1.4.15

Viagem à Macaronésia

Viagem  à Macaronésia
Um post grande e imensamente divertido, dividido por capítulos, como convém a relatos foto-jornalísticos de viagens feitas a propósito de coisa nenhuma

A Macaronésia, que partilha nome com uns bolos muito saborosos, é um conjunto de ilhas situadas no Atlântico Norte, que compreende - então - os Açores, Madeira, Cabo Verde e Canárias (e outras tantas). Nesta viagem, visitei três ilhas Açoreanas, onde aproveitei para recarregar a bateria do cérebro e ver algumas vistas interessantes.

Tudo começou a convite da minha mãe, doravante conhecida como a Minha Mãe. Ela tinha de ir aos Açores em trabalho e, aproveitando o mote e alguns elementos pagos da viagem, achou por bem convidar-me. Ela convida-me muitas vezes mas eu, por obrigação com eventos de anime ou com o Qui, costumo recusar sempre. Desta vez o convite foi feito com a antecedência necessária e lá fui eu!

Primeiro Capítulo
Chegada à ilha que tem o nome do cão do Uma Aventura

Inicia-se viagem de avião, partindo do nosso aeroporto lisboeta e chegando à Horta. Tudo correu como esperado, excepto uma ligeira turbulência assustadora na descida.





Ali arribadas, tomamos um táxi para o hotel, que fica mesmo no centro da cidade. Seu nome é "Hotel do Canal", com umas gloriosas quatro estrelas e estava situado numa das duas ruas relevantes da cidade da Horta. O quarto era muito catita, apesar de não ter um mini-bar cheio de daiquiris, e a alcatifa do elevador também merece um ponto de nota.



Seguidamente, almoçamos em restaurante mesmo ao lado, cuja especialidade era o naco na pedra. Vieram seis bifes de textura encantadora e uma pedra em chamas. Primeira descoberta sobre os Açores: vacas felizes são mais saborosas. Depois de as ver perdidas no campo e em todo o lado, acabei por ficar com muita pena delas, pois estão tão felizes e contentes ali a passear com os seus bebés que depois é uma pena matarem-nas e depois a gente as comer.





A Minha Mãe foi fazer o trabalho que tinha de ir fazer e, assim, fiquei sozinha e abandonada na capital do Faial durante algumas horas. Em três quartos de hora ficou a cidade vista, pois consiste em duas ruaz mal iluminadas, com jardins e casas todas às cores e um porto. No porto há desenhos feitos pelos marinheiros, a quem são oferecidas tintas à chegada. Alguns:



 

De resto, o que se podia observar deste ponto da ilha era o seguinte:


Acabei por me sentar lendo o meu livro ("A Tieta do Agreste", de Jorge Amado, escreverei sobre ele mais logo) num jardim com vista para o mar. Juntaram-se a nós os colegas da minha mãe que também tinham vindo de Lisboa trabalhar e fomos jantar ao Peter Sport Club, o único bar da ilha inteira, especializado em Gin Tónico e em marinheiros vestidos às risquinhas, que fazem ali pausa dos seus passeios de Iate.




 

Fique-se sabendo que a nossa primeira experiência com o vinho Açoreano foi terrível, nem aos turistas deviam dar aquela zurrapa. Mas o Gin Tónico era positivamente delicioso.

Além do bar, o Peter também possui uma loja de souvenires, onde comprei uma camisa toda giraça para o meu Qui (que lhe ficou lindamente, não ponho fotografia porque não quero que olhem para ele) e uma t-shirt com um cachalote para mim. Não havia muita variedade na roupa de mulher, pelo que comprei uma de homem pequenina. Não fica mal!

Segundo Capítulo
Ilha do Faial revela-se selvagem e cheia de armadilhas

Acordamos sempre cedo quando estamos em hoteis para podermos comer o pequeno almoço do hotel. Devo dizer que, apesar de satisfatório, não era nada de especial..

Alugámos um carro (no qual a Minha Mãe conseguiu um desconto por obra dos seus poderes malignos) e começámos a dar a volta à ilha. O primeiro ponto de paragem foi Porto Pim. Será talvez a única localização de praia e faz uma baía que, segundo António Tabucchi, tem a forma de uma mulher. Mas eu não consegui identificar isso. Ali havia uma série de museus, o dos Dabney e o Aquário, que estavam todos encerrados por motivos que não conseguimos discernir. Então achámos por bem subir a montanha, onde estava uma igreja do Espírito Santo (as ilhas estão cheias delas, são uns edifícios pequeninos que têm uma coisa qualquer lá dentro. Não entrei em nenhum, pois não gosto de entrar em locais de culto, seja lá quais forem). Para mais, também estava lá um disco voador.

