28.6.16

Em Busca do Tempo Perdido 2 - À Sombra das Raparigas em Flor

Em Busca do Tempo Perdido 2 - À Sombra das Raparigas em Flor
Marcel Proust
1919
Romance
 
Passamos ao segundo volume do romance "Em Busca do Tempo Perdido", do qual eu havia lido o primeiro muito recentemente. 

Neste volume, continuamos efectivamente em busca de um tempo que já há muito terminou. Desta feita, o narrador começa a fazer descobertas relacionadas com a sua adolescência, nomeadamente a sua relação com a sexualidade e o romantismo que a envolve perante as situações sociais em que se encontra.

Não apreciei tanto este livro como o anterior, confesso. A verdade é que achei sumamente aborrecidas todas as "raparigas em flor" pelas quais o narrador (que, vim a saber, será provavelmente o próprio autor) se apaixona seguidamente. Todas elas parecem um retrato picaresco de uma sociedade que se encaminha para a extinção. No entanto, o narrador aparenta conhecer isto: os elementos que ele relata encontram-se plenos de uma certa ironia discreta que poderá passar desapercebida aos olhos menos atentos.

Este volume encerra também uma mudança de espaço, sendo que o ambiente urbano é repentinamente substituído por umas férias na praia. Claro que as actividades nesse local são bastante reduzidas e a narrativa se dedica a descrever plenamente todas as raparigas que o narrador vai encontrando pelo seu caminho, quer estas tenham algum tipo de influência na sua história pessoal quer estejam apenas de passagem.

Outro aspecto que achei um pouco aborrecido foi o facto de nunca se perceber claramente qual a idade do narrador neste momento da história. Num momento diz que foram brincar no parque, pelo que o imagino uma criança. Mas no outro momento diz que não há barbeiro e que tem de passear com barba, pelo que isto fica tudo bastante confuso para mim.

No entanto, espero que o próximo volume se redima destes problemas e, por isso, aguardo impacientemente o encontro com o meu pai em que ele mo entregará por empréstimo. :)

Angel's Egg

Angel's Egg
Mamoru Oshii - Studio Gallop
Anime - Filme
1985
7 em 10

O Qui requisitou um filme de anime e lembrei-me de lhe mostrar este. Já o havia visto há muitos anos e, recordo, na altura compreendi muito pouco do que se passou. Na verdade, inventei uma interpretação qualquer só para fingir que tinha percebido, mas admito agora que os seus significados me passaram ao lado. Assim, achei que seria bom revê-lo com outra pessoa, com quem o pudesse discutir e, assim, obter uma nova opinião. A classificação que ali está atribuída é a primeira que lhe ofertei, já que tendencialmente nunca mudo a minha classificação inicial, mas talvez agora lhe desse um pouco mais.

Tentarei, desta vez, apresentar uma opinião um pouco mais capacitada.

Primeiramente, devemos observar o contexto deste anime (que me foi revelado pelo Qui, que teve a curiosidade de ir pesquisar): um dos trabalhos iniciais de Mamoru Oshii, que ganhou a fama depois de ter dirigido o primeiro filme de Ghost in the Shell, aparece numa altura da sua vida em que este se encontra desapontado com o mundo da religião e da espiritualidade em geral. Tendo isto em conta, apresenta-se-nos um anime complexo, denso, negro e pessimista, que nos leva até a um universo sem vida.

Uma menina (aspecto discutível) anda por um mundo desolado, uma cidade cheia de monstros e de elementos predominante aquáticos, em busca de água para encher mais uma garrafa. Consigo, tem um ovo, que deve proteger e incubar para que nasça uma criatura alada que encontre a saída para aquele mundo. Entretanto, encontra um misterioso homem, que se decide a acompanhá-la e com quem vai trocando várias palavras. É numa destas conversas que aparece um conceito que me ficou fixado na mente: a arca de Noé nunca encontrou terra e está a afogar-se num mar infinito. 

Ora, ao início vemos que pousa dentro de água uma estrutura estranha, semelhante a um olho, povoada de estátuas que podem ser qualquer coisa: humanos perdidos, humanos falecidos, santos antigos. No meu entender, pegando no conceito de que isto poderia ser a arca de Noé que se perdeu, este elemento poderá representar as pessoas que se esforçam por se libertar de um mundo espiritual que se encontra decadente e que só pode ser consertado através da chegada de um novo ser iluminado, representado pelo esqueleto do humano alado e, portanto, do ovo que tem a menina. No entanto, repare-se que no final descobrimos que este objecto está pousado nas águas de uma praia e que o homem misterioso é o habitante deste local. Como ele destrói o ovo, posso inferir que talvez a terra segura, o homem (repare-se que ele transporta uma cruz e usa um crucifixo) é o representante das crenças antigas que ainda se estabelecem e que, com tudo isto, impede estas pessoas de chegar a terra firme e de serem livres para terem os seus próprios anjos.

Talvez esta ideia seja suportada pelo conceito dos peixes, que em sonhos representam normalmente um certo tipo de liberdade sexual e emocional. Na cidade perdia, pescadores tentam apanhar sombras de peixes, isto é, continuam presos à ideia de temer a mudança, podendo mesmo atacar a menina e o seu ovo que os representam. No entanto, considerando que eles estão dentro de água e cada vez mais se afundam nela, as sombras podem realmente ser apenas isso: sombras de peixes reais que nadam em volta da cidade.

Como digo, é um filme bastante complexo e talvez tenha de o rever mais tarde para o compreender na sua totalidade. Segundo consta, nem o próprio Oshii sabe muito bem o que fez disto. No entanto, podemos ver directamente o que ele criou: apesar da fraca animação, em que apenas os personagens manifestam algum tipo de movimento, há um cuidado extremo no detalhe dos cenários, sendo que todo este universo aparece quase como uma interpretação surrealista de uma cidade muito populosa. Também a música contribui muito para este efeito de quase pesadelo, sendo que há um conjunto contínuo de peças corais que nos envolvem e absorvem de forma a que entramos realmente neste universo.

Este é um filme que é igualmente amado e odiado pelos fãs e crítica, mas que - ao longo dos anos - se veio a tornar um culto dentro dos visionantes mais experientes. Assim, gostaria de o recomendar para saber também qual a vossa opinião acerca dele, para ver se conseguimos - todos juntos - encontrar uma explicação que nos satisfaça a todos.

27.6.16

Bestiário

Bestiário
Julio Cortázar
1951
Contos

Siga para bingo, o segundo livro obtido na Feira do Livro! Também é um livro de contos e decidi ficar com ele porque, mais uma vez, gostei da capa e do tema relacionado com animais.

