29.1.16

Ore Monogatari!!

Ore Monogatari!!
Asaka Morio - Madhouse Studios
Anime - 24 Episódios
2015
7 em 10

Anime que vi de propósito para o meu clube. Foi uma série que me deu um gozo enorme ver e que adorei de todo o coração.

Gouda Takeo é um adolescente grande, forte e um pouco feioso. Por isso, nenhuma rapariga gosta muito dele. Em vez disso disso, preferem declarar-se ao seu melhor amigo, Sunakawa. Mas no dia em que ele salva uma rapariga de ser molestada no comboio, tudo parece mudar... E assim começa "A Minha História de Amor".

É um shoujo que pode ser considerado um pouco atípico. Para começar, é visto da perspectiva de um personagem masculino que, por sinal, não tem qualquer tipo de sucesso com o público feminino. No entanto, a rapariga também não é fonte de desejo extraordinário. Não é um anime que fale de competição ou de dilemas ou dramas ou nada do género. Conta apenas os pequenos momentos felizes de uma relação, com todas as dúvidas e ansiedades que isso possa trazer.

Esta história, simples e cheia de candura, depende dos seus personagens. Estes são caracterizados, na totalidade, como boas pessoas, de confiança e com características únicas. Cada um terá os seus defeitos, mas no fundo são elevados como indivíduos únicos e plenos de bondade. Isto pode levar a um certo exagero nas reacções, que poderão tornar-se aborrecidas para um espectador menos motivado. Para mim, foi uma viagem que me fez muito feliz. Na verdade, não pude deixar de associar Takeo ao meu querido Qui e, em consequência, de me projectar um pouco numa auto-inserção em Yamato (a rapariga). Sei que isto é incorrecto e pouco objectivo, mas que hei-de fazer? Eu estava cheia de corações...

A animação é simples, com cores suaves e tonalidades pastel nos cenários. Estes, podem não ser muito detalhados mas funcionam na perfeição como pano de fundo para esta história de amor. Há uma extrema variedade nas expressões e designs de roupa dos personagens, coisa que apreciei muito. Mas pareceu-me que o aspecto mais positivo do design foi a caracterização da adolescência moderna, do agora, com todos os seus pequenos detalhes.

Musicalmente, temos um tema recorrente amoroso e que fica na cabeça por muito tempo. Este tema, e outros efeitos sonoros, levem a que a história seja sempre feliz, mesmo nos momentos considerados dramáticos. OP e ED, apesar disto, são bastante vulgares.

Este é um anime diferente, porque é uma história feliz. A prova de que nem sempre precisamos de um drama espectacular para termos um bom anime. Também a prova de que uma série deste género pode trazer sempre sentimentos felizes a quem a vê. :)

27.1.16

O Coração das Trevas

O Coração das Trevas
Joseph Conrad
1902
Novela

Livro que me foi oferecido pelo Stepfather em celebração do meu aniversário! Só estou a lê-los agora, os dos meus anos... Foi um livro difícil de encontrar, mas que me foi cedido porque eu tinha recentemente visto o filme Apocalypse Now, cuja parte final foi inspirada nesta obra.

É uma curta novela, originalmente editada em três fascículos numa revista, que fala numa misteriosa viagem pelo rio Zaire, até ao chamado "coração das trevas". Estes homens vão em busca de um oficial do governo que se perdeu de tal forma na floresta que acabou por criar um culto que o rodeia e se baseia na violência e na sua capacidade vocal para convencer os outros dos seus ideiais.

Estes, acabam por não ser referidos totalmente, pois o homem em questão é encontrado em tal estado de fraqueza e loucura que tudo o que resta é o horror. Mas o horror vivido pelos marinheiros até chegarem aos seu destino, e no regresso, afecta de tal forma o capitão (o nosso narrador) que ele próprio é absorvido pelas trevas e passa a viver também esse pesadelo.

O livro descreve em profundidade as paisagens, os hábitos, tudo com uma aura de terror infundado que se torna cada vez mais vívido à medida que se aproximam do objectivo final. Quando finalmente o narrador consegue conversar com o causador de todo este problema, descobre-se que afinal não há nada para dizer: apenas para sentir e para contemplar.

Assim, temos um sobrevivente. Mas à custa de que emoções?

Um livro curto, rápido, forte e violento. Sem dúvida, memorável.

Profundo como o Mar

Profundo como o Mar
Jacquelyn Mitchard
1996
Romance

Livro que recebi pelo BookCrossing, o primeiro Ring de uma nova membra :) Na verdade, não é o tipo de romance que me desperte o interesse à primeira vista, mas como era a primeira vez que esta nova amiga estava a participar, quis logo inscrever-me!

Este romance foi surpreendente de duas formas: por um lado foi uma boa leitura na primeira parte, mas a segunda parte ficou um pouco aquém das expectativas criadas por aquela. Tudo começa quando, num encontro de antigos estudantes, o filho de três anos de uma mulher desaparece sem deixar rastro. A partir daí, desenvolve-se todo o circo policial a que já nos habituámos em filmes americanos do género. 

Esta primeira parte é estranhamente boa, pois há um desenvolvimento profundo dos vários personagens perante esta situação de impossibilidade e incapacidade de fazer alguma coisa. Beth, a mãe, sofre uma mudança psicológica radical, que é descrita com mestria ao longo desta secção. Se ao início poderíamos ter todas estas pessoas como detestáveis (algo que os autores americanos modernos muito insistem em fazer, por razões que eu não compreendo) rapidamente ganhamos um novo sentimento por elas. Não será pena, nem piedade, nada de tão complexo, apenas um desejo imenso de saber como é que vão evoluir e dar a volta a situação.

