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  • Do I Have to Wear Black?

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    Do I Have to Wear Black?
    Mortellus
    2021
    Paganismo


    Li este livro a propósito do Book Club do Refúgio da Bruxaria, e trabalhei durante vários meses a convencer toda a gente para que fosse nomeado.

    Algo que me tem perturbado ultimamente é o que fazer, enquanto pessoa pagã, num funeral normativo. Este livro, infelizmente, não responde a essa questão, mas tem uma análise importante sobre o que é a morte no contexto pagão e alguns dados sobre o funcionamento de funerárias (nos EUA).

    O seu foco principal é a descrição de ritos e sugestões de textos e músicas para utilizar em cada tipo de funeral pagão. No entanto pareceu-me mais um conjunto de instruções sobre "como nos comportar num enterro diferente do habitual" do que um poço de ideias para planearmos o nosso próprio fim.

    Temos ritos para todos os contextos, desde a morte de um animal até à de crianças pequenas.

    É um livro cheio de compaixão, mas que me desapontou um pouco. Talvez estivesse com uma expectativa demasiado alta.

  • Sem Penas

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    Sem Penas
    Woody Allen
    Contos
    1975

    Recebi este livrinho num presente do BookCrossing e pensava que era uma peça de teatro. Afinal não. Trata-se de um conjunto de textos humorísticos e duas peças de um acto, Morte e Deus. Já conhecia Deus, pois no meu antigo grupo de teatro fizemos uma tentativa de a encenar (que saiu frustrada. O meu papel era "Mulher que levou uma facada")

    Ora, como sabem eu tenho o grave problema de ter perdido o meu sentido de humor. No caso de Woody Allen, eu nunca lhe tinha achado muita graça. Gosto imenso dos filmes que ele escreve para outros actores, mas no caso não gosto nada quando ele é ele próprio. A sua neurose e desespero irritam-me em vez de me divertirem.

    Assim, não consegui achar grande piada a este conjunto de narrativas. 

    O meu sentimento é que Allen se esforça demasiado para ser absurdo. No entanto, mesmo as coisas absurdas têm de fazer sentido. E aqui seguem-se piadas e piadas que todas juntas não fazem sentido nenhum. Em todos os textos seguia-se uma linha de "Pessoa X fez Y. Depois a pessoa Z disse gato". Procurei em todos os textos algo que me inspirasse a fazer um skit de cosplay daqueles à minha maneira, mas nada foi obtido, pois não há uma linha conectiva que ligue o X ao gato e, assim, a piada perde-se no meio das coisas.

    Ainda assim, gostei do único texto narrado por uma figura feminina e das curtas sobre animais fantásticos (achei genial, talvez a única coisa que achei genial o "animal que tem cabeça de leão e corpo de leão mas que não são do mesmo leão")

    Quanto às peças, não tinha gostado muito de Deus quando a tentámos encenar e confirmou-se esse sentimento. Quanto a Morte, acho que tem demasiada gente para uma coisa tão curta. É o problema das pessoas famosas. Pensam sempre de forma exagerada.
  • Departures

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    Departures
    Youjirou Takiro
    Filme
    2008
    9 em 10

    Uma obra de arte. O assunto da morte sempre me cativou, mas neste filme atinge o belo.

    Um violoncelista desempregado acolhe no seu coração um novo emprego: tratar dos mortos para os funerais. Isto é uma tradição, metódica e exacta: limpar, vestir, maquilhar, pentear. Neste filme isto é feito com tal delicadeza e carinho que os mortos ganham uma vida, uma vida para além da morte.

    Com este novo emprego, o nosso amigo descobre muitas pessoas e muitas maneiras de viver e acaba ele próprio por encontrar uma nova maneira de viver. Ele tem um dilema com um pai ausente, que se vem a resolver precisamente através deste emprego tão diferente.

    É comovente em todos os momentos, pois não mostra a morte como algo horrível mas apenas como algo que acontece. O que vemos não é a tragédia, mas o amor que as pessoas sentem pelos seus entes queridos, todas as pessoas diferentes, todas as famílias diferentes, mas todas reunidas para se despedirem de alguém. O trabalho destas pessoas é tornar essa despedida mais bela.

