14.11.12

A Cidade das Flores

A Cidade das Flores
Augusto Abelaira
1959
Romance

Livro que ganhei na promoção de Verão da Editorial Presença.

Sem dúvida um livro estranho. Não está organizado numa história, mais em pequenas cenas quase teatrais em que os personagens conversam sobre a vida e sobre o estado da nação. Depois há uma infiltração futurista um bocado escusada, mas no geral foi muito interessante.

O livro é suposto criticar o regime Salazarista, mas - para escapar à censura - o autor optou por situar toda a narrativa em Itália. Nisto foi um trabalho de mestre. Os personagens são verdadeiramente italianos e a maneira de pensar deles é italiana. O livro quase que parece uma tradução.

No entanto os personagens não são especialmente fortes e por vezes são tão irritantes que uma pessoa praticamente sente que deve recusar identificar-se com eles.

Ainda assim, muito bem escrito. Vou fazer agora um BookRing com este livro no BookCrossing! =D

Houve um capítulo que gostei muito (o Décimo Quinto Quadro) e que acho que usaria numa apresentação de cosplay. Vou transcrevê-lo para aqui, apesar de ser um pouco longo:

 - Enganou- se! Enganou-se! - disse ela apanhando uma flor azul. - E sabe como se chama? - Tinham vindo à procura das acácias em flor, mas onde estavam as flores que ninguém as via?
 - Não sei, Rosabianca. Sou de uma terrível ignorância acerca de flores. De flores, como de muitas coisas mais.
 - É uma anémona - E como Giovanni se mostrasse convencido:  - Não, não é. Talvez seja - Olhava-o bem nos olhos, a ele que não estava habituado a que o olhassem assim - Não sei o que é uma anémona, gosto do nome, gosto desta flor. Quem sabe se não será? - Tirou-lhe uma pétala - Que me diz, Giovanni Fazio?
 - Que hei-de dizer? Que é...
 Rosabianca arrancou outra pétala: - Se calhar, é... E outra pétla ainda, como, quando menina, fazia aos malmequeres - Se calhar, não... - Outra pétala - Se calhar é... Outra. - Não é... - Outra  É. Não é. É. Não é... É... É uma anémona, Giovanni Fazio, uma anémona!
 Giovanni pegou na flor sem folhas.
 - Agora não é nada - lamentou.
 - É uma anémona, é uma anémona - Palavras ditas numa voz lenta que deu tempo a que uma nuvem cobrisse, e logo descobrisse, toda essa imensidade que é o Sol. Depois, repetiu, olhando para Giovanni: - Enganou-me! Enganou-me! Onde é que foi inventar as acácias? As acácias, se calhar, não têm flor. Não têm flor, as acácias - insistiu, mudando a voz. - Enganou-me. Enganou-me! Aqui só há anémonas... - Estacou de súbito, tão de súbito que Giovanni só parou um segundo depois, mais à frente. Rosabianca estendeu-lhe a mão direita e ele estremeceu. - Dê-me a sua mão, Giovanni Fazio. Porque vai tão calado? - Porque ia tão calado? Era como se a alegria, o à-vontade dela, um desembaraço assim, o tornassem ainda mais tímido. Jamais poderia ter aquela juventude, aquela desenvoltura, aquela naturalidade. Disse:
 - Há ali uma anémona.
 - Não! - Rosabianca fez beicinho - Não são anémonas. O Giovanni Fazio não sabe descobrir anémonas. São glicínias... - Pausa. - Já viu alguma vez, sabe o que é uma glicínia? - Ele fez sinal que não. - Então é uma glicínia - concluiu Rosabianca, fechando os olhos. Porque ela também não conhecia as glicínias.
 - Mas é igual à anémona...
 - Eu digo que não. Quer ver? - Apanhou-a e começou a desfolhá-la. - É uma anémona... não é... é..., não é... - Faltava uma pétala.
 - Vê? - disse ele -, vê que também é uma anémona?