Infelizmente, isto perde-se bastante na segunda parte do livro quando "algo" acontece que os faz ganhar uma nova perspectiva. A partir daqui, todo o desenvolvimento dado aos personagens parece ser ignorado, para elevar Beth a um estrato emocional altamente plácido e equilibrado que não joga com as descrições dadas até ali. Para além disso, os elementos narrativos são um pouco previsíveis e a história do "porquê" poderia ter sido trabalhada de outra forma.

Para além disso, fiquei duvidosa em relação a alguns elementos da própria escrita. Por exemplo, sempre que o livro está da perspectiva da criança, Vincent, há uma alteração no estilo demasiado infantil, como se todas as crianças não tivessem inteligência emocional. Também há uma mistura nos nomes, que poderá ter sido da edição, que pode ser um pouco confusa. Para além disso, a autora está sempre a recorrer a comparações que muitas vezes são estranhas e numa linha de pensamento vulgar.

Ainda assim, gostei bastante! Espero que a nova membra continue a partilhar estes livros! :)

24.1.16

Kokoro Connect

Kokoro Connect
Oonuma Shin - Silver Link
Anime - 13 Episódios + 4 Specials
2012
6 em 10

Um anime muito interessante que joga com elementos da psique humana.

Cinco jovens pertencem a um clube na escola que não tem muito interesse relativo. No entanto, uma figura misteriosa decide brincar com eles. Ao início, subitamente, começam a trocar de corpo uns com os outros. Isto é, a mente de um passa para o corpo de outro e assim por diante. Isto leva a que, progressivamente, eles descubram mais uns sobre os outros e sobre os problemas que os atormentam.

É um conceito muito interessante e o desenvolvimento dos personagens está muito bem estabelecido. Se em termos narrativos temos alguns arcos (em que os "truques" que acontecem aos personagens diferem), temos uma evolução progressiva em que estes jovens enfrentam os seus problemas e, com ajuda uns dos outros, acabam por os ultrapassar. No entanto, achei que as relações amorosas, nomeadamente o triângulo, foram um pouco forçadas e pouco naturais, sendo que o foco não deveria ter entrado por aí para um confronto ideal entre a mente e as crises da mente. Ainda assim, são todos personagens cheios de conteúdo e valor, dispostos em várias camadas e com uma verdadeira natureza humana.

A arte é bastante simples, com um estilo muito moderno e fluído. Mas não há grandes cenas de acção nem cenários vívidos que possam elevá-la a outro estatuto. Assim, o anime acaba por se disfarçar um pouco sob uma camada de fatia-de-vida, o que pode levar o visionante menos atento a ignorá-lo e a perder estes fantásticos personagens.

Temos uma variedade musical elevada, com várias EDs e OPs, mas que está bastante limitada ao pop mais comum destes anos 10.

Assim, temos um anime que poderemos considerar incompleto, pois se dedica totalmente à concepção e desenvolvimento dos personagens, cumprindo - nesse aspecto - o objectivo na sua plenitude, enquanto que nos outros elementos acaba por ser bastante regular.

21.1.16

Sora no Otoshimono

Sora no Otoshimono
Saitou Hisashi - AIC
Anime - 13 + 12 Episódios + 1 OVA + 2 Filmes
2009
4 em 10

O anime mais patético que vi nos últimos tempos. Trata de um jovem que sofre de um atraso mental no pénis que encontra uma mamalhuda com asas que afirma ser sua escrava (consequentemente, ele é o seu mestre). Depois aparecem outras pessoas aladas, com mais ou menos ósculos mamários, e há muitas situações inusitadas muito, muito, muito, extremamente!, engraçadas.

Ou então não.

Temos alguns episódios com uma estrutura narrativa, sendo que a história de base é muito simples. As pessoas aladas vêm de um mundo paralelo, a sinapse, onde são escravizadas por um totalitarista maléfico. Este envia-as à terra para se destruírem umas às outras mas acabam todas por se tornar amigas do nosso taradão principal. No último episódio de cada season há uma épica e totalmente inconsequente luta. E é isso.

Os personagens também não têm ponta por onde se lhe pegue. Por trás de uma caracterização superficial, estão escondidos múltiplos estereótipos. Os personagens também não têm reacções adequadas uns aos outros. Por exemplo, porque é que ninguém estranha minimamente que estas pessoas tenham asas? Porque é que nunca há conflito para além de "apalpaste-me a perereca"? Porque é que depois do taradão fazer trinta por uma linha continuam todos a gostar dele? Isto não são reacções normais nem humanas.

A arte é deprimente: sempre recorrendo a chibis e outros que tais, esforça-se por brilhar nas três ou quatro cenas de luta. Mas falha redondamente, pois o valor de produção foi poupado ao máximo e as ditas não estão suficientemente bem coreografadas para fazer um brilharete.

Musicalmente, há muita variedade de EDs, mas todas limitadas a uma espécie de pop cómico que não faz qualquer tipo de sentido.

Portanto, se há série que causa ódio, esta é uma delas. Nunca lhe toquem, nem com um pau comprido e bicudo.

18.1.16

The Hunger

The Hunger
Tony Scott
1983
Filme
6 em 10

E como David Bowie é uma paixão amada, continuamos a ver a sua filmografia. Desta feita, um filme de vampiros um pouco diferente, que coloca as coisas em perspectiva.

John e Miriam são um casal misterioso. Ficarão juntos para sempre. Porquê? Porque são vampiros. Mas a vida de vampiro de John aproxima-se do fim e, rapidamente, ele começa a deixar de conseguir dormir e a envelhecer numa progressão extremamente rápida. Então, entra em contacto com Sarah, uma especialista do ramo do envelhecimento. Infelizmente, nem tudo é o que parece... O que irá acontecer?

