28.10.16

Tantei Opera Milky Holmes

Tantei Opera Milky Holmes
Moriwaki Makoto - J.C. Staff
Anime - 12 Episódios + 12 Episódios
2010
4 em 10

Pois é, parece que - aparentemente - fiz uma maratona de anime. Um dos piores animes que vi ultimamente. Sim senhora, estou mesmo em altas. -___- Curiosamente, sinto que é muito mais fácil maratonar um anime detestável do que um anime realmente bom.

Então, sobre o que é que é esta coisa? Quatro meninas lindíssimas e fofíssimas são detectives famosas num universo pejado de meliantes. Mas perderam os seus poderes, os toys. Para os reganharem, e reganharem a confiança dos seus pares, terão de viver muitas aventuras. E em que consistem? Oh, várias coisas. Serem atacadas por mamonas assassinas. Serem atacadas por mamilos selvagens. Andarem de fato de banho. Lutarem contra o mal. Quem diria que uma série sobre detectives tem tão pouco mistério. De detectives, estas meninas têm só os nomes.

As personagens são menos do que um estereótipo. São todas iguais. Os seus interesses envolvem comer e pouco mais. Distinguem-se pela cor das roupas. Em termos de personagens secundários, estão lá só para fornecer oponentes de valor a estas pseudo-meninas. E nem assim fazem um bom trabalho.

Penso que isto é suposto ser uma comédia, mas está limitada por um exagero constante das características das personagens e das "histórias" em que estão inclusas. A segunda season ainda é pior nesse campo. Não sorri nem uma vez.

A arte é infeliz, porque os designs são também eles exagerados e sem conexão com o contexto. A animação não é aquela a que o estúdio nos vem habituando, existindo falhas, sobretudo a nível de expressões de personagens e momentos de mais acção, que são subitamente interrompidos para nos darem uma piada com chibis.

A banda sonora é repetitiva e exactamente igual a tudo o que temos visto nestes últimos anos. Os efeitos sonoros são cartoonescos e as vozes não transmitem qualquer tipo de personalidade.

Recomendo: que não o vejam. Que o queimem.



Coluboccoro

Coluboccoro
Itoso Kenji
Anime OVA - 1 Episódios
2007
6 em 10

Segundo a informação que encontrei, data o trailer deste anime de 2007, sendo o anime em si muito mais recente e suportado por um projecto em Kickstarter.

A premissa é muito interessante, assim como o universo. Isto passa-se numa Ásia um pouco futurista, com alguns aspectos de steampunk apropriados à geografia do local. Uma princesa gostaria de ter mais liberdade para ver como vivem as pessoas, portanto vai até uma zona proibida onde encontra uma semente. Essa semente, depois de regada, transforma-se no bicharoco verde da imagem acima. E juntos viverão uma aventura.

Tendo isto em conta, devo dizer que o principal problema deste anime é precisamente o seu universo. é demasiado grande, complexo e interessante para ser explorado num filme de apenas 26 minutos! Dá vontade de ver mais, saber mais e, talvez, ter uma season inteira de tudo isto. :)

A animação é bastante simples (a equipa era, também, bastante pequena), mas faz um uso bastante curioso de texturas, quer nos designs quer nos cenários. Os primeiros são também muito bem pensados e apropriados ao mundo em que estamos, sendo altamente detalhados.

Musicalmente não temos nada a apontar, mas fica a nota para a excelente animação da ED.

Será que servirá este OVA de episódio piloto? ;)

Les Misérables: Shoujo Cosette

Les Misérables: Shoujo Cosette
Sakurai Hiroaki - Nippon Animation
Anime - 52 Episódios
2007
7 em 10

Este é mais um anime inserido no projecto World Master Theatre, mas desta feita muito mais moderno, tendo sido o seu ano de lançamento e exibição o saudoso 2007. Este anime é baseado na obra homónima de Victor Hugo, da qual não me lembro minimamente. Assim, vi este anime como uma tabula rasa, sem qualquer conhecimento sobre a história.

Esta, assim como os personagens, são o ponto forte do anime, não fosse trabalho do grande Victor Hugo. Como em quase todos os WMT, temos uma criança que sofre bastante ao longo da sua vida, para depois ter um final justo para a sua situação. Esta é Cosette, que se vê entregue pela sua mãe a uma família que, supostamente, iria tomar conta dela mas que, em vez disso, abusa dos seus esforços, escravizando-a como criada. Por outro lado, vemos a luta da sua mãe para conseguir emprego e dinheiro para a poder criar, apesar de estar longe. E nesse processo acaba por conhecer um homem, Jean Valjean, que - ex-presidiário - se esforça por fugir às autoridades e ter uma vida boa em que possa ajudar os mais necessitados.

Esta conjugação caminha em direcção a uma revolução e faz um excelente trabalho em avaliar qual a verdadeira situação dos pobres na França do século XIX, que me parece ser o objectivo inicial do autor original. Através do anime podemos ganhar também essa sensação, sendo que o trabalho de adaptação me parece, nesse campo, bastante bom.

A animação é, no entanto, bastante simples, sendo os designs pouco variáveis, as paisagens moderadamente detalhadas e as cenas de acção reduzidas. Há um bom trabalho na caracterização da época e o anime é bastante sólido e coerente, mas tem pouco de espectacular.

Musicalmente, temos alguns temas um pouco repetitivos, sendo que a OP e ED estão bastante apropriadas, embora fiquem desactualizadas rapidamente à medida que a história progride. Teria sido uma boa ideia ter feito uma mudança a meio do anime, por exemplo.

Para quem não conhece o projecto WMT este anime parece-me bastante acessível, pelo que não deixo de o recomendar.