Este é um contista da América Latina, com um estilo bastante característico dos autores da sua época e do seu continente. Num universo que mistura o campo do real e o do fantástico, apresenta-nos várias histórias com um tema em comum: animais.

No entanto, os animais não figuram como os elementos principais dos contos. São antes algo que perturba os personagens, que faz parte da sua vida e que, na maior parte do tempo, faz parte do seu problema. A escrita é muito leve e cativante e remete-nos a cidades e ambientes muito típicos,  para além de bastante variados.

O meu conto preferido foi o do homem que vomita coelhinhos, porque isso parece ser altamente inconveniente.

De resto, é uma leitura muito interessante, embora por vezes um pouco cansativa, pois os contos tendem a prolongar-se um pouco para além do estritamente necessário para a caracterização narrativa e dos personagens.

Contos Escolhidos

Contos Escolhidos
Anton Tchekhov
Século XIX
Contos

Esta é a minha primeira leitura dos livros da Feira do Livro. Apesar de já ter um volume de contos deste autor, adorei a edição e a capa e tomei o cuidado de ver no índice que ainda não tinha lido quase nenhum destes contos.

São simplesmente fascinantes.

Através de um olhar irónico e quase surrealista, Tchekhov observa os hábitos e costumes da Rússia da sua época, levando os seus personagens a tomar as atitudes mais humanas e lógicas dentro do contexto de cada conto. As suas palavras revelam uma grande paixão pela escrita e pela vida em geral, sendo que temos contos com temas muito variados mas que, apesar de tudo, nos mostram o que é viver enquanto pessoa numa sociedade que - por vezes - quase não se identifica como humana.

Assim, temos contos sobre raparigas infelizes, sobre homens que perderam membros da família. Sobre um cão. Temos até um conto só sobre comida! E as pessoas destes contos vivem como se, realmente, tivessem existido realmente e tudo isto não passe de uma biografia colectiva de um mundo que já se perdeu.

Confesso que me soube a pouco e que queria ler ainda mais contos deste autor. Mas, se calhar, vou procurar antes as suas peças. :)

Filho de Saul

Filho de Saul
Lászlo Nemes
Filme
2015
7 em 10

É verdade que ando muito desnaturada com este espaço. A realidade é que esta última semana foi de loucos e mal tive tempo para vir aqui, sendo que dediquei todo ele a escrever o portentoso comentário do Anicomics. E este filme foi visto precisamente na noite anterior, por sugestão do Qui. Trta.se de um filme húngaro (o meu primeiro filme húngaro, penso eu), que ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

É um filme curioso e tem um interesse abertamente evidente, já que relata a partir de outra perspectiva a vida dos reclusos de um campo de concentração nazi. Mas, desta feita, analisamos os reclusos que "trabalham" no campo de concentração, tendo por tarefa a eliminação dos outros prisioneiros.

O tema tratado é forte e vem com o acrescento do desespero destas pessoas. O personagem principal é Saul, um homem que encontra uma criança morta e vê nela o seu filho (nunca é clarificado se ele realmente tem um filho). Perante isto, ele promete a si próprio que irá enterrar a criança devidamente, com a oração propícia dita por um rabino. Mas onde encontrar um rabino?

Está tudo filmado da perspectiva deste homem, sendo que a imagem nunca se afasta muito dele. Assim, todos os horrores do campo de concentração passam em pano de fundo, como se se tratasse de algo puramente normal dentro desse contexto. Isto impressionaria muito, não fosse o azar de eu ter lido "As Benevolentes" há pouquíssimo tempo. Quero dizer que, comparado com este livro, o filme que vimos é um passeio no parque. Assim, o efeito saiu um pouco frustrado pela minha parte.

No entanto, é extraordinário o trabalho de actor e de caracterização do cenário, que aparece claustrofóbico e horrendo, quase podemos sentir o cheiro nauseabundo. Ainda assim, achei a narrativa um pouco romanceada, pela forma como o personagem se safa sempre por golpes de sorte seguidos uns aos outros (que, felizmente, terminam num final espectacular).

Assim, acabou por ser um filme que não pode ultrapassar a imagem que agora mantenho sobre os horrores da grande guerra. No entanto, acredito que o posso recomendar.

22.6.16

Anicomics Lisboa 2016

Anicomics Lisboa 2016
Evento

Já vou atrasada a escrever este portentoso comentário. Aliás, começo a escrevê-lo hoje, Segunda-Feira, e não tenho a certeza de que o consiga terminar em tempo coerente por motivos de cansaço. Na verdade, termino-o agora, Quarta-Feira. Ontem cheguei a casa e não me mantinha em pé, porque realmente foi um evento muito agitado para mim. Mas, falemos aqui de toda esta situação!
Ora, tudo começou muito antes do evento propriamente dito. Começou no início do ano, quando decidi fazer um novo fato para participar no concurso normal do Anicomics. Subitamente, a minha colega marca férias para o Sábado do evento! Não! Mas eu pensei... "Ainda posso ir ao ECG!" Porque tudo o que eu queria, queria mesmo, era fazer um sukito. Qual o meu horror quando soube que o ECG também ia ser no Sábado! Ora, em casual conversa na zona de fumantes do Iberanime, encontrei a mente que ordena e manipula os acontecimentos deste evento, o Mário. E disse-lhe isto e ele disse "olha, mas podes ir ao show :)" E eu fiquei... Yay! Passado um tempo, confirmei que realmente a situação era verdadeira e podia efectivamente ir ao show: como se uma pessoa mediocremente miserável como eu, mero insecto na grande escala divina da humanidade, tivesse realmente a importância devida para participar em coisa de tal importância! Portanto, preparei-me da melhor forma possível para fazer um sukito que tinha planeado há séculos, anos talvez!
Assim, terminei o meu fato (embora tenha ocorrido um acidente com as orelhas) e na Sexta-Feira fui ao local ensaiar. Infelizmente, o meu cérebro é do tamanho de um tremoço e fui estacionar na Alameda. De lá, vim carregada com um malão com o fato, um escadote e uma cesta com uma maçã... Para chegar ao local e ver lá escrito, em grandes letras "Assembleia Municipal". E o meu cérebro diminuto pensou... "isto não deve ser aqui, aqui eles devem estar a debater o aborto ou outra coisa qualquer". Felizmente, encontrei a Leonor (Grácias) a meio do caminho e ela disse-me que era realmente ali, que eles só debatiam as coisas uma vez por semana.
Lá chegada, reparei logo que o espaço era bem diferente do que o Anicomics sempre nos habituou. A própria estrutura aparentava ter capacidade para muito mais pessoas, o que seria uma coisa boa: afinal, a crítica principal nos anos anteriores era a falta de espaço. Entrando no auditório, vi que havia muito mais lugares sentados e que o palco era muito maior do que o habitual. Infelizmente, o palco - sendo maior - não era melhor que o anterior. Não sei, sempre nutri um carinho muito especial pelo palco da Biblioteca Orlando Ribeiro, que era acolhedor, simpático e, na realidade, excelente. Este novo palco tem muito potencial para muitos feitos, mas vi desde logo que o meu skit era muito pouco elaborado para o seu tamanho. Enfim, lá entreguei o meu audio ao Nhocas, que como sempre é o dominador do campo sonoro :) História curiosa, esta do audio: tinha ido almoçar com o meu pai e, quando me estava a ir embora, ocorreu-se-me que não tinha levado uma pen com o ficheiro. Assim, pedi à unidade parental masculina que me emprestasse uma pen e me deixasse ir ao seu computador sacar o ficheiro de um e-mail. A pen está cheia de discursos políticos destilando ódio, o que me parece algo excelente e merecido de ser partilhado. Talvez numa outra ocasião! =D
Tinha planeado ser a primeiríssima a chegar, mas tinha um grupo e um rapaz à minha frente, devido ao percalço da Alameda. Mas fiz a minha cena duas vezes, sendo que a dúzia de pessoas que estava a assistir pareceu achar-lhe graça. A Fátima (coração do Anicomics) deixou que eu abandonasse o meu escadote aos cuidados dos voluntários, sendo que o deixei disponível caso fosse necessário subir para algum local moderadamente alto.
Depois fui sair um bocadinho com o Qui e fui dormir para casa.
Sábado acordei com dores pavorosas no corpo todo e fui trabalhar. Provavelmente devido ao facto de ter carregado um escadote ao ombro. Depois o Qui deu-me um banho de Voltaren, para que eu me sentisse melhor e funcionou mais ou menos.