Neste filme uma diferente perspectiva sobre a lenda do vampiro é relatada. Aqui, há muita relação com a mitologia egípcia e às personagens são oferecidas várias camadas que lhes permitem progredir dentro da narrativa. Por um lado, vemos o desespero do vampiro que "morre" sem nunca poder deixar o plano terreno. Por outro lado, vemos que Miriam afinal não é tão boa pessoa quanto nos parecia ao início e é ela a verdadeira vampira: pois não se alimenta apenas de sangue, mas também de emoções.

O filme tem partes de puro horror (que me impressionaram um pouco) e também muitas partes altamente erotizadas, no feminino, o que é uma mistura bastante bizarra mas que, dentro do contexto, acaba por funcionar muito bem.

A conclusão é fatídica e impressionante. Mas o mais surpreendente de tudo isto é o trabalho dos artistasd e maquilhagem, que fazem uma caracterização tão perfeita do envelhecimento de Bowie que o tornaram muito parecido àquilo que ele veio a ser no final da sua vida terrena.

No final deste filme, ficamos com uma imagem: os vampiros nunca morrem. Pois bem, o David Bowie também não :)

O Castelo

O Castelo
Franz Kafka
1922
Romance

Este livro foi-me oferecido pelo Qui pelo meu aniversário em 2015. Depois de ter lido O Processo e as Cartas ao Pai, vinha alimentando a vontade de ler o resto da obra de Kafka. Agora surgiu esta oportunidade.

Este é um livro um pouco diferente d'O Processo na medida em que o pesadelo vivido por K., o personagem principal, consiste na busca pela autoridade, enquanto que no livro anterior ele fugia desta. O que se passa é que K. é contratado como agrimensor para ir trabalhar para um castelo mas, chegado à aldeia vizinha, percebe que não há maneira de lá chegar nem de contactar com ninguém que lá viva ou trabalhe. Assim, K. envolve-se numa série de meandros burocráticos, que não têm fim e que não fazem qualquer tipo de sentido. O livro está cheio de detalhes que tornam tudo como num sonho, um puro exercício de surrealismo, como ser de manhã e de repente ficar de noite ou os personagens estarem sempre a contradizer-se nos seus discursos.

Desta feita, K. conhece uma série de pessoas com as quais se relaciona, mas todas elas parecem ser apenas marionetas influenciadas pelo Castelo, a grande personagem principal, o grande ponto inatingível. Os seus discursos são longos e não trazem nenhuma informação últil. Aliás, confundem tanto o personagem principal como o próprio leitor, uma característica deste livro. Nunca sabemos o que um personagem nos vai dizer a seguir: num momento amam K., no outro momento desprezam-no. São estas relações que tornam esta busca pela autoridade num verdadeiro terror.

Este é mais um livro inacabado, para além de ter sido publicado após a morte do autor. Mas, segundo o posfácio, o final iria ser tão maléfico e inconclusivo como resto da história. Mas, no geral, é um livro intenso e maravilhoso, em que descobrimos sempre novas coisas por detrás de cada esquina e que nunca deixa de surpreender.

Labyrinth

Labyrinth
Jim Henson
Filme
1986
7 em 10

Pois é, o fatídico dia aconteceu. Todos pensávamos que ele ia sobreviver ao resto da humanidade, mas a verdade é que David Bowie entrou na nave espacial para voltar ao seu planeta natal. Fiquei triste, mesmo muito triste. Até chorei um bocadinho, é verdade. Mas a melhor forma de celebrar um artista não é chorar a sua morte, nem brindar vezes e vezes sem fim enquanto nos entristecemos ainda mais. A melhor forma é mesmo admirar a sua obra. Portanto, para além de terminar de ouvir a discografia, de ouvir repetidamente o novo (e último) album... Vamos ver os filmes que me faltavam ver! Começamos pelo Labirinto, um filme de fantasia dos anos 80 que veio mesmo a calhar, pois *adoro* este tipo de filme!

Uma miúda mimada vive num mundo de fantasia, em que o Rei dos Goblins é o seu apaixonado e onde ela pode fazer tudo o que quiser. Mas quando o verdadeiro Rei dos Goblins aparece e leva o seu irmão bebé para longe, para o tornar num goblin, a rapariga tem de mudar um pouco a sua perspectiva de vida. Pois, para salvar o irmão, tem de ultrapassar um misterioso e complicado labirinto, cheio de criaturas estranhas que nem sempre são muito simpáticas.

É um filme simples, com uma moral amorosa no final. Afinal, é revelado que tudo não passa da imaginação da moça, os goblins, Jareth (o rei) e até mesmo os seus amigos, e que a imaginação pode controlar uma pessoa até a dominar completamente. O melhor é focar-nos na vida real e voltar a esse reino encantado só de vez em quando, para fazer uma festa.

A minha parte preferida é, sem dúvida, o universo em que isto se passa. Os bonecos e marionetas estão todos muito bem feitos e são muito realistas, embora alguns efeitos especiais estejam já desactualizados. Os personagens têm todos muita força, uma capacidade inata para nos encantar e desejar viver neste reino dos goblins onde David Bowie é o rei. Para mim, é realmente o rei de todo o filme. Não só porque compôs uma banda sonora cheia de vivacidade, fazendo as vozes necessárias a todos esses personagens, como manda naquela gente toda e é o mais maluco do conjunto. <3

Talvez a parte menos boa tenha sido a actriz principal, que não foi muito expressiva e que não demonstrou correctamente a evolução da sua personagem.

Mas confesso que adorei o filme: eu gosto imenso desta fantasia cinematográfica dos anos 80 e por mim via estes filmes todos os dias!

