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12.5.14

--- e a lua forma-se luar

...e a lua forma-se luar
João Madeira
2001
Poesia

(Como não achei nenhuma imagem da capa do livro, achei por bem por uma ceninha tripada a ilustrar. Combina com o conteúdo literário de que falarei)

Lido no comboio, enquanto me vinham laivos de inspiração para um projecto literário em que estou a participar, foi um livrinho denso de que gostei muito e que irei reler depois dele dar uma volta por aí.

Talvez sejam vários poemas. Talvez seja um muito longo. Mas cada detalhe está em conexão com o outro numa viagem a um lugar de dor e contemplação. Com uma lírica própria, escolha de palavras certeira, leva-nos para um universo surreal, descrevendo céus, florestas e plantas, enquanto alguém (autor? Nós próprios) procura uma razão, quiçá um amor.

Estes poemas (ou um único poema?) têm uma tonalidade muito gótica, no verdadeiro significado da palavra. Faz-nos quase regredir a uma época de mistério, castelos e corvos, com um spleen único.

Sem dúvida fascinante e merecedor do prémio Poesia Jovem do Montijo. Sim, também ganhei este livro no tal concurso.

Não cito nada porque não sei por onde escolher. ;_;


Um Dia Sonhei que Voava

Um Dia Sonhei que Voava
Taichi Yamada
1988
Romance

Acordei bem cedinho para chegar a tempo e horas ao exame e ainda ter a chance de tomar um café. Lá chegada, descubro que o exame, em vez de ser às nove da manhã... Era à uma da tarde! E com este livro se passaram as quatro horas de espera. Bem, quase todas, uma parte foi a comprar outro livro para o comboio de regresso e uma outra foi para almoçar uma salada com molho vinagrete.

Já tinha lido os outros dois livros deste autor editados em Portugal, por isso achei por bem comprar este. Foi numa feira do livro, numa outra ocasião em que estava no Porto e senti que não iria ter livros suficientes para ler na viagem de regresso.

Um executivo de uma empresa de construção encontra-se longe da família quando se vê num hospital. Nele, vive uma aventura platónica, mas muito erótica, com uma senhora que se vem a revelar muito mais velha que ele. Mas voltam a encontrar-se. E a senhora é estranha: ela está a viver a sua velhice numa experiência de regressão em que vai ficando cada vez mais nova. Assim, eles encontram-se quando ela tem 40, 30, 20 anos e por aí em diante.

A escrita é onírica, com muitas referências ao ambiente que rodeia o personagem principal, a natureza, o céu, as estações do ano. Conhecemos este homem com um nível de intimidade por vezes desconcertante, acabando por compreender os sentimentos que ele desenvolve por Mutsuko, a estranha mulher. A descrição dela é feita com tanto carinho apaixonado que não conseguimos deixar de sentir uma certa ansiedade pelo destino que a espera, que é inevitável e incontornável.

No entanto, achei que as cenas físicas talvez fossem demasiado excessivas. Na minha opinião, creio que o livro seria mais bonito e emotivo se este amor fosse simplesmente platónico, ou cessasse no momento em que Mutsuko se torna numa rapariga.

Dos livros do autor, este foi o que mais gostei. Talvez seja porque é mesmo meu, e não emprestado, hehe.

Termino citando um poema que, por sua vez, foi citado no livro. Talvez tenha sido este o momento mais bonito de toda a história.

Eu
Tu
"Nós"

"Nós"
Não pode ser reduzido a ti e a mim
É por isso que é
Eu
Tu 
"Nós"

Eu
Tu
Pomos as mãos dentro da boca um do outro
Tocamos nas nossas gargantas
Tocamos nas nossas traqueias
Tocamos nos nossos esófagos
Tocamos nos nossos pulmões
Tocamos nos nossos corações
Nos nossos diafragmas
Fígados, pâncreas, costelas, intestinos
Músculos, artérias, veias e capilares
Tocamos em tudo
Em todo o tipo de nomes abstractos
Mas aquilo em que nunca conseguimos tocar
És tu
Sou eu.

Taeko Tomioka

O Verso dos Pássaros

O Verso dos Pássaros
David Elrich
2009
Poesia

Pois bem, o certo é que terminei o livro anterior no comboio. Porque estava eu num comboio? A caminho do Porto, evidentemente. Foi a minha última viagem, pelo menos a propósito da pós-graduação. Fui fazer o exame final. :>

Este livro, ganhei-o num concurso literário promovido pela Câmara Municipal do Montijo. Portanto, literatura montijense, here we go!

