31.1.17

Erased

Erased
Itou Tomohiko - A-1 Pictures
Anime - 12 Episódios
2016
7 em 10

Este anime foi sugerido no meu clube e, devo dizer, desta feita acertaram comigo. ;)

Um tipo de 29 anos, Satoru, tem um estranho poder. Quando algo de muito mau está prestes a acontecer, ele volta para trás no tempo e consegue resolver a situação. Existem coisas no seu passado de criança que nunca foram resolvidas: um caso de raptos múltiplos e assassinatos de crianças. Quando a sua mãe é assassinada, ele volta ao passado e terá de resolver este mist+erio, para que no futuro tudo corra pelo melhor.

A ideia de um homem de 29 anos dentro do corpo de um rapazinho de 11, capacitado para um pensamento dedutivo em que poderá resolver um crime que nunca ficou totalmente clarificado, tem uma óptima execução. Progressivamente ele volta ao passado e ao presente para que possa usar os conhecimentos obtidos em cada época na resolução do mistério, que se vem a revelar um pouco previsível mas, ainda assim, bem concebido.

Quiçá o único defeito desta história seja a forma como o personagem consegue prever o futuro de tal forma que a conclusão é absolutamente inesperada, num sentido de impossibilidade.

A animação também está bastante fluída, com cores vibrantes e excelente qualidade. Existe sobretudo uma boa utilização da luz nas cenas de inverno, que transmitem uma sensação de pleno realismo.

Musicalmente, temos OP e ED um pouco inadaptadas, mas de resto nada a apontar.

Um anime que me encheu as medidas e na qual votei, sim claro. :)

Umimachi Diary

Umimachi Diary
Hirokazu Koreeda
2015
Filme
6 em 10

Um filme "fatia-de-vida" do Japão, que o Qui sugeriu que víssemos. Durante todo o filme pensei "como isto se parece como um anime!". E a verdade é que era mesmo suposto, já que foi inspirado num manga do mesmo nome.

Isto de um filme ser muito semelhante a um anime ou manga tem muito que se lhe diga. Porque apesar de a história ser interessante e de algumas imagens do filme serem muito bem filmadas (por exemplo, a evidÊncia das estações do ano) existem alguns detalhes que me deixam de pé atrás.

Por exemplo, as actrizes fazem um bom trabalho dentro do contexto, mas muitos elementos parecem absolutamente exagerados e a linguagem usada pouco realista. Muito do diálogo é falado de uma forma que me pareceu absolutamente artificial e mesmo alguns movimentos perderam muito da biomecânica para que se encontrem com o que deveria estar desenhado (ou algo do género).

Para além disso, sendo que este filme trata de um encontro das personagens com a sua juventude, afirmando assim a sua passagem na totalidade para a vida adulta, existe uma falha grande na descrição da forma como as decisões são tomadas, sendo que não há contemplação pela parte destas antes de afirmarem algo que pode mudar as suas vidas para sempre. Todas as atitudes, desde adoptar a irmã pequena até coisas sobre trabalho, parecem impensadas.

Finalmente, as próprias personagens estão definidas dentro de uma espécie de estereótipo que não se aplica exactamente ao mundo real da mesma forma que se aplica ao manga. Isto torna-as difíceis de distinguuir e de criarmos um ponto identificativo com elas.

Um filme calmo e bonito, mas nada de extraordinário.

Silêncio

Silêncio
Martin Scorcese
2017
Filme
7 em 10

Fomos ver este filme ao cinema :)

Inspirado num romance homónimo de autor japonês, conta a história de dois padres portugueses que foram ao Japão em busca de Ferreira, um outro padre jesuíta que desapareceu enquanto tentava converter mais pessoas ao cristianismo nessa terra. Ora, por esta altura da história universal, o Japão encontrava-se completamente fechado aos outros povos, sobretudo os europeus, e os cristãos locais eram perseguidos, torturados e mortos se não renegassem a sua fé. Será que os nossos padres irão conseguir o seu objectivo?

Este é um filme contemplativo sobre as questões de deus e a forma como nos podemos encontrar com ele numa situação absolutamente adversa. A verdade é que deus aparenta estar sempre em "silêncio", quando no final se vem a tomar outra conclusão. é um filme sobre o abandono da fé pela necessidade, mas que pode ser perspectivado como um diferente encontro com a fé. Uma nova maneira de ver as coisas.

Muito violento, o autor não se coíbe em mostrar alguns dos possíveis horrores que as pessoas nesta situação viveram. Ainda assim, até ao final, o personagem parece não conseguir encontrar uma resposta para a sua dúvida, para a forma de "como salvar todos" sem perder a sua visão de fé. Mostram-nos belas paisagens da ilhas japonesas mais remotas, mas apesar de tudo o filme pareceu muito escuro, quando tenho a certeza que existe alguma outra luz nesta terra.

O mais admirável será, sem dúvida, a exactidão histórica, em pormenores que não saltam à vista de toda a gente. Fiquei com esta ideia depois de ter falado com um amigo que, por acaso, é padre e que, por acaso, veio ver o filme connosco por uma segunda vez. :) Os dados históricos que ele me deu sobre a ordem jesuíta na época e sobre algumas ideias religiosas em vigor nessa era deram-me uma outra ideia sobre o filme.

Finalmente, deixo uma nota para Liam Neeson, que - apesar da sua curta presença - teve um discurso excelente, pleno de realismo e absolutamente adaptado ao seu personagem que, dentro do mistério que o envolve, apresenta ainda uma outra ideia sobre a fé.

Em todo o caso, este filme recordou-me uma história que contavam quando eu andava na escola (católica):

"Um homem andava pela praia e via sempre dois pares de pegadas. Eram as dele e as de deus. No entanto, por vezes um dos pares desaparecia. Quando chegou ao fim do caminho, o homem perguntou: "deus, quando foram os momentos mais difíceis, tu não estavas lá: eram apenas as minhas pegadas! Porque me abandonaste?" E deus respondeu: "quando foram os momentos mais difíceis, fui eu que te carreguei ao colo".

Nação

Nação
Terry Pratchett
2008
Romance Fantástico

Até agora, só havia lido alguns livros do Discworld, deste autor. Assim, aproveitei a oportunidade de experimentar algo diferente, através de um Ring do BookCrossing. :>

Dizem rumores, por aqui e por ali, que antes da sua morte (em 2015), Terry Pratchett estava resguardado, devido ao avançar de uma demência ou alzheimer, sendo que os livros eram narrados por ele e escritos pela sua filha através das ideias que o autor conseguia transmitir no seu estado. Este livro parece-me um desses. Achei que o estilo era bastante diferente do que conheço do autor e, para além disso, está ali uma dica nos direitos de cópia. Assim, não sei se seria justo dizer "é uma obra de Pratchett", assim como não sei se a existência deste livro abona muito em favor das pessoas que o rodeavam.

Mas adiante!

Passado num universo paralelo muito semelhante ao mundo do século XIX, conta a história de um indígena (Mau) que se vê sozinho na sua ilha (Nação) devido a uma onda gigante que destruiu toda a sua aldeia e as das ilhas circundantes. Para além disso, está na ilha uma rapariga inglesa (Daphne), que terá de se adaptar a esta nova realidade enquanto a família dela não a ecncontra.

É um livro engraçado, que fala na dificuldade de comunicação e em como esta é ultrapassada quando se tem um objectivo em comum. Mas também fala muito da forma como os deuses antigos podem influenciar as nossas vidas e a forma como o folclore local pode alterar a visão de cada um. Também é uma espécie de despertar da idade, em que os personagens crescem progressivamente até uma apoteose final plena de uma descoberta de nova maturidade.

