19.2.16

O Dia dos Prodígios

O Dia dos Prodígios
Lídia Jorge
1979
Romance
Já há algum tempo que queria ler algo desta autora. Na verdade, cheguei a comprar um livro a propósito de uma troca de outro repetido. Mas depois apareceu este pelo BookCrossing, um RABCK, e pensei em lê-lo primeiro, já que é a primeira obra da autora.
Confesso que fiquei dividida. Por um lado percebo que seja uma obra importante dentro do seu contexto socio-político, mas não fui capaz de me embrenhar totalmente. Este livro passa-se numa pequena aldeia algarvia, o que desde já é curioso. Quando falamos de aldeias portuguesas, são sempre as aldeias do norte ou do Alentejo. Nunca no Algarve. Nesse aspecto, temos logo um ponto para a originalidade. No entanto, precisamente por causa deste mote geográfico, o livro está escrito num palavreado muito típico, em que todos os personagens (incluindo o próprio narrador) relatam os acontecimentos com um sotaque pouco discernível e quase estranho, pela falta de actualidade e pelo exagero da terminologia.
Talvez sejam erros de uma edição antiga, talvez sejam erros de um autor pouco experiente, mas a verdade é que me causou uma certa irritação a repetição constante de algumas palavras e expressões, como "cu", "urina" e "mão em pala". Para mais, existem coisas como enumerações incompletas ("ele sabe três coisas" e depois só diz uma) que me levam aos arames. Toda a narrativa remete para um esgar de nojo, em que todos os acontecimentos não possuem qualquer beleza gráfica, mas antes um habituar aos elementos da natureza em que estes deixam de ser interessantes para serem simplesmente grotescos, apesar da sua normalidade.
Quanto ao dia dos prodígios propriamente dito, este poderá ter interpretações diversas. Será a cobra? Será o soldado? Será a revolução? Será a previsão do futuro? Esse foi o elemento mais interessante do livro, ver como todos estes elementos influenciam os personagens que, sem dúvida - apesar das descrições vagas - estão muito bem caracterizados.
No entanto, parece-me que o livro depende demasiado da forma como está escrito para que a história seja convenientemente aprofundada. Parece um rol de palavras enumeradas, apenas um jeito de falar. De certa forma caracteriza uma terra e uma "cultura", mas será que isso é o suficiente?

Nota: mas gostei imenso do nome dado aos pirilampos... "Luz-em-cus" :p

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