12.5.15

Peito Grande, Ancas Largas

Peito Grande, Ancas Largas
Mo Yan
1995
Romance

Desde que tinha sido anunciado o Prémio Nobel de 2012, queria ler este livro, que é considerado a sua obra maior. Encontrei-o na Feira do Livro do ano passado e, agora, finalmente li-o. É uma obra prima e há algum tempo que não lia nada assim.

Percorrendo a China desde o início da segunda guerra mundial, este livro relata a vida de uma grande família localizada numa província campesina, que vive, luta e sofre ao longo dos tempos. A narrativa relata muitos eventos que aconteceram ao longo destes anos todos, sendo que esta família sofre às mãos de todo o tipo de regime, dos imperialistas aos comunistas, em acções que dizem muito sobre a realidade escondida do que se passou nestas épocas perdidas e esquecidas.

O personagem principal, Jintong, nosso narrador ao início e protagonista no final, tem características psicológicas muito especiais: ele é um inveterado apreciador de seios e do leite que deles jorra, a ponto de não se conseguir alimentar de mais nada durante muito tempo. Isso torna-o numa pessoa débil, fraca, cobarde, o que traz consequências negras para a sua vida e para o que o rodeia. É o último filho de uma mãe, figura poderosa e inquebrável, com oito irmãs que - movidas por uma incessante paixão - se unem a homens especiais, por vezes perigosos, o que também tem consequências graves para a vida de Jintong. O destino de cada uma das irmãs é traçado de forma imprevisível, sempre mutável pelas mudanças na vida política da China. Assim, o livro conta através delas todas estas alterações, sendo que a vida da família - entretanto reduzida a Jintong e à sua mãe - é profundamente afectada por elas. São pessoas que assistem à guerra, à fome, à solidão, ao horror. Mas também existem momentos felizes.

O que mais me surpreendeu, mais do que a história, é a técnica de escrita. O livro é altamente descritivo, mas nunca aborrece, pois todas as imagens relatadas são belas. Mas de uma forma crua, quase insensível. A forma de Jintong ver a vida está cheia de analogias à vida diária na aldeia em que vivem, com muitos elementos da natureza espalhados por todo o lado, com matizes de cor e textura que me fascinaram e apaixonaram. Por vezes as descrições são grotescas, a visão é nua, a visão é o espelho de uma realidade que muitos autores preferem omitir por ser tão horrível ou nojenta. Mas estão escritas de tal forma que conseguimos formar imagens perfeitamente exactas do que realmente se passa, por vezes de um estonteante belo.

Apesar da quantidade de personagens que existem, o livro é bastante simples de seguir e muito acessível. É uma escrita simples, sem complexos, muito clara. Isto parece-me simplesmente extraordinário. Passarei a recomendar este livro como uma obra fundamental, sobretudo se tivermos em consideração os factores políticos de que o autor foi vítima por o ter publicado.

Um livro essencial e muito recomendado.

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