Nota: apresento também o meu total desprezo por quem chama "Les Misérables" de "Os Mizzies", porque isso é ridículo.

26.10.16

Plantas Inspiradoras Plantas Inspiradas

Plantas Inspiradoras Plantas Inspiradas
Exposição
Ficámos com um pouco de tempo no dia de hoje, portanto decidimos ir à Casa da Cerca ver uma exposição que tinha visto no guia da cidade de Almada. Conforme a descrição no site:

As plantas do Chão das Artes – Jardim Botânico, tais como o girassol, a papoila, o lírio, a rosa, o cravo, o trigo, o nenúfar, a amendoeira, a romanzeira e o amor-perfeito, que serviram de inspiração a vários artistas ao longo da História da Arte, dão o mote a uma exposição documental.
 
Através das reproduções de algumas das mais emblemáticas obras de arte refere-se a relação com as artes plásticas enquanto fornecedoras de matérias-primas para a sua realização, mas também os seus usos na alimentação ou medicina e curiosidades com elas relacionadas.
 
Estas plantas existentes do Chão das Artes são igualmente inspiração para uma coleção de flores cerâmicas que, ao longo do ano, serão colocadas nos canteiros da Estufa. Estas «flores artificiais» foram criadas por grupos de alunos de cerâmica de várias instituições de ensino convidadas a integrar este projeto.
Portanto, lá chegados, começamos por ver a exposição do artista residente do momento, que consistia numas folhas com riscos que, penso eu, pretendiam simular umas estruturas ondeadas que estavam no chão.
Depois fomos ver as plantas. Nos canteiros onde costumam estar as flores da estufa, estavam flores de cerâmica, cada canteiro com uma espécie. Para além disso havia uns quadros informativos onde mostravam as plantas em diversos quadros. As cerâmicas foram concretizadas por alunos de várias escolas (de secundárias à Belas-Artes) e eram bastante divertidas! Tirei foto-foto :)






Depois ainda vimos uma outra exposição de uma artista mais consagrada, Maria Beatriz. O nome da exposição era "Trabalho de Casa" e trata-se de uma colectânea de colagens e outros desenhos de muito interesse, percorrendo décadas desde os anos 60 à actualidade. São imagens um pouco brutalizantes de pessoas nuas e bastante horrendas, mas algumas eram muito interessantes. Gostei sobretudo das tapeçarias e da última sala que tinha alguns temas mais pop.

Assim foi a nossa tarde. Estas exposições ainda estarão por mais algum tempo na Casa da Cerca, portanto, porque não visitá-las? :)

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Afonso Cruz
2011
Romance

Este novo autor português tem vindo a tornar-se famosíssimo porque tem piada e aparece na Time Out. Mais tarde ou mais cedo haveria de o ler e a verdade é que estava ansiosa por saber como era a sua escrita. Este primeiro romance que me calhou, graças a um RABCK no BookCrossing, desapontou-me de sobremaneira.

A história é sobre um pintor que passou uma bela infância e depois abandona a sua terra natal para ir para os Estados Unidos. Quando deflagra a segunda guerra mundial, volta para Praga para ir buscar a sua mãe, que tinha deixado num asilo de loucos, mas acaba por ficar retido em Portugal, a viver debaixo do lava-loiças de um fotógrafo (que seria, conforme as informações do posfácio, o avô do autor).

Ora tudo isto seria muito bom, se Afonso Cruz se tivesse dado ao mínimo trabalho de pesquisar quem era o pintor da sua história e a tivesse contado. Tudo isto é uma invenção sem precedentes baseada, provavelmente, na página da wikipedia. Isto torna-se flagrante quando há descrições dos espaços (isto bem se podia passar em Trás-os-Montes em vez de na Checoslováquia) e, sobretudo, nos momentos de guerra. O personagem não é de todo emocionante ou cativante porque não faz mais nada sem ser desenhar olhos, sendo que não há qualquer descrição das outras obras que fez para além destas. Porquê? Porque o autor não pesquisou.

A linguagem é desadequada para a época e para os locais onde estamos, sendo corriqueiramente infantil ao longo de todo o livro. Porquê? Também porque o autor não pesquisou.

Fiquei desapontada e sem vontade de ler mais da sua obra.

Tonio Kröger

Tonio Kröger
 Thomas Mann
1958
Romance

Finalmente, o último livro que recebi no meu aniversário, desta feita cortesia da minha irmã e da minha mãe (a prenda é da primeira, mas foi a segunda que o foi comprar e escolher) :)

Um dos primeiros romances do génio de Thomas Mann, fala sobre as complicações da vida de um rapaz que anseia ser escritor e acaba por se tornar um deles. No entanto, ele continua sempre a ser um burguês, pelo que para se afastar desse conceito acaba por se ir isolar numa estância de férias na Dinamarca. Lá, é mais uma vez confrontado com os desejos do seu passado.

Escrito com grande mestria, este curto livro tem muita força pelo seu personagem principal. DE certo modo, identifiquei-me muito com ele. É um personagem pleno de dúvidas e questões sobre a sua existência, no mundo e em sociedade, e qual o lugar que pode encontrar para si próprio num universo onde tudo sobre ele é estranho e onde ele próprio se sente uma criatura bizarra e diferente, perante o fascínio que sobre ele exercem as "pessoas exemplares" que imagina na sua cabeça.

Assim, temos uma dicotomia entre o que é real no personagem e aquilo que ele procura tornar-se através da sua escrita. Sai frustrada sua tentativa?

Terão de ler para saber. :)

Cinco Esquinas

Cinco Esquinas
Mario Vargas Llosa
2016
Romance

Segundo livro que me ofereceram pelo aniversário, desta vez presente do Rui :) Trata-se deo último romance do nosso grande amigo Vargalhosa.