 Casa dos Dabney, que eram do consulado e deviam ser umas pessoas muito simpáticas pois há uma série de ruas com os nomes deles.

 Vista da Praia de Porto Pim

 O Aquário, encerrado mas com uma imagem de um Peixe-Lua (Luna Fish), peixe que aprecio

 Vista do topo da montanha

 Coiso do Espírito Santo. Não vou por mais imagens de igrejas e outros semelhantes porque são todos iguais.

 O disco voador. Quando me dirigi a outro local para tirar mais fotografias, a Minha Mãe pensou que eu tinha sido levada por ele. O que até teria sido bom, pois daria para fotografias ainda mais fixes.

Outra vista de Porto Pim

Seguimos para o Vulcão dos Capelinhos. Por esta estrada, reparei numa quantidade copiosa de animais espalmados na estrada e na igualmente copiosa quantidade de pequenos santuários colocados em homenagem a pessoas atropeladas. É que estas estradas estão rodeadas de habitações que dão directamente para a rua, não há passeios e os Faialenses conduzem como se estivessem possuídos pelo Saber Rider, numa velocidade imensa e trágica. Reparo também que há muito verde e muitas vacas. Vimos uma vaca caída, o que significa que ela ia morrer, mas a minha mãe não quis parar para a levantarmos (o que ia ser difícil, pois pesam pelo menos meia tonelada) nem parar na cooperativa para dizermos a alguém que a vaca estava mal. Desculpa vaca... :( Chegadas ao vulcão, obtemos informações sobre ele. Na verdade, isto foi uma coisa qualquer que explodiu há apenas cinquenta anos, formando uma área de areal todo preto e uma serie de pedregulhos. Dizem que daqui a uns mil milhões de milhares de anos, a coisa vai ficar completamente verde, como o resto da ilha, mas enquanto está preto é bem giro. Tem um museu e um farol que, surpresa das surpresas!, estava fechado. Voltámos lá mais tarde e poderei mostrar-vos a vista de lá, mas por enquanto fiquem com algo mais próximo do nível do mar:









Seguimos pela estrada sem fim que dá a volta à ilha, procurando o restaurante recomendado pela menina do hotel. Infelizmente, o tal local estava tão escondido que chegámos a uma localidade de praia, de nome Praia do Almoxarife. Aí, perguntámos a um senhor com um cão (eu perguntei ao cão, a Minha Mãe perguntou ao senhor) onde podíamos comer. Ele recomendou o restaurante O Cagarro. Apesar do nome estranho, que é o nome de um pássaro que muito se assemelha a uma gaivota, típico deste local, comemos lindamente. Eu comi uma dose gigante de filetes de abrótea, com um molho fantástico. E foi baratíssimo! Portanto, senhores, se forem porventura à Praia do Almoxarife, já sabem: comam no Cagarro!

Praia do Almoxarife

O senhor do restaurante deu-me indicações sobre como chegar à Caldeira que é, efectivamente, o topo dos topos de todas as montanhas. Curvas, contra-curvas, outras curvas, sempre a subir e eu já estava a ver a vida a andar para trás. Encontramos de tudo na estrada, desde um cão que lá estava deitado a rir-se, pássaros, lagartixas, pessoas locais, turistas e uma manada de vacas. Nesse caso, foi um pouco assustador, pois o touro - líder do seu harem - veio calmamente investigar o que nós éramos antes de nos deixar passar. Lá em cima, entramos por um túnel cheio de musgo para ver esta linda, maravilhosa e eloquente vista:


Pois é. A Caldeira estava com nevoeiro dentro dela. Ainda assim, é um lugar inspirador e muito místico. Estávamos lá sozinhas, pois tinha acabado de partir um autocarro cheio de turistas (segundo a Minha Mãe, "meninas com cara de prato"). Nessa altura o Qui ligou-me, o que foi interessantíssimo. :)



E agora começa a parte assustadora. Pensámos: "estamos no meio da ilha. Portanto, se a atravessarmos em vez de dar a volta, vamos ter aos Capelinhos!" E foi o que fizémos. Mal sabíamos nós que os caminhos se iam transformar em zonas intransitáveis por carros normais e apenas transitáveis por cabras e jipes. À esquerda, florestas semelhantes a couves. À direita, florestas semelhantes a couves. Perguntávamos a todas as pessoas em tractores que encontrávamos, mas só nos embrenhávamos mais pelos recônditos locais da ilha do Faial. Ficamos presas na lama, mas conseguimos sair. E só depois apareceram dois senhores vindos do céu, rodeados por uma luz esverdada, numa carrinha de caixa aberta, que disseram que podíamos ir atrás deles. E fomos parar à estrada onde estávamos, a que dá a volta à ilha. Bem, ao menos não ficámos perdidas para sempre!