 - Não!
 - Como não? Pois não lhe falta uma pétala?
 Rosabianca observava-o nos olhos e Guiovanni sentiu que o mundo era como ela dizia e que tudo o mais era falso. "Dize-me que os teus olhos verdes são negros, que os teus cabelos negros são verdes, que aquelas árvores, ali, são os teus braços e que a morte é apenas uma palavra e que neste mundo é eterno e eu acreditarei." Mas Rosabianca nada disse acerca dos olhos ou dos cabelos, ou dos braços ou da morte.
 - Como? Falta uma pétala? - protestou indignada. - Não falta pétala nenhuma.
 Giovanni decidira-se a arrancar a pétala que faltava, Rosabianca escondeu-a atrás das costas.
 - Dá-ma - pediu
 - Não! - Na frente de fAzio, as duas mãos atrás das costas, as pernas afastadas, debruçada para a frent,e numa atitude de menina de doze anos, de menina malcriada, mimenta, de desafio, Rosabianca.
 - Dê-me essa flor...
 - Apanhe-a se é capaz! Ande...
 Tentou alcançar-lhe as costas, mas Rosabianca girava como um pião e Giovanni deu uma volta inteira em torno dela.
 - Não se atreve, Giovanni Fazio? - Então Giovanni aproximou-se mais.
 Os olhos nos olhos dele, a menina dos olhos verdes recuou. Outra vez Giovanni se desviou para a direita, tentando atacá-la de lado, mas Rosabianca não o perdia de vista e, lentamente, ia rodando. Olhos nos olhos (olhos verdes contra olhos azuis), deram um novo giro. Agora ocupavam outra vez a posição do princípio.
 - E se eu desse outra volta, Rosabianca?
 - Sim, daremos outra volta. Enquanto houver  voltas no mundo, daremos szempre uma volta. Esgotaremos as voltas que existem no mundo, Giovanni Fazio.
 Então, apeteceu a Fazio afagar os cabelos de Rosabianca, desalinhá-los, mas o vento já os tinha deselinhado.
 - Sim, outra volta. Giovanni Fazio, aí. Eu, no meio. Atrás de mim, a florzinha sem pétalas.
 - Com uma pétala.
 - Sem pétalas.
 - Sim, dou uma volta. Atenção. Um, dois, três... - Lentamente começam. ele dava uma volta mais longa, ela girava em torno dos calcanhares.
 - Sabe? - começou Rosabianca. - Estamos a dançar. É uma dança, uma dança, Giovanni Fazio! O senhor está a dançar comigo. - Pôs um dedo na boca, depois espetou-o na testa. - Não - disse - , não é comigo. É com a anémona, a florzinha azul sem pétalas. - Deu um salto brusco e sentou-se no chão, sem medo de sujar o vestido (onde três patinhos azuis meditavam no meio dos juncos). - Oh, que má que eu fui, não tenho perdão nenhum. Matei a florzinha sem pétalas, matei a pobre anémona tão bonita, tão gentil... - Olhou para Giovanni. Repetiu: - Oh, que má eu fui, que má eu sou! Matei a pobre florzinha! Sem piedade, sem piedade, uma a uma, lhe arranquei as pétalas. Oh, como deve ter sofrido a pobre florzinha, como deve ter sofrido! - Levantou-se, ajoelhou-se depois, debruçlou-se ligeiramente, alisou com muito cuidado o chão, limpou-o de pó, ajeitou a flor. - Ajude-me - disse, sem se voltar. - Vamos tratá-la, Giovanni Fazio. - Ergueu-se, olhou em redor, uma a uma, começou a recolher as pétalas dispersas. Giovanni imitava-a, mas sem êxiuto, e rosabianca regressou com as mãos cheias de pétalas ao pé da flor morta. (Deixa-me espalhar essas pétalas pelos teus cabelos, deixa-me beixar os teus cabelos - sonhou Giovanni.) - Vamos juntá-las. Colar-s.ão de novo?
 Rosabianca observou-lhe os olhos.
 - Para que me engana? O Giovanni Fazio é mau. Enganou-me dizendo que havia acácias, quando não há acácias nenhumas, quer-me enganar dizendo que a infeliz anémona vai renascer...