Infelizmente, fiquei com a sensação, ao longo de todo o livro, de este não era o Vargalhosa conforme o conheço. A história, o desenlace, tudo me pareceu um pouco amador. A história é aquela de várias personagens intercruzadas. Um milionário dono de minas, a sua esposa, amante da mulher do melhor amigo do primeiro, o jornalista que revela fotos escandalosas desse, a sua ajudante... E, por trás de tudo isto, o misterioso "Doutor", adido do presidente.

A história passa-se numa Lima, Peru, imaginária, aterrorizada por ataques terroristas e raptos. No entanto o autor não explora isto de todo, preferindo a história da vida diária das pessoas acima enumeradas. Quando acontece um crime, várias coisas acabam por ser reveladas. Tudo isto seria muito bom, se os personagens fossem efectivamente cativantes. Existe um trabalho sério de caracterização de todos eles, mas o estrato dos "ricos" não é de todo realista, sendo que as cenas sensuais entre as duas amantes parecem estar ali mais para impressionar do que para dar força à história.

Apesar de tudo, está bastante bem escrito e é um livro que se lê muito bem.

Samurai Champloo

Samurai Champloo
Shinichiro Watanabe - Manglobe
Anime - 26 Episódios
2004
8 em 10

Já tinha visto este anime há muito tempo e agora revi-o juntamente com o Qui, que vem gostando de trabalhos deste realizador e animador. :) E, mais uma vez, Watanabe não desaponta!

Esta é a história de três pessoas que se unem em busca de um misterioso homem, depois de uma série de contratempos. Juntos, sempre prestes a separar-se, vivem aventuras diversas, sempre salvos pelo poder da espada. Na sua viagem encontram coisas cada vez mais bizarras e, também, mais perigosas. Será que vão conseguir safar-se?

A história é semi-episódica, com alguns arcos de dois a três episódios, relatando o caminho diário destas três pessoas, Fuu, Mugen e Jin. Há muita crítica social e muita diversão à mistura, mas quando falamos de coisas sérias também há uma lógica dentro do arco e conseguimos manter sempre o foco no objectivo final, o de encontrar o samurai que cheira a girassóis. Nesta secção, o autor explora um assunto sério e que vemos pouco no anime: o tratamento dado aos cristãos no Japão na época Edo. Muito original e bastante bem concretizado.

Mas o realmente cativante deste anime são as personagens. Cada um deles tem uma história pregressa que os tornou tal como são hoje, mas nem por isso deixam de evoluir, individualmente e, sobretudo, uns com os outros enquanto companheiros e amigos. A caracterização é perfeita, sendo que não se deixa de parte um certo traço cómico em cada um, e o desenvolvimento também não lhe fica atrás: os personagens que conhecemos no início já são outras pessoas daquelas que vemos no final da série.

A animação é feita com poucos recursos, sendo evidente que o nível de produção não é especialmente alto (sendo que existem muitos flashbacks repetidos, por exemplo). Com os possíveis, foram feitas sequências com resultados impressionantes. Não é todos os dias que vemos uma luta de samurais em break-dance!

Finalmente, a música. Trata-se de uma banda sonora com 4 volumes e é das minhas preferidas dentro do universo dos animes. Hip-hop instrumental, alguns sons spoken-word e muita música tradicional japonesa com respectivos instrumentos. Uma variedade brilhante com alguns temas absolutamente memoráveis, obra de Fat Jon e o saudoso Nujabes.

Uma série que foi um gosto rever e que recomendo vivamente a todos!

25.10.16

Doclisboa '16 | Festas

Doclisboa '16 | Festas
DJ Set
Depois do evento fui para casa jantar com o Qui e fomos para uma festa que ele queria ir imenso, uma festa temática do Doclisboa (o festival de cinema documental). Segundo a descrição do evento, a festa consistiria no seguinte:

22 OUT / das 23.00 às 04.00
Look at These Pictures
No dia da projecção única de Mapplethorpe: Look at the Pictures, vestem-se casacos de cabedal, sintoniza-se a telefonia e dança-se com Patti Smith, Lou Reed e The Stooges.

DJ Set: Rui Pregal da Cunha (Heróis do Mar) 

Decidi fazer este comentário porque foi uma noite engraçada. Para começar, demorámos sete mil anos a estacionar, sendo que apenas conseguimos lugar no parque de estacionamento de Santos. Claro que para subir dali até ao Príncipe Real, onde iria ser a festa, ia morrendo. Depois, começou a chover torrencialmente. Mas, finalmente, conseguimos entrar no lugar da festa.

Achei-o simplesmente fascinante! Um palacete antiquíssimo, todo partido aos bocados (o que constituía um certo perigo, não fosse o tecto cair-nos em cima, ou aquilo tudo ficasse em chamas por causa de um cigarro mal apagado no chão), onde imaginei como seria a família que vivia ali antes de o lugar ser transformado em palco para festas.

Arranjámos lugares no último andar, zona de fumadores, onde podíamos ouvir um outro DJ Set que estava na sala ao lado, que passou grandes sons (nomeadamente, Arcade Fire). No entanto, não fomos dançar porque estava toda a gente cansada e aquilo estava a ficar cheio de gente.

Grandes aventuras na casa de banho, que estava desfeita em pedaços e cheirava a fezes.

Mas, o mais importante de tudo, o DJSet do gajo dos Heróis do Mar! Enquanto lá estivémos... Não aconteceu! =D Nada de sons punk, nada de fotos agressivas, nada de nada. A nossa teoria é que o DJ não arranjou lugar para estacionar. Afinal, ele não estava lá...

Talvez tenha chegado mais tarde.