E assim chegamos ao

Evento Propriamente Dito

Cheguei por volta do meio-dia e fazia-se sentir um calor atroz. Desta feita, estacionei por debaixo do Fórum Lisboa. Pela primeira vez, reparei que havia um jardim, pleno de pessoas caninas que brincavam umas com as outras. Isso relaxou-me logo, pois amo estas criaturas inanas. Fui deixar a minha maleta pesada nos camarins e recuperar o meu escadote, que foi transferido para uma sala cheia de adereços, props, cenários e outros objectos fascinantes. Comentei que as pessoas, no geral, levam sempre coisas muito grandes, já que eu sou apreciadora do minimalismo cénico. No entanto, quem sou eu para falar o que quer que seja?! Eu tinha um motherfucking escadote! Um escadote inútil! Pesado e inútil!

Depois vagueei por aqui e por ali, em busca de pessoas para tirar fotos e com quem trocar dois ou três dedos (dedos a sério, não de conversa!). Assim, obtive um lamiré do espaço, agora com habitantes. Estava, sem dúvida, bem estruturado. Na entrada, podíamos partir para dois lados. Num deles estavam jogos, coisa que não me cativou de sobremaneira. Para o outro lado, encontrávamos imediatamente uma loja com belas t-shirts e,de seguida, um bar com comidas e bebidas. Depois, de um dos lados, uma imensa banca da Kingpin, recheada de BD e bonecos de grandes cabeças (Pops é o nome?), enquanto que do outro lado ilustradores e artistas (que são bons artistas). A grande vantagem deste espaço é que estava relativamente fresco, perante o calor que se sentia, e tinha lugar suficiente para todos nós.

Espaço por dentro 

 Espaço por fora

Apenas mais tarde, depois de ter encontrado a Ana-san (tínhamos combinado que eu lhe emprestaria o meu computador portátil, de nome Asimov, para ela dar o seu workshop de Japonês), descobri que no andar de cima também havia artistas (que são bons artistas). Tinha na minha posse um cartão multibanco e cinco euros em moedas, que gastei nos seguintes artigos:

  • Um livro chamado "Vampiros", BD tuga
  • Uma rifa da Bubble Tea que me deu direito a umas bolachas de koala
  • Uma rifa em que ganhei um marcador da Haruhi e um ceno para o telefone (o gato)
  • Um porta-chaves com uma disquete, já que o Qui havia pedido um subenire
  • Diversos cartões de pessoas giras
  • O booklet do evento
  • Algures no tempo e no espaço perdi a minha credencial :(
Ainda arrisquei perguntar a uma artista (que é boa artista) se tinha multibanco, já que lhe queria comprar a banca toda, mas ela olhou para mim como se eu fosse um tremoço com olhos. Era a moça que tem trajes típicos portugueses desenhados em estilo mega fixe.

Ora, tanto gastei os meus cinco euros em moedas que fiquei sem dinheiro para comprar água e lanche. O que revela a minha inteligência superior, um perfeito exemplo de Mulher Sapiens... Entretanto encontrei uma série de pessoas amorosas, com as quais estive conversando e actualizando as actualidades do universo cosplaico. Conheci as mocinhas que ganharam o ECG, que eram do Porto e que, como corresponde às pessoas do Porto, eram extremamente simpáticas e fofinhas e bem vestidas. No entretempo apoderei-me de uma garrafa de água que havia ficado abandonada perto destas pessoas benevolentes, afirmando para mim mesma que "o dono desta garrafa certamente que não tem herpes!" Encontrei as minhas amiguinhas piriri (que tenho a certeza que nunca sabem quem é que eu sou, porque estou sempre de fatos diferentes xD ) e estivemos a debater quem venceria num combate mortal, se a Elsa ou a Sailor Rita. Mais tarde, divertiram-se a puxar-me a cauda: fiquei muito feliz por esta ter sido um sucesso junto das pessoas baixinhas! =D

Pelas três horas da tarde fui-me vestir e saber quando deveria estar no backstage para o show. Disseram-me às quatro, sendo que depois me disseram às cinco (pois houve um atraso, o que é natural). Mas enfim, fui vestir-me.

E ia morrendo.