No entanto, os aspectos cómicos do livro estão um pouco mal encaixados, o que torna a leitura um pouco enfastiante, como se estes estivessem lá para que seja "apenas" mais um livro do autor. Também achei que algumas atitudes dos personagens estão pouco pensadas, como o elemento da morte que aparece no final e que aparenta não ter qualquer consequência para a evolução emocional das pessoas.

Foi um livro engraçado e muito fácil, que se poderia recomendar para um jovem. Mas sei que me sairá rapidamente da memória.

Batalha

Batalha
David Soares
2011
Romance

Este é mais um livro de David Soares, um autor que - como sabem - gosto imenso. Mas este livro é um pouco diferente daquilo a que esse nos tem habituado, já que s etrata de uma espécie de fábula, em que os heróis são animais.

Uma família de ratinhos do campo encontra um rato bebé mal-cheiroso, que educam como se fosse seu filho. No entanto, este ratinho afinal é uma ratazana. Acaba por se afastar deles e dar a si próprio o nome de "Batalha". Esta ratazana tem opiniões muito contemplativas sobre a vida e a morte, devido a todas as coisas pelas quais passou. No entanto, encontra outros animais (e não só) que lhe apresentam outras perspectivas, que terá de analisar e incluir na sua própria visão. Na parte final, acaba por se tornar amigo de um humano que, sendo cego, não sabe que é uma ratazana e o compreende. Este arquitecto foi quem desenhou o que viria a ser o Mosteiro da Batalha.

Este livro não tem tanto de factos históricos como habitual, mas é mais um exercício filosófico sobre as ideias da vida e da morte, em que cada um dos animais, bons ou maus, demonstra a sua própria opinião com argumentos convincentes, provocando aqui uma discussão dentro do próprio leitor. De todos os modos, existem passagens extremamente belas, como se o livro fosse um regresso a uma natureza infantil da qual muitas vezes nos esquecemos.

Gostei muito da ideia de Batalha: "A morte não nos pode fazer mal. Porque quando ela não existe, estamos vivos. Quando ela aparece, deixamos de estar, portanto é indiferente."

Um livro fascinante, amoroso e pungente de belas ideias.

24.1.17

Os Anjos

Os Anjos
Jakob Klemencic
2000
Banda Desenhada

Álbum de pequeno formato que comprei por UM EURO (:o) no AmadoraBD.

De um autor Esloveno, dá uma outra perspectiva na banda desenhada, devido às diferenças narrativas e e artísticas em relação aos outros objectos que tenho lido. Conta a história de um pintor veneziano que, desesperado por não conseguir concretizar a sua obra de arte e, com isso, ganhar dinheiro para pagar a renda, compra um grupo de pudis para o inspiraram (os pudis são aquelas cabeças de criança com asas).

Para uma história tão pequena, revela-nos muitas coisas acerca deste personagem e também sobre o universo da arte nesses tempos antigos.

Os momentos finais são um pouco confusos, mas apesar de tudo divertidos na sua ironia: os anjos acabam por não inspirar ninguém e todos irão morrer.

Pelo preço que paguei, acho que fiquei muito bem servida. :p

Cadernos de Fausto

Cadernos de Fausto
Rafael Dionísio
2008
Romance

Rafael Dionísio (ou João) foi o meu formador num curso de escrita criativa em que participei. Podem ver alguns exercícios que fiz por lá no meu blog paralelo: O Bentivi Urbano. :) Quando encontrei este livro em promoção no AmadoraBD achei que seria giro ler os escritos deste senhor, que nos ensinou tantas coisas engraçadas.

Este livro é, sem dúvida, diferente do que estava à espera, considerando as técnicas que nos foram transmitidas no curso. Trata-se de uma espécie de desconstrução de um personagem invisível, um tal de fausto, que sofre uma caracterização quebrada, sendo por vezes difícil de compreender a sua verdadeira natureza. Parece haver, em alguns momentos, um paralelismo com o próprio autor (ódio pelas pessoas.)

O mais curioso é a utilização do vocabulário para transmitir o sentimento desta "pessoa" (será uma pessoa?), já que o autor inventa uma série de palavras que funcionam apenas dentro do contexto. 

Essencialmente, o João faz muita coisa que no curso nos proibiu de fazer. :p

Talvez esteja muito influenciada pela leitura sobre teatro que fiz recentemente, mas gostaria muito de adaptar este livro a uma peça ou monólogo, já que me parece que o texto - fora do contexto do personagem - é muito interessante.

23.1.17

Hibike! Euphonium Season 2

Hibike! Euphonium Season 2
Isihara Tatsuya - Kyoto Animation
Anime - 13 Episódios
2016
5 em 10

Depois de uma excelente primeira season, estava ansiosa por esta. Revelou-se o maior desapontamento dos últimos tempos.

Se gostariam de saber mais sobre as meninas do trombone, informo desde já que isso não vai acontecer. Esta season é absolutamente dedicada ao desenvolvimento das relações entre personagens das quais pouco tínhamos ouvido falar anteriormente, com um foco pleno no shoujo-ai, em pretérito da componente musical que nos havia fascinado na primeira parte. No entanto, as tais relações são mostradas de forma insuficiente e sempre demasiado lamechas, como uma má novela da tarde em que tudo corre mal mas é tudo, de qualquer forma, inconsequente.

Sobretudo, desaponta o facto de não haver música quase nenhuma e, a que há, ser constantemente interrompida para que os personagens possam pensar na vida, contemplar a vida e estar tristes com a vida.

A arte continua mais ou menos na mesma, embora desta vez o ambiente seja um pouco mais escuro, talvez devido à mudança das estações do ano. Também mostra muito menos pessoas a tocar, a ensaiar ou qualquer outra coisa que nos desse uma vista do uso dos instrumentos.

Fiquei mesmo triste com a direcção que quiseram dar a isto.


A Cidade do Teatro

A Cidade do Teatro
Vários
2016
Documental

Este livro tem uma história gira! =D Pois parece que agora sou vizinha de umas novas pessoas, uma delas a Dona Sarah. Ora um dia estava no quintal com um pessoal a mostrar o quintal e a vizinha chamou-me: "vi-vos no teatro no outro dia! Venho dar-vos este livro que coordenei!" E era este!

Trata-se de um livro documental comemorativo dos vinte anos da Mostra de Teatro de Almada, que fala com algum detalhe da história do teatro na cidade, dos tempos de Gil Vicente até aos dias de hoje, fazendo também - no final - uma referência biográfica a todos os grupos que participaram neste evento desde os anos 90, altura da sua criação.

É um livro cheio de charme, pleno de fotografias que nos mostram a evolução do universo cénico ao longo dos tempos. Também fala de todos os momentos importantes, sempre frisando a luta constante contra os regimes em vigor através da arte.

Talvez o único defeito seja o elogio permanente e certamente exagerado do papel da Câmara Municipal nesta evolução. No entanto devemos considerar que foi esta entidade o principal patrocínio na criação do livro e, também, da própria Mostra.

Gostei muito deste presente. Portanto acho que vou dar a minha última zine à vizinha, para fazer um intercâmbio literário. :)

JoJo's Bizarre Adventure: Diamond is Unbreakable

JoJo's Bizarre Adventure: Diamond is Unbreakable
Takamura Yuuta - David Production
Anime - 39 Episódios
2015
6 em 10

Jojo está de volta, com a muito esperada adaptação da quarta parte do manga. :) Um anime que teria sido excelente se não fosse pela soma de certos detalhes que se tornaram menos bons.