Ganbatte! Japanese School Festival 2016

Ganbatte! Japanese School Festival 2016
Evento
Ora bons dias a todos! Hoje é dia de vos falar do evento do passado fim de semana, em que participei na qualidade de pessoa normal. :)
Será importante começar por dizer que nos dias anteriores ao evento estive profundamente doente, com uma constipação que perfeitamente simulou um atropelamento por camião de suínos. Assim, não consegui preparar-me adequadamente para a minha participação no concurso, pois tinha de estar aos saltos para ensaiar e a minha condição corporal não me permitia fazer grande coisa. Apesar de tudo, os deuses da aspirina salvaram-me e, assim, consegui ir ao evento de todos os modos. Carregada com grandes malas lá me meti dentro do carro e ala que se faz tarde!
Lá chegada, a primeira má notícia era que não podia estacionar ao pé da escola. "Estes lugares são para os estudantes das aulas de Japonês" (ok) e "Ali em cima é para o staff" (ok). Portanto disse "vou estacionar ali no lugar do embaixador que é meu conhecido" (o que não deixa de ser verdade) e fui estacionar ao pé da embaixada, que de qualquer forma não é assim tão longe. :) Seguidamente, carreguei alguns objectos até à entrada e coloquei-me numa fila que não andava nem para trás nem para diante. Três minutos depois fartei-me e fui buscar também o meu fato. O meu fato todo branco e chuva começando a pingar, ai! Perguntei a um staff o que fazer e o jovem informou-se que eu deveria aguardar na fila da lentidão. Quando manifestei o elemento de que o meu fato ia apanhar chuva, prontificou-se imediatamente para o guardar no casinhoto da entrada, sendo que outra mocinha simpática me ofereceu uma sombrinha. Mas a chuva não estava assim tão agressiva, pelo que aguardei a minha vez com toda a paciência. Quando ela chegou, demoraram um pouco a encontrar a minha identificação. E quando finalmente paguei não havia troco para ninguém: as moedas haviam desaparecido! Assim, disse-lhes que ficassem com o troco, que o iria buscar mais tarde.
Falando em troco e dinheiros, quando me inscrevi aproveitei para perguntar, mais tarde, se os cosplayers do concurso teriam de pagar bilhete (é uma questão válida, parece-me). Disseram-me que sim, evidentemente, pois estaríamos a concorrer por diversos e fabulosos prémios. Tudo bem. Mas devo referir que o evento estava caro. Para um evento de pequena dimensão, numa escola, o preço estava um pouco elevado. Convidei até uma série de pessoas para virem comigo, que afastaram essa possibilidade quando lhes disse o valor do bilhete. Bastava baixarem um simples euro e, penso eu, a adesão teria sido muito mais abrangente.
Mas continuemos!

Assim que entrei, busquei o local onde os cosplayers poderiam trocar de roupa, para poder deixar lá minhas pequenas tralhas e estar mais à vontade. Foi quando me informaram que, efectivamente, existia um balneário para os cosplayers, mas que não poderia ir para lá porque estava a haver uma palestra. Que me trocasse na casa de banho. Que guardasse as tralhas no bengaleiro. Para descobrir esta informação ainda andei muito de um lado para o outro com todas as coisas às costas, mas acabei por as abandonar aos cuidados de um staff no bengaleiro. Não me deixaram pagar o bengaleiro, obrigada! :)

Depois vagueei um pouco por aqui e por ali. O espaço era excelente. Dentro de uma enorme escola, reservaram para o evento um pavilhão e um auditório, sendo que o espaço estava assim dividido em diversas salas, cada uma com um tema. Estava tudo bastante bem dividido, o que acabava por diluir um pouco a população presente, mas penso que se houvera havido uma enchente talvez tivesse sido um pouco complicado circular. Havia Artist Alley, Creative Alley, Lojas, uma Zona Zen onde estava pessoal, a zona da Jan Ken Pon, duas salas de workshop, uma sala para maiores de 18 que não vi... Havia mesmo muitas coisas para ver!




 Prova de que estamos numa escola, não esquecer!



Entretanto achei a Ana-san, que estava na organização para dar um workshop de Japonês e para avaliar o concurso de Maids. Que, aparentemente, tinha apenas uma participante, mas conseguiram arrepanhar mais meninas algures. Ainda as vi numa luta intensa com um pacote de ketchup, num simulacro de omurice (que já fizemos em casa e é delicioso, diga-se de passagem). Como isso me deu uma fome medonha, fui almoçar a um restaurante próximo, já que conheço todos os da zona. Infelizmente aquele onde queria ir estava fechado, o que me deu grande pena: é um restaurante mesmo bom. Se forem da área ou estudarem naquela escola, vão lá: é "O Cantinho da Mafalda" e tem um menu bem barato e delicioso, sempre com comidas diferentes! :)

No regresso, procurei as salas dos workshops, pois iria ter um Workshop de Argumento. Como os processos digitais da sala original não estavam funcionando muito bem, fomos para outra e lá assistimos a um workshop/palestra sobre argumentos para banda desenhada, dirigido por um argumentista da Jan Ken Pon. Foi giro e tirei muitos apontamentos. Aprendemos, tendo como base duas páginas da BD do próprio palestrante, três métodos diferentes para explicar ao nosso desenhador como vai ser a história. Fiquei com muita vontade de experimentar um mix de dois, pois adorava escrever para BD. :) Se alguém conhecer alguém que conhece alguém que goste de desenhar e procure um texto, avisem-me!