O meu fato, Holo de Spice and Wolf, consiste em três a quatro camadas de tecido. De lã, para ser mais exacta. Felizmente que a camisola era malha e tinha uns buraquinhos por onde entrava uma ligeira brisa. Achei por bem não por as orelhas, porque ficaram pavorosas (experimentei uma técnica nova, que não funcionou nada bem), mas o resto da construção do fato poderão analisar no meu Cosplay Portfolio, que actualizarei um dia destes. :)

Suando que nem uma lula gigante do oceano pacífico, mantive-me conversando com as pessoas simpáticas, que aturam a minha incapacidade social com toda a mestria (tomem um coração <3 ) e tirando fotografias diversas a pessoas diversas. O desapontamento despontava quando progressivamente constatei que ninguém me iria tirar uma foto. O que me deixa sempre um pouco triste, porque este cosplay deu uma trabalheira medonha e porque todos deviam ver esta série e ler as novels porque é uma série fixe. Mas olhem, faz parte da vida e assim ela continua. Se uma pessoa se for importar demasiado com estas coisas, acaba por não se divertir nada e ficar demasiado frustrada para continuar a progredir nos objectivos em que acredita. :)

Finalmente, fui para os camarins, onde um ar condicionado mantinha o ambiente minimamente habitável. Lá, diverti-me com as outras participantes a aparvalhar solenemente com o universo ao redor, partilhando canções memoráveis, como o techno cristão que um amigo descobriu no SoundCloud. Chegou perto de nós uma gaja mesmo linda vestida de WonderWoman e só muito mais tarde (para aí uns dez minutos depois de estar a falar com ela) é que percebi que era a Fátima e fiquei passada porque o fato lhe ficava belíssimo e eu não estava à espera e wow! Depois entrámos e a coisa foi mais ou menos assim:



Ora bem, foi a Ana-san que gravou e quando ela chegou ao backstage para me devolver a câmera disse que não tinha percebido nada. Fiquei horrorizada! Para começar, fiquei horrorizada porque os meus objectos não estavam nas posições facilitadas que tinha planeado e fiquei cheia de medo de ter feito figura de palerma no palco, ainda por cima numa situação tão importante como o show... Isto porque, por maior que seja a boa vontade dos voluntários (que merecem um forte abraço na cabeça <3 ), o cenário nunca fica exactamente montado como nós idealizamos em casa. Daí ser importante ter cenários minimalistas, o que não foi o caso. No entanto, depois de ver o vídeo, fiquei mais aliviada porque afinal até está com bom ar :) Agora, o facto de não se ter percebido é que me estranha, porque realmente não havia nada que perceber. Era apenas uma música sobre lobisomens (que é quase o caso da Holo, não fosse ela um lobo transformado em rapariga) para as pessoas baterem palminhas e dançarem com seus rabos nas cadeiras. Infelizmente, aconteceu algo que eu havia previsto mas que, de qualquer forma, não queria: não houve adesão e não houve palminhas nem rabos dançantes. Isto é, não houve o efeito multidão que se tinha no espacinho antigo: era tudo tão aconchegado que se uma pessoa se ria, toda a gente começava a rir também. Aqui, era tudo tão grande que, me parece, os números ficaram diluídos. Quero dizer que, apesar de ter a certeza de que o público foi tão vasto como em anos anteriores, o local era enorme o suficiente para parecer que não estava quase ninguém no evento... Algo a pensar para o futuro, talvez :)

De resto, a Ana-san cometeu a loucura simpática de gravar os skits todos do Show :) Portanto, deixo-vos aqui para os observarem! =D

Eu vi este sukito das laterais e vi o pânico que ocorreu. Portanto, gostaria de deixar a mensagem às meninas que o resultado final está maravilhoso, apesar do senão! :)

O meu foi o segundo e estaria aqui se eu não tivesse posto antes

 Sukito estreante para muitos participantes, que fixe! =D


 

 Quando ouvi os estrondosos gritos do público perante este sukito, percebi que a minha ideia do efeito multidão talvez fosse absolutamente despropositada... Confesso que me senti um pouco injustiçada, mas como pode o Ney vencer uma música como o LERIGOO? lool De resto, adorei ver estes vídeos e adoro aquele Olaf, só dá vontade de o comer!

Depois, procedi a tirar toda a minha roupa e ficar de roupa interior a apanhar fresco. Contemplei ir assim para a rua e dizer que era um cosplay de pepino. Preparei tudo para me ir embora, recuperei o escadote e carreguei-o por ali abaixo até ao parque de estacionamento (cuja conta final foi exorbitante!)

Cheguei a casa, tomei banho e dormi que nem um pedregulho com mil anos.

Só depois vi as fotos que tirei. Fotos? Ela disse fotos?

Sim.

VIVA A FOTOFOTO!!





















E assim vos deixo, com mais um pedido de desculpas pelo atraso na composição desta missiva. Foi um evento muito interessante e uma excelente experiência num novo palco! Espero que tenham todos apreciado, desde os participantes aos voluntários, passando por qualquer eventual plantelminte foliácio! =D Para o ano há mais e espero poder voltar a participar de alguma forma!

17.6.16

Em Busca do Tempo Perdido 1 - No Caminho de Swann

Em Busca do Tempo Perdido 1 - No Caminho de Swann
Marcel Proust
1913
Romance

E, como sou louca, iniciei-me numa outra empreitada literária: Em Busca do Tempo Perdido, um romance em sete volumes do início do século XX, escrito pelo muito famoso Marcel Proust.

Ora, este livro corresponde exactamente ao seu nome: a procura de um tempo que já passou, um tempo que se perdeu. Mas, ainda assim, a sua leitura nunca se poderia considerar "tempo perdido", porque é deliciosa. É fabuloso ver como um livro que fala sobre absolutamente nada pode ser tão cativante, enquanto que livros modernos em que acontecem milhentas coisas acabam por ser perfeitamente inúteis (não irei citar nomes para não ofender algumas almas)

Neste primeiro volume, o narrador é ainda criança e fala das suas vivências em Combray, uma terra um pouco afastada que se perde na natureza. No entanto, há um personagem constante, sobre o qual o livro se detém durante longo tempo: Swann. Qual a importância deste personagem na grande escala das coisas? A verdade é que o narrador acaba por se sentir influenciado por esta presença que, não sendo constante na sua vida, tem uma grande força moral no mundo infantil. Afinal, trata-se do pai do primeiro amor.

Assim, temos uma grande parte do romance dedicada à forma como Swann conquista a sua actual esposa e como esta acaba por o fazer sofrer de diversas formas por não corresponder ao nível do seu amor. Isto pode parecer pouco consequente para a narrativa, mas serve como uma forma de caracterizar a época em que se vive. Repare-se que, para caracterizar a época, o autor não recorre a prolongadas descrições do ambiente dos salões ou das roupas. Em vez disso, prende-se nas questões dos hábitos e na qualidade dos diálogos.