O Jojo desta season é Josuke Higashitaka, filho perdido de Joseph Joestar. Na cidade de Morioh acontecem coisas estranhas e ficamos a saber que muitas pessoas têm um stand. Ao longo de todos os episódios conhecemos quase todas e é isso que se torna um pouco aborrecido. Grande parte do anime tem uma natureza episódica tipo "monstro da semana" que torna o visionamento num exercício um pouco difícil, semana a semana. Quando finalmente aparece o verdadeiro vilão, é um alívio: porque ele é a pior pessoa que poderíamos encontrar no nosso caminho. Um dos vilões mais fascinantes que vi em anime, trata-se de um louco psicopata com um fascínio por mãos. Todo o processo de descobrirem quem ele é e como o vencer é viciante, cativante mas... Parece que o final acontece por mero acaso.

Outro aspecto que me fez sorrir logo desde o início foi a arte. Levando-nos até memórias de uns anos muito pop, está plena de cores, texturas e formas que se adaptam a cada cena de maneira a que todos os momentos são únicos. No entanto, em alguns episódios a animação está bastante medíocre, prova de que o orçamento foi mal distribuído ou simplesmente mal gerido.

Também a música vence neste anime, sendo que neste campo não há detalhes para nos tirar o foco. As OPs são originais, animadas, sempre um prazer ouvir. Já a ED é um clássico que fica sempre bem.

Um Jojo down, mais para vir! Espero eu!

Fune wo Amu

Fune wo Amu
Kuroyanagi Toshimasa - Zexcs
Anime - 11 Episódios
2016
6 em 10

Comecei a ver este anime porque achei que seria interessante um fatia-de-vida acerca de como se faz um dicionário. Infelizmente, fazer um dicionário é uma tarefa muito mais chata do que... Bem, desde início que aparenta ser uma tarefa chata.

No entanto, ninguém neste anime parece ter noção disto. Estão todos apaixonadíssimos pelo seu trabalhoi, para "fazer as pessoas sorrir!". Mas quem é que sorri quando lê um dicionário? Eles foram feitos para ser um documento puramente informativo, não trazem propriamente grande felicidade... Ora, tenod isto em conta, o anime acaba por ser uma sucessão de improbabilidades emocionais e, assim, perde rapidamente qualquer lógica. O seu personagem principal tinha muito interesse ao início, pois trata-se de um adulto inadaptado. No entanto, o facto de ele encontrar a sua identidade social através da construção de um dicionário é altamente estranho.

Também não temos cenas de animação propriamente ditas que nos demonstrem que existe algo mais neste anime. A arte é simples, funciona e está bem produzida, mas não é extraordinária. O mesmo acontece com a música. Muitas vezes não liga com as cenas que representa e a OP e ED são demasiado vivas para o contexto.

Valeu a pena por ser diferente, mas podia ter sido muito superior.

Drifters

Drifters
Suzuki Kenichi - Hoods Drifters Studios
Anime - 12 Episódios
2016
7 em 10

Finalmente começo a terminar a última season de 2016 (estava atrasada uns três episódios em tudo, mas agora estou a redimir-me ;). Falando nisso, para mim esta série - Drifters - foi das melhores coisitas que saiu este ano, apesar de estar admitidamente incompleto: já anunciaram que irá haver segunda season. Ainda bem!

Podemos perfeitamente ser o guerreiro mais agressivo do mundo nipónico, mas quando morremos não há volta a dar. Ou será que há? Um conjunto de figuras icónicas do mundo da guerra está reunida num universo paralelo, povoado de elfos e anões que são escravizados pelas forças dominantes. Mas os "Drifters", alguns destes veteranos de outras dimensões e épocas, decidem que irão libertar toda a gente e, assim, tomar o poder.

Do criador de Hellsing, este anime mantém muitos dos detalhes que tanto nos fascinaram nessa série. A violência extrema intercalada com o humor mais bizarro são as suas principais características. Neste anime podemos ver diversas estratégias de guerra em acção, pelas mãos dos mais talentosos combatentes de cada era. É sempre curioso vê-los a primeira vez e tentar adivinhar quem são.

Infelizmente, a arte fica um pouco aquém do esperado, sobretudo nos episódios finais, em que se nota que há uma quebra profunda do orçamento e começam a surgir erros imperdoáveis, até a nível de anatomia e expressão. No entanto, os principais combates primam por coreografias espectaculares e altamente eficientes, pelo que tudo acaba por se compensar.

A música é outro ponto a favor, sendo que a OP e ED são das melhores que ouvi no último ano, sendo que dentro do parênquima temos excelentes efeitos sonoros e peças que, sendo emocionantes, se conjugam perfeitamente com as cenas retratadas.

Ansiosa pela segunda season!

Witch Hunter Robin

Witch Hunter Robin
Murase Shukou - Sunrise
Anime - 26 Episódios
2002
7 em 10

Há algum tempo que não via um anime de que gostasse tanto e que me desse motivação para continuar para o episódio seguinte, sem pausa, sem hesitação. Ainda assim, estou sem muito tempo (causas casas) por isso demorei um pouco a terminá-lo.

Criação original da Sunrise, fala da caça às bruxas. Neste mundo existem pessoas com poderes especiais que, devido aos problemas que podem causar para o resto da sociedade, são ostracizadas e caçadas, de forma a que se possam estudar. Entre os seus caçadores está Robin, uma rapariga ainda inexperiente que tem, ela própria, um poder especial: controla o fogo. No entanto, coisas irão acontecer e Robin descobrrá muito sobre si própria no processo.

Com uma aura que mistura um pouco do gótico com o cyberpunk, este anime tem um cenário único, quer nas paisagens quer nos designs. A narrativa deixa-nos sem fôlego: após uma breve aprese4ntação dos personagens e das suas actividades, começa a desenrolar-se o verdadeiro fio da história, com um mistério intrigante. Para o conseguir, temos um conjunto de personagens muito bem sucedido, em que praticamente todos sofrem uma excelente caracterização inicial seguida de um desenvolvimento causado pelo desenrolar da meada. Robin foi, sem dúvida, a minha preferida. Existe tanto nela que pode ser ainda explicado, tanto nela que pode ser ainda descoberto, mas também tanta força na sua depressão, nas suas d´uvidas, na sua perspectiva sobre a própria existência de si mesma e das bruxas. Estou considerando seriamente adicioná-la à minha lista de planos para cosplay :)

Este anime tem várias cenas de acção, nem sempre intercaladas com momentos mais calmos. Existe um excelente equilíbrio entre estes momentos, sendo que a animação e coreografias estão bastante criativas e bem montadas, sem fazer um uso excessivo das técnicas em CG.

OP e ED são estranhas para o contexto do anime, mas de resto temos uma banda sonora bem integrada.

Gostei bastante, venha o próximo!

Eikyuu Kazoku

Eikyuu Kazoku
Morimoto Kouji - Studio 4ºC
Anime - Filme
1997
5 em 10

Vi este filme de meia hora com o Qui. Um pouco alucinante, mas demasiado exagerado para que funcione devidamente.

Crítica aos reality shows tão em voga, "Eternal Family" é sobre uma família que - qual Kardashian - tem o seu próprio reality show. Estão fechados numa casa e não fazem ideia que a sua vida diária está a ser gravada e passada em directo em todas as televisões. No entanto, um dia a sanita entope e eles vêem-se livres, no mundo cá fora. Mas todos os querem apanhar.

Este anime é uma explosão de cores e texturas, tão exagerada que chega a ser desconfortável para os olhos e para o cérebro. Os personagens não possuem qualquer característica sem ser as apresentadas logo ao início, tal como não existe qualquer desenvolvimento. O filme aparenta ser apenas um show-off de técnicas que nem por isso estão muito bem usadas, sendo que o resultado final é uma confusão histérica que não traz nada de novo no seu contexto.

Mais um anime de piadas sobre cócó.

