais muito diferentes, pontuado por momentos fantásticos em planetas distantes, Zycron, Xenor, nomes estranhos. 

A outra parte do livro, que intercala com a anterior, é o relato da vida de Iris, uma velha senhora que recorda os seus tempos áureos. Filha de um industrial poderoso, tudo se transforma com a grande depressão dos anos trinta. Assim, acaba por se casar com um outro industrial poderoso, ficando à mercê de uma sociedade muito diferente da vida que ela conhece. Acompanha-a a sua irmã Laura, uma pessoa de contornos e comportamentos estranhos que faz sempre questões pertinentes e, por vezes, assustadoras. Laura é uma personagem que é usada para debater muitos conceitos, nomeadamente aspectos sobre o divino, o que - dentro da sua estranheza - acaba por ser bastante interessante. Esta parte da narrativa é um retrato excelente da época vivida, a grande depressão e a segunda guerra mundial na perspectiva dos habitantes do Canadá, com descrições vívidas e exactas de ambientes luxuosos e também de paisagens naturais.

No entanto, à medida que se desenrola a história, percebemos os paralelismos entre esta narrativa e "O Assassino Cego", descobrindo cada vez mais coisas ocultas sobre a vida em família de Iris e de Laura. Assim, a história fantástica acaba por ser uma espécie de reflexão sobre a história real, o que se pode tornar um pouco repetitivo em termos conceptuais. Senti que esta história fantástica, apesar de ter alguns momentos belos, se tornou bastante inconsequente dentro do contexto. Por outro lado, também não se pode dizer que funcione por si só, individualmente, pois aparenta estar incompleta, aparenta ser apenas um excerto de algo bastante maior.

Após este livro, que já é o terceiro que leio desta autora, acho que consigo caracterizar a sua escrita, que é muito única e individualista. Atwood escreve com uma ironia muito própria, relatando um certo desapontamento para com a vida que está presente por toda a sua obra (que já li). Posso afirmar que, apesar de por vezes procurar um pouco mais de belo, gosto bastante do seu estilo e que, por isso, continuarei a ser agradada pela leitura dos seus livros :)

15.6.15

Ghost in the Shell: Arise - Alternative Architecture

Ghost in the Shell: Arise - Alternative Architecture
Kazuchika Kise - Production I.G.
Anime -10 Episódios
2015
6 em 10
 
Esta é a série em que vem a culminar a recente prequela de Ghost in the Shell, Arise. Para saberem mais sobre os primeiros três filmes (ainda não vi o quarto e último), cliquem aqui. Para além disso é o primeiro anime desta season da Primavera a terminar, com apenas dez episódios.

Como saberão, eu sou uma fã inveterada de Ghost in the Shell. Tanto que, mesmo não achando os filmes anteriores tão bom como o franchise original, escolhi o design da Major neles referido para integrar a minha lista de cosplays futuros (podem ver aqui). Para esta série tinha expectativas elevadíssimas. No entanto, não fiquei menos que desapontada. Alternative Architecture acaba por ser uma interpretação pouco feliz do tema, ignorando os elementos originais que tornavam GitS no pilar do género cyberpunk.

Sucedem-se várias histórias que têm como tema central a criação, com os seus altos e baixos, da equipa que doravante será liderada pela Major Makoto Kusanagi. São pequenos mistérios, policiais, bastante simples e directos, sempre resolvidos por uma invasão da "rede" pela parte dos personagens, que nela descobrem o essencial para resolver o problema. Isto está de tal forma esquematizado e estereotipado que tudo acaba por ser um pouco previsível, por mais reviravoltas que existam entre os personagens. Estes são apanhados desprevenidos pela formação da equipa, tendo prestações pouco sólidas ao longo de todo o anime. Para começar, isto é uma prequela, pelo que todos deveriam ser mais jovens. Ninguém, com excepçã da Major (coisa que nem faz sentido, visto que ela é um robot) e Arakami, está mais novo. Estão todos exactamente iguais. E isso revela-se também nas suas experiências de vida. Todos têm os sentimentos que terão nas séries mais para a frente, como se tivessem vivido todas as coisas que já se passaram antes delas. Há uma grande confusão entre lealdades e traições, que acaba por ser inconsequente dentro do contexto de cada história.

Outro aspecto que não apreciei foi o facto deste anime se ter tornado, essencialmente, numa simples série de acção. Grande parte do tempo, que poderia ter sido usado para debater elementos como a própria filosofia do universo ou o desenvolvimento dos personagens, é gasto em tiroteios, lutas de artes marciais e perseguições de carros, motas e camiões em chamas. Para mais, existe aqui tecnologia e conceitos que não existem nas sequelas, o que não faz sentido: se estamos no passado, como podem existir coisas que não existem no futuro, considerando que são mais evoluídas que estas e não relíquias perdidas no tempo?

A animação é um ponto forte, mas na verdade não escolhi este anime para ver para observar grandes coreografias em cenas de lutas. Não há qualquer tipo de experimentação, ninguém teve coragem para pisar o risco e para fazer algo de diferente, conforme um franchise deste género mereceria. Para mais, sendo praticamente todas as cenas passadas em ambiente nocturno, as cores estão demasiado escuras e muitas vezes é difícil de perceber quem está aonde e porquê. Talvez a melhor parte da animação seja a sequência de abertura, que é sem dúvida interessante.

Também o é a música. Fazendo uso de uma electrónica simples, mas eficiente e sólida, a banda sonora acaba por ser o único elemento que nos remete para o universo cyberpunk de que nos lembrávamos. Temos várias músicas, variadas, que insistem no mesmo tema, que acaba por ser a única relação desta série com o passado.

