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  • O Zahir

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    O Zahir
    Paulo Coelho
    2005
    Romance

    Recebi este livro pelo BookCrossing, num RABCK em cadeia no qual participei. Fiquei um pouco desapontada: por norma evito livros do Paulo Coelho. Houve uma época em que li bastantes e cheguei à conclusão de que este tipo de misticidade é algo que não aprecio em literatura. Apesar de tudo, decidi dar uma oportunidade ao livro. Já que mo tinham enviado, teria sido por terem gostado dele e quis saber então o que realmente tinha como conteúdo. Revelou-se um livro simples, cativante à sua maneira, com uma aura mística que é própria do autor (como me lembrava), mas que não era tão horrível como tinha pensado.

    Conta a história de um homem que é deixado pela mulher. Ele torna essa ausência num "Zahir", algo que não pode ser encontrado e pelo qual criamos uma certa obsessão. Por influência de um jovem emigrado do Cazaquistão, ele começa uma viagem de procura espiritual e emocional, na qual se livra do estigma do "Zahir" e encontra nova disponibilidade para amar.

    A escrita é simples, directa, por vezes um pouco irónica, o que acaba por ser bastante agradável. Por vezes existem passagens, mais ou menos longas, de textos que apelam à nossa espiritualidade e ao significado de vários conceitos, nomeadamente o "amor" e a "ausência do amor". Infelizmente, o livro peca pela falta de conteúdo no respeitante à caracterização dos personagens: o personagem principal aparenta ser um decalque do próprio autor, devido a todas as características (como, por exemplo, ser um autor famoso e escrever sobre os mesmos temas). Esther, a mulher que desapareceu, mantém-se como uma ausência misteriosa que acaba por pouco ou nada influênciar a viagem espiritual, que foi feita precisamente por causa dela.

    As descrições poderiam ser muito mais ricas e detalhadas, o que daria toda uma nova energia à narrativa. Senti especialmente falta disto quando viajaram pela estepe, que é um ambiente inerentemente belo e que foi pouco aproveitado.

    O autor inicia também uma espécie de crítica social da juventude, mas as situações são tão abstractas e pouco detalhadas que isto acaba por não funcionar.

    No geral, um livro simples e agradável de ler, mas que realmente não tem o conteúdo suficiente para ser considerado uma obra maior. Segundo o meu pai, isto é um sintoma permanente em todos os livros do autor.
  • O Livro Perdido de Camões

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    O Livro Perdido de Camões
    Maria Coriel
    2008
    Romance Espiritual

    Lido na viagem de regresso. Agarrou-me completamente, tanto que me ficaram a doer as mãos de estar três horas a segurá-lo. E comprei-o na Feira do Livro!

    Não achei que começasse bem. Em primeiro lugar porque se classifica, como podem ver acima, como "romance espiritual". O que raio é um "romance espiritual"? Pelos vistos é isto. E isto é a auto-biografia de Camões, narrada pelo próprio, depois dele ter morrido. Quando passa para o estado transcendente, ele vê a sua vida toda e escreve este livro, o livro perdido. Mas primeiro estranha-se, depois entranha-se.

    O que é que eu achava sobre Camões? Que era um bêbado com algumas tendências violentas que escreveu uma epopeia chamada "Os Lusíadas", que toda a gente lê na escola (e que eu li por inteiro, sem perceber absolutamente nada) e que toda a gente detesta, porque se lê na escola (e porque não se percebe nada) e que não interessa a ninguém, porque se lê na escola (e porque são umas centenas de páginas todas em verso sobre a história de Portugal, escritas no lingo próprio do século XVI, que não se percebe nada e que é chato para toda a gente que não gosta de poesia/que não gosta do século XVI/que tem de analisar isto na escola/que leu o livro todo sem o perceber)

    Mas este livro mostra uma perspectiva diferente. Mostra o caminho de Camões numa certa "tradição", bem semelhante àquela praticada por uma pessoa que eu conheço bem, e a forma como ele atingiu um certo nível de iluminação que lhe permitiu escrever aqueles versos todos. Porque, vamos admitir, apesar de eu ter achado "Os Lusíadas" a coisa mais chata à face do planeta, é preciso uma grande dose de genialidade para o ter escrito. E ainda bem que somos todos obrigados a levar com essa genialidade, para percebermos que há literatura com qualidade acima daquilo que se pode considerar como superior, escrita na nossa língua, por um senhor zarolho, numa altura em que nem sequer havia corrector ortográfico nem internet.

    Isto tudo e ainda não disse nada. O livro é envolvente, é impossível parar de o ler. A vida de Camões é-nos mostrada de uma maneira fascinante e a iniciação pela qual ele tem de passar leva-nos para um espaço espiritual de aceitação da realidade com o qual parece muito possível escrever uma das maiores obras literárias da humanidade.

    A linguagem é apropriada à época e existem muitas citações de muitos poemas (todos devidamente anotados, pelo que quem as conhece bem não achará tanta graça, porque não as encontrará por acaso). O único defeito na escrita é o. Excesso. De. Pontos. Finais. Mas passadas umas cinquenta páginas uma pessoa habitua-se.

    Recomendo bastante este livro. Fiquei a gostar mais do Camões e a partir de agora já não o vou chatear tanto.

    Vou emprestar este livro à pessoa que conheço bem que pratica a tal "tradição" parecida com esta, a ver o que acha. :3
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