Este livrinho foi editado a propósito de o autor ter vencido um prémio de poesia jovem. Ora bem... Nota-se que é poesia jovem. O jovem parece ter estudado a poesia e tudo o mais, mas os temas... A verdade é que são muito imaturos. Por todo o lado aparece uma imagem mimada da figura materna. Também temas desportivos e da vida da juventude são abordados de uma perspectiva bastante infantil.

Eu poderia aceitar isso, se a biografia do autor não insistisse que ele estudou poesia e que é um artista (que é um bom artista). O jovem era jovem em 2009, por isso suponho que já seja crescido. Espero que ele tenha evoluído, com toda a sinceridade.

Não vou citar o meu poema preferido, porque não tenho nenhum.

11.5.14

A Cor do Céu

A Cor do Céu
James Runcie
2003
Romance Histórico

Livro que recebi de presente no BookCrossing, a propósito de um RABCK. Pedi-o porque me pareceu que a história poderia ser muito bonita, e não me enganei.

Um rapaz adoptado, na Itália do século XIV, tem de aprender a ser vidreiro. O problema é que ele não vê nada ao longe! Sendo pitosga (facto com o qual me identifico bastante), não pode seguir essa profissão. No entanto, isso dá-lhe uma outra capacidade: a de apreciar e distinguir a cor como ninguém. Assim, é contratado como aprendiz de um pintor. Passado algum tempo, é-lhe dada a missão de ir até terras distantes procurar lápis-lazuli, a pedra que dará a verdadeira cor do céu, um azul tão maravilhoso que pensaremos estar perto de Deus.

O livro começa de forma muito confusa e apressada, com uma sucessão de nomes e conceitos que me pareceram inúteis. Esta enumeração de objectos mantém-se, mais ou menos, por todo o livro. Está claro que o autor fez uma grande pesquisa, mas pareceu-me de todo desnecessário forçar os frutos disso na narrativa. No entanto, isto dilui-se pela excelente história, romântica e espiritual, encontrada na viagem de Paolo, o nosso personagem principal.

Através das suas descobertas, vemos o rapaz a crescer como ser humano e a tornar-se num homem. Na sua viagem conhece muitos elementos importantes naquilo a que se poderia chamar a "fórmula da felicidade", optando por os usar para se dedicar ao "amor". A partir do momento em que a caravana sai das cidades e entra no deserto, o livro obtém um ritmo muito mais calmo e contemplativo, o que torna a sua leitura muito agradável.

é um livro interessante e bonito, mas talvez defina o que eu chamaria de "literatura da nova vaga secular": parece que todos os livros agora têm uma revelação budista algures no meio... Será?

Vou agora emprestá-lo à minha mãe, que é capaz de gostar. :)

Odes

Odes
Miguel Torga
???
Poesia

Livrinho muito velhinho recolhido da convenção do BookCrossing do ano passado. Qual a minha surpresa quando o abro e vejo que é uma edição especial de 60 exemplares numerados, todos eles assinados pelo autor! Mas quel preciosidade, meldels!!

é um conjunto de odes, várias homenagens a diversas coisas. São essas coisas da natureza e deuses gregos, que - por si - também representam coisas da natureza. A cada página virada, um sorriso se abria. Cada nova ode era uma surpresa, e há odes para tudo, desde o sol à música.

São pequenas constatações do que é observado, mas com uma beleza extraordinária. Um olho clínico que encontra nas coisas mais simples características que são puras e verdadeiras, se bem que por vezes apresentam expectativas inesperadas.

Sem dúvida vale a pena ler.

O que gostei menos foi o da lua, mas deixo aqui o que gostei mais.

À Terra

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã,
Sem fronteiras nem dono,
Há-de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoila vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante,
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que de tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem,
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja funda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás-de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto futuro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro de um corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de polo a polo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

8.5.14

Heroína

Heroína
Helena Duque
2014
Romance

Livro para o qual me inscrevi no BookCrossing, pois gosto sempre de dar a oportunidade a literatura portuguesa. Sobretudo quando é de novos autores! Assim, vou enviar este comentário à autora... Poderá ser negativo por vezes, mas tento sempre ser construtiva. E a verdade é que gostei bastante do livro.

É um romance, daqueles de amor, vivido por uma rapariga jovem numa actualidade com que todos nós nos podemos relacionar. Acho isto o ponto mais importante do livro, o facto de falar de problemas muito próximos de nós. A dificuldade em arranjar um emprego, em manter uma relação estável, as dúvidas, os vícios, tudo isso está muito bem explorado. Descrito de maneira lírica e delicada, o livro prende-nos até ao fim devido às características de Maria Alice, a personagem principal. É uma rapariga muito real, com as suas inseguranças e num estado de depressão subdiagnosticada que lhe dá uma profundidade bastante palpável.