Assim, temos um Ghost in the Shell insípido, que não nos faz pensar, que talvez deva ser entendido mais como uma nova versão do original e não como a pretendida prequela. Talvez seja uma série boa para uma nova geração incapaz de gerar pensamentos e debatê-los, mas continuarei sempre a recomendar o filme original e o Stand Alone Complex.


 

12.6.15

Alabardas

Alabardas
José Saramago
2014
Romance (Inacabado)

Este livro foi-me oferecido no Natal do ano passado pela minha caríssima irmã. Fiquei muito feliz, porque Saramago nunca é demais e, certamente, tinha curiosidade em saber o que seria esta sua obra póstuma.

Trata-se de um romance inacabado, os três primeiros capítulos daquilo que seria a sua última obra. Aqui, apenas são introduzidos os personagens e o tema do livro. A grande questão que se levanta é "porque é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas". A partir daí, Saramago tencionava desenvolver uma história da qual só temos os contornos iniciais. O grande potencial deste livro revela-se logo nestes curtos capítulos, escritos com a graça, candura e ironia que caracterizam o autor. Fiquei extremanente triste quando terminou a primeira parte do livro, porque estava cheia de vontade de saber como iria continuar, o que iria acontecer, como se iria desenrolar o livro.

Esta edição tem algumas notas do autor sobre o livro, em que ele fala do seu potencial, das suas intenções e das mudanças de título. Seguidamente, dois artigos que referem sentimentos pessoais sobre estes capítulos perdidos. Gostei bastante do primeiro, que revela um conhecimento grande sobre o autor e sobre a sua pessoa (enquanto ser humano), mas o segundo pareceu-me escusado, porque referia apenas "Conheço Artur Paz Semedo" e debitava pessoas que poderiam ter, ou não, relação com a personagem. Foi muito aborrecido.

É um livro triste, não pelo conteúdo mas pela consequência: Saramago deixou algo inacabado. Porque é que as pessoas têm de morrer? Pela mesma razão pela qual têm de nascer, disse o Qui. Ainda assim, fiquei com lágrimas nos olhos.

11.6.15

O Zahir

O Zahir
Paulo Coelho
2005
Romance

Recebi este livro pelo BookCrossing, num RABCK em cadeia no qual participei. Fiquei um pouco desapontada: por norma evito livros do Paulo Coelho. Houve uma época em que li bastantes e cheguei à conclusão de que este tipo de misticidade é algo que não aprecio em literatura. Apesar de tudo, decidi dar uma oportunidade ao livro. Já que mo tinham enviado, teria sido por terem gostado dele e quis saber então o que realmente tinha como conteúdo. Revelou-se um livro simples, cativante à sua maneira, com uma aura mística que é própria do autor (como me lembrava), mas que não era tão horrível como tinha pensado.

Conta a história de um homem que é deixado pela mulher. Ele torna essa ausência num "Zahir", algo que não pode ser encontrado e pelo qual criamos uma certa obsessão. Por influência de um jovem emigrado do Cazaquistão, ele começa uma viagem de procura espiritual e emocional, na qual se livra do estigma do "Zahir" e encontra nova disponibilidade para amar.

A escrita é simples, directa, por vezes um pouco irónica, o que acaba por ser bastante agradável. Por vezes existem passagens, mais ou menos longas, de textos que apelam à nossa espiritualidade e ao significado de vários conceitos, nomeadamente o "amor" e a "ausência do amor". Infelizmente, o livro peca pela falta de conteúdo no respeitante à caracterização dos personagens: o personagem principal aparenta ser um decalque do próprio autor, devido a todas as características (como, por exemplo, ser um autor famoso e escrever sobre os mesmos temas). Esther, a mulher que desapareceu, mantém-se como uma ausência misteriosa que acaba por pouco ou nada influênciar a viagem espiritual, que foi feita precisamente por causa dela.

As descrições poderiam ser muito mais ricas e detalhadas, o que daria toda uma nova energia à narrativa. Senti especialmente falta disto quando viajaram pela estepe, que é um ambiente inerentemente belo e que foi pouco aproveitado.

O autor inicia também uma espécie de crítica social da juventude, mas as situações são tão abstractas e pouco detalhadas que isto acaba por não funcionar.

No geral, um livro simples e agradável de ler, mas que realmente não tem o conteúdo suficiente para ser considerado uma obra maior. Segundo o meu pai, isto é um sintoma permanente em todos os livros do autor.

85ª Feira do Livro de Lisboa

85ª Feira do Livro de Lisboa

Mais um ano que passa, mais uma Feira do Livro! Como sempre, no Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Confesso que ainda não li todos os livros que comprei na última Feira do Livro... Mas livros nunca são demais! Desta vez coloquei um limite a mim própria: 100€ ou 7 livros, o que quer que atingisse primeiro. Não atingi nenhum dos dois, para minha grande alegria. :)

Fomos ontem, que era feriado, pelo que o espaço estava cheio de gente, uma quantidade de gente que não cabia na cabeça de ninguém. Foi um pouco difícil percorrer o espaço e ver tudo... Para mais, mais uma vez, decidi colocar as minhas melhores farpelas para ir muito linda mas (!) ignorei os sapatos. Ao fim do dia tive de os descalçar e andar pela relva só de meias, o que é uma coisa estúpida e perigosa porque nunca se sabe se há vidros partidos. Mas estava totalmente em desespero com dores nas minhas patinhas...

Quanto à Feira em si, tinha ouvido falar que a grande diferença era que havia muito mais comida. Na verdade, não reparei muito nisso. Havia comidas bastantes, é verdade, muito mais roulottes gourmet em comparação com roulottes badalhocas. Mas nenhuma delas me chamou à atenção e estavam todas muito inflaccionadas. 5€ por uma sandes é um bocado demais... Assim, acabámos por ir jantar ao Burger King, que eu adoro e que estava mesmo ali ao lado.