Digimon Adventure Tri: Saikai

Digimon Adventure Tri: Saikai
Motonaga Keitarou - Toei Animation
Anime - Filme
2015
6 em 10

Confesso que foi com grande excitação que recebi a notícia deste filme. Afinal, Digimon foi uma parte integrante da minha infância e adolescência. Lembro-me que ao início rejeitei vê-lo: "não passa de uma imitação barata do Pokémon!". Mas depois, à medida que me fui embrenhando no mundo digital, fui percebendo as diferenças essenciais e passei a viver o mundo como se eu própria fosse uma digi-escolhida. Qual seria o meu amigo digimon? Bem, gosto de todos. :) Menos daqueles que são baratóides.

Enfim, este filme foi uma grande emoção. Foi realmente comovente ouvir a música logo ao início, que cantei atabalhoadamente em Português enquanto recordava aquela vez num evento de anime que fizeram um comboio quando passou (foi um pouco deprimente, mas foi fixe também). Mas, à medida que o filme foi decorrendo, re-ganhei a minha objectividade e acidez característica e acabei por admitir que não lhe podia dar mais que uma nota mediana, tal como o dei às séries que vi.

Pois bem, neste filme tudo começa com a vida normal dos nossos amigos na escola. Um dia desses, há vários eventos importantes: um concerto, um jogo de futebol, etc. E nesse dia, há uma falha qualquer na divisão do mundo normal e do mundo digital e o nosso universo é invadido por um feioso que se mete a destruir tudo. Tai prepara-se para o parar com as suas próprias mãos quando... Aparecem os nossos amiguinhos digitais!

Até aqui tudo bem. Infelizmente, achei que o facto de todos terem digivoluído assim que aparecem um pouco exagerado e sem contexto, como se as digivoluções fossem apenas uma oferta para os fãs e não fossem de todo necessárias para a narrativa. Esta, não tem consistência e não procede com um ritmo adequado. Apesar de o filme estar cheio de acção, acaba por não se chegar a lado nenhum, servindo apenas como um ponto introdutório ao tema. Sei que existirão outros filmes (mais três, segundo consta), mas gostaria que tivesse havido mais conteúdo nesta primeira instância.

A animação não está má mas, apesar dos elevados valores de produção, não existem cenas espectacularmente bem feitas. Está bastante mediano, até. Surpreendentemente, ao contrário de muita gente, até gosto bastante dos novos designs. Nos digimons não se nota muita diferença (estão mais magrinhos, talvez), e nas pessoas a evolução do estilo combina bem com o crescimento físico dos personagens. Infelizmente, estes não são explorados nas suas diferenças em toda a plenitude. Existem vários momentos em que os personagens referem o quanto mudaram ao longo dos anos, mas no fundo a mudança não é de todo evidente e mantêm-se exactamente iguais àquilo que eram há 10 anos atrás.

A música é absolutamente nostálgica e uma das melhores partes do filme.

No entanto, todo o filme acaba por ser um aviso à nostalgia, apenas um presente de fãs para fãs. Não me parece que sirva bem para introduzir novas pessoas no universo desta fandom e acaba por ser uma mera bolachinha que, sabendo bem, acaba rápido e se esquece facilmente.

Otaku no Video

Otaku no Video
Mori Takeshi - Gainax
Anime OVA - 2 Episódios
1991
6 em 10
 
Um anime muito curioso, pois trata-se de um peça documental. Isto é muito raro neste meio e talvez tenha sido o primeiro e único documentário em anime que vi. Faz uma análise moderna e coerente sobre o fenómeno "otaku" no Japão, recorrendo a uma história em anime, um fio condutor que está mais ou menos baseado na fundação do estúdio produtor (Gainax), e várias entreviastas aos verdadeiros "otaku", mostrando dados estatísticos muito interessantes.

Para começar, é importante definir o termo: "otaku" é aquele que tem um envolvimento tão profundo num hobbie ou subcultura que acaba por descurar outros aspectos da sua vida, nomeadamente a vida social. O que indica que nenhum de nós é isso, pelo que desprezo a utilização do termo por um mero weeaboo ocidental (gosto muito mais deste, aliás, até eu própria me caracterizo com ele). Para mais, "otaku" é um termo ofensivo que se aplica não só a fãs obsessivos de anime, mas também a fãs de muitas outras coisas. Por exemplo, pode haver um otaku de perfumes ou de camisolas de lã.

Agora que temos isto esclarecido, falemos do anime. Começando pelas entrevistas, achei-as a parte mais interessante do OVA, já que caracterizam directamente toda esta geração de fãs de anime, no final dos anos 80, inícios de 90, que revelam uma série de problemas a nível social mas que encaram essas limitações de forma positiva. Por exemplo, "não tenho namorada mas tenho os meus animes e gosto muito deles". Este tipo de relato, o da relação amorosa, tem sido muito explorado academicamente, pois parece ser o problema mais prevalente neste tipo de pessoa. Mas também gostei da perspectiva ocidental, em que entrevistam um americano a viver no Japão e a viver a cultura pop. No entanto, achei também muito curioso que todos os entrevistados respondessem "não" à pergunta "és feliz?" Isto parece-me revelar muita coisa.

Quanto às partes animadas, estas acabam por ser ofuscadas pelo interesse das entrevistas. Mostram como uma pessoa normal acaba por se tornar num "otaku" e ganhar a vida com isso. A narrativa pareceu-me exagerada e bastante afastada da realidade, apesar de servir para tentar retratar em animação os aspectos que depois são abordados pelos dados estatísticos. Para mais, a animação não tem nada de especial, havendo muitas vezes perda de detalhe na forma e falta de cuidado no desenho base.

Musicalmente, temos OP e ED bastante apropriadas e quase cómicas.

Um anime muito interessante para quem quer conhecer mais sobre este termo, mas que poderá estar um pouco desactualizada em relação aos anos 10 em que nos encontramos. No entanto, terá também um certo valor histórico que não podemos ignorar.