 Giovanni lembrou-se: anémona? Mas a Rosabianca disse que era uma glicínia, chagámos a discutir. é uma gficínia, menina dos olhos verdes, é uma glicínia... É uma glicínia e foi por isso que a desfolhou...
 - Deixá-lo! Agora é uma anémona: quero que seja uma anémona. - Por instantes ficou sem uma p+alvavra. - Não, não, agora não é nada, agora morreu. Morreu, nós vamos enterrá-la. Oh, um enterro bonito, um enterro de flores. As outras flores virão assistir, porque ela era a mais bela. - Deixou ciar as pétalas sobre a flor morta. Giovanni imitou-a. Então Rosabianca ergueu-se. Olhou em volta. - Oh! - exclamou. - Onde estará...?
 Mas Giovanni compreendera:
 - Sim - adivinhou -, ela tem um apaixonado. Onde estará?
 Rosabianca:
 - Tenho a certeza que será uma flor vermelha. O vermelho é uma cor bonita e eu tenho a certeza que será uma flor vermelha. E estará aí perto... - Avançam os dois à procura da flore vermelha. - Choraminga Rosabianca. - O ingrato! Enquanto ela morria, que fazia ele? Naturalmente a divertir-se com outras flores... - Encarou Giovanni, bem de frente. - A morte é uma coisa boa. - Preparava-se ele para melhor a observar, quando Rosabianca o interrompeu. - Mas eu gosto de viver! - E então começou a correr pela praia fora. - Onde estás, flor vermelha, onde estás, florzinha vermelha? A tua amada morreu, a tua amada não é mais deste mundo! - Cinquenta metros adiante de Giovanni, que a seguia, parou. - Acredita em tudo isto Giovanni Fazio? O Giovanni Fazio é uma criança. Ora eu lhe digo e pasme: não há acácias, não há anémonas, não há flores vermelhas. E o Giovanni FAzio acreditou em tudo, com uma cena no cemitério, uma flor vermelha apaixonada não se sabe onde... é uma criança, Giovanni fAzio, uma criança... Afinal, não está do lado das pessoas crescidas!
 Giovanni correu ao encontro dela e tomou-lhe a mão.
 Eu não, Rosabianca. Somos ambos. Consigo sou uma criança, consigo, apenas consigo... Não sei, mas sinto-me feliz, e penso que tudo isto é verdade.
 Estavam à beira do mar.
 - Giovanni Fazio - disse -, olhe esta coincha!
 - Linda...
 - Aquela - er apontou uma conhca vermelha.
 Giovanni:
 - Quem sabe se não será a apaixonada da anémona?
 - Talvez... Que coisa terrível deve ser amar! Eis aqui esta concha que gosta de uma flor. Estranho que esta concha possa gostar duma coisa tão diferente como é uma flor! Mas aí está... - De pé, debruçava-se sobre a concha que Giovanni lhe estendia (e enquanto assim se debruçava, Giovanni adivinhou-lhe a doçura do seio e sentiu vontade de beijá-lo). Rosabianca ignorava os desejos de Giovanni (quem poderá jurá-lo?) e dizia:
 - Aí está! Ele não sabe que a sua amada morreu. Que neste momento está morta, estendida para sempre... _Ah, Giovanni Fazio! Como foi isto possível? Esquecemo-nos de falar no enterro dela! Nada dissemos! Será possível que nada tivéssemos dito, ao menos um ámen? - Inclinou-se sobre a flor. - Perdoa! Nem eu nem o Giovanni Fazio te queríamos mal. Perdoa, também conchinha vermelha. Sim, nós não te queríamos mal. Éramos duas crianças que foram brincar à praia. Viemos à procura das acácias em flor, mas elas não existiam e em vez delas apareceste-nos tu. - Olhou para Giovanni. - Que diremos? Que diremos? Oh, Giovanni Fazio, hoje é um dia de loucura. Não há aqui ninguém, ninguém exige que digamos coisas ajuizadas. Para quê as coisas ajuizadas? - Subitamente tornou-se muito grave, corou, voltou à sua cor normal. - Ainda que pense mal de mim - disse -, vou fazer uma coisa muito séria. - Tirou o cinto quye lhe apertava a camisola de lã e despiu-a. Sem compreender, Giovanni observava-a. Tirou o resto e stava nua. - Eu sou uma sereia. - Corre em direcção ao mar, mergulha, reapoarece, grita: - Faça um gesto de admiração!