No respeitante a livros, pareceu-me haver um pouco menos de variedade. Encontrei uma revista de Ranma 1/2 num alfarrabista que ia comprar e depois desisti (o que foi um pouco má onda para o vendedor), mas fora isso poucas coisas que estivessem em bom estado, com bons preços e que fossem interessantes para mim. A quantidade de gente presente não ajudou. Tanto na Leya (ondeia comprar um livro de Coetzee e uma edição baratíssima do Dom Quixote) como na Bertrand (onde ia comprar o Matadouro 5) desisti de me colocar na caixa pela quantidade copiosa de gente que lá estava. Não tive paciência para esperar... Mas acho que vou lá voltar de propósito parta comprar aquele Dom Quixote, que é um livro que quero ter e que o meu pai apenas tem numa edição especial ilustrada que é muito pouco prática para ler (o tipo de edição que é apenas para ter na prateleira e olhar para ela)

Enfim, o resultado final das compras foi o seguinte:

  • "A Conspiração dos Antepassados" (David Soares) --> Um autor que adoro de paixão e um livro do qual andava à procura há milénios, valeu a pena a visita à Feira só para o conseguir
  • "To Kill a Mockingbird" (Harper Lee)
  • "Barry Lyndon" (W.M. Thackerey)
  • "O Beijo da Mulher Aranha" (Manuel Puig)
  • ´"Manazuru" (Hiromi Kawakami)
Repare-se que muitos destes livros foram comprados por sugestão o influência dessa pessoa que é o Qui. Este, vinha especialmente à procura da nova edição da Babel da colecção das "Aventuras Fantásticas", que encontrámos mas que não tinha o único livro que lhe falta (o último, a "Maldição da Múmia". Se alguém conhecer quem tenha e venda, por favor que nos avise ;) )

Para além disso, reparámos na quantidade de pessoas que, devido a lançamentos ou outros, estavam a dar autógrafos. Desses, apenas o Nuno Markl tinha uma fila de pessoas à espera de uma assinatura. Ele parecia estar ocupado e stressado, mas bem disposto como sempre (sou fã do senhor :) ). Todos os outros, estavam sós, cheguei a ver um senhor a ler um livro, coitadinho. Vi uma autora que pertence ao BookCrossing e olhei fixamente para ela porque sabia quem ela era, mas por força das circunstâncias não tinha livro para ser assinado e decidi não fazer conversa...

Mas bem, foi uma tarde muito bem passada! Felizmente o tempo estava nublado, não fazia demasiado calor, e correu tudo bem. Estou muito contente por ter todos estes novos livros que gosto imenso e procederei a lê-los em breve. Até ao fim do ano tenciono ter todos os meus livros físicos livros e arrumados, mas pelo meio ainda voltarei ao Kobo (não se vá estragar por falta de uso...)

Portanto, Feira do Livro, vemo-nos para o ano! =D

8.6.15

Shinkon Gattai Godannar!!

Shinkon Gattai Godannar!!
Yasuchika Nagaoka - Oriental Light and Magic
Anime - 13 Episódios + 13 Episódios
2003
5 em 10

Mais um mecha, mais um mecha com maminhas. Chega a ser cansativo, por vezes.

Tudo começa com um casamento, sendo que depois há um ataque de uma força alienígena qualquer e os personagens principais têm de se unir para lutar contra ela. Estes robots fazem pares, pelo que os pilotos têm de ser muito amigos ou apaixonados ou ter uma relação qualquer do género. Enfim, um potencial que deixa de ser explorado p'ra que o anime se possa dedicar a um festim de apêndices ubéricos.

A história é muito simples e baseia-se sobretudo no desenvolvimento das relações entre os personagens. Como disse anteriormente, isto é feito aos pares, pelo que temos um foco que poderia ter sido interessante nas suas relações, amizade ou amor. Infelizmente, tudo isto tem ponta curta na medida em que rapidamente o anime torna todo este desenvolvimento num lugar comum, seguindo para a exposição de um erotismo infantil que roça o ridículo.

Dizem que este anime é uma espécie de paródia aos mechas antigos dos anos 70, mas até nesse aspecto é falho.

A arte está desactualizada e é antiquada, mas temos algumas cenas de animação bastante memoráveis, com uma fluidez fora do comum para a época. Há um ênfase em maminhas que balançam para cima e para baixo, incluindo um robot com estas características femininas. Isto é um pouco patético, mas podemos dizer que a animação cumpre com os seus objectivos.

Finalmente, a música. Talvez seja a melhor parte. Apesar de repetitiva, os temas recordam-me o melhor do pior de concursos como a Eurovisão, apenas com letras um pouco mais estranhas. São épicos por si só, o que acaba por funcionar muito bem dentro do contexto.

Assim, temos mais uma série para esquecer. Pode ser que brevemente comece a ver algo memorável.

Nota: vou ficar, provavelmente, algum tempo sem falar de anime neste espaço, pois acabo de começar uma série de longa duração. Não é antiga, mas é longa e irei demorar algum tempo a passar por ela. ;)

7.6.15

Asian Culture Party 2015

Asian Culture Party 2015
Evento
Estava com saudades de ir a um evento. Depois de falhar o Iberanime por motivos de trabalho, decidi dedicar-me a ir ao que fosse logo a seguir. Ora, no primeiro ano deste Asian Culture Party, havia ficado muito mal impressionada. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade a este evento, para ver se haviam melhorado os acontecimentos. Por um lado posso dizer que sim, houve melhorias bastantes! Por outro lado, alguns aspectos podem ainda ser limados. :) Mas isto não é uma crítica analítica do evento, isso é impossível! Isto é um relato das aventuras e desventuras, protagonizadas pela super-heroína EU. O meu super-poder é dar puns sem cheiro.