12.1.16

Requiem from the Darkness

Requiem from the Darkness
Tonokatsu Hideki - Tokyo Movie Shinsha
Anime - 13 Episódios
2003
6 em 10

Kousetsu Hyaku Monogatari, 100 Stories ou Requiem from the Darkness. Muitos nomes para um só anime. Um anime que é tecnicamente perfeito mas que, por alguma razão, não me cativou totalmente.

De natureza episódica, conta várias histórias de horror presenciadas por um escritor que deseja coleccionar cem histórias de mistério. As histórias variam entre olhos derretidos, muitas espadas e cabeças cortadas, mas todas elas estão relacionadas com a incapacidade humana de aceitar a realidade, sendo que muitas vezes os "monstros" horríveis que aparecem são apenas criações da mente. No entanto, cada arco narrativo acaba por ser um bocadinho previsível e nem mesmo o extremismo gráfico me fez capaz de encontrar um terror psicológico nestas histórias curtas.

Os personagens recorrentes aparecem apenas como motor narrativo e não têm caracterização, que está reservada para os intervenientes em cada uma das histórias. Infelizmente, cada uma delas é demasiado curta para que haja um uso correcto destas pessoas, que até têm potencial até chegarem ao momento do "pânico", que tem os problemas já referidos anteriormente.

A arte é original e a animação está muito bem feita. Foi uma opção estilística muito interessante que combina muito bem com a natureza das histórias, especialmente a paleta de cores escuras e o uso (e abuso) de linhas fortes e linhas cinéticas.

A música também é original, já que fazem uso de canções em inglês para a OP e ED, um swing lento que nos remete a um universo envolvente.

No entanto, não me senti motivada enquanto via este anime, talvez pela falta de força dos personagens. Assim, não lhe poderei dar uma melhor classificação (no caso, poderei dizer que este valor é puramente subjectivo)

Zipang

Zipang
Furuhashi Kazuhiro - Studio Deen
Anime - 26 Episódios
2004
8 em 10

Há muito tempo que não via um bom anime e, para mais, um anime de guerra que estivesse realmente bem feito. Apesar de alguns defeitos, não me coibi de dar uma excelente classificação a Zipang, um anime memorável e marcante que poderá ter passado ao lado da maioria dos fãs.

Tudo começa quando Mirai, uma embarcação militar com todo o top de modernidade e todas as características mais evoluídas que poderá ter este tipo de objecto, navega pela primeira vez e, numa noite de nevoeiro, é atingida por um raio. Qual a surpresa dos seus tripulantes quando se vêm no meio do Oceano Pacífico em plena Segunda Guerra Mundial! Isto, desde já, é um pouco revolucionário no mundo do anime: é uma raridade ver animes sobre a grande guerra que tratem do assunto com objectividade e relatem factos verdadeiros sem os ocultar debaixo de metáforas como naves espaciais, robots e toda essa parafernália de invenções. São giras, claro, mas por vezes faz falta um pouco de realidade nua e crua. Mas a força da narrativa atinge o seu verdadeiro significado quando os personagens são postos à prova perante o seguinte paradoxo: este barco tem o poder de ganhar a guerra, com todas as suas características tecnológicas; no entanto, se mudarem o passado, a vida que eles têm no século XXI poderá ser completamente diferente? O que fazer? As coisas mudam quando, por acaso, salvam um agente das secretas de morrer afogado. E aí, o passado entra em jogo.

É um anime que provoca debate aceso entre os personagens, entre o que deverá ser feito moralmente, o que deverá ser feito na prática, e as consequências disto para o futuro que todos conhecemos. Os nossos personagens começam a participar activamente, embora de forma puramente defensiva e com o objectivo de "salvar vidas" numa guerra que está perdida desde a sua génese. Acabam por conhecer outras pessoas que concordam, mas também outras que não conseguem aceitar isto. E é neste caldeirão de personalidades que o espectador tem de procurar uma identificação. É fácil de encontrar alguém neste anime por quem nutrir algum carinho: há uma grande variedade de pessoas, cada uma perfeitamente construída sobre uma base sólida (um passado, uma família, uma maneira de ver o mundo) e cada uma, também, com um caminho evolutivo evidente. Os personagens que conhecemos no início de Zipang mudam radicalmente à medida que o anime se aproxima do fim e mais coisas terríveis começam a acontecer à nossa tripulação.

Se temos uma história e personagens muito sólidos, não poderemos, infelizmente, dizer o mesmo da arte. Teremos de aceitar que toda a maquinaria está muito bem estudada, com designs historicamente informados e muito funcionais. Aliás, o facto de todos estes navios e aviões terem existido realmente é um ponto fulcral na narrativa, pois permite aos personagens do "presente" ter uma vantagem em relação aos do "passado". No entanto, efeitos especiais como explosões, efeitos aquáticos, fumo, tudo isso foi feito por métodos digitais que não se coadunam bem com o resto do cenário. Este, tem pouco detalhe paisagístico e está bastante limitado a eventos marítimos.

Musicalmente, temos alguns momentos um pouco repetitivos, mas OP e ED apropriadas ao assunto que vai ser tratado.

Talvez a pior parte deste anime tenha sido o facto de não haver um final conclusivo para a história. O anime de Zipang conta-nos apenas um arco muito inicial de uma narrativa que se prolonga por pelo menos mais três anos (até ao fim da guerra). Isso desapontou-me bastante, mas não o suficiente para reduzir a classificação do anime.

Assim, recomendo vivamente que todos vejam esta peça. É original, único e muito bem feito em termos históricos e narrativos. Impressionou-me muito em algumas partes, noutras comoveu-me. Irei lembrar-me dele por muito tempo.