Aproximava-se, de forma galopante, a hora do concurso, pelo que achei melhor ir buscar minhas tralhas ao bengaleiro (ainda lá estava o mesmo staff) e procurar, então, o balneário para me vestir. Encontrei-o mas... Não podia lá entrar. Estava a haver um concerto (Kishi Kasei, parece-me). Portanto indicaram-me, mais uma vez, a casa de banho. E eu pensei... "Atão". Parece-me que nesta fase do campeonato, ter um lugar para os cosplayers se vestirem é o mínimo da delicadeza que se pode ter. Afinal, havia tantas salas e salas que podiam perfeitamente ter reservado uma para vestiário, balneário ou que fosse. Enfim, fica dado o recado...

Andei por lá vestida com meu vestido branco e minhas asas e meu coração, tirando fotos a pessoas e tendo fotos tiradas. Falei com um rapaz que pensava que eu estudava ali, coisa com a qual me fartei de rir (já saí da escola há, tipo, três milhões de anos). Fui reparando que o evento estava composto, mas não estava assim muita gente, de todo. Na verdade, quase dava a sensação de que havia mais staff e convidados do que visitantes: cada vez que olhava para alguém, lá tinham a fita de convidado! Não tirei fotos a ninguém do staff porque odeio aquela t-shirt que eles estavam a usar (mas é implicância minha, nada contra)

Assisti também a uma apresentação de um grupo de live-action fight games, ou como era, que consistiu em dois gajos vestidos com cenas a baterem um no outro pela escada abaixo. Quando vi o colchão no rés do chão e eles lá em cima no segundo andar, pensei que se fossem atirar dali de cima e comecei a pensar logo em manobras de ressuscitação. Mas não, tal não aconteceu.





Perto da hora do concurso, descobri os jurados. Pessoas que conheço há tempos e são muitos queridas para mim. <3 Eles quiseram avaliar o meu fato ponto a ponto, o que foi um pouco cómico, porque o fato não tem nada que avaliar. É só um vestido, com corpete (que tem a sua técnica, mas nada de mais), uma saia em viés, umas asas recicladas de outro fato e um coração com espuma dentro. Até me perguntaram "alguma técnica especial que usaste?" e eu "não nada, super simples! =D" Depois falámos um pouco do Mr. Brown, que agora já tem cara. :) Apareceram entretanto umas sete mil noivas (ok, eram 9, mas pareciam bués), as noivas de Santo António, que estavam ultra-lindas e foram avaliadas uma a uma, o que acabou por atrasar um pouquinho o nosso horário. Sem problema: elas tiveram de participar no Sábado pois no Domingo não podiam (penso eu que era assim?) e até foi uma coisa boa, porque assim o concurso ficou ligeiramente mais composto.

Porque éramos apenas duas concorrentes. D: Bem, pelo menos o segundo lugar está garantido! Primeiro foi a outra mocinha, que também tinha um fato muito loko (amei o chicote!) e fez um skit bem simpático e depois fui eu e depois foram as noivas de Santo António que fizeram uma apresentação fantástica (eu só vi de costas, mas adorava ter estado no público para ver!). Quanto a mim, o que dizer do meu sukito? Desde há muito, muito, muuuito tempo que queria fazer uma apresentação com esta música. Sei que é uma música ultra-rebuscada, porque é um dos sons do nosso saudoso Batatoon, que a referência ia passar ao lado de toda a gente, mas a verdade é que adoro mesmo este sonoro. Passo o tempo todo a cantá-lo, lol. Assim, quis fazer um skit bem simples que fizesse as pessoas sorrir um bocadinho. Espero ter conseguido! :) Infelizmente nem tudo correu perfeitamente, porque me puseram a vara das fitas do lado oposto ao suposto e isso baralhou-me o esquema: não tinha ensaiado o suficiente, devido ao meu processo patológico, para poder improvisar convenientemente. Para além disso, o efeito do meu vestido tomara-que-caia foi bastante visível, porque o gajo ia-me caindo pelos ósculos abaixo, conforme vi no vídeo. Mas alguma força misteriosa impediu que isso acontecesse, pelo que digamos todos um ámen colectivo, ok? ;D

De todas as formas, poderão ver o meu skit breve, brevemente, na minha página de cosplay. =D

Quando anunciaram os prémios, estava toda contente a bater palminhas porque a outra moça tinha ganho a Menção Honrosa. Digo-vos, naquele momento nem associei que, se éramos duas, eu teria necessariamente de ter ganho o primeiro lugar. Estava genuinamente feliz por a menina ter ficado com um prémio, como se em vez de duas fôssemos vinte e três! Portanto, fiquei também genuinamente espantada por ter ganho o primeiro lugar! Isto nem sequer faz sentido, mas fazer sentido nunca foi o meu forte... D: Portanto, ganhei cenas! CENAS! Então:

  • Uma videoshoot com a CMR Produções (o Kawatta-kun, com o qual tenho de falar, já que entretanto pensei e tive uma ideia!)
  • Uma photoshoot com o ShadowShaper (também tenho de ir falar, também tive uma ideia!)
  • 20% de desconto nos patrocinadores oficiais
  • Um prémio surpresa (um pacote de pocky) 
São prémios lokos e um pouco diferentes do habitual, pelo que fiquei bastante contentinha. :) Peço desculpa aos parceiros dos prémios por não ter ido logo falar, mas estava desejosa de tirar o fato e ir para caselas. Ainda não tive tempo de alinhar as antenas para falar na net, também, mas farei isso brevemente! Obrigada! Desculpem!