Começo, antes de relatar tudo aquilo que se passou, por falar do Espaço. Já lá tinha estado num outro evento e acreditei que seria demasiado pequeno para a afluência. Aproveitaram-no de outra forma: tinhamos um rés do chão, uma espécie de cave bastante escura, onde estavam as lojas, e um primeiro andar, onde estavam os palcos (um dos quais num terraço), salas diversas e o bar. Aproveitado desta forma, passou-se precisamente o contrário: o espaço parecia um pouco grande para a quantidade de pessoas que lá estavam. Isto é bastante bom, porque eu gosto de andar à larga com o meu grande rabo. Nas horas de maior afluência, como o concurso de cosplay de Sábado e logo antes dos concertos, o espaço parecia precisamnete perfeito para a quantidade de pessoas. Ainda assim, pareceu-me estar pouca gente comparativamente a outros eventos (não consigo fazer uma analogia para o ACP anterior a que tinha ido , mas seria um bom exercício). Agora, o espaço em si, tinha muitos problemas. O principal era o calor. Não havia um único meio de climatização neste espaço enorme, sendo que fazia uma caloraça bafosa constantemente. Na sala dos workshops, sentimo-nos todos a derreter. Pessoalmente, acredito que neste fim de semana devo ter perdido pelo menos umas 500 gramas em água. Outro elemento que detestei, foi a casa de banho. Uma casa de banho, pequena, húmida, badalhoca e sem papel. Para mais, servia as vezes de vestiário, mas como a porta tinha de ficar aberta (nem faria sentido fechá-la) toda a gente ocupava o seu próprio cubículo para trocar de roupa, o que fez da ida à casa de banho - que é sempre uma aflição muito grande - um projecto de paciência, só conseguido através de exercícios de meditação.

Mas bem, passemos a contar o que se passou em cada dia! O fim de semana começa, então por...

Sábado

É raro mas acontece de vez em quando: em vez de partir da minha própria casa, parti de casa do Qui. Trazia uma mochila gigante cheia de tralha necessária para passar uma noite fora do meu habitáculo. Como já conhecia o sítio do evento, não me perdi. Tinha comprado o bilhete na Fnac (onde houve muitos problemas, pois quem me atendeu foi uma estagiária que, como é compreensível, não sabia nada) e foi picado à porta, onde me deram uma pulseira verde horrorosa que mais horrorosa ficou com o contacto com a minha pele suada. A minha primeira pergunta foi: "onde é o bengaleiro?". Tinha perguntado na página do evento se esse serviço estava disponível, mas ainda agora estou à espera da resposta. Enfim, deixei lá as coisas, saquei da minha poderosa máquina (que não é minha, é do meu pai, mas foi o que se arranjou em cima da hora) e dei umas voltas. Quase de imediato encontrei pessoas fofinhas e amigas, às quais me colei qual lapa em anfetaminas.

Mantive-me perto do palco principal. A primeira coisa que vi foi as Danças Goesas. Tinha muita curiosidade, especialmente porque conheço um senhor ligado à Casa de Goa e tinha esperança de o ver e dizer "então por aqui?" e começar uma conversa, mas ele não estava lá. Achei as danças muito fofinhas, muito ligadas à natureza e ao trabalho no campo, gostei bastante.

Seguidamente, assisti a uma actuação dos BB5. Os corpos dançantes dançam bem, mas cada vez menos aprecio este pop asiático dançável, é o tipo de música que não me estimula de forma alguma. Mas foram danças cheias de energia, com muitos gritos do público sempre que os rapazes faziam movimentos pélvicos. Também não acho isso muito estimulante, porque já vi muito homem na minha vida a fazer movimentos pélvicos e sinto-me velha a olhar para estas pessoas, que se mexem tão bem, tão requebradas, tão cheias de articulações e músculos e tendões, sendo que eu nem sequer consigo levantar a perna para dar um roundkick a um meliante com uma motosserra.

Finalmente, foi hora do concurso de cosplay internacional: Clara Cow's Cosplay Cup. Estava muita gente, certamente todos com grandes expectavivas, mas havia apenas quatro grupos a concorrer. Uma nota pessoal: cada vez acho menos sentido à adição de mais e mais concursos ao circuito internacional de cosplay competitivo. São coisas a mais e isso torna as participações cada vez mais escassas em cada concurso, pois evidentemente cada pessoa não pode tirar do seu tempo mais do que o essencial para poder construir um fato e uma apresentação. Acho que o universo internacional começa a ficar um pouco saturado com eventos e, numa comunidade tão pequena como a nossa, é cada vez mais difícil ter concorrentes bastantes para fazer um bom espectáculo. Enfim, adiante! Os quatro grupos tinham fatos bastante interessantes, que fotografei, com algumas apresentações divertidas e satisfatórias. O grupo vencedor tinha claramente o skit mais interessante, sendo que o runner-up poderia ter feito melhor uso da biomecânica do corpo, dependendo totalmente da piada da música de fundo. Também gostei bastante do skit de Madoka, que contava uma história interessante e original.

Fique uma nota para o apresentador, que interagiu muito com os cosplayers (talvez até demais), perguntando-lhes detalhes sobre os fatos e permitindo que ficassem mais tempo no palco para as fotografias.

Deixemos agora o palco principal. Fui a um workshop, dado por um dos camones que estava no juri, sobre cosplay competitivo a nível internacional. A sala que nos foi atribuída era uma espécie de banho turco mas, ignorando isso, foi uma experiência bastante interessante. O jovem falou-nos da experiência em competições internacionais, o que esperar, o que fazer, como falar com os jurados, dicas sobre como aproveitar melhor o nosso potencial e fazer algo de sucesso. Eu considero-me uma pessoa bastante informada sobre isto, mas apesar de tudo foi uma partilha valiosa de experiências e espero ter aprendido muitas coisas que possa usar quando for lá às Inglaterras fazer porcaria participar no concurso.