 Giovanni aproximou-se.
 - Será possível? - diz, recuando alguns passos, cheio de espanto. - Mas é uma sereia!
 - Oh, mas onde estou eu? - pergunta a sereia, abrindo muito os olhos. - E quem sois vós? Oh, como é estranho! É isto o mundo? - Observa-o longamente. - Quem sois? - Aproxima-se. Mexe-lhe nos cabelos, dá uma volta em torno dele, enquanto Giovannia a fita nos olhos, lhe evita o corpo. - É a isto que chamarão uma árvore? - pergunta.
 - Frio - responde ele.
 - Uma casa?
 - Frio.
 - Oh, tu és o Sol?
 - Não, não sou o Sol.
 - Minhas irmãs, às vezes, liam-me histórias. Falava-se aí de cavalos capazes de dar a volta ao muyndo numa noite. Sereis um? Sereis uma estrela? Que é uma estrela? Dize-me: serás tu o amor?
 - Sou um homem, sereiazinha.
 - Um Hoimem? Que nome engraçado - disse a Sereia midando-o  muito. - Que é um Homem?
 - Ah - diz o Homem -, se preferes euy sou a Lua, ou a linha do horizonte, o voo de uma ave.
 - Não - retorquiu a sereia. - Agrada-me que sejas um Homem. estranha coisa deve ser essa de ser um Homem! Que é que se sente quando se é Homem?
 - Que os teus lábios são vermelhos, que os teus olhos s~´ao verdes, que os teus ombros são macios.
 - Que engraçado é ser um Homem para sentir coisas assim! Como é que se pode saber a cor dos meus olhos e dos meus lábios? Ainda percebo que se saiba que os meus ombros são macios, mas como a cor dos meus olhos, Homem, se eles é que vêem?
 - Não há espelhos no fundo do mar?
 - que é um espelho?
 - Uma coisa onde nos vemos como somos.
 - Ah! Nós chamamos-lhe palma da mão. E adivinha-se. Mas a minha nunca me mostrou a cor dos olhos e já a dei a ler muitas vezes e nunca ninguém me disse nada. A tua diz-te? Oh, mostra, mostra! - Dirige-se a Giovanni, pega-lhe na mão esquerda. - Como é que se lê? Onde está aqui que os meus olhos são verdes, que os meus lábios são vermelhos?
 - Leva muito tempo a explicar. Deixa-me tocar com os meus dedos nos teus olhso e saberás. - Toca-lhe nas pálpebras.
 - Sim - diz ela -, verdes!
 - Nos teus lábios...
 - Sim - diz ela -, vermelhos...
 - ...Nos teus ombros...- Não, nos ombros não é prec iso, Homem. Eu sinto-os.  - com as mãos experimenta os ombros. - Sim, são macios. Mas não preciso agora das tuas mãos para nada! - Fica em silêncio. - Espera, Homem! Dize-me: que é uma Mulher?
 - Agora tu és uma Mulher, agora que deixaste o mar.
 - Mas eu volto!
 - Não podes! Morreste afogada. estiveste já muito tempo em terra e morreste. Quando uma sereia morre afogada em terra, transforma-se numa Mulher. - Apanha a riupa dela e atira-lha - Quando te vestires, serás uma Mulher. E mostrar-te-ei o mundo.
 - Vale a pena conhecer o mundo? - Mulher agora, ela sentia veronha da nudez e cobria o corpo.
 - Sim, o mundo é bom. A vida é uma coisa muito bela, uma coisa um pouco louca onde sucedem cosias estranhas, mas boa, terrivelmente boa. O mundo é um sítio onde ainda podemos encontrar sereias.
 - Sim, onde há estrelas. Não é o que tu és, não era isso, não era uma estrela?
 - Homem, Homem...
 - Ah sim. Um Homem.

Sem comentários:

Enviar um comentário