De resto, aproveitei o descontozinho e comprei algumas cenas. Provei também, antes de tudo isto, o meu primeiro Bubble Tea: absolutamente delicioso! Refrescante, alimentício, maravilhoso! Adorei! Mas, as coisas que arranjei:



  • Um bloquinho muito giro
  • Uma Funko Pop da Bulma
  • Uma caneca KimiDoll (não estava com desconto, mas fizeram-me o imenso favor, obrigada :)
  • Um pacote de pockys de morango que desapareceu muito rápido
No tema das Funko Pops, informo que foi a minha primeira e que nunca mais arranjo nenhuma. Eu já não gostava assim tanto do ar dos bonecos, que parece que estão todos mortos mas descobri agora que os gajos não se aguentam em pé . Caem para o lado com o peso da cabeça! Qual é a lógica disto? Penso que é suposto tê-los sempre dentro da caixa, mas qual é a piada de ter um boneco dentro da caixa? Que desapontamento!

Assim foi o evento e... Esperem! Falta uma coisa importantíssima!

FOTOFOTO




 Parceira de concurso! <3





 Ana-san, eu salvava-te se não estivesse a tirar a foto
 As minhas amigas piriris, com quem tive uma interessante conversa sobre ranho



 Buéda noivas! Fiquei com pena de não ter apanhado uma foto melhor...



Em conclusão: foi um evento muito simpático e divertido, apesar de pequenos detalhes que podiam ter corrido melhor. Como dizia ao organizador, acho que estes eventos fazem falta, para não ser só Ibers e cenas dessas. Às vezes faz falta voltar um pouco às nossas raízes, penso eu, com eventos pequeninos, de convívio e com diferentes actividades do habitual. No entanto, o preço era elevado para o conteúdo e, sobretudo, foi um bocadinho difícil ser cosplayer neste evento, pois as condições eram muito precárias. Mas enfim, são tudo aspectos que poderão melhorar um dia. Aguardo a próxima edição! =D

Nota: Esqueci de dar agradecimentos devidos à Ana-san, que acabou por não poder assistir ao sukito, ao staff Ivo Anjo, que fez o favor de gravar o sukito (somos anjos! Unidos pelo destino!) e a todas as pessoas que depois acabaram por permitir a minha entrada no backstage, que estava cheio de projectores e rapazes em tronco-nu. OBRIGADES A TODES! <3 <3

24.10.16

Festa no Covil

Festa no Covil
Juan Pablo Villalobos
2010
Novela

Começo a ler os livros que me ofereceram pelo meu aniversário (aniversário!). Este foi o Qui que me ofereceu, escolhido com todos os cuidados que Qui tem em escolhas. :) Trata-se de um livro curtinho, com apenas 80 e poucas páginas, mais uma novela do que um romance. É o primeiro livro de um autor Mexicano em ascendência e, para primeira obra, é um trabalho divertido e bem curioso.

Narrado na primeira pessoa, conta as aventuras e desventuras de um rapazinho que, de entre todas as coincidências, é filho de um barão da droga. Assim, a sua forma de ver o mundo é bastante diferente da das outras crianças. Tem uma colecção de chapéus tão vasta que precisa de um quarto só para ela e o seu sonho é ter um hipopótamo anão do Líbano para a sua colecção de animais.

O discurso é muito divertido, porque é narrado por uma criança pequena (embora nunca saibamos exactamente a sua idade). Ele considera-se um prodígio porque conhece uma série de palavras ditas "difíceis", que repete constantemente na sua narrativa. No entanto, acaba por ser uma criança simplesmente inadaptada, pois não tem contacto com os seus pares e vive rodeado por um ambiente de perigo e constante suspeita. Ainda assim, há uma confiança cega naqueles que o rodeiam e, de certo modo, quase podemos dizer que este miúdo tem uma vida feliz.

É uma suposição muito grande pensar como seria a infância no palácio do cartel da droga, mas é uma ideia bem concebida e muito bem executada. Fala mais sobre as alegrias da infância, mas de uma perspectiva um pouco perversa.

Um livro divertido, simples, que me arrancou sorrisos bastantes. Obrigada, Qui :)

Em Busca do Tempo Perdido 7 - O Tempo Redescoberto

Em Busca do Tempo Perdido 7 - O Tempo Redescoberto
Marcel Proust
1927
Romance

Parece que, portanto... Descobri o Tempo Perdido! Pois é... Terminei a grande saga! E devo dizer que não foi nada tão difícil como esperava, porque foi uma leitura absolutamente deliciosa! =D

Ora, neste último volume o Narrador continua à procura de um tempo que já se perdeu. E tudo está bem, até que começa a Primeira Guerra Mundial. Nessa altura parece que todos os homens jovens são deslocados para as trincheiras, restando os doentes, como ele, e os velhos. Assim, ele assiste a algumas coisas ligeiramente escabrosas, quase todas protagonizadas pelo Sr. de Charlus.

Mas depois, e aqui está o génio disto tudo!, ele afasta-se para casas de repouso, para regressar anos mais tardes. E nessa altura... O tempo! O tempo que estava perdido! Onde está ele? Estão todos velhos. Velhos, horrendos, acabados. Os salões que encantavam o narrador no passado perderam todo o seu brilho, todas as pessoas reaparecem como peçonhentas, sem interesse. Finalmente o autor percebe que o mundo em que vivia nunca foi real: não era aí que ele iria encontrar o tempo que se perdeu. Agora, perto da morte, é que fianlmente percebemos como nada disto faz sentido.

O narrador compreende que nada disto faz sentido.

E isto, senhores, isto é brilhante!

Recomendo vivamente a todos que tenham a aventura de, pelo menos, experimentar este romance em 7 volumes. É simplesmente fabuloso!

Aria The Avennire

Aria The Avennire
Satou Junichi - TYO Animations
Anime OVA - 3 Episódios
2015
7 em 10

Quem me conhece terá o conhecimento breve de que eu adoro a série Aria. Para mim, foi uma série que me marcou muito, talvez por aparecer nessa fase da vida, que me trouxe uma calma imensa e que me fazia chorar só de olhar para a beleza das imagens e das atitudes dos personagens. Assim, foi com grande motivação que recebi a notícia de que iria sair um OVA especial para celebrar os 10 anos da série. No entanto, este OVA de três episódios, que saíram com grande espaço temporal entre eles, acabou por me desapontar um pouco.