    Depois, o dono da agência funerária é um velhote cheio de carisma, um personagem inesquecível pela sua atitude de quem está sempre na boa apesar de ver mortos todos os dias.

    A banda sonora, cheia de violoncelo (claro) é muito bonita e adiciona muita emoção às situações. Também o fazem as paisagens e longas cenas de cisnes a voar.

    É um filme muito pacífico, muito bonito, que enfrenta um assunto difícil gentilmente e com uma delicadeza profunda. Não posso deixar de o recomendar.

     
  • As Intermitências da Morte

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    As Intermitências da Morte
    José Saramago
    2005
    Romance

    O bom de Saramago é que ele nos dá sempre questões para pensar. Desta vez a pergunta é "e se não houvesse morte?" Exactamente, o que aconteceria se ninguém morresse? É precisamente assim que começa este livro. No dia 1 de Janeiro e daí por diante ninguém morre. E assim se estabelecem as relações políticas e sociais entre o governo do país imaginário, a realeza, o clero, os filósofos, os meios de comunicação e todas as indústrias secundárias e terciárias que lidam com a morte.

    Mas então acontece o belo. E o belo é a perspectiva da morte. Porque a morte, não sendo humana e nem sequer se escrevendo com éme maiúsculo (tal como ela faz questão de apontar), também sente. E neste caso, ela sente amor.

    É um livro muito bonito, apesar de não começar como tal. A morte é apenas o mote para uma conversa sobre o sentido da vida e sobre a falta dela também. Saramago explora todas as perspectivas com a leveza de uma borboleta, utilizando do seu poder descritivo tão sintético e sarcástico como usual para nos dar a conhecer todas as faces deste dado (claramente um D20).

    De resto, fica aqui um excerto para ler com banda sonora:


    (...)Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão. Eram onze horas quando a campainha da porta tocou. Algum vizinho com problemas, pensou o violoncelista, e levantou-se para ir abrir. Boas noites, disse a mulher do camarote, passando o limiar, Boas noites, respondeu o músico, esforçando-se para dominar o espasmo que lhe contraía a glote, Não me pede que entre, Claro que sim, faça o favor. Afastou-se para a deixar passar, fechou a porta, tudo devagar, lentamente, para que o coração não lhe explodisse. Com as pernas tremendo, acompanhou-a à sala de música, com a mão que tremia indicou-lhe a cadeira. Pensei que já se tivesse ido embora, disse, como vê, resolvi ficar, respondeu a mulher, Mas partirá amanhã, A isso me comprometi, Suponho que veio para trazer a carta,. que não a rasgou, Sim, tenho-a aqui nesta bolsa, Dê-ma então, Temos tempo, recordo ter-lhe dito que as pressas são má conselheiras, Como queira, estou ao seu dispor, Di-lo a sério, é o meu maior defeito, digo tudo a sério, mesmo quando faço rir, Nesse caso atrevo-me a pedir-lhe um favor, Qual, Compense-me de ter faltado ontem ao concerto, Não vejo de que maneira, Tem ali um piano, Nem pense nisso, sou um pianista medíocre, Ou o violoncelo, é outra coisa, sim, poderei tocar-lhe uma ou duas peças se faz muita questão, Posso escolher, perguntou a mulher, Sim, mas só o que estiver ao meu alcance, dentro das minhas possibilidades. A mulher pegou no caderno da suite número seis de bach e disse, Isto, É muito longa, leva mais de meia hora, e já começa a ser tarde, Repito-lhe que temos tempo, Há uma passagem no prelúdio em que tenho dificuldades, Não importa, salta-lhe pr cima quando lá chegar, disse a mulher, ou nem será preciso, vai ver que tocará ainda melhor que rostropovitch. O violoncelista sorriu, Pode ter a certeza. Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch, que não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de música., de partituras, era o próprio johann sebastian bach compondo em cöhen o que mais tarde seria chamado de opus mil e doze, obras elas quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta sem, que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher. Quando ele terminou, as mãos delas já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se dera, à mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e tirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaxo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum,, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte, ninguém morreu.
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