Um livro que se lê rápido, apesar da densidade, e que é simplesmente fascinante. Estou ansiosa por continuar a minha senda e passar desde já para o segundo volume, mas tenho outras leituras intercaladas para não fartar :p

15.6.16

Hyouge Mono

Hyouge Mono
 Mashimo Koichi - Bee Train
Anime - 39 Episódios
2011
6 em 10

Também há algum tempo que não falava de animus, mas a verdade é que me demorei bastante neste... Simplesmente, nunca me apetecia vê-lo. Não que tenha sido excepcionalmente longo, 39 episódios não é nada, mas... Não me apetecia vê-lo.

Então e porquê?

Este anime é passado na época dos samurais, com suas guerras e seus problemas, mas com uma pequena variante: o personagem principal gosta de chá, de fazer chá e de coleccionar artigos relacionados com chá. Fora isso, foi dos animes mais aborrecidos que vi ultimamente. O que me choca, porque a maioria dos meus amigos lhe deu um sólido 10/10, que eu não consigo compreender de forma alguma.

Para começar, estes personagens falam. Falam e falam. Passam o anime inteiro a falar. Falam de quê? De nada que interesse. A sua caracterização perde-se pelo meio de milhares de palavras que, para mim, não fizeram sentido algum. Os diálogos eram ininteligíveis e nada ajudados por um conjunto de vozes perfeitamente desapropriado. Todos os personagens pareciam falar de todos os assuntos com uma pontada de ironia cómica, que ficaria bem se se tratasse de um anime de comédia mas que acaba por ficar contra-natura num anime que tem intenção de ser um relato mais ou menos regular da vida e obra de um personagem em particular.

O mesmo acontece com as expressões dos personagens. Dentro do contexto, aparecem absolutamente descabidas. As personagens, juntamente com o design, aliadas às vozes, tornam este anime de conversação numa experiência absolutamente bizarra, porque as coisas não jogam umas com as outras de forma alguma.

Se temos um conjunto de designs fiéis à época que se pretende retratar, temos também alguns momentos de animação digital que, estando bem feitas, não estão integradas no resto do anime e destoam em absoluto. Mais um elemento que torna este anime de chá numa verdadeira sopa fria.

E o facto final que se adiciona a este cozido de nhanha é a música. Certamente que em alguns contextos históricos a utilização de música pop funciona pelo contraste. Mas aqui é simplesmente anti-climática. As peças, individualmente, são bastante interessantes. Mas dentro da série não têm nada a ver com nada.

Assim, este anime poderia ter sido excelente se, simplesmente, fosse completamente diferente. Parece-me a mim que, na minha opinião, falharam em juntar todo um conjunto de aspectos que, separadamente, funcionariam bem. No entanto, acredito que para os meus amigos do 10/10 seja precisamente este facto que os fascinou.

As Minhas Lembranças Observam-me

As Minhas Lembranças Observam-me
Tomas Tranströmer
2012
Auto-Biografia 

Pela primeira vez, participei numa BookBox no BookCrossing! Consiste no seguinte: existe um conjunto de livros que vão de pessoa para pessoa. Uma pessoa tira um e mete outro (ou mais). Eu tirei este e pus dois. Não conhecia o autor, um poeta sueco, mas como gostei do título achei que este seria um bom livro.

É um livrinho simpático, que fala da infância do poeta e da forma como ele foi divergindo os seus interesses até chegar ao ramo da poesia, sendo que aparecem aqui alguns poemas inéditos, os seus primeiros. Para quem não conhece o autor, como é o meu caso, o livro acaba por servir mais como uma pequena forma de caracterizar a vida e a sociedade na época da segunda grande guerra.

É um relato único dos sentimentos de uma criança filha de pais divorciados nesta época, da forma como ele se sentia diminuído perante os colegas mas também da forma como acabou por ultrapassar este elemento.

Achei muito engraçado o seu interesse inicial pelo mundo da biologia, o que mais uma vez prova que a vida animal e vegetal é do interesse de (quase) todas as crianças (sendo que é raro manter-se na vida adulta, haha)

Quanto aos poemas, são realmente poemas da juventude, mas remetem-nos para temas modernos para uma pessoa desta idade. Fiquei com vontade de ler os poemas que mereceram o prémio Nobel.

Agora irá viajar até outras paragens! Obrigada! :)

86ª Feira do Livro de Lisboa

86ª Feira do Livro de Lisboa

Por estes dias, fomos também à Feira do Livro. Como já se sabe, é coisa que eu não posso perder, porque eu me alimento de livros e não posso morrer à fome (apesar de ter um stock de livros infinitos devido ao meu pai, que tem uma tara semelhante à minha)
Fomos de autocarro até lá e a primeira coisa que reparei é que aquela zona está toda em obras. O que acaba por ser um pouco desagradável. Para além disso está cheia de autocarros cheios de turistas, o que ainda se torna pior. No entanto, a Feira em si até estava bastante vazia, pelo que foi fácil movimentar-nos e não morremos de calor e cansaço como das últimas vezes.

O nosso circuito foi do lado direito para o esquerdo, depois subir o esquerdo e descer de novo pelo direito. Assim vimos tudo. E eu queria comprar tudo, mas eu tinha uma quota a cumprir que era a de cinco livros. O Qui teve de me agarrar por diversas vezes para que eu me conseguisse controlar, sempre com argumentos como "tu não queres esse" ou "o teu pai tem esse" ou "aouarrgh". Apesar de me ter sugerido um, o Dune, dessa vez fui eu a dizer "o meu pai tem esse". :)

No entretempo, tirámos algumas fotografias para recordar e bebemos uma imperial. Depois, lanchei um gelado (um perna-de-pau), porque tenho andado fascinada com a ideia dos gelados.

Os livros que obtive foram, então:

- Lord Jim (Joseph Conrad) - tinha visto este livro numa lista de recomendações que partilharam no BookCrossing que nos tornariam pessoas melhores; assim, acabei por o adquirir. Mas não foi uma boa compra, porque o livro foi muito caro para o estado em que se encontra
 - The Hitchiker's Guide to the Galaxy (Douglas Adams) - uma versão que tem os cinco livros num único volume
- Bestiário (Júlio Cortazar)
- Contos (Anton Tchékov) - já li um deles, mas como tem muitos mais para além desse decidi comprá-lo, pois adoro este autor
- Manual de Escrita Criativa - para ver se escrevo melhor

Reparei que, este ano, os livros estavam muito mais caros. Não cheguei a encontrar nenhum que custasse menos de cinco euros, o que para alguns títulos me pareceu um exagero. Fiquei fascinada na banca da Europress, mas estava quase no fim da minha quota e decidi guardar a BD para quando for a um evento de anime (fica a dica para meterem mais BD tuga nos eventos de anime!).