Luna Park

Luna Park
Kevin Baker & Danijel Zezelj
2009
Banda Desenhada

Como sabem, ainda só comecei a explorar a banda desenhada americana, o "comic" por assim dizer, muito recentemente. Escolhi este porque o nome me fascinou, assim como a imagem de capa, tal como o nome de um dos autores (que mais tarde descobri ser croata). Foi uma excelente surpresa e abriu caminho para ler mais graphic novels de todos os géneros.

Com uma narrativa quebrada, quase onírica, conta-nos as várias histórias de um homem que está nos Estados Unidos mas que terá fugido da Rússia. Ou terá voltado para lá? Tendo como base um parque de diversões abandonado (Luna Park), este livro é uma viagem pelo passado e pelo futuro, revelando-nos as atrocidades de todas as guerras e também a da própria realidade actual do submundo do crime norte-americano.

Com personagens altamente detalhados, desconstruídos dentro da sua loucura, tudo é potenciado por uma arte negra, crua, fascinante, um conjunto de sombras plenas de realismo e movimento.

O final é surpreendente e emocionante.

Talvez seja uma BD que tenham passado um pouco ao lado de alguns leitores, mas acho que a posso recomendar.

O Diário do Meu Pai

 
O Diário do Meu Pai
Jiro Taniguchi
Manga - 12 Capítulos / 1 Volume
1994
8 em 10

Já há algum tempo que queria ter este livro, que tantos prémios ganhou no nosso país. Finalmente obtive-o, no AmadoraBD.

Um álbum maravilhoso que me levou quase às lágrimas. Um homem tem uma vida normal, aqfastado da sua cidade natal, quando recebe a notícia de que o seu pai faleceu. Assim, dirige-se a Tottori, a sua terra, para participar do velório e funeral. Este homem sempre se deu mal com o seu pai mas, agora, quando já é tudo tarde de mais, ficará a saber que nem tudo correu como ele pensava.

É um livro que contempla a efemeridade da vida, falando dos assuntos fracturantes que podem destruir uma família mas, por ouro lado, também a podem unir. A realização do personagem relativamente ao seu pai é muito tocante, assim como a relação com as outras personagens que aparecem ao longo do livro.

Outro aspecto que devemos referir é a arte, altamente detalhada e especialmente realista. Estas pessoas nã são bonitas. São reais. E assim deveria ser.

Recomendo vivamente este manga e espero que mais pessoas tenham oportunidade de o ler.

Crumbs

Crumbs
Vários
2014
Banda Desenhada

Quem nunca, depois de comer uma carcaça com manteiga, molhou o dedinho na boca e comeu as migalhas sobejantes do prato? Bem, se calhar só eu é que faço isso, mas a verdade é que adoro as migalhas! E, assim, temos aqui uma pequenina antologia de banda desenhada, migalhas de carcaça para serem comidas no chá das cinco inglês. :)

Trata-se de um conjunto de doze histórias de autores distintos, um formato de bolso promovido pela Kingpin Books. É uma edição muito engraçada, colorida e pequenina. As histórias são muito diversas e mostram um pouco do que o universo da BD tuga tem para nos oferecer, quer em termosde argumento quer em termos de arte. Cada história é completamente diferente da anterior e a única coisa que as liga é é o facto de estarem aqui todas juntas.

Todas elas são interessantes à sua maneira, mas houve algumas que me marcaram mais, nomeadamente a primeira, que achei de uma força narrativa profunda e quase perturbadora, arrepiando-me até ao âmago com a surpresa da conclusão (como fizeram algo assim em tão pouco espaço!); a história do gato Orwll, do nosso conhecido Mário Freitas (foi a primeira vez que li algo dele e fiquei agradavelmente surpreendida com a utilização do conceito, embora ache que o final poderia ter tido uma força diferente); e "Ick, que foi sem dúvida a história mais fofinha de todas.

Talvez o único defeito da edição seja os frequentes erros gramaticais na língua inglesa e gralhas diversas, sobretudo na secção que apresenta os autores. Um elemento a melhorar numa futura edição? :) Esperemos que sim.

Dune

Dune
Frank Herbert
1965
Ficção Científica

Este foi o presente que o Qui me deu pelo Natal e, por essa razão, coloquei-o no topo da lista de leitura (para sempre infinita) :) Nunca vi o filme de David Lynch e este livro deixou-me muito curiosa. Ao longo de mais de 800 páginas vamos conhecer tudo sobre Arrakis: o planeta Dune.

A narrativa base deste livro é uma trama política entre as várias forças dominantes deste planeta desértico, em que o objecto mais importante é a água. No entanto, a maior parte dos políticos não deseja a água: deseja o spice, um sub-produto do deserto que, quando ingerido, dá uma sensação de plenitude e bem estar, sendo também altamente viciante quando consumido em quantidades nem por isso excessivas.

No entanto, em volta do plano da conquista do poder planetário, há muitas coisas que nos são mostradas, tornando esta leitura um extraordinário exercício da imaginação. O autor fala-nos não só da política interna do planeta, mas também da de todo o universo conhecido. Há detalhes sobre seitas religiosas, há detalhes sobre a ecologia e biodiversidade do planeta. Tudo isto descrito de forma simples mas absolutamente eficaz, sem que o autor se perca em detalhes irrelevantes e dando ao leitor a oportunidade de imaginar os conceitos por ele próprio. Para as coisas mais complicadas, existe um glossário no final. ;)

Também os personagens sofrem uma caracterização e evolução que tornam a leitura muito cativante, sendo que realmente nos preocupamos com estas pessoas e queremos saber o que lhes vai acontecer. No entanto, o nosso herói - que se torna um profeta - não é livre de defeitos. É um personagem muito sólido e bem estruturado, sendo que por ele continuaria a ler o resto da saga (mais cinco volumes do mesmo tamanho)

 Um livro excelente e um marco incontornável da ficção científica e fantasia. Porque este livro não é exactamente nem uma coisa nem outra. Coincidentemente passa-se num planeta alternativo. Mas, podemos dizer, esse planeta poderia realmente existir.


17.1.17

Fantastic Beasts and Where to Find Them

Fantastic Beasts and Where to Find Them
David Yates
2016
Filme
6 em 10

Eu adoro o Harry Potter, mas vou confessar-vos uma coisa: eu detesto os filmes da saga. Sabem, eu tinha a idade do Harry Potter entrar em Hogwarts quando comecei a ler a série. Portanto, os filmes foram uma coisa completamente diferente do que tinha imaginado. Quando saí do cinema nesse primeiro filme, chorava de raiva por terem destruído totalmente a minha fantasia. Só vi três dos filmes.

Mas eis que surge uma nova oportunidade a dar neste universo! Este filme novo é inspirado num livro muito pequenino, mais um glossário de espécies bizarras do que um romance propriamente dito. Assim, existe nesta história uma grande versatilidade, sendo que estava ansiosa por saber o que viria daí. O resultado é interessante, mas não espectacular.

Segue a história do fulano que escreveu este glossário, Newt Scamander, numa aventura pelos Estados Unidos. Ficamos a conhecer um pouco mais da magia pelo mundo, mantendo um espírito muito puro às ideias originais da saga. Os personagens são cativantes, em especial no No-Maj (americanês para Muggle) e é-nos mostrado um bocadinho da história da magia antes da chegada daquele cujo nome n~ão deve ser pronunciado.

Não será o filme ideal para quem não conhece nada sobre o mundo mágico de Harry Potter, se bem que nos são mostrada coisas nunca antes vistas, como uma variedade fascinante de espécies animais e vegetais.

Os efeitos especiais, sobretudo as animações dos animais, poderiam ter sido muito melhores, houvesse havido um melhor investimento nesta secção em vez da dedicação às cenas de acção, que poderiam ter sido muito mais reduzidas.

Gostaria de ver mais instâncias desta nova série, mas espero que não o façam ad nauseum.

