13.4.16

Poesia de Alberto Caeiro

Poesia de Alberto Caeiro
Alberto Caeiro
Anos 10
Poesia

Finalmente, a última pessoa de Pessoa que me foi dada a oportunidade de ler. Alberto Caeiro é considerado, tanto como pelo seu nemesis como pelos seus pares, o mestre de todos os heterónimos. E neste volume é-nos dado a conhecer um pouco sobre ele.

Este volume compreende, então, "O Guardador de Rebanhos" (colectânea máxima do autor), "O Pastor Amoroso" e alguns dos "Poemas Inconjuntos".

Recordo mal o que aprendi no secundário sobre Caeiro, mas lembro-me de que me diziam que se tratava de um simplório naturalista fascinado pelo ambiente bucólico dos campos. Mais uma vez se confirma que o professor da altura sofria de acefalia, porque o entender sobre estes poemas que tive é totalmente diferente. Caeiro admira a natureza não pela sua beleza infantil mas sim pela sua capacidade de se manter sempre igual na mutabilidade que a caracteriza. Porque Caeiro não procura escrever sobre o belo nem sobre os elementos descritivos, mas sim sobre a sua visão da vida: a vida não é uma vida, porque simplesmente existe. É essa manifestação, o "simplesmente", afecta a vida desta figura nos seus mais variados aspectos: a admiração do mundo natural é apenas a constatação da passagem do tempo pela vida. Sentimentos como o amor reflectem-se na capacidade que temos de aceitar a nossa insignificância como elementos da própria natureza.

O resultado é simples, eficaz e muito belo. Também curioso e por vezes bem humorado, sobretudo nos momentos de reflexão sobre a religião.

Deixo-vos, então, aqui um par de poemas de que gostei bastante. O primeiro porque achei giro, o segundo porque concordo tanto que me fartei de rir =D

II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...




A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.

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