Queria ver o concerto, mas doíam-me os pés por causa dos saltos altíssimos que tive a triste ideia de levar, portanto decidi ir para casa. Pelo caminho, encontrei muita gente, incluindo os juris. Perguntei-lhes se iam jurar o concurso do dia seguinte. Disseram-me que sim. Disseram-me que traduzisse o meu skit para eles poderem perceber. Foi a minha actividade nocturna.

Domingo

Digamos que o dia não começou muito bem. Para começar, adormeci e só acordei três quartos de hora após o previsto. Depois, deixei cair uma nódoa de iogurte no meu cosplay. A seguir a isso, reparei que a peruca me caia no último ensaio geral e pensei em por ganchos, sendo que me esqueci e acabou por ser uma tragédia (como verão). Finalmente, esqueci-me da tradução do skit e do telemóvel e ainda tive de voltar a casa.

Mas, finalmente, cheguei. Dei uma volta pelas lojas. Os artistas, são bons artistas. Pela primeira vez, vi algumas lojas diferentes, mas vendiam coisas coreanas e isso não tem interesse para mim. Mas comprei uma mala em forma de cara de gato, cuja foto não colocarei. :)

Andei por aqui e por ali, de vez em quando uma foto. Haruhi continua a ser uma personagem mais ou menos popular! =D Uma pessoa disse-me que adorava o anime! =D 

Vi um concerto de instrumentos tradicionais, muito bonito, com músicas muito agradáveis, e parte do desfile de trajes. Só apanhei os chineses, mas vi as outras pessoas vestidas e são roupas muito bonitas. Achei apenas estranho estar toda a gente de ténis.

Tinha tomado café num café que também servia refeições e pensei almoçar aí. Mas os pratos do dia não eram nada que eu comesse (sou uma omnívora selectiva), então decidi ir ao bar do evento e experimentar um soba inflaccionado, com esperança que fosse um pouco diferente dos noodles de pacote cancerígenos. Em termos de sabor e textura era exactamente igual, variava a caixa com informações em alemão e francês. Enfim, receio que tenha apanhado alguma doença com aquilo. Infelizmente, enquanto esperava para saciar as minhas fomes, decorria o desfile de cosplay. Tinha-me inscrito e, de mal a pior, esqueci-me completamente de que ele existia e quando dei por mim já estava a terminar...

Por aqui e por ali, um calor extenuante, cansativo, pavoroso. Esperei, naquela espécie de estufa onde estava o palco, que me chamassem para poder fazer a minha cena, que era sobre os aliens. Nunca mais me chamavam e andava por ali a dançar e a fazer tempo, divertido está claro mas ainda assim com um calor medonho. Até que me dizem que... Ganhei por defeito. Não vem mais ninguém. Sou a única. Quê? Qual é a cena? Então toda a gente desistiu e ninguém me disse nada? Que treta... Perguntaram-me se queria fazer o skit à mesma ou não, eu disse que sim (evidentemente). Afinal tinha ido ali, tinha trocado o fim de semana no trabalho, tinha feito trinta por uma linha para poder fazer a cena. Claro que a ia fazer.

Infelizmente... A peruca traiu-me. Assim que entrei no palco, começou a cair. Então a cena, que tinha piada, ficou de um cringe pavoroso, porque estava sempre a tentar endireitar a peruca. Porque raio me esqueci dos ganchos? Ainda assim, correu mais ou menos bem, as pessoas riram-se, as pessoas bateram palminhas, pude espalhar - mais uma vez - o azeite que há em todos nós. Tinha decidido fazer algo sobre o país, a gozar com todas estas coisas, porque acredito que devemos falar de política, devemos falar de azeite, para se perceber que as coisas como estão são uma merda. Acho que, talvez, se gozar com elas o pessoal não se vai esquecer que as coisas existem.

O apresentador depois perguntou-me quanto tempo demorei a fazer o fato e o skit e porque é que o tinha feito assim. Explicarei todas essas coisas no meu Cosplay Portfolio. Se quiserem, visitem também a minha página de cosplay no Facebook, Cosplay Portfolio by ladyxzeus, e deixem um like ou outro. :)

Ainda tinha mais dois workshops, armaduras e j-pop, para ir mas estava a sofrer tanto com o calor que.... Decidi ir embora. Para mais, os sapatos são da minha mãe e ela calça abaixo de mim, então doiam-me as unhas dos dedos dos pés, que ainda estão doridas.

Conclusão

Foi um evento engraçado, pequeno, mas divertido dentro dos possíveis. Infelizmente, foi um pouco difícil de o aproveitar ao máximo devido ao calor que se fazia sentir. Para a próxima, espero que melhorem o espaço. Depois do desapontamento do primeiro ano, acredito que a organização evoluiu muito com as críticas que lhes foram dadas, oferecendo-nos um evento um pouco diferente, com actividades muito variadas e, a maioria delas, muito interessantes. Portanto, para o ano, se tudo correr como previsto, lá estarei :)

Fotografias

E agora, a parte de que toda a gente estava à espera! Fotografias! Tenho a dizer, então, que não há! =D

Mentira, não totalmente verdade ;)

A máquina que eu levei é uma analógica vintage, pelo que as fotografias ainda estão todas no rolo. Daí ter dito a algumas pessoas que não podia tirar outra foto, quando a anterior teria ficado mal. Vou revelar o rolo amanhã e dentro de uns dias terei aqui as fotografias. Será que ficaram bem? O suspense! Mantenham-se ligados! ;)

Já Cá Estão!!