8.1.16

Shimoneta to Iu Gainen ga Sonzai Shinai Taikutsu na Sekai

Shimoneta to Iu Gainen ga Sonzai Shinai Taikutsu na Sekai
Suzuki Yohei - J.C. Staff
Anime - 12 Episódios
2015
5 em 10

A prova de que um nome enorme não equivale a um bom anime.

Neste Japão do futuro existe um regulamento de boas maneiras que impede elementos de cariz sexual de serem publicados ou mesmo falados. No entanto, na escola da moral superior, há um grupo de rebeldes que tenciona libertar os pintelhos. Segue-se um corropio de situações de teor moral questionável, que são a prova última da rebeldia de semelhantes salvadores da humanidade e dos maus costumes.

O universo é, de certa forma, original e está bem conseguido, havendo por todo o lado detalhes que demonstram como esta sociedade está organizada. No entanto, é um anime que se baseia totalmente nas suas piadas que, passados dois episódios, se tornam repetitivas e secas como um deserto não excitado. Se ao início era engraçado ver como as palavras ditas "proibidas" eram ultrapassadas, rapidamente se esquecem desse elemento e passam simplesmente a censurá-las com plings, poings e outros sons dignos de um cartoon Americano dos anos 70. As personagens não nutrem qualquer tipo de interesse, pois mesmo aquelas que acreditam num mundo de boas práticas se tornam em máquinas de erotismo desesperado e muita, muita baba e baboseira.

Apesar de tudo isto, a arte e animação estão bastante boas, como convém a um anime deste ano que passou, 2015. Ainda assim, a própria animação torna-se repetitiva, com a utilização dos mesmos objectos uma e outra vez para censurar a ideia de função reprodutiva masculina, nomeadamente lampreias e nabos daikon. Mas enfim, há uma boa utilização das cores e a animação está fluída e coerente com outros trabalhos deste estúdio.

Musicalmente, temos OP e ED feitas especialmente para este anime, que são divertidas ao início mas que, como tudo, acabam por cansar. Já referi os efeitos sonoros ridículos que recheiam o resto da banda sonora.

Não vale a pena ver mais do que um episódio deste anime.

7.1.16

La Gloire de Mon Pére

La Gloire de Mon Pére
Marcel Pagnol
1957
Autobiografia

Recebi este livro pelo BookCrossing. Foi o último livro de 2015 e também a primeira leitura de 2016. Quando ofereceram a oportunidade de o ler, questionei se estava escrito em linguagem simples... Afinal, já há muito tempo que não lia nada em Francês! Apesar de algumas palavras que tive de ir consultar, consegui lê-lo até ao fim! Foi uma leitura com algum interesse, mas que não gostei por aí além.

Marcel Pagnol escreve este livro auto-biográfico sobre a sua infância. Conta como o pai é uma pessoa especial (um ateu) e conhece a mãe e como a tia se casa um um religioso fervoroso. Depois disso, conta sobre a relação entre o pai e o tio e entre estes e as crianças. O livro tem algumas passagens bastante divertidas e, de certa forma, caracteriza bem a infância na época (suponho que seja algo como os anos 10-20), com todos os seus momentos divertidos e também as suas limitações.

Mas a parte que não gostei começa a partir de meio da narrativa, em que as pessoas começam a caçar e começam a ensinar as crianças a mexer em armas e a caçar. Para além disso, o narrador parece ter um grande prazer infantil em maltratar animais, o que me faz sempre imensa confusão. O relato de vários tipos de armas e das suas munições é inútil e aborrecido, para além de demonstrar que nesta época as pessoas tinham ideias bastante retrógadas acerca da vida selvagem e da sua conservação.

De resto, foi uma leitura que até foi bastante rápida. Vim a descobrir que este é apenas o primeiro de quatro livros sobre a infância do autor. Agora, até que ponto é a infância do autor importante para nós?

Nasu: Andalusia no Natsu

Nasu: Andalusia no Natsu
Kousaka Kitarou - Madhouse Studios
Anime - Filme
2003
7 em 10

Este é o tipo de filme que serve vários propósitos diferentes. Um deles, é o teste de novas técnicas de animação. O outro, é a publicidade a vários elementos.

Trata-se de um relato de uma prova de ciclismo de renome internacional, a Vuelta, a Volta a Espanha. Um ciclista luta para se manter em primeiro lugar numa das etapas, que decorre na Andaluzia, e a sua família segue-o para o apoiar. Existem alguns pontos cruciais na relação familiar, mas que são pouco explorados: nomeadamente o facto de a noiva que acabou de se casar com o irmão do ciclista ter sido ex-namorada deste. Poderia ter havido um pouco mais de ênfase nesta relação e nas consequências que isso poderia ter para a performance do ciclista. De resto, o anime publicita a Volta a Espanha e as paisagens desta terra. No entanto, não o faz da melhor maneira: a Andaluzia está caracterizada como um deserto ardente e impossível de ultrapassar, como uma terra atrasada, retrógada, em que o facto mais curioso é a culinária de beringelas. 

Ainda assim, temos a visualização de belas paisagens, com cores muito vivas e uma paleta muito variada, apesar de bastante sóbria. O contraste entre os campos secos amarelos e o céu azul sem nuvens, o brilho do sol, tudo isto está muito bem conseguido. Também a animação é excelente e a principal razão para a minha classificação. Existe um misto de animação 2D com um digital 3D, mas que está muito bem integrado. Talvez a parte menos boa tenha sido o sprint final, em que há uma repetição exagerada de frames.

Musicalmente, temos uma ED muito divertida. Tenho pena que a versão que encontrei não lhe tenha dado legendas. De resto, toda a banda sonora ajuda a trazer emoção para esta corrida de bicicletas. Este é o outro elemento que o anime publicita: o facto de que andar de bicicleta é divertido e tem muito mais estratégia em equipa do que se poderia pensar à primeira vista.