Neste OVA, Akari, a nossa Undine predilecta (pelo menos a minha!) já é crescida e lidera a Aria Company dentro das suas possibilidades. Tem uma pupila, a Ai, a quem irá mostrar todas as maravilhas de Neo-Veneza. No primeiro episódio recordamos um pouco da amizade entre as mestras, no segundo episódio acontecimentos com aquele gato mágico e no último episódio há uma espécie de reencontro entre todas.

É um anime de aspectos calmos e contemplativos, que nos leva para um mundo de magia dentro da realidade do contexto. Infelizmente, não há muita exploração das personagens antigas, que pouco encontram dentro de si próprias excepto o "encontro" com suas amigas e não há qualquer caracterização das personagens novas.

Para além disso a arte foi simplesmente desapontante. Logo a primeira imagem que temos é um CGI maldoso e, para além disso, não há foco no ambiente circundante e cenários, sendo que também parece haver pouco esforço nos novos designs dos personagens.

Apesar de tudo, é uma série que amo do coração e... Posso dar-vos a novidade de que o cosplay de Aka vai sair no próximo ano :)

17.10.16

Reflexões Sobre a China

Reflexões Sobre a China ou As Atribulações de um Ocidental no Ocidente
Álvaro Guerra
1976
Ensaio

O último dos livros que apanhei no jardim. Agora, já enviei um e-mail para a biblioteca que organizou a iniciativa a saber o que devo fazer com estes livros (devolvê-los? Libertá-los?). Espero que sejam simpáticos... ;___;

Este micro-livro é um pequeno ensaio sobre a experiência do autor na China, no ano da morte de Mao Tse-Tung. O livro fala brevemente de alguns aspectos de todos conhecidos nos dias de hoje, como as manifestações culturais, a política de natalidade, a política marxista-leninista, etc. Também inclui uma cronologia bastante detalhada da história da China do século XX, o que é de interesse para quem goste do tema.

No meu caso, esperava um certo manifesto de apoio ao país de então, o que não acontece de todo. Ao iniciar a leitura, após o prefácio, esperava também alguns detalhes sobre a vida das pessoas na China, de uma forma um pouco mais pessoal e menos ligada à política, o que acabou por não acontecer.

De todos os modos, é um livro minúsculo que se lê num par de horas e nos dá uma ideia bastante concreta dos ideais políticos deste país, nesta época.

Notei agora que o título é um pouco estranho. Não deveria ser "atribulações de um ocidental no oriente"? :p

16.10.16

A Enfermaria Nº6 e Outros Contos

A Enfermaria Nº6 e Outros Contos
Anton Tchekov
Contos
1880s

Outro livro apanhado aleatoriamente num jardim!

Já havia lido um dos contos deste volume, mas voltar a Thekov é sempre e sempre um imenso prazer. Este senhor escreve com uma naturalidade indescritível, relatando-nos acontecimentos da vida normal da Rússia do século XIX sem qualquer tipo de pretensão. O autor limita-se a narrar-nos os acontecimentos, descrevendo tudo com destreza e clareza, sempre com uma certa dose de humor que, bem disfarçada, acaba por se tornar evidente na forma como cada história se torna prazerosa para o leitor.

Este livro tem nove contos:

"A Enfermaria Nº6" fala-nos de um médico pouco adequado à cidade que o rodeia que acaba por encontrar companhia na presença de um louco, tornando-se ele próprio louco. Há aqui uma belíssima desconstrução de personagem, que passa rapidamente da normalidade à maluquice, sem nunca compreender exactamente qual o seu verdadeiro problema.

"Vizinhos" não me marcou, sendo que "Dô-Doce" nos mostra uma personagem fascinante pela sua incapacidade de resistir à manipulação emocional e intelectual. 

"Um Assassinato" é um conto longo sobre a vida familiar de um grupo de religiosos um pouco histéricos e vale mais pelas descrições dos seus ritos. 

Todas as histórias seguntes ("O Mendigo", "Sem Título", "O Adulador", "A Boticária" e "Uma Corista") são muito curtas mas, de todos os modos, fascinantes na forma como inesperadamente os personagens são diferentes do que aquilo que esperamos, sempre com uma pequena veia cómica pulsando na escrita do autor.

Enfim, Tchékov nunca desaponta!

Caminhos Cruzados

Caminhos Cruzados
Érico Veríssimo
1935
Romance

Outro dos livros que apanhei no jardim!

Já era tempo de ler um pouco de Érico Veríssimo, autor brasileiro que, a todo o propósito, é do meu estado brasileiro. Curiosamente, a linguagem é bastante diferente da outra literatura do país que havia lido até agora, pelo que nesse campo foi uma experiência muito revigorante.

No decurso de cinco dias da semana, o autor mostra-nos pequenos laivos da vida de um grupo de pessoas que, não se conhecendo todas umas às outras, estão interligadas pelas circunstâncias. O livro faz um certo manifesto na comparação entre a realidade literária dos romances, que os personagens lêem, com a vida verdadeira destes. Como é lógico, as coisas da vida real não correm de todo como nos livros.

Os personagens, esses, são a melhor parte. Vívidos, realistas, cada um com uma vida, personalidade e percursos bem definidos. Isto leva-nos a que nos identifiquemos muito com todos e, assim, queiramos sempre a melhor conclusão para as suas histórias. Mas a conclusão acaba por não ser muito satisfatória, porque acaba por não existir. Cada dia passa e mais dias se passarão, mas de certa forma gostaríamos de saber qual será o futuro remoto de toda esta gente.