Fique também nota para as casas de banho que, apesar de serem portáteis, até estavam bastante aceitáveis no nível de limpeza.

E assim, foi uma tarde muito simpática. Deixo-vos uma fotografia com o meu primeiro livro, dentro de um saquinho muito tradicional :)


Em teu ventre

Em teu ventre
José Luís Peixoto
2015
Romance

Recebi este livro pelo BookCrossing, a propósito de um ring. Demorei a chegar a ele pelos motivos anteriormente referidos, relativos a um livro gigante.

Neste livro, é-nos relatada uma diferente versão do milagre de Fátima, da perspectiva da pequena Lúcia e da sua mãe. Infelizmente, o romance não está estruturado devidamente, o que torna a leitura confusa, maçuda e muito pouco conclusiva.

Por aquilo que entendi, o autor relembra o dito milagre como se este tivesse sido apenas uma invenção de criança (Lúcia), possivelmente com intenção de chamar a atenção da mãe que se sente divida por uma série de filhas e um filho. Esta invenção sai fora de proporção e a cada novo mês Lúcia tem de colocar novas palavras na boca da Maria para que não aconteça o caos nem a maltratem mais. No entanto, nada disto parece agradar à mãe, que não acredita na história.

A escrita é simples mas, como digo, a estrutura deixa muito a desejar. Parece ter sido um romance escrito sem rumo e em cima do joelho, com cada capítulo um pouco ao improviso. Nunca é esclarecido se o que eu acabei de dizer era o verdadeiro sentido do livro ou não, tal como nunca é esclarecido quem é o narrador das letras pequeninas (penso que seja deus?)

Também não é um livro que caracterize bem a vida da época, sendo que para quem não sabe a história é muito difícil de localizar esta narrativa no tempo e no espaço. Uma pessoa não familiarizada com a cultura portuguesa achará este livro muito confuso.

Foi um pouco desapontante, mas apreciei a leitura de qualquer forma.

Os Bandidos do Tempo

Os Bandidos do Tempo
Terry Gilliam
Filme
1981
6 em 10

Tinha requisitado ao Qui um filme com piada para vermos e ele trouxe-me dois. Acabou por escolher para mim este, que vimos primeiro (o outro veremos assim que possível). Infelizmente, fiquei um pouco desapontada: com Terry Gilliam e actores dos Monty Python esperava realmente algo um pouco diferente.

Um miúdo fascinado pelo passado e pelas guerras do passado vive com os pais que estão obcecados pelos últimos gritos da tecnologia dos electrodomésticos. Até que um dia, um grupo de anões sai do seu armário e ele descobre que, através de um mapa que indica as portas entre o espaço-tempo, ele pode viajar por todas as eras que sempre o fascinaram. No entanto, estes anões desejam apenas roubar as riquezas do passado: por isso são os Bandidos do Tempo.

O nosso grupo viaja por várias eras, sendo que alguns momentos acabam por ter a sua piada (como o do Napoleão, que gosta de coisas pequeninas a baterem umas nas outras). No entanto, a caracterização de cada era está demasiado amadora para o contexto do filme e acaba por parecer quase pouco fantasiosa. Em momento algum conseguimos realmente acreditar que eles viajaram realmente no tempo e que isto não se trata de um simples filme (tal como é). Apenas nos momentos finais, com o casal de ogres, o aspecto recupera um pouco daquilo que se propunha a ser.

Apesar de ser bastante curioso ver tantos anões juntos no mesmo filme, para mais com papéis tão preponderantes (muito bem interpretados, diga-se de passagem), a caracterização dos personagens acaba por parecer curta, sendo que há demasiadas pessoas neste filme para que qualquer uma delas seja digna de nota. Para além disso, o momento final torna toda a narrativa totalmente inconsequente, pois o miúdo acaba por não aprender nada com a sua aventura e não cresce enquanto personagem.

Foi um filme pouco satisfatório, mas ainda assim patenteia o estilo do autor.

As Benevolentes

As Benevolentes
Jonathan Littell
2006 
Romance

Estive este tempo todo sem falar sobre livros porque me remeti a um grande projecto: meu pai ofereceu-me este livro da sua colecção pessoal pelo Natal, leitura que fui adiando devido ao imenso volume que contém. Afinal, são cerca de 900 páginas. 900 páginas de puro terror.

Jonathan Littell é Americano mas escreve, segundo consta, em francês. Este livro será a sua grande obra-prima, contendo um relato muito detalhado dos acontecimentos da segunda guerra mundial, como vistos por um major das SS. O livro compõe-se de várias partes nominadas após temas de peças de música erudita. Isto acaba por caracterizar perfeitamente cada uma das partes deste romance gigantesco e, assim, falarei delas separadamente.

Após uma breve introdução em que o personagem fala um pouco da sua vida actual, em que se encontra como líder de uma grande fábrica de têxteis e tudo é mais ou menos pacífico, o autor remete-nos para uma parte inicial da guerra. Assim começam as Allemandes 1 e 2. Nesta secção, o personagem inicia-se enquanto soldado e é enviado para a Polónia, onde assiste a uma série de horrores cometidos sobre o povo judeu. A partir deste momento é-nos clarificado que quase ninguém neste universo de guerra aprecia realmente matar as pessoas e apenas o faz por obrigação judicial e (quase) moral. No entanto, em todo o lado há loucos. É perdido nessa loucura que ele tenta fazer prevalecer uma opinião superior. Conhece várias pessoas, com as quais trava relações de amizade ou de competitividade, o que vem a ter as suas consequências nos capítulos seguintes. Esta secção introduz-nos a alguns conceitos relativos ao nacional-socialismo vigente na época (o tal nazismo hitleriano) e revela-nos que o ódio perante os judeus não é especificamente dirigido a este povo em particular, mas a todos aqueles que possam diminuir a "qualidade da raça". As opiniões do nazismo são plenamente justificadas através de grandes momentos de debate e discussão entre os personagens. Estes momentos estão presentes ao longo de todo o volume, sendo que o autor revela aqui um grande sentido de pesquisa bibliográfica, de forma a manter um realismo pleno e quase brutalizante. É também curioso observar, através deste livro, o quão desinformados estão os nossos fascistazinhos da época actual (por exemplo, no nacional-socialismo original a comunidade muçulmana é vista como uma espécie de colaborador). Também é introduzida uma das facetas do personagem que virá a ter grandes repercussões no seu futuro: a sua homossexualidade.