Quase duas semanas depois da ocorrência, finalmente estão reveladas as fotografias. Infelizmente para se obter uma boa fotografia analógica, mesmo com uma máquina profissional como esta do meu pai, são precisos alguns elementos. Nomeadamente:
  • Jeito para tirar fotos
  • Saber as técnicas para tirar fotos
  • Um rolo dentro do prazo de validade
Nenhum destes elementos foi cumprido. Portanto, de 36 fotos... Aproveitam-se as seguintes:







Caso queiram as fotos no tamanho original é só contactar. Também tenho os negativos e, por isso, poderão ser impressas se quiserem :) Desculpem lá terem ficado horribilis!

A Mulher de Porto Pim

A Mulher de Porto Pim
António Tabucchi
1983
Contos

A propósito da minha Viagem à Macaronésia, o meu pai - por sugestão da minha mãe - emprestou-me este livro sobre os Açores, pela perspectiva de um senhor italiano cuja escrita já conhecia (mas não me lembrava).

É um livro muito, muito pequenininho, com algumas histórias - inventadas ou não - sobre a realidade dos aAçores. O facto principal é que estas ilhas foram e são ponto de passagem obrigatório para os navegadores. Assim, muitas coisas acontecem que são simplesmente temporárias. Isto é especialmente forte no conto que dá o nome ao livro, "A Mulher de Porto Pim", em que um homem desespera quando reconhece que o seu amor nunca poderá durar para sempre precisamente por este rito de passagem, a efemeridade da presença.

Só não gostei muito da história "Mar Alto", em que é relatada uma caça à baleia. Eu acho esta actividade perfeitamente horrífica e desnecessária, já que considero as baleias criaturas que devem ser deixadas sossegadas a cantar. O autor dá muita humanidade ao animal, mas também conta friamente como se apanham as baleias (com grande sofrimento para elas) e como são processadas ainda no mar. Insiste bastante em como é tão perigoso para os pescadores baleeiros. E para a baleia, não é perigoso?

A minha mãe pensava que este livro explicava como a zona de Porto Pim se parece, eventualmente, com uma mulher. Isto não acontece e muito pouco é falado sobre os aspectos da paisagem natural. O pouco, é dito com carinho.

Um bom livrinho de viagem, embora um pouco fantasiosa, que irei devolver amanhã. :)

The Handmaid's Tale

The Handmaid's Tale
Margaret Atwood
1985
Ficção Científica

Depois de Senhora Oráculo fiquei com o bichinho de conhecer melhor a autora Margaret Atwood. Para minha grande sorte, o BookCrossing possui uma inveterada fã que, amorosamente, me emprestou este livro e outro. Não podia ter ficado mais surpreendida com a versatilidade da autora! Desta vez, temos um livro de ficção científica num futuro distópico, relatado de uma maneira dolorosamente pessoal e com resultados extraordinários.

Neste universo, parte dos Estados Unidos passaram a ser um novo país: Gilean. Nesse país, após perseguições e horrores diversos, as mulheres foram colocadas num novo lugar. Agora, servem simplesmente o propósito de reproduzir e servir os homens. Neste futuro, as crianças são um bem escasso. Assim, tudo deve ser feito para as criar. No entanto, a aura religiosa extremamente fascista que paira sob todas as situações torna impossível a felicidade destas mulheres, inseridas numa cadeia hierárquica altamente rígida que em nada contribui para que uma pessoa possa desenvolver qualquer tipo de identidade própria.

Offred, da qual não conhecemos o nome verdadeiro, é uma Handmaid. A função dela, neste mundo, é reproduzir. Para isso, foi atribuída a um Comandante e à sua Esposa, de forma a ter filhos por eles. A forma como ela conta aquilo que aconteceu e o que está a acontecer, a sua dificuldade em adaptar-se a este universo totalitário, é extremamente único e pessoal, demonstrando uma dor e ainda assim uma tenacidade por se manter viva. Será que isso aconteceu? Nunca saberemos, apesar da nota positiva (embora muito estranha) do final.

É uma ficção científica original e extraordinária. Pela primeira vez, temos uma visão totalmente negativa, sem esperança, sem que ninguém tome atitudes heróicas para salvar a humanidade. A sociedade como a conhecemos está destruída e nada se pode fazer para a mudar. A personagem admite isso, mas apesar de tudo, enquanto pessoa, enquanto mulher, é para ela impossível admitir a derrota.

Ansiosa por chegar ao outro livro de Atwood que a amiga BookCrossiana me emprestou :)

Kingsman

Kingsman
Matthew Vaughn
2014
Filme
6 em 10

Pedi ao Qui um filme leve que não exigisse grandes pensamentos sobre ele. Este foi o escolhido.

Uma espécie de homenagem aos antigos filmes de espiões, conta a história de um jovem com problemas  socio-económicos que é recolhido sob a asa de um cavalheiro que, por acaso, é também um espião membro de uma organização independente: Kingsman.

O filme relata o treinamento deste jovem, Eggsy, e a forma como acaba por salvar o mundo das garras de Valentine, um estranho vilão que quer fazer tudo para salvar a natureza (até mesmo destruir a humanidade). Para isso, conta com um aresenal de armas originais, companheiros cheios de classe, o seu mentor e, sobretudo, muitos fatos de alfaiate que ligam muito bem em todas as ocasiões.

Sendo que a motivação do vilão é um pouco estranha e ele não está caracterizado de forma muito forte (afinal, é mais um Samuel L. Jackson, mas com menos motherfuckers), o interesse principal deste filme está na evolução da personagem de Eggsy, que passa de jovem agressivo, mitra pouco corajoso, para um cavalheiro, um gentleman, com força, coragem e um fato todo janota.

Fique a nota para as cenas de acção, que estão filmadas de forma muito curiosa, para a qual é necessária uma excelente coreografia.

Foi um bom filme para descansar um pouco dos blockbusters de super-heróis que nos vêm atormentando ultimamente. Por si só, terá o seu valor no que respeita ao entretenimento.