 Íamos por aí...

... e nunca mais acabava

Quando regressámos ao Vulcão dos Capelinhos, o museu estava aberto! Mas, faltando cerca de 30 minutos para o fecho, não nos deixaram entrar. Apenas podíamos ver um vídeo em 3D ou subir ao farol. Assim, a Minha Mãe foi ver o vídeo e eu fui ao farol. Setecentas e oitenta e tres mil e duzentas e setenta e quatro escadinhas depois, cheguei lá acima. Isto era o que se podia observar:





Comprei como souvenire para o meu pai e para a minha irmã macaca um conjunto de ez marcadores de livros com fauna e flora da ilha do Faial. Fiquei com dois para mim, um com uma tartaruga e outro com ums florinhas cor de rosa. :)

Voltamos para voltar a jantar no Peter e beber mais Gin Tónico. No dia seguinte, mais aventuras nos esperam.



Não percam os próximos capítulos! Mais aventuras incandescentes aguardam por nós!

Ding-Dong! Novos capítulos se iniciam a partir daqui!

Terceiro Capítulo  
Pico ou A Feira Internacional do Calhau 

Para o nosso terceiro dia na Macaronésia, decidimos apanhar o Ferry para ir até à ilha do Pico, que já vinha fazendo movimentos sensuais desde a nossa chegada. Ora, eu tenho um certo terror de andar em oceanos, sobretudo os ditos Atlânticos, pois apenas consigo nadar como um cão e o mar é molhado e azul. Assim, tinha a vaga esperança de que o Ferry fosse uma espécie de cacilheiro transatlântico, já que é sabido que mesmo vibrando o apocalipse no céu o cacilheiro é o tipo de barco que se mantém sempre na horizontal (com mais ou menos balanço).

Felizmente, o Ferry "Mestre Simão" era uma coisa bem composta, grande, uma espécie de avião aquático, que nos levou com toda a segurança para a Ilha do Pico.


Esperáva-nos, com um papel identificativo nas mãos, um senhor que a Minha Mãe havia previamente contactado para nos levar a passear nesta ilha. Era um senhor simpático que sabia coisas sobre as pedras, mas que cometeu o erro fatal de não passar recibo, passando assim para a lista-das-pessoas-de-quem-não-gostamos da Minha Mãe. Os recibos são importantes!

Primeiramente, deixou-nos no Museu do Vinho, onde aprendemos sobre o vinho produzido no Pico (que, por sinal, é bastante horrível, mas tivémos a pouca sorte de escolher o tinto. Diz que o branco é muito melhor, portanto ficará para uma próxima vez). Também aprendemos sobre dragoeiros, umas árvores bizarras, e sobre calhaus, doravante conhecidos por "calhais".






Seguidamente o senhor deixou-nos nas vinhas, que são Património da Unesco. Ora, as vinhas não tinham vinhas nenhumas e eram constituídas por uma série de calhais dispostos em pequenos muros, uma espécie de quadriculado que deveria conter uvas mas que continha lixos diversos. Segundo o senhor era porque não era a época delas, mas depois vim a saber melhor e a verdade é que muito provavelmente a União Europeia subsidiou a destruição maciça de toda esta fonte alcóolica, que teria sido valiosa (não só pela potencial vista mas pela potencial buba daí decorrente)




Intervalo para almoço. Almoçamos no restaurante chic do sítio, de nome "Ancoradouro", em que nos serviram um prato típico: bifes de atum panados. Foi a minha mãe que comeu, mas eu provei um bocadinho e estava maravilhoso. Tudo isto acompanhado por um vinho que, conforme dito anteriormente, era terrível. Depois continuámos na nossa volta à ilha, parando para comprar queijos (o Alfredo era o melhor e estamos actualmente a comê-lo) e visitando campos montanhosos verdejantes e recobertos de bovinos. Parámos na Lagoa do Capitão, que é um lago perdido na montanha cheio de pássaros aquáticos.