Seguidamente, após diversos desentendimentos, Aue (o personagem principal) é enviado para a frente de Estalinegrado. Aqui chamamos de Courante. Aqui, sofre horrores físicos e emocionais que seriam indescritíveis se não estivessem explicados ao longo da narrativa. Existe um elemento constante, que é o mal-estar físico relacionado com problemas gastro-intestinais. Isto fez-me alguma impressão, porque não é de todo agradável ler descrições detalhadas de diarreia e vómito, mas sugeriu-me o meu pai a ideia de que este elemento seja uma personificação, ou objectivização, do mal-estar emocional do personagem. Nesta secção, Aue foi muito mau para mim e pegou-me uma infecção no ouvido: a descrição foi tão horrenda para mim que, pelos vistos, me contaminou e fiquei com dores no mesmo ouvido durante algum tempo. Existem várias descrições de sonho que, progressivamente, se acabam por misturar com a realidade. Assim, ao longo de grande parte da narrativa, deixamos de saber o que é realmente verdadeiro e o que foi apenas mais um dos pesadelos de Aue.

Após ficar ferido em combate por sua própria irresponsabilidade, é tempo de descanso e de Sarabanda. Aqui, encontramos um elemento novo: a irmã gémea de Aue. Ele nutre por esta um sentimento quase patológico de admiração e obsessão sexual, que acabará por levá-lo a uma quase loucura no futuro. Nesta secção, tratamos dos aspectos burocráticos da guerra. Repare-se também que existe uma analogia ao regime soviético, sendo que muitos dos personagens mais extremistas admiram Estaline enquanto líder e gostariam que ele se remetesse para o nacional-socialismo alemão ao invés do socialismo russo: quase como se ambos fossem versões diferentes da mesma coisa (se calhar...?)

Regressamos aos terrores e ao pesadelo constante em Minuet (em Rondós). Desta vez assistimos à parte mais famosa do extermínio judeu durante este regime: os campos de concentração. Apesar de o personagem não visitar o mais famoso dos tempos de hoje, ele relata com muito detalhe a vida nestes lugares, tanto para os residentes como para o corpo policial. Fala da selecção das pessoas e do porquê: estes nacionais-socialistas procuram, por um lado, destruir todos os judeus que possam perturbar a sua pureza de linhagem mas, por outro lado, necessitam de uma força de trabalho constante e saudável que lhes possa construir as armas que necessitam para combater na frente russa. Assim, são eliminados todos aqueles que não podem trabalhar. Isto é, quem pensa que os campos de concentração foram sobretudo difíceis para as crianças, como tantos dos nossos filmes romantizam, pode ficar informado que crianças era coisa que não havia. Eram logo eliminadas, assim como mulheres grávidas (imagem que muito impressionou o nosso Aue), idosos, doentes e todos aqueles que aparentassem ser moderadamente fracos. Ora, apesa de haver esta selecção as condições seriam tão atrozes que nenhuma destas pessoas ficava habilitada para trabalhar após poucas semanas. Aqui está a ironia da coisa, que Aue se esforça ao longo do capítulo para reduzir, encontrando obstáculos na corrupção da sua própria estirpe.

Depois de um momento de doença, Aue refugia-se na abandonada casa da irmã, na Pomerânia, onde se entrega ao Air, num processo de autodescoberta física em que ele expande os horizontes das suas fantasias sexuais solitárias. Acaba por ser uma secção interessante, não tanto pelas descrições horrivelmente detalhadas dos seus actos masturbatórios, mas pelas discussões imaginárias que ele tem com uma série de pessoas, nomeadamente a irmã. Entretanto, havia ocorrido um crime na casa da sua mãe e existe agora um sentimento constante de paranóia perante a perspectiva de ser acusado desse acto.

Finalmente, em Giga, assistimos à destruição final de Berlim e do ideal nacional-socialista. É-nos também explicada a horrível forma como Aue escapa para França e a razão pela qual ele agora tem uma boa vida.

O livro é uma sucessão de imagens grotescas, horrivelmente irónicas. Há sempre um sentimento de terror, de pesadelo, que chegou a transmitir-se aos meus próprios sonhos (o que foi bem chato). Tudo isto pontuado por momentos de grande discussão filosófica acerca das origens deste massacre. É toda uma nova perspectiva sobre a guerra, perfeitamente enquadrada dentro dos acontecimentos reais, que não romantiza, não embeleza, apenas relata com toda a brutalidade o que é o terror de viver isto, quer se esteja do lado dos bons ou do lado dos maus. "As Benevolentes" são apenas referidas na última frase e são, realmente, a figura mitológica apropriada para esta ocasião.

Um livro que não me deu qualquer prazer na leitura, mas que não posso deixar de recomendar. Simplesmente, demasiado bom.

7.6.16

Mad Max: The Road Warrior

Mad Max: The Road Warrior
George Miller
1981
Filme
7 em 10

Por sugestão de Qui, vimos este filme no fim de semana. Por alguma razão, nenhum de nós se conseguia lembrar do nome dado a este tipo de cenário pós-apocalíptico (deserto com carros), sendo que até ao momento não me lembro também. Portanto fui pesquisar: continuo sem encontrar. Quem me ajuda? É o mesmo género que o Hokuto no Ken, se virmos anime.

Adiante!

Este filme do início dos anos 80 mostra-nos uma aventura de Max, um condutor errante por um universo destroçado onde apenas importa uma coisa: a gasolina. Com ela, poderemos chegar a qualquer outro lugar, salvar as nossas vidas, começar uma vida diferente. No entanto, nem sempre é fácil consegui-la. Existem bandos e gangues mais ou menos organizados que se reúnem para roubar gasolina aos passantes, que se organizam em grupos para se poderem defender. Max, no meio disto tudo, é um solitário com um passado triste: ele procura isolar-se, mas acaba por se ver envolvido com variadas pessoas e, devido à sua própria natureza, não pode ignorar os seus apelos por ajuda.

O elemento mais curioso deste filme será, sem dúvida, todo o ambiente em que é passado. O cenário de desolação é cativante, sendo que a forma como a civilização deste futuro está retratada tem as suas nuances que nos levam a dar asas à imaginação. Tudo isto é ajudado por um espectacular guarda-roupa com uma inspiração muito livre, que poderá simbolizar uma série de coisas.

A história é simples, apesar de termos bons actores, com destaque para Mel Gibson que, quase sem falar, consegue demonstrar todos os pequenos detalhes do seu personagem. Se bem que, para mim, o melhor actor é mesmo o cão (de nome "cão"). Tendo isto em conta, trata-se de um filme que se foca sobretudo em carros e camiões em diversas corridas e perseguições. Que explodem frequentemente. E isto é tudo o que poderíamos querer!