4.6.15

Barakamon

Barakamon
Tachibana Masaki - VAP
Anime - 12 Episódios
2014
6 em 10

Seguimos para outro fatia de vida, desta vez sugerido pelo meu clube.

Conta a história de um jovem que se dedica a concursos de caligrafia, fazendo disso a sua profissão (como se chama? Calígrafo?) que, após uma atitude incorrecta para com um superior, se refugia numa aldeia piscatória. Lá, faz novos amigos e aprende a viver em sociedade. Esses novos amigos são um conjunto de crianças e jovens muito animado, que está sempre pronto a fazer algum tipo de asneira. O resultado é bastante engraçado, por vezes, mas - no geral - o anime tem algumas falhas que o tornam mediano.

Como sabemos, um anime fatia de vida - para funcionar - tem de basear a sua força no desenvolvimento correcto, coerente e forte dos seus personagens. Infelizmente, aqui isto não acontece. Os personagens secundários não contribuem em nada para o desenvolvimento do personagem principal e aparentam estar ali apenas para criar momentos de comédia que, apesar de bem conseguidos muitas vezes, não são o suficiente para tornar Barakamon num anime exemplar. Já o personagem principal, esse, tem muito a aprender e a absorver das pessoas que o rodeiam. Existe alguma evolução na sua capacidade de lidar com as outras pessoas, forçada essencialmente pelas situações em que se coloca pela sua própria inabilidade. Muitas vezes, são situações pouco realistas e demasiado exageradas para que se levem a sério como mais do que um gag cómico. Por outro lado, o jovem refugiou-se nesta ilha isolada para poder desenvolver a sua caligrafia. Isto acontece, mas não existe na narrativa qualquer referência à evolução dos seus talentos. Isto é, em alguns episódios ele faz um trabalho aceitável pelos parâmetros de quem nada sabe sobre caligrafia; logo a seguir, faz obras exemplares e reconhecidas pelos seus pares. Neste aspecto, gostaria que tivesse sido dado mais ênfase à sua profissão e de forma mais gradual.

Temos uma arte que seria muito bonita se não estivéssemos em 2014. Tendo em conta o ano da produção, não tem nada de espectacular: os brilhos, a fluidez, as cores, isso é o parâmetro normal do "agora". Existem algumas cenas que procuram mostrar ao espectador a beleza do cenário mas, infelizmente, acabam por perder a intensidade devido à normalidade da arte.

Musicalmente, temos OP e ED que, animadas, poderiam ter mais a ver com a série que retratam. No parênquima, muitas músicas leves e engraçadas para nos dar um sentimento de calma, mas que não se distinguem de outros animes do género.

Assim, é só mais um fatia de vida e, tendo em conta a saturação do género, dentro de uns anos ninguém se recordará dele.

Coelho em Paz

Coelho em Paz
John Updike
1990
Romance

Recebi este livro num RABCK do BookCrossing, que consistia em escolher de entre vários livros disponíveis numa estante de uma pessoa amiga e querida. Escolhi este mais por causa do título, com toda a fé de que iria gostar imenso. Depois de ler a sinopse, mais fiquei convencida disso. Mas a verdade é que... Foi uma dor terminar este livro. Por momentos, pensei que nunca o fosse terminar. Foi realmente um esforço imenso.

Último de uma tetralogia à volta do mesmo personagem, Coelho, apresenta-se numa parte da história em que este homem é um "velho" de 56 anos. Desde aí se estabelece uma narrativa que faz pouco sentido: desde quando ter 56 anos é considerado "velho"? "Idoso"? Enfim, o livro relata os momentos finais desta vida imensa, em que o personagem Coelho tem de lidar com o aborrecimento, com a falta de concretização da sua vida e com um filho toxicodependente e a sua família.

O livro segue lentamente os diversos momentos destes dilemas familiares, prolongando-se em aspectos completamente irrelevantes. A narrativa perde-se em descrições extensas e muito detalhadas de coisas que são aborrecida e que não interessam: jogos de golfe, anúncios de televisão, sucessões de estradas nacionais e autoestradas.... Isto torna a leitura extremanente fastidiosa, demorada e cansativa. Por um lado, talvez o autor tenha querido transmitir o aborrecimento da vida de Coelho, mas podia tê-lo feito de modo a não aborrecer o leitor.

Para mais, as descrições são gráficas de uma maneira desnecessária, com referências sexuais pavorosas constantes e analogias que, sendo originais, são desinteressantes e rebuscadas.

O final do livro, que é suposto ser bastante forte e comovente, torna-se um verdadeiro alívio, pois finalmente terminou e não teremos mais que ouvir falar destas pessoas horríveis. Os personagens estão bem construídos, mas são todos pessoas execráveis, pelas quais ganhamos ódios de estimação, sendo que nem sequer esperamos que lhes aconteçam coisas más: queremos simplesmente que desapareçam.

Um desapontamento de livro e um autor a não repetir.

1.6.15

Mouryou no Hako

Mouryou no Hako
Nakamura Ryousuke - Madhouse
Anime - 13 Episódios + 1 Special
2008
5 em 10

A sinopse deste anime engana muito. Pensava em que era uma espécie de policial de terror, mas na verdade é mais uma história de mistério e fantasia.

