6.8.13

Passaporte para o Céu

Passaporte para o Céu
Paulo Moura
2005
Reportagem

Devo confessar que quando me inscrevi para esta actividade no BookCrossing, não estava à espera que o livro fosse assim. A sinopse enganou-me e pensei que fosse um romance. Devo confessar também que foi uma das raras vezes que li uma reportagem em forma de livro.

Impressionou-me muito. Eu abomino, faz-me confusão e faz-me triste, ver ou ler ou saber de pessoas, animais ou plantas - seres vivos em geral - que sofrem. E vemos isso todos os dias na televisão, pessoas a serem assassinadas em directo para o noticiário ter notícias para noticiar. E é perfeitamente normal e gozamos com isso e dizemos "bem feita", porque a pessoa era má, ou feia, ou isto, ou aquilo. Temos muita pena se a pessoa é famosa ou bonita, sem sequer a conhecermos, mas todas as outras deixá-las estar a sofrer. E eu sou culpada, porque eu também gozo com os pobrezinhos de África que estão a morrer de fome e se deviam começar a comer uns aos outros, ou comer Americanos que têm mais chicha (ou então, que era o que faríamos se fôssemos criaturas lógicas, pegávamos na fruta toda excedente da nossa produção e mandávamos para lá, mas dizer isto não tem tanta piada, pois não)

Por isso esta reportagem veio mesmo a calhar. É sobre as pessoas da África subsaariana que tentam fugir das terras deles e vir para a Europa, onde acreditam que vão conseguir trabalhar, estudar, fazer a vida e ter carros e boas casas. Parece que já lhes disseram que não, que não é assim, mesmo que não sejam deportados quando cá chegarem não há trabalho para ninguém e vão acabar mal. E a reportagem fala das histórias que acabam mal. Acabam todas mal, umas menos que outras. É assim a vida, mas não devia ser, não é justo que seja assim, pessoas são pessoas.

Relatam-nos como vivem como animais, como são transportadas como animais, como são tratadas como animais... Pior que os animais. Até eles têm mais direitos do que estas pessoas. E não são "pobrezinhos". Têm de pagar 3000, 4000, 15000, 40000 euros para chegar cá e isso, até para nós que já cá estamos, é muito dinheiro. Empenham casas, vidas, tudo para dar vidas melhores à família e afinal de contas não há vidas melhores. Porque é que ninguém lhes diz que se vierem para aqui vão acabar a pedir ou na prostituição? O repórter foi ao Intendente e falou com as prostitutas que lá andavam. Ninguém, ninguém no planeta inteiro, por maior que seja a pobreza, ambiciona acabar no Intendente. Mas lá estão. Não é justo. Não é justo que as pessoas tratem assim outras pessoas.

A reportagem fala das vidas e das diferenças de cultura, das ambições e dos sonhos, das religiões, da inadaptação. E no final a realidade é fria como um matadouro: todas as pessoas são iguais, mas há umas mais iguais que outras.

Mas o que é que nós podemos fazer? Mandar dinheiro para lá? Não posso mandar dinheiro a todas as causas que me impressionam, não tenho assim tanto. Talvez quem o tenha o devesse fazer. Acredito que a solução, se me é permitida a insolência de sugerir uma solução, é a educação das pessoas e a reformulação desses países para que toda a gente tenha oportunidades. Mas isto não é a época dos descobrimentos, não podemos chegar lá armados em States e dizer "vocês agora são uma democracia, façam as coisas como eu mando e já agora dêem-me coisas". A coisa tem de partir de dentro, mas como mudar uma cleptocracia a partir de dentro? As pessoas têm de mudar, têm de ser substituídas por outras que saibam ser... Bem, pessoas. Deixem-me sonhar a minha utopia em que todas as pessoas se comportam de forma a não se prejudicarem...

Quem puder ler este livro e tiver um bom estômago, recomendo. Pode ser que se todos soubermos o que se passam encontremos uma solução viável.

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