5.7.16

Belladonna of Sadness

Belladonna of Sadness
Yamamoto Eiichi - Mushi Production
Anime - Filme
1973
8 em 10

O Qui encontrou uma lista de filmes de animação bizarros para vermos e eu fiquei muito motivada para começar por este. Trata-se de um filme do conjunto de três "Animerama", que - nos idos anos 70s - se propunha a provar que a animação pode ser considerada uma forma de arte e não é necessáriamente um objecto para a infância. Este conjunto de filmes foi liderado pelo mestre Osamu Tezuka, sendo este título o único que não foi escrito nem dirigido por este.

Livremente inspirado numa obra sobre bruxarias publicada no século XIX, o filme retrata o caminho de uma mulher que, amaldiçoada por uma beleza intensa, se vê por força das necessidades possuída por um estranho demónio de índole sexual. A cada momento nos parece que ela finalmente poderá ser feliz, apesar de ter o diabo dentro dela, mas as forças do mal impedem essa possibilidade em qualquer circunstância.

Com um certo toque de ironia, este filme apresenta-se como um manifesto feminista (como podemos ver em conclusão). Repare-se que, apesar do motriz sensual que está por trás da narrativa e das imagens propostas, a vítima - Jeanne - nunca é culpabilizada e todas as suas acções maléficas ou estranhas são motivadas pela sua possessão. Assim, quem aparece como terrível não é o demónio, muito menos ela, mas as pessoas que a perseguem e maltratam tendo em vista a sua purificação. Repare-se também que as acções "más" são, em todo o caso, uma coisa boa: curar a doença, mostrar coisas agradáveis, promover uma felicidade geral em orgias bebélicas. 

O filme roça a genialidade pelo poder da sua animação. Consideremos que foi produzido em 1973! Não havia computadores para fazer estas coisas e tudo isto fica bem demonstrado pelas sequências que nos aparecem. É um filme violento: mostra-nos coisas feias, terríveis, tal como elas devem ser. No entanto, consegue atingir uma carga de erotismo quase poética, que faz torcer o coração. Não se pode dizer que as imagens se mexam muito. No entanto, há tanta expressão dentro delas que há lugar para que possamos imaginar tudo isto.

Outro aspecto maravilhoso é a banda sonora. Se ao início temos alguns momentos pop que quase podem ser foleiros, rapidamente a música evolui, sempre constante, para um jazz experimental muito ácido que se coaduna na perfeição com as cenas que estão a ser mostradas, para além de funcionar perfeitamente enquanto peça por si só.

Foi um anime que me tocou e que me fez pensar em como a animação vem evoluindo numa direcção errática desde esta época. Parece que nesta altura ainda se preocupavam em fazer beleza com as imagens. Recomendo vivamente!

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