Um filme que vale a pena ver pela sua animação primorosa.

Binbou Shimai Monogatari

Binbou Shimai Monogatari
Kaizawa Yukio - Toei Animation
Anime - 10 Episódios
2006
6 em 10

Este é um simpático anime sobre a vida diária da duas irmãs. Orfãs de mãe e com pai desaparecido, vivem uma vida pobre, mas cheia de pequenas aventuras encantadoras que apenas reforçam a relação entre uma e outra.

Estruturalmente, trata-se de um anime episódico, em que cada história tem uma forma de "paz-problema-reconciliação" muito típica. Apesar disto, o facto de cada reconciliação ajudar na reformulação da amizade entre as duas irmãs é bastante satisfatório. Estas, enquanto personagens, não sofrem muito desenvolvimento para além deste elemento, um aspecto que poderia ser melhorado se outro tipo de problemas fossem apresentados. Por exemplo, existe uma curiosidade em relação à figura materna (apenas explorado no último episódio) e, sobretudo, em relação ao pai. Este poderia ter aparecido em qualquer altura para ajudar na caracterização, mas é um personagem mantido oculto.

Infelizmente, não temos uma arte equilibrada que reforce as ideias belas do anime. Existem muitos erros de anatomia e animação e, no geral, está tudo bastante descuidado. As paisagens são um pouco monótonas, sendo que muitas vezes os personagens apontam para a sua beleza (que não está bem caracterizada em termos artísticos)

Musicalmente, também é um anime pobre.

Assim, temos uma história cheia de potencial, mas que falha pelos outros aspectos técnicos e, talvez, por não ter episódios suficientes. De qualquer forma, um anime curioso a que vale a pena dar uma olhadela.

5.1.16

Hashire Melos!

Hashire Melos!
Katsumata Tomoharu - Toei Video
Anime - Filme
1992
7 em 10

Este filme é um clássico que também é um remake de outro clássico. Baseado num conto de Osamu Dazai (nome que reconheço mas de quem nunca li nada), conta uma espécie de tragédia grega, uma história com uma moral implacável mas, também, com um final feliz.

Melos é um cartaginense que vai a uma cidade grega para comprar uma espada cerimonial para o casamento da irmã. Faz alguns amigos mas, pelo caminho, vê-se condenado à morte pelo próprio imperador, um ditador com um forte sentido de honra. Então, é-lhe dada uma oportunidade: poderá ir ao casamento da irmã, desde que vá e regresse em três dias. No seu lugar ficará um amigo, que se ofereceu, que será condenado à morte em vez dele se Melos não regressar a tempo. É essa a aventura a que vamos assistir.

Para começar, temos um personagem muito forte e único. Melos é uma pessoa forte fisicamente, mas também com um elevado sentido moral e crenças bem estabelecidas. Graças a essa caracterização, a progressão narrativa torna-se verosímil e consegue puxar pelo espectador para que desejemos que tudo corra pelo melhor. Vários eventos acontecem, muitas vezes influenciados por outros personagens, que também estão caracterizados de forma perfeita no que respeita aos seus valores emocionais. Assim, é um anime muito rico e texturizado no que respeita à caracterização e narrativa.

A arte não é perfeita, apesar de o autor ter tido atenção aos erros e tudo estar muito bem planificado. Ainda assim, a qualidade da altura faz-se notar. Os designs são originais, na medida em que nem toda a gente é perfeita, e temos cenas de acção bem animadas, coreografadas e emocionantes.

Musicalmente, não há muita coisa a apontar, pois temos uma banda sonora bastante típica. Fique uma nota para o trabalho dos actores de voz, sobretudo o de Melos, que deram uma grande impressão emocional aos seus personagens.

Um filme histórico, que recomendo.

Binbougami Ga!

Binbougami Ga!
Fujita Yoji - Sunrise
Anime - 13 Episódios
2012
5 em 10

A prova de que a minha nova PtW não é assim tão fixe. E também a prova de que a Sunrise se devia dedicar aos robotos.

Temos uma miúda que tem uma bela vida e muita sorte. Como isso desequilibra o mundo espiritual, aparece uma deusa da pobreza que lhe vai tentar tirar a sorte. Uma deusa do azar, portanto. E aí está, é só isso. Treze episódios em que uma anda atrás da outra, com muita mamoca e muito peitoral masculino pelo meio, mais uma ou outra cena de epifania moral em que se prova que não precisamos de sorte mas sim de ser muito felizes. 

Os personagens são totalmente indiferentes para o espectador: não é possível criar algum tipo de empatia com eles, porque são destituídos de personalidade e de desenvolvimento. Existe uma variedade de personagens secundários que estão ali metidos a martelo e muitas cenas que deveriam ser divertidas, com bicharocos diversos e apêndices corporais (femininos e masculinos, o que parece ser uma tendência cómica destes animes dos 10). Ainda assim este anime está virado claramente para um público adolescente desprovido de massa encefálica funcional.

Apesar da arte não ser terrível, também não tem um valor de produção válido que lhe permita ter grandes cenas de animação. Temos designs cheios de brilho e cor, mas que não fazem grande sentido dentro do contexto e não são muito realistas. A deusa pobrezinha acaba por ser quem tem o design mais interessante, apesar do seu braço partido não envolver sentido nos movimentos (se ela tem o braço todo enfaixado, como consegue agarrar em coisas?)

Musicalmente, temos OP e ED aborrecidas e histericamente enérgicas, sendo que no parênquima não existe nada de maior.

Será rapidamente esquecido.