Ao início, assistimos ao desenrolar de uma relação lesbo-erótica, de contornos misteriosos e um pouco estranhos, que vem a culminar num acidente. A partir daí, viajamos para dentro de uma questão de quem matou quem e como, com relação com uma caixa, "A Caixa dos Goblins". Um grupo de homens bem parecidos procura a resposta. Infelizmente, o desenvolvimento desta história é errático e há um esquecimento da primeira parte do anime (as duas raparigas), sendo que acaba por ser difícil de compreender o que se está a passar. Isto poderia ser um ponto positivo se o lado policial fosse extremamente complexo e realmente nos fizesse pensar sobre aspectos relativos à natureza humana, mas nem a narrativa nem as personagens nos levam a fazer isso. Assim, torna-se simplesmente aborrecido e pouco importante, sendo que o meu único desejo acabou por ser que o anime acabasse e houvesse uma conclusão. O anime alonga-se demais em aspectos que não são importantes para a história e perde rapidamente o foco quando se passa a dedicar mais sobre planos parados em cima das agradáveis caras dos senhores.

Falando disto, o design é CLAMP. Por isso, evidentemente, é toda a gente muito bonita. A arte é simples, dedicando-se - como disse - a planos muito sossegados. Por vezes há um uso interessante de perspectivas, o que poderá aterrorizar quem esteja um pouco mais concentrado no anime (o que me parece, sinceramente, bastante difícil... É demasiado aborrecido). As cores estão numa paleta escura que funciona bem mas que é demasiado comum em animes passados nesta época do pós-guerra, o que acaba por se muito pouco original e um lugar comum.

A música, tanto OP como ED, não passa daquele visual kei que já morreu nos anos 90. Os efeitos sonoros acrescentam ao ambiente soturno mas, mais uma vez, nada que não tenhamos visto no passado.

Um anime que será rapidamente esquecido, até mesmo dentro do seu género.

Fórum da Interculturalidade

Fórum da Interculturalidade
Concertos
A ideia inicial era ir ao Outjazz, nos jardins perto da Torre de Belém. Lá chegados, eu e R., sentámos e chegámos à conclusão de que era um ambiente que nos causava horror e pavor. A música lembrava aquela que se ouve quando passa um carro com o som muito alto e os visitantes do evento metiam medo. A única parte agradável era ver os cães a brincar. 

Por isso, fomos em direcção à Praça de São Paulo, perto do Cais do Sodré, onde os amigos de uns amigos iam dar um concerto. Após uma fastidiosa viagem num eléctrico que cheirava a chouriços, instalámo-nos na praça à espera de que acontecesse alguma coisa. Enquanto estivémos sozinhos, a música africanizada foi dolorosa. Assistimos a algumas coisas engraçadas, como discussões entre cães e um senhor velhote a dançar, que estava a ser filmado por um outro cota mais gordo. Se calhar devíamos ter dito alguma coisa ao operador de câmera, que não estava a ser nada discreto. Mas tenho esperança de que a gravação não seja para ser colocada em fóruns anónimos com os ditos "vejam este cromo a dançar", mas para um projecto artístico ou qualquer coisa.

Reparámos que uma varanda tinha um anjo assustador e mutilado.

Então chegaram os amigos de amigos e fomos para a frente para ver o tal concerto. Sentámo-nos em cadeiras de plástico. Foi uma tarde já nocturna agradável em certa medida, pelo convívio providenciado por umas garrafas de Don Simon, mas falemos então dos concertos.

Jazzopa



Após montagem e preparação do palco, apresenta-se-nos uma banda que tem tudo de jazz. Um piano, uns metais, um baixo, uma guitarra, uma bateria. Tocam uns sonoros de gosto improvisado e, de repente, aparecem os cantantes. Ficamos, então, sabendo que esta banda é um misto de jazz com hip-hop. Isto tem tudo para correr bem. Mas, na verdade, acho que podia ter corrido melhor. Para começar, fazia falta que o instrumental fosse original e não inspirado (ou cópia) de clássicos do género. As rimas do rap estão bem conseguidas no geral, jogando bem com o resto dos instrumentos, mas parecia que dentro da banda não havia a empatia necessária para todos tocarem ou cantarem na sua vez. Para mais, os vocalistas tentaram durante todo o concerto uma muito necessária interacção do público, que não foi obtida: havia muito pouco público a esta hora e ainda não estavam bebidos o suficiente. Ainda assim, é um projecto curioso.

Djaly Bintou Kanouté


Passamos para músicas próximas do tradicional da Guiné-Bissau. Não sei o que dizer pois, confesso, não estava com muita atenção. Procurei esta era para buscar alimento, que fui encontrar numa das banquinhas da comida intercultural. Esta era a do projecto "Renovar a Mouraria" e comi uma tal de "Massa Moura", sem cogumelos. Quanto a esta senhora, achei que cantava muito bem, tinha uma voz muito bonita. E gostei imenso da roupa que ela trazia.

Jorge Riba


Para finalizar, temos um pouco de música brasileira. Evidentemente que o público, agora mais composto, se passou grandemente durante a totalidade deste concerto, devido aos ritmos sambísticos que o senhor nos cantou. Apesar de tudo, sou da opinião de que - sendo a música brasileira tão variada - limitar-nos a este samba de escola, tão simples (mas tão eficiente) é pouco criativo. Mas gostei imenso da interpretação original da música da Amália que o artista (bom artista) cantou. Foi a única parte em que eu dancei.

Curioso o aspecto de que quando começa toda a gente a dançar, há algumas pessoas que ficam com aversão aos que - como eu - têm um peso no rabo e estão cansados e não se querem mexer da cadeira. Por isso, insistem, através de olhares, gestos e movimentos de lábios aterrorizantes, que nós nos levantemos e dancemos. Fica a nota de que cada vez que me fazem isto, menos vontade tenho de ir dançar. Considerando que o senhor operador de câmera anteriormente referido continuava, subtilmente, a filmar toda a gente... Menos vontade tinha eu de dançar. Portanto, fico parada.

Suponho que a noite se tenha prolongado, mas eu fui para casa, pois hoje (o dia seguinte) é dia de trabalho e tenho de estar fresquinha e renovada. Ainda assim, foi giro porque conheci novas pessoas muito simpáticas. :)