Um livro que achei delicioso e que me deu muita vontade de repetir o autor em grandes doses. :)

14.10.16

O Último Dia de Um Condenado

O Último Dia de Um Condenado
Victor Hugo
1829
Romance

No mesmo dia em que encontrei aqueles livrinhos abandonados que falei antes, fui passear com o Qui a um jardim em Lisboa. Subitamente... "Achei um livro, este é meu!", diz o Qui! E à medida que fomos vendo o jardim... Fui encontrando cada vez mais livros! Trouxe quase todos, até que descobri que fazia tudo parte de uma libertação em massa ao estilo BookCrossing, mas organizado pela biblioteca da zona :)

Li este primeiro e devo dizer que gostei bastante.

Trata-se de uma reflexão sobre a pena de morte e o desespero que pode daí advir, narrada pelo próprio condenado nos momentos que precedem a sua execução. O autor narra, através deste personagem anónimo, os horrores da prisão para trabalhos forçados e a serenidade que um homem pode manter perante semelhante situação, que se vai desfazendo à medida que o momento fatal se aproxima. É interessante e belo ler os sentimentos do personagem em constante mutação, desde a aceitação inicial, ao pensamento da fuga, passando pelo desespero final em que há um último pedido de absolvição.

A situação que mais me tocou terá sido, sem dúvida, o momento em que o narrador se encontra com a sua filha de três anos, que não o reconhece, estabelecendo assim uma divisão profunda entre o condenado e aquilo que lhe resta da humanidade do seu passado.

Como extra, temos um conto curto chamado "Claude Gueux", em que o autor faz um breve manifesto sobre a necessidade actual (dentro da época) de educar as populações de forma a evitar crimes, estabelecendo a realidade num personagem que deita tudo a perder devido à sua própria simplicidade. De certa forma, semelhantes palavras ainda se mantém actuais: se educarmos, reduziremos certamente todos os crimes. Não poderei é concordar na bíblia como livro essencial, mas prontes, deixa estar, é o século XIX em França.

Agora não sei o que fazer com o livro, se o hei-de por a circular, se o devolvo à biblioteca, se o liberto no mesmo sítio... Ideias? :)

13.10.16

O filho de mil homens

O filho de mil homens
Valter Hugo Mãe
2011
Romance

Recebido num Ring do BookCrossing, foi mais uma experiência com Valter Hugo Mãe. Dizia eu que gostava imenso deste autor, mas ultimamente os livros que tenho lido dele têm sido um pouco desapontantes.

Neste caso, é um livro sobre a família e sobre como qualquer grupo de pessoas pode constituir uma família desde que gostem umas das outras. Mais uma vez, é passado numa aldeia anónima, perdida num passado anónimo e difícil de situar. Porque estas pessoas têm tractores mas não têm telefones. Mais uma vez há uma insistência na falta de sentido das tradições seculares do nosso país, mas considerando que não conseguimos situar a narrativa no tempo, é um pouco difícil entender quais as verdadeiras opiniões destas pessoas.

O autor mostra de forma violenta como todas as pessoas "renegadas" pelas suas opções amorosas e sexuais são tratadas neste universo, que tem muito de inventado e pouco realismo para que possamos sentir alguma emoção pelos personagens. Algumas pessoas referem o quão maldoso o autor é perante a homossexualidade (tema constante ao longo de todo o livro), mas isso pareceu-me ser parte da sua intencional crítica social, que se pode perder um pouco devido à linguagem do livro.

Esta, é um pouco infantil demais considerando a idade de todos os personagens. O rapaz de 14 anos parece ter 6, a menina de 7 parece ter 15. É tudo muito difuso e escrito como se o autor contasse uma história para adormecer.

Li-o num instante e, subitamente, acho que VHM já não é o meu escritor português preferido da actualidade.

Uma Vida Imaginária

Uma Vida Imaginária
David Malouf
1978
Romance

Recebido num BookRing do BookCrossing :)

Foi a minha primeira experiência com este autor, que é tido por muitos como fundador de novas correntes filosóficas sobre a vida moderna em geral. Foi uma experiência quase transcendental: fui quase obrigada a ler este livro muito devagarinho, apenas para o poder saborear melhor.

O poeta romano Ovídio foi exilado para um lugar do qual não se sabe muito. O autor situa-o numa montanha, mas junto ao mar. Ovídio não conhece a língua local, não pode comunicar. E reflecte muito sobre a vida e sobre o seu lugar no mundo. Quando adopta uma criança selvagem, que vivia na floresta como um animal, começa a redescobrir uma língua que antes só via nos seus sonhos infantis. E isso leva a que ele descubra muito sobre si próprio e sobre a sua relação com o mundo que o rodeia.

Estas conclusões são belas, é um encontro do homem com a activa passividade da natureza, o encontro daquele que apenas sabia falar com um mundo real que é feito de silêncios e ruídos que não constituem palavras. O personagem, através da Criança, encontra um eu interior que estava perdido desde o momento da sua maturidade. Parece haver uma quebra entre os momentos em que Ovídio via a Criança e quando deixou de a encontrar. Agora, estão juntos de novo.

Esta conclusão pode dar-nos muitas ideias sobre o que fazer com as nossas próprias vidas. O encontro da criança interior, a perda da linguagem. A eventual ligação, fatídica, com o mundo em nosso redor. A felicidade por nos encontrarmos nesse lugar.

Por isto é que o livro é considerado como revolucionário. Porque nos mostra a realidade por uma perspectiva que está lá, que evidentemente está lá, mas que sempre nos recusamos a ver. Procurarei, agora, ser um pouco mais como Ovídio. Espero que leiam este livro e tentem sê-lo um pouco também :)