Aquarius

Aquarius
Kleber Mendonça Filho
2016
Filme
6 em 10

Este filme brasileiro, um dos candidatos a candidatos para o Óscar nesse país, sofreu uma grande controvérsia altamente mediática na altura em que foi lançado. Claro que nós, por aqui, só soubemos disso quando o filme saiu numa boa versão na intermete, pelo que tive de pesquisar um pouco para saber o que aconteceu.

O que aconteceu, coisa que descobrirão se observarem a película, não tem nada a ver com o filme, embora os seus produtores (franceses? A Petrobras?) sejam um pouco estranhos. O que se passou foi que quando a equipa deste filme o foi apresentar a Cannes fizeram um pequenino manifesto contra o impeachmente de Dilma. E, como é evidente, foram imediatamente catalogados como o mal rubro e certos críticos afirmaram que o filme não deveria ser visto pelas pessoas de bem.

Bem, como eu vi o filme agora parece que deixei de ser uma pessoa do bem. Deixarei agora que o mal me absorva na totalidade e passarei a falar um pouco sobre o filme. :)

Clara, uma jornalista e escritora na casa dos 60 anos, vive num prédio à beira de uma praia no Recife, prédio encantador com tudo o que ela adora e, sobretudo, com grandes memórias. As memórias estão em todo o lado, mas sobretudo nos discos de vinil que ela colecciona e que têm - cada um deles - histórias muito especiais. No entanto, um ambicioso arquitecto quer comprar o seu apartamento para renovar todo o Edifício Aquarius num objecto de alta modernidade inspirada pelos estadunidenses. Mas Clara não vai ceder.

Mais do que um filme da luta contra o sistema, este filme mostra as fragilidades de grande parte do sistema. Mostra o lado mau das faixas oponentes da sociedade brasileira actual de forma simples mas incisiva, criticando os personagens mas nunca deixando que se tornem caricaturas. No entanto, parece-me que o foco principal do filme é a observação do passado da personagem, com uma excelente interpretação de Sónia Braga, através da sugestão da música.

Assim, a narrativa acaba por ser bastante simples, embora não totalmente previsível. 

Não apreciei, de todo, as cenas sexuais um pouco explícitas, sendo que penso que o filme teria passado melhor sem elas.

De todos os modos, é sempre bom ver um filme do meu outro país. Esperemos que mais vpessoas se tornem do mal e o vejam. :)

Florence Foster Jenkins

Florence Foster Jenkins
Stephen Frears
2016
Filme
7 em 10

Curiosamente, havia visto recentemente um outro filme inspirado pela mesma história real. Foi interessante ver as diferentes interpretações da história, sendo que nesta versão se mostra um relato um pouco mais fiel do que realmente terá acontecido.

Florence Foster Jenkins foi uma senhora da alta sociedade Nova Yorkina que amava a música. Adorava organizar concertos, sempre apresentados pelo seu marido e manager (um monologuista), e - sobretudo - cantar neles. Infelizmente, acontece que ela não sabia cantar. Não fazia ideia disso, mas a verdade é que cantava pessimamente.

No entanto, a sua carreira começa a ser um sucesso descontrolado quando ela grava um disco e o envia aos cuidados dos soldados que estão neste momento a combater a segunda guerra mundial. Será que as coisas vão correr bem? Talvez sim... Talvez não... Talvez talvez. :)

A história retrata com fidelidade a época e a sua alta sociedade, fazendo-o com muito humor, de forma discreta mas sempre corrosiva. Devemos observar estes actores no seu trabalho, se quisermos ter inspiração para essa actividade, porque se revelam absolutamente exactos, com uma técnica irrepreensível mas, acima de tudo, com uma grande paixão. Meryl Streep continua a enganar toda a gente: desta feita poderíamos mesmo acreditar de que se tratava de uma senhora doente, irresistivelmente pouco talentosa, frágil, ultra-dependente.... Mas ainda assim amável e adorada pelos que a rodeiam. Já Hugh Grant surpreende, pois confesso que nunca o tinha visto num bom papel. A verdade é que talvez a idade lhe tenha feito bem e que agora consiga revelar aos poucos todos os talentos latentes debaixo destes anos de aprendizagem.

Um filme de risos e lágrimas, que dá muita vontade de conhecer a personagem inspiradora desta história. E talvez até mesmo ouvir o seu concerto no Carnegie Hall!

Objectos Cortantes

Objectos Cortantes
Gillian Flynn
Romance
2006
Surgiu a oportunidade de ler este livro através do BookCrossing, onde foi sugerido como um bom thriller ligeiramente horripilante. Estava com saudades de ler algo deste género mas, infelizmente, ainda não foi este livro que me encheu as medidas.

Uma jornalista que se afastou da família há muito tempo é escalada para ir à sua cidade natal para que investigue dois assassinatos de crianças que poderão estar (ou não) relacionados. Lá, terá de reatar relações com a sua perturbada mãe, sempre assombrada pela morte de uma irmã mais nova, e conhecer uma outra irmã ainda mais nova, sendo que ao mesmo tempo tem de evitar a todo o custo as más línguas desta cidadela pequena.

A história seria interessante se não fosse plenamente previsível para alguém com conhecimento do Síndrome de Munchausen by Proxy (nomeadamente, eu). A evolução do mistério caminha toda para esta evidência e para a revelação final, para a qual é dada uma dica muito estragativa na própria sinopse do livro. Tendo isto em conta, teremos de nos apoiar nas personagens para que possamos ter uma narrativa plena.

Infelizmente, a autora peca por exagero na caracterização das suas personagens. A personagem principal, sendo naturalmente fraca, tem sempre uma inclinação para explorar ainda mais a sua própria fraqueza, sendo que todas as conclusões tomadas ao longo do livro parecem coincidências. Isto é, aparentemente a personagem não faz absolutamente nada para que consiga descobrir o fio à meada, sendo que este lhe aparece subitamente por conversas com conhecidos e amigos. Para além disso, para uma personagem tão perturbada com a sua imagem, a vida sexual que se apresenta no livro é plenamente exagerada e, simplesmente, desnecessária. Parece que há aqui uma dicotomia do "rapaz bom-rapaz mau", tão habitual de um livro para a adolescência... Noutro campo, as outras personagens também estão exageradas a um nível que ultrapassa o realismo exigido pela narrativa. A mãe é sempre vista como absolutamente psicótica, embora ninguém (aparentemente) dê por isso. A irmã mais nova tem, aos treze anos, uma vida arrebatada pelas drogas e sexo, o que parece altamente improvável tendo em conta o universo em que vive.

Finalmente, a tradução é muito inexacta em alguns pontos (por exemplo, chamaríamos "E" em vez de "X").

Foi uma boa tentativa, li este livro de uma assentada, mas bem vistas as coisas ficou bastante aquém do que tinha esperado.

11.1.17

A Morte de Virgílio

A Morte de Virgílio
Hermann Broch
1945
Romance

Este foi um dos livros preferidos do meu pai dos últimos tempos, a ponto de ele o ter lido avidamente por mais de uma vez. Por isso, emprestou-mo para saber a minha opinião e me converter aos encantos líricos desta narrativa. Infelizmente, tal não obteve resultado, sendo que da nossa última conversa literária adveio grande encabulamento enquanto eu estava a explicar porque não estava a gostar. Penso que o meu pai ficou um pouco triste, mas passarei a explicar melhor o que achei desta obra. :)

Virgílio, a quem não saiba, foi o poeta romano que escreveu o épico "Eneida", glorificação do seu império, dos seus deuses e dos seus imperadores E QUE (!!) eu nunca li. O livro inicia-se com o seu regresso da Grécia, onde estava a passar uma temporada cultural, para que devolva o manuscrito da Eneida ao César Augusto. No entanto, o autor encontra-se muito doente.