Repare-se na data deste filme: 1981. Os efeitos digitais eram pobres nesta altura, e muito caros. Os efeitos especiais deste filme são todos feitos com modelos, com objectos, com um excelente trabalho de edição. Isto é admirável, pois é uma arte que se tem vindo a perder nos dias de hoje.

Gostei muito deste filme e fiquei com bastante vontade de ver o resto da trilogia (o primeiro e o terceiro que, segundo consta, tem a Tina Turner a cantar) :)

2.6.16

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu
Omata Shinichi - Starchild Records
Anime - 13 Episódios
2016
6 em 10

Anime que surgiu recomendado no meu clube. 

Trata-se de uma série um pouco diferente, que aborda um tema muito pouco falado, quiçá único. Existe uma espécie de representação tradicional Japonesa, de nome Rakugo, que consiste num contar de histórias, com mais ou menos piada, mais ou menos tragédia. Este anime fala das pessoas talentosas que trouxeram o Rakugo desde o seu auge, no pré-guerra, até à actualidade, em que é uma prática um pouco ignorada.

Tudo começa quando um rapaz, que esteve preso, deseja muito aprender esta técnica e se junta a um mestre. Depois, conta-se-nos a história deste mestre na sua juventude, e do seu melhor amigo, no seu caminho para se tornarem mestres do Rakugo.

Esta técnica, este teatro, acaba por ser a parte mais interessante do anime. As histórias são fascinantes e remeta-se uma grande ovação para os actores de voz, que conseguem estabelecer uma técnica perfeita e uma interpretação sem precedentes. Também são muito bons os cenários e as interpretações imagéticas das histórias contadas, que realmente captam a atenção do espectador.

No entanto, todo o resto da narrativa - relativo à história de amizade entre os dois contadores de histórias - acaba por se tornar numa verdadeira novela mexicana, cheia de voltas, reviravoltas, pessoas que se querem matar, lágrimas e tragédias. Isto retira muito da profundidade dos personagens, sendo que eles acabam por ser muito mais interessantes quando estão a representar do que quando estão a ser eles próprios. Se isto é bom ou mau, deixo a vosso critério.

Assim, este anime acaba por ser mais um spot publicitário a uma arte que se está a perder progressivamente para outras formas de entretinemtno. TErá o seu valor se motivar algum de nós a ir assistir a uma destas performances.

Zootopia

Zootopia
Byron Howard & Rich Moore
2016
Filme
6 em 10

Este tão famoso filme que já deu azo a tanto cosplay finalmente saiu numa qualidade decente para que o possamos ver em casa. Este filme tem o cunho Disney e acaba por ser um pouco diferente do que esta companhia nos tem habituado. Apresenta-se-nos um filme para toda a família, com alguns detalhes especiais para os adultos mas, ainda assim, completamente acessível para todos os que o queiram ver.

Num universo onde os animais deixaram o seu lado selvagem e vivem em humanização, uma pequena coelha deseja por tudo vir a ser polícia. Após muito esforço e muita negatividade, consegue formar-se na academia e é destacada para Zootopia, uma cidade em que todos podem ser aquilo que quiserem. Logo no seu primeiro dia de trabalho, em que se vê ocupada com a tarefa ingrata de passar multas, conhece um raposo aldrabão que lhe mostra que a realidade não é tão feliz como se possa pintar. A partir daí nasce um grande mistério com animais que se tornam selvagens, sendo que os dois têm de formar equipa e resolver o assunto antes que ele se torne incontrolável.

Este filme aborda, essencilamente, uma situação de divisão racial de de classes, tão presente nos Estados Unidos da actualidade. Há uma divisão entre o "bem" e o "mal" (presa vs predador) acentuada e que os personagens desejam eliminar, para que realmente possam todos viver em paz. Cada animal acaba por se apresentar como uam espécie de estereótipo humano, o que poderá não ser muito agradável para as pessoas que se pretende retratar.

Temos uma animação bastante boa, com detalhes muito curiosos, e atenção à anatomia animal real. As texturas estão muito bem trabalhadas, assim como todos os cenários, havendo uma caracterização profunda do ambiente urbano.

No entanto, alguns detalhes narrativos deixam bastante a desejar (e esta parte poderá conter spoilers). Antes de mais, porque é que só existem mamíferos nesta cidade? Onde estão os répteis e as aves? Não existem sequer pombos! Noutro aspecto, porque é que só existem animais selvagens e ovelhas? O que é feito dos outros animais domésticos? Fica também a questão: o que é que os carnívoros comem? E, finalmente, se o antagonista se fazia passar por boa pessoa, porque razão os terá ajudado no caminho para resolverem todo o mistério e o poderem acusar no final?

Devido a estes aspectos, não poderei dar mais do que uma avaliação mediana. No entanto, é um filme bastante divertido. Memorável a cena dos funcionáios das finanças que, tal como na realidade, são todos preguiças.

O Elefante Branco

O Elefante Branco
Henri Troyat
1970
Romance
Quando visitei a Conchas Little Free Library, no Jardim da Quinta das Conchas, a propóstio de um assunto do BookCrossing, tinha levado um livro para deixar, com intenção de trazer outro. Trhouxe dois, um dos quais já li. O outro era este. Decidi trazaer este porque me oi contado que o senhor que o tinha deixado gostava muito destes livros e que tinha muita pena que ninguém os levasse emprestados. Assim, decidi dar um pouco de motivação ao senhor! Força senhor!
 
ao início não estava a gostar muito deste livro. O livro fala de uma "família" de revolucionários russos, composta por três velhos que fugiram desse país antes que a revoução acontecesse, encontrando-se agora exilados em França. Percebem mal a língua e os costumes e têm uma vida pobre, baseada na construção de guarda-chuvas. Aguardam apenas a glória da revolução, que será - segundo eles - consumada o mais brevemente possível. 
 
Por isso, recebem algumas pessoas que acreditam fazer parte da revolução. No entanto, o seu jeito de idosos acaba por impedir que eles tenham relacionamentos simples com as outras ou que, na verdade, tenham uma vida normal e adaptada.
 
O aspecto que me pareceu mais curioso foi a ironia da situação de termos um revolucionário que, supostamente, acredita plenamente na diluição de classes sociais mas que, apesar de tudo, trata o seu amigo que o vem acompanhando desde a infância como um mero cirado mujique.
 
É um livro bastante triste e melancólico. Acabei por o apreciar bastante.