O mistério de Ricardo também está bem concebido, mantendo-se mesmo até ao final (apesar das tristes consequências)

Isto é, na sua génese é um livro muito bom, com uma grande carga emocional e trágica. No entanto, há alguns detalhes a apontar, que poderiam ser prevenidos com uma atenta revisão editorial (que, segundo consta, a editora Chiado não faz). Comecemos pela semântica: a utilização das palavras está muito limitada e o vocabulário acaba por se tornar repetitivo, assim como o mau uso da pontuação e algumas gralhas. Outra coisa que se nota é que a autora é uma menina (da categoria das pequeninas, isto é, com muito espaço para aprender :) ), pois há uma insistência fragrante em detalhes que não interessam. A descrição dos corpos dos homens, parece revelar uma preferência por esse tipo de homem musculado e bem-tratado. A personagem está sempre a fumar. Isto é natural para um fumador, mas a verdade é que um fumador não racionaliza sobre todos os cigarros que fuma ao longo do dia. Muito menos pensa "vou fumar este veneno podre". Também ninguém bebe uma garrafa de vinho branco todas as noites e acorda toda contente para se ir maquilhar no dia seguinte. Pobre fígado da Maria Alice! E, falando em maquilhar, porquê descrever todas as roupas que todos usam? "Vesti-me assim e assim" só é importante quando a roupa é importante para a história e, durante todo o livro, só houve um único momento em que estar vestido ou nu seria relevante.

Para além disso há alguns erros de lógica que também não passariam numa revisão. Por exemplo, "não sei quantos cigarros fumei, mas o maço estava a meio e acabei-o". Ora, se o maço estava a meio tinha 10 cigarros. Portanto, ela sabe que fumou 10 cigarros. A menos que fosse tabaco de enrolar. :>

No entanto, vejo aqui bastante potencial, que ainda requer um pouco mais de polimento (muita leitura e muita escrita) para ser uma grande obra de arte. Verdade seja dita, adorei o livro e li-o de uma ponta à outra. Fiquei com muita pena da personagem no final, mas espero que a vida continue. :)

5.5.14

Cobiça

Cobiça
J. R. Ward
2011
Romance Fantástico

Livro que recebi no BookCrossing, apesar de não me lembrar exactamente de como, quando e porquê que o pedi. Porque assim que o recebi pensei... "Não"

Comecemos pela biografia da autora na aba das costas do livro. "Vive no Sul dos Estados Unidos com o seu marido incrivelmente generoso (...)" O que me faz desconfiar que foi o marido que pagou a edição  desta série dos Anjos Caídos mais de todas as passadas e futuras.

O livro propriamente dito... A ideia está engraçada, por assim dizer. Um gajo todo durão morre e informam-no no céu de que tem de ir salvar sete almas pecadoras de serem consumidas pelo diabo. Para salvar o mundo. Iupi. Mas o ambiente, as personagens, a linguagem, tudo torna esta ideia que poderia explorar muito sobre a condição humana numa historieta pré-adolescente com gajos metaleiros com tranças e montes de sexo com tranças.

Comecemos pelas tranças: os personagens parecem ser definidos pelo seu aspecto. Apesar de a autora insistir que todos têm um trauma passado ou algo que o valha, este torna-se irrelevante para o desenvolvimento da personalidade dos personagens, nem define as suas acções, sendo apenas motivo para todos serem tão "duros" e "agressivos" e "gajos com tomates". As descrições são horrendas, ofendendo classes sociais e trabalhadoras de frase em frase. Suponho que a autora, como tem um marido muito generoso, nunca tenha conhecido um pedreiro, pelo que acha que todos são broncos. Também há uma carga religiosa com uma tonalidade inespecífica e um pouco tonta, porque é toda a gente extremamente católica, sem que isso contribua em nada para a história ou para o desenvolvimento do carácter. E isto até seria uma coisa importante, dado que estão a lutar contra um demónio, ou quês. Também há os góticos, essa classe do tecido social tão estranha, que até tem prostitutas a trabalhar em bares, devem ser todos uns mauzões anti-católicos.

Acabemos no sexo: nos três-quatro dias em que se desenrola esta história, esta gente tem sexo em quantidades copiosas. Tudo bem, é saudável. A questão aqui é que a autora descreve estes actos com detalhes quase mórbidos, pornografia literária, digamos. E é horrível e é impossível levar o livro a sério quando de tantas em tantas páginas a "cabeça do membro" entra em acção (que termo horrível!)

Enfim, não é para repetir. Se me chegarem os outros livros da colecção, lá terei de enfrentar a besta com um sorriso. :>