A primeira metade do livro, que consiste na viagem até à habitação por ruas cheias de gente a sua primeira noite nesta, ardente em febre, foi o exercício mais aborrecido que li nos últimos tempos. Isto não tanto pelo conteúdo da narrativa, que acaba por ser uma contemplação bastante bela (dentro do contexto) da morte próxima e da vida enquanto reflexo da morte, mas pela forma. A forma como tudo isto está escrito é muito irritante, porque o autor repete conceitos e palavras ad nauseum, tornando esta leitura num verdadeiro pesadelo gramatical (em vez de um pesadelo astral, conforme o vivido pelo personagem). Para dar um exemplo, imaginemos que eu escrevia todas as minhas palavras escritas de uma forma bem escrita, escrevia todas as minhas palavras, sim, escrevia palavras de forma moderadamente escrita, mas todas as palavras que escreviam incluíam as palavras escrever e as palavras palavras. É mais ou menos assim por cerca de 200 páginas.

No entanto, a partir da terceira parte (segunda metade) o autor recupera-se plenamente e temos um capítulo imensamente interessante em que existe uma melhor caracterização do personagem enquanto ser vivente, baseando-se na sua relação com os outros, os seus amigos e o próprio César. Nesta parte torna-se mais evidente que existem alguns personagens que não existem neste plano, sendo a sua presença causada pela pura imaginação febril de Virgílio. Estes personagens são altamente simbólicos, talvez relatando cada uma uma parte da vida do personagem, talvez representando cada uma uma parte dos desejos do personagem, tanto que elas lhe dizem coisas que deve fazer, acções que deve tomar que fariam todo o sentido se não fossem as pessoas "reais" a impedi-lo. Esta secção é literatura pura, da mais prazerosa que li ultimanmente, com diálogos fascinantes, imagens lindíssimas e cativantes.

Depois, numa parte final muito curta, o autor volta à técnica do início (apesar de não tão evidente) e mostra a forma como Virgílio vai para "o outro lado" e encontra o deus uno e verdadeiro. Situação ligeiramente desconfortável, considerando que o senhor haveria de ser panteísta.

Um livro que me deixou muito dividida. É complexo, difícil de navegar, com uma escrita bizarra na maior parte da narrativa, mas penso que a secção da "Terra" talvez possa compensar todos estes elementos. Lá que dá vontade de ler a Eneida... Isso dá!

The Fits

The Fits
Anna Rose Holmer
Filme
2015
6 em 10

Vimos este filme independente, pois era o mais curto que tínhamos disponível e eu precisava de ir dormir. :p

Toni é uma menina que se dá com os rapazes. Afinal, está no boxe e dedica todo o seu tempo a treinar esta modalidade. No entanto, no mesmo ginásio, existe um grupo de dança que a fascina. As "Lionesses" são lindas, poderosas, ganham imensos prémios. Por isso, ela decide juntar-se a elas e tentar dançar também. A sua integração é difícil, mas tudo está a correr bem até ao momento em que as raparigas do grupo começam a ter ataques convulsivos, motivados por uma razão misteriosa que nunca é esclarecida. O medo começa a crescer. O que será que podemos fazer?

Trata-se de um filme muito simples, com parcos recursos que se evidenciam nos cenários, roupas e métodos de filmagem. No entanto, a autora consegue fazê-lo funcionar na perfeição, sendo que utiliza precisamente estas limitações para acrescentar uma aura de mistério e suspense a toda a narrativa que, em conclusão, se apresenta quase como simbólica.

É um filme de descoberta pessoal, de crescimento da personagem, de integração com o grupo. Não é um filme pleno de moral e de eventos de auto-satisfação, mas demonstra muito bem estes elementos através de uma história cuidada, personagens cativantes e paisagens perturbadoras.

Teoriza-se que, talvez, os "fits" sejam uma manifestação colectiva do encontro social: isto é, apenas o primeiro teria existido realmente e os outros tenham sido involuntariamente fingidos. Para mim, os "fits" representam algo mais. Algo que as raparigas adquirem com a maturidade, integração, algo que não se pode explicar. Não terão acontecido realmente. Tudo não passa de uma metáfora.

Será que é assim? Vejam para saber. :)

Desgraça

Desgraça
J.M. Coetzee
1999
Romance


Já há muito tempo que não participava num Ring do BookCrossing! :) Este livro foi o regresso à TBR de papel, que há muito estava relegada para leituras Kobísticas. Nunca tinha lido nada deste autor e devo dizer que tinha muita curiosidade.

Este livro fala da vida normal de uma pessoa um pouco anormal. Este professor universitário de 50 anos tem um problema com as mulheres, sendo que o satisfaz regularmente com uma acompanhante discreta. Quando a descobre fora do hotel em que partilham uma noite por semana, começa a persegui-la, sabe-se lá porque razão, e ela afasta-se. Assim, passa à próxima vítima: uma das suas estudantes universitárias. Mas esta relação vai correr muito mal e relegá-lo para um plano inferior da existência, com a sua expulsão dos quadros da faculdade.

Ora, quando isto acontece ele decide visitar a sua filha, que vive isolada no campo, cultivando flores, numa reminiscência hippie de ligação à terra. Mas a sua desgraça não terminará aqui...

O livro está escrito de uma forma altamente viciante, pleno de referências muito específicas que são sempre demonstradas de forma extremamente simples. A força principal da narrativa encontra-se nas personagens que nela estão encerradas, nomeadamente este professor. A sua caracterização é perfeita, sendo que se denota uma evolução fremente em cada página: passa de um conquistador a uma pessoa resignada com o seu destino infeliz, tratando de assuntos infelizes (a morte de animais necessitados) e aceitando que não pode compreender mais o universo que o rodeia, nomeadamente a sua filha e os seus vizinhos.

Se há alguma falha neste livro, talvez seja precisamente a caracterização destes. Por vermos tudo da perspectiva do personagem principal, algumas atitudes e acções parecem bastante destituídas de lógica ou contexto, sendo que é difícil de compreender as motivações de todo este grupo de pessoas, desde a estudante até ao vizinho e, sobretudo, da filha.

O livro é também um óptimo retrato da moderna África do Sul, um país que para muitos de nós é totalmente desconhecido. Ainda assim, seria interessante ter um pouco mais de detalhe sobre os hábitos culturais e a diferença apartheid que está sempre presente.

Fiquei com vontade de ler mais livros deste autor. :)

6.1.17

Gosenzo-sama Banbanzai!

Gosenzo-sama Banbanzai!
Mamoru Oshii - Studio Pierrot
Anime OVA - 6 Episódios
1989
6 em 10

Trata-se de um dos primeiros trabalhos do Sr. Oshii, um OVA muito experimental que explora o tema da unidade familiar em oposição aos acontecimentos estranhos que lhe podem ocorrer.

Contado como se de uma peça de teatro se tratasse, cada episódio começa com um pequeno relato sobre um animal bizarro e, a partir daí, desenvolve-se a narrativa de cada uma das secções, sempre acompanhados por muitos momentos musicais, situações de monólogos inusitados e cenários que podem cair aos bocados em qualquer momento. A narrativa não é especialmente directa, mas se uma pessoa atentar a todos os detalhes, mesmo os menos lógicos, poderá tirar algumas conclusões sobre a evolução dos personagens que, aparentemente, podem representar algo da vida do autor.

Apesar de tudo, os personagens estão cientes de que não passam de bonecos e que estão presos ao destino que o autor lhes traçar.

A animação tem alguns momentos de puro bizarro, mas no geral está bastante regulamentar, sem nada de extraordinário que seja distinguível. Os designs dos personagens e o desenvolvimento das suas expressões está bastante básico, apesar de serem as típicas da época.