Ah, mas antes de subirmos à montanha parámos nas Lajes do Pico, onde poderíamos entrar numa excursão para ver baleias. Nessa impossiblidade (eu adoro baleias) fomos ao Museu da Baleia, que é positivamente horrível porque mostra baleias a serem mortas e cortadas aos bocados. Também mostravam obras de scrimshaw, que é a arte de fazer coisas com ossos de baleias mortas.




Enfim, eu gosto mesmo muito de baleias. Eu percebo que antigamente era interessante matá-las e fazer óleo de lamparinas com a sua gordura e comê-las e fazer coisinhas destas com os dentes, mas mesmo assim acho bastante terrível caçarem e condenarem a uma morte lenta um mamífero inteligente e sensível, que para mais sabe cantar.

Aproveitámos para nos abastecer de mais souvenires nas lojas das Lajes. Se bem que uma delas era um pouco naturalista para o meu gosto: estava lá uma t-shirt a dizer "Save Whales, Kill More Cows", o que é a coisa mais injusta e sem sentido que existe. Afinal, que mal vos fizeram as vacas? É certo que o seu cócó produz metano e que o metano é mau para a camada de ozono, mas a solução não é matá-las a todas, é parar de comer tantas e de beber tanto leite!

Para terminar a viagem, passámos pelas adegas do Pico, que hoje em dia são casas de férias em vez de adegas. Nos finalmentes, fomos até ao Lugar do Cachorro, um sítio em que pedregulhos gigantes formam um complexo de ondas violentas com a rebentação marítima. Tudo o que eu pensei foi "nunca poderei vir aqui com algumas pessoas, pois tenho a certeza que se vão baldar daqui abaixo".






Mesmo à última da hora, tomámos o mesmo Ferry (o Mestre Simão) para voltar ao Faial. Por momentos pensei estarmos condenadas a passar o resto da vida na terra dos calhais! Até se está bem, mas são pedras a mais...


Quarto e Último Capítulo
Visita a terra menos selvagem e apoquentações aéreas

Logo pela manhã, fui comprar souvenires. Depois, dirigimo-nos ao aeroporto, para embarcar numa nave aérea muito pequena e muito turbulenta.





Tudo isto se passou por culpa da Easyjet, que ao oferecer viagens imensamente mais baratas estragou o esquema todo da TAP. Esta, em resposta à estragação do esquema, decidiu cortar com os voos directos das ilhas para o continente e, por isso, tivémos de fazer uma pausa na Terceira. Almoçámos num restaurante que tinha acabado de abrir, chamado "Sabores do Atlântico", em que provei pela primeira vez na vida lulas grelhadas. Apesar das suas estranhas probóscides, sabiam muito bem. No entanto, o tempero altamente alhado caiu muito mal e fiquei cheia de dores de cabeça o resto do dia.

Como tinhamos alugado um carro, pudémos ver os pontos turísticos principais desta ilha, um pouco maior. Primeiro, parámos na Praia da Vitória, que apenas posso caracterizar como uma aldeia piscatória deprimente. Parecia-se mais ou menos com Sesimbra, mas com um ar muito mais degradado e menos gente.





Depois, fomos até Angra do Heroísmo, também Património da Unesco (sabe-se lá porquê). Aí, a Minha Mãe entreteve-se a ver montras, enquanto eu sofria com dores de cabeça copiosas. Comprei um livro de um autor açoreano e mais uma vez se provou a ineficácia do serviço ao cliente nas ilhas. Acabei por descansar num jardim muito agradável, cujo nome desconheço, e beber um chá russo na Pastelaria Athanasio (ou "eutanásia", como insisti em chamar).












Nisto fomos acompanhadas pelos colegas da minha mãe, que iam apanhar o mesmo avião.

Infelizmente, chegados ao aeroporto para voltar para casa todos contentes, recebemos a notícia de que o avião está uma hora atrasado. Em imenso desconforto, aguardámos, comemos uma sopa, aguardámos mais, li um livro, joguei ao solitário, passei-me bastante.

Depois de o avião poisar em terras continentais, veio um autocarro buscar-nos. Percorreu o aeroporto todo (aprendi que o aeroporto de Lisboa tem rotundas lá dentro) para nos deixar numa porta ubéricamente longe da saída, pelo que tivémos que ainda percorrer todo o edifício, com malas e queijos, até finalmente entrarmos num táxi.

Chegar a casa às duas da manhã não foi fixe.

E assim se conclui a fantástica viagem aos Açores, ilhas da Macaronésia, em que se viram muitas vacas, pedras, coisas verdes e coisas giras no geral. Por enquanto, desejo lá voltar com outras companhias, para aproveitar a paz oferecida por todas estas plantinhas.

Yay!




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