O anime tem muitos momentos musicais, cada um mais patético que o outro, mas que funcionam dentro do contexto.

Um anime estranho, engraçado, que não me cativou especialmente mas que tem o seu valor enquanto experiência.

Mobile Suit Gundam - Awakening

Mobile Suit Gundam - Awakening
Yoshiyuki Tomino
1979
Light Novel

Como sabem, Gundam é uma das minhas paixões. :) Assim, quando soube que - após a primeira série de 1979 - o Sr. Tomino tinha escrito uma série de livros sobre ela, com três volumes no total, achei que era absolutamente necessário lê-la. Finalmente chegou a hora.

Este primeiro volume conta grande parte da história da primeira série, mas sem grandes sequências de monstros diários ou alívio cómico. É uma narrativa directa ao assunto, que explora em muito mais detalhe conceitos do universo de Gundam, como a estrutura das colónias, a influência das partículas Minovsky (que, confesso, nunca tinha entendido muito bem) ou  própria engenharia dos Mobile Suits.

Para além disso, fala num detalhe fascinante dos assuntos da ascensão ao poder de Zeon (Sieg Zeon!) e do objectivo de Char Aznable que, mesmo em livro, é um personagem altamente cativante e com muito mais dúvidas, incoerências e juventude do que na série. A relação com Lala Sun também é explorada de forma um pouco diferente.
 
Talvez o único defeito seja a descrição intensiva e um pouco excessiva das batalhas, o que se pode tornar um pouco aborrecido.

Assim, com este primeiro volume, Tomino estabelece que Gundam em si é um universo que vai muito além da necessidade de vender bonecos a crianças. Tem uma vida própria, um encanto próprio e, mais uma vez, parece que ganhei o bichinho pelos meus queridos Gandamus. :) Ansiosa por ler o segundo volume!

O Abraço da Serpente

O Abraço da Serpente
Ciro Guerra
2015
Filme
7 em 10

Confesso que mais para o final do filme já não estava muito atenta, pelo que digo desde já que merece ser revisto.

Um filme complexo e hipnotizante, tal qual uma serpente, que fala sobre a influência dos exploradores Europeus no universo indígena da Amazónia. Um explorador procura uma planta medicinal que poderá curar a sua trágica doença, pedindo para isso ajuda a um índio que muito sabe sobre esse tema. Quarenta anos mais tarde, um Americano encontra o mesmo índio, agora muito mais velho, para que lhe mostre essa planta e esta possa ser estudada pelos métodos "civilizados". 

Explora-se aqui muito sobre a identidade cultural dos vários povos, dos aspectos que os ligam mas, sobretudo, dos aspectos que os separam. Tendo muitos momentos altamente violentos, não tanto pelo seu grafismo mas pelos conceitos que exploram, o filme segue uma viagem em tudo semelhante a um "Apocalypse Now", em que os indígenas procuram manter os seus segredos mas, a pouco e pouco, abrem o seu coração para a presença do "homem branco" que, como sempre, destrói tudo aquilo em que toca.

O filme é a preto e branco e, devo dizer-vos, utiliza esta técnica com uma mestria que há muito não via. As imagens são altamente vívidas, sendo que cada planta, cada folha, cada gota de água tem tanto dentro dela que quase podemos sentir o seu cheiro, os seus ruídos, a sua força primal.

As interpretações também estão fascinantes, sobretudo a do(s) xamã índio, uma personagem que evolui no decurso da narrativa de forma quase inesperada.

Sei que este filme foi enviado para nomeação para os óscares, de melhor filme estrangeiro, esperemos que consiga!


Romance of the Three Kingdoms

Romance of the Three Kingdoms
Yano Hiroyuki - TV Tokyo
Anime - 47 Episódios
1991
6 em 10

O "Romance dos Três Reinos" é uma obra literária épica da China que tem vindo, desde sempre, a ser adaptada para o formato de anime, sendo que esta já é a terceira adaptação que vejo. Esta, no entanto, baseia-se num manga de mesmo nome ("Yokohama Mitsuteru Sangokushi"), que na época (finas de 80s-início de 90s) foi muito popular. Talvez tenha sido a melhor adaptação da história que tenha visto, se bem que a minha opinião está mal direccionada porque já conhecia a história muito bem.

Trata-se de um épico da luta pelos reinos da China, nos séculos III e IV. Um homem, Cao Cao (que se diz "Sou Sou") decide que vai ter a China toda para ele. E assim se processa uma guerra imensa, cheia de momentos de pura estratégia de combate e cheia de batalhas que nos levam à ponta do assento, por serem tão emocionantes.

No entanto, estas cenas de batalha são imensamente prejudicadas por uma arte medíocre, cheia de repetição de frames ao longo de todos os episódios, com cores pouco precisas e sombras mal detalhadas, que retiram muito da complexidade das batalhas. Também os cenários não têm qualquer tipo de detalhe e, a não ser pelo design dos personagens, seria difícil de adivinhar que esta história se passa na China antiga.

Também a banda sonora está bastante fraca, sendo algo repetitiva nos momentos de acção e apresentando uma OP muito épica que calha um pouco fora do contexto.

Um anime que vale muito pela excelente adaptação da narrativa, mas que em termos técnicos deixa muito a desejar.

3.1.17

Carta ao Pai

Carta ao Pai
Franz Kafka
1919
Carta

Esta é uma carta de algumas páginas que Kafka escreveu ao seu pai, sendo que nunca foi enviada. Nela, o autor de livros postumamente famosos como "O Castelo", "O Processo" e "A Metamorfose", revela ser uma pessoa infeliz precisamente por culpa integral de seu pai.

Segundo consta, Hermann Kafka, pai de Franz, era rígido e dedicado unicamente ao seu comércio, para que os filhos pudessem ter um excelente futuro sem sacrifícios. No entanto, o facto de os filhos não terem que passar por problemas irrita o pai, o que é ligeiramente irónico. A situação familiar entre este senhor e todos os seus filhos é terrível e Franz nutre-lhe um ódio especial por todas as suas atitudes na infância, na adolescência e mesmo na vida adulta.

No entanto, a forma como ele relata estas pequenas violências familiares é feita, ela própria, de forma muito semelhante. Por exemplo, o pai dizia "não podes fazer isto" e fazia precisamente isso. Da mesma forma que Kafka diz "não vou dizer isto" e imediatamente depois enumera todas as coisas que odeia no pai.

A carta perde o seu valor porque parece ter sido escrita por um adolescente mimado perdido na sua prória incompreensão. Não se trata de um exercício literário coerente e o seu interesse é sobretudo relativo à vida do autor. A publicação desta carta parece-me uma grande violação da identidade.

Gostaria de não a ter lido. Kafka é uma pessoa tão maldosa como sempre aparentou.

As Fontes do Paraíso

As Fontes do Paraíso
Arthur C. Clarke
1978
Ficção Científica

Do autor original de ""2001: Odisseia no Espaço", temos aqui um livro um pouco mais positivo que nos fala das grandes vantagens da tecnologia do futuro e, para além disso, explora um pouco alguns conceitos humanos pela perspectiva daqueles que não o são.

Tudo começa na Taprobana (Sri Lanka), onde existe um grande templo misterioso que foi construído por um rei usurpador. Alguma parte dessa história é-nos contada logo ao início, assim como são descritas belíssimas paisagens e edifícios, com um detalhe fascinante. Mas depois a perspectiva muda: existe um engenheiro que deseja construir uma "ponte". Um elevador entre o planeta Terra e o seu satélite, a Lua. E terá de o fazer precisamente em cima deste templo.

Ao início são-nos mostrados os diversos debates para que se inicie o projecto, ao mesmo tempo que nos são descritas as conversas entre a humanidade e o aparelho alienígena que sabe muita coisa, o Sideronauta. Nestas conversas, o autor explora conceitos como o comportamento humano, a empatia e a religião, comparando-o com eventuais civilizações mais evoluídas e concluindo que a concepção de "deus" posdderá ser derivada apenas à construção social humana.

Numa segunda parte, temos um pouco mais de aventura, quando o nosso engenheiro se envolve numa operação de resgate por um acidente no seu elevador.

Arthur C. Clarke mostra-nos como a tecnologia pode ser usada no futuro, apresentando soluções realistas, muito bem estudadas e bem fundamentadas nos trâmites tanto da ciência actual como numa ciência futurista que ele próprio criou.

É um livro muito interessante e um excelente exemplo de como a ficção científica pode ser uma literatura cativante.

Yellow Submarine

Yellow Submarine
George Dunning
1968
Animação
6 em 10

O primeiro filme de 2017 não deverá ser visto por epilépticos. Muito menos deve ser visto depois de se consumir estupefacientes alucinatórios. Porque é uma trip dos diabos!

Vagamente inspirado pela música dos Beatles, tendo estes como personagens principais, conta - mais ou menos - a história de um submarino amarelo que procura a forma de salvar uma terra (a Pepperland) dos malvados Meanies Azuis. O submarino passa por vários mares, cada um mais estranho que o outro, e os Besouros têm de vencer as forças do mal através do poder da música.

Em termos de história e personagens, este filme não mostra muito: trata-se mais de uma sucessão de sequências de animação tendo uma música da banda como base. Estas sequências são, sem dúvida, de uma qualidade superior, especialmente considerando a data de produção deste filme. Temos uma excelente utilização de perspectivas, alguns momentos alucinantes em termos de formas e cores e um design de criaturas que combina a imaginação mais fértil com o pesadelo mais infantil. No entanto, os designs de "pessoas" estão muito fracos, assim como a sua animação.

A banda sonora é a da banda, da qual eu não sou a maior fã, mas juntamente com as sequências cada música se torna numa nova situação.

Achei apenas que os Beatles em si foram caracterizados como um grupo de pessoas aparentemente indiferente ao que os rodeia por excesso de consumo de coisas, o que não os torna pessoas muito divertidas.

Foi uma boa forma de começar o ano!

Sicario

Sicario
Dennis Villeneuve
2015
Filme
6 em 10

Às vezes sabe bem ver um filme de acção, sobretudo quando ele é bastante diferente do habitual. Sicario pega na fórmula típica dos filmes de Hollywood, mas dá-lhe uma nova perspectiva, bastante refrescante.

Uma mulher pertencente à SWAT é escalada para lutar contra os cartéis mexicanos. Começa a aperceber-se do horror que existe neste universo e como nem sempre o que ela acha que está correcto pode ser aplicado.

O filme mostra-nos grandes momentos de violência, mas todas as cenas de acção são especialmente contidas. É raro ver uma equipa de soldados tão eficiente: tudo se passa rápido, sem vítimas desnecessárias, com método e com uma estrutura que, provavelmente, corresponde muito à realidade.

Os personagens também têm uma dinâmica característica, mas existe entre eles uma constante desconfiança que permite a sua evolução e desenvolvimento. Mais uma vez, nem tudo o que parece certo o é, e a nossa rapariga terá de o aprender da forma mais difícil.

Existem belas cenas de paisagem que tornam o filme um pouco menos tenso. No entanto, a banda sonora pareceu-me extremamente repetitiva e exaustiva.

Um filme que varia perante a norma.

Rogue One: A Star Wars Story

Rogue One: A Star Wars Story
Gareth Edwards
2016
Filme
5 em 10

Confesso que não estava especialmente interessada em ver este filme. Na verdade, desde o início que o seu conceito me pareceu apenas mais uma razão para vender bonecos e cadernos escolares com o Darth Vader. Mais uma forma de mostrar as nossas figuras pop habituais, para que ninguém se esqueça delas antes do Episódio VIII.

Este filme de Star Wars conta uma história que realmente não precisávamos de saber: os grandes heróis que foram buscar ao seio do inimigo os planos para destruir a Death Star. Ficamos a conhecer um pouco mais sobre os rebeldes e o seu modus operandi, sendo que se reúne uma equipe de personagens para a apoteose final. 

Rogue One peca por nos mostrar dados irrelevantes, já que nunca são referenciados nos filmes anteriores (episódio IV a VI) mas, sobretudo, por os seus personagens não transmitirem qualquer tipo de força ou identidade. Por alguma razão escolhem uma rapariga para personagem principal, no meio de um elenco maioritariamente masculino, como se necessitassem de alguma presença deste tipo para satisfazer um público cada vez mais feminista. A personagem em si, muito fracamente interpretada, não sofre qualquer tipo de desenvolvimento causal, sendo que o seu discurso "vamos todos vencer porque xim" não possui qualquer força de motivação. O personagem preferido da criançada, o robot sarcástico, torna-se rapidamente previsível.

Os efeitos especiais e a concepção dos vários universos estão satisfatórios, embora haja por todo lado um truque com a câmara muito repetitivo que faz um certo desfoque ao longo de todo o filme. Muitas vezes o filme aparenta ser uma viagem turística pelos vários locais, sendo que muitos deles estão caracterizados como lugares que existem na nossa realidade, excepto que com alienígenas passeando por lá.

Musicalmente, temos uma banda sonora ligeiramente diferente do habitual, mas ainda assim muito inspirada na original, o que acaba por ser uma boa experiência.

Fique também a nota do quanto eu detesto os cinemas da Nos: um filme com supostamente duas horas tem mais meia hora de acrescento à conta de anúncios e intervalos gritantes, sem que sequer nos dêm a oportunidade de ver mais que duas trailas. Um horror, uma irritação.

Dorian's Task

Dorian's Task
Tonya R. Moore
2014
Ficção Científica

A parte que, para mim, sempre foi maravilhosa no universo do BoysLove é a maravilha do "feito de fãs para fãs". Assim, quando me surgiu a oportunidade de sacar esta novel, escrita por uma Americana para um público josei, através do site da Aarinfantasy, não perdi a oportunidade.

Infelizmente, nem sempre o que é feito por fãs é especialmente bom.

No caso deste livro, apresenta-se-nos um universo de ficção científica, num futuro longínquo, em que um príncipe do reino dos prazeres, que por acaso também é um assassino, e o seu namorado, um soldado de elite, viajam até um planeta para recuperar as memórias perdidas do primeiro. Lá, encontram-se com um grupo de sacerdotisas de uma religião perdida e muitas coisas acontecerão.

A história é um pouco confusa, simplesmente porque o universo é demasiado grande para ser explorado em tão pouco tempo. O livro processa-se numa sucessão de nomes de pessoas e lugares, sem qualquer teoria científica de base que possa tornar todos os elementos realistas. Para além disso, as descrições são especialmente fracas, sendo que a autora dedica a maior parte delas ao aspecto dos personagens. Por exemplo, quando comem uma fruta desconhecida tal está descrito como "a casca é dura, mas o interior +e sumarento". Isto não transmite nada acerca do quão saborosa poderá ser a fruta, quão diferente ou estranha.

Para além do mais, a autora optou por essa situação especialmente irritante que é fazer uma trilogia (ou mais) da sua história. Esta história, num primeiro volume, não nos apresenta nada que mereça ter uma continuação. No final, subitamente descobrimos que o soldado de elite é alguém de extraordinariamente especial. E então?

Em termos de BL propriamente dito, não existem cenas de qualquer erotismo, sendo que a relação entre os dois personagens parece ser puramente casual.

Um volume que não dá qualquer vontade de continuar e, no geral, um grande desapontamento.