4.1.16

Banner of the Stars

Banner of the Stars
Yasuchika Nagaoka - Sunrise
Anime - 13 Episódios + 10 + 2 OVA
2000
6 em 10

Havia visto a primeira instância desta série, o Crest of the Stars, há muitos anos. Mesmo muitos. Tantos, que não me lembrava de nada dos acontecimentos dessa série. A única coisa que sei sobre ela é que devo ter adorado, porque a classifiquei com 9. Assim, estava bastante curiosa em relação a esta sequela (e, dentro dela, outras sequelas). Infelizmente, não fiquei muito bem impressionada. Talvez esse 9 tenha sido real. O mais provável seria por falta de experiência.

Esta sequela pega num outro arco da história: a guerra interestelar continua. E é apenas isso o que se passa. Uma guerra. Os personagens têm lutas galácticas com grandes naves espaciais, há estratégias diversas para termos um vencedor, há diversas batalhas físicas e psicológicas. Há muitos momentos de instabilidade política, há alguns terroristas. Enfim, o típico de uma guerra, seja na Terra ou no espaço. Assim, em termos narrativos, temos uma falha muito grande: quando não há um fio condutor forte, todos estes detalhes de combate acabam por perder o interesse, pois o objectivo final nunca será cumprido. A guerra... A guerra não acaba nunca. De certa forma, é quase filosófico.

O ponto forte é, então, a caracterização dos personagens. Acredito que alguns novos personagens foram introduzidos, sendo que a sua dinâmica é muito interessante, mesmo entre posições inferiores e superiores da escala hierárquica. São o nosso casal principal o foco mais importante, sendo que a sua relação se desenvolve e evolui de forma regrada e sem grandes imprevistos, acabando por se tornar no evento mais estimulante de toda a série.

Artisticamente, é muito curioso ver como a qualidade da arte muda drasticamente entre a primeira série e o primeiro OVA, sendo que existe apenas um ano de diferença entre elas. Fora isso, temos uma paleta de cores escura e pouco variada, sendo que os personagens alienígenas acabam por ser um pouco difíceis de distinguir (só varia o estilo do penteado). As batalhas espaciais estão bem coreografadas em conjugação com o diálogo, mas não são especiais dentro do género (que belo trocadilho...)
 
Musicalmente, temos um tema recorrente muito poderoso, sendo que os outros temas podem ser anticlimáticos de quando em quando.
 
Uma boa série mas que não recomendaria, sobretudo tendo em conta a classificação que dei à anterior.

Star Wars - Episode VII: The Force Awakens

Star Wars - Episode VII: The Force Awakens
J.J. Abrams
Filme
2015
7 em 10

E, para finalizar as celebrações de ano novo, vamos ao cinema! Como sabem, eu só vi a trilogia original, pelo que ia com uma ideia muito pouco modernizada sobre o que ia ver. Ainda assim, estava um bocadinho (só um bocadinho) motivada para ver o filme, por causa de tanta gente a falar dele a todo o instante. Mas atenção! Obrigada, meus amigos, porque não apanhei um único spoiler sobre nada!!

Pois bem, este novo Guerra das Estrelas começa num ponto muito depois do anterior. Os Jedi são um mito e uma Nova Ordem aparece para tomar conta da situação. Felizmente, existe uma Rebelião liderada pela (ex) Princesa Leia que está a tentar resolver o problema. Tudo começa quando um ponto essencial é colocado num droid, o BB-8, e lançado no meio da confusão. Um stormtrooper fugitivo e uma sucateira unem-se para o entregar ao seu dono. E o que acontecerá depois? Bem... Muitas explosões e uma profusão de cenas de acção.

A narrativa é simples e tem muito espaço para evoluir. Gostei imenso dos diálogos, que estão cheios de momentos de humor, e da relação entre os personagens. Fique a nota para o trabalho de actor, para os novos actores sobretudo, que capta muito bem o espírito necessário a uma guerra nas estrelas.

Mas, sem dúvida, o mais impressionante é o grafismo e as cenas de acção. Para começar, todo o cenáruio e personagens alienígenas é de um realismo brutal, de uma vivacidade fantástica que só seria possível juntando as técnicas antigas com as mais recentes. O cenário é altamente detalhado, tornando todos os locais em presenças vívidas e memoráveis. Há quem se queixe que o filme não tem acção... Nomeadamente a minha irmã (que não vai ler isto...)... Mas isso é mentira. O filme está recheado de cenas de perseguições, a pé, aéreas, motorizadas, cheio de lutas entre naves espaciais, explosões e coisas giras por todo o lado para a gente ver.

No entanto, pareceu-me que alguns pontos foram um pouco menos aprofundados, nomeadamente o trabalho de Harrison Ford (que parecia completamente indiferente em relação ao seu personagem) e o SPOILER que era, de certa forma, bastante previsível tendo em conta os filmes anteriores.

Fique também uma nota para a banda sonora, que se mantém pura em relação às ideias anteriores.

Não se pode fazer melhor reciclagem do que esta. Um filme apropriado para as novas gerações, mas que mantém vivo o espírito original. Estou ansiosa pelo próximo episódio, embora acredite que venha a ser ume desilusão depois de tudo o que vimos neste. ;)

Nota: vimos este filme no Almada Fórum numa sala especial de corrida com um tal som "Dolby ACTUS" ou uma coisa assim. Queria só dizer-vos que não se nota nenhuma diferença em relação a uma sala normal.

Amor Cão

Amor Cão
Alejandro Gonzáles Iñarritu
 Filme
2000
6 em 10

Há bastante tempo que queria ver este filme, pelo facto bastante simples de que gosto de cães. Mas não é um bom filme para quem gosta de cães, porque estes não passam de ferramentas narrativas.

Como é típico de outros filmes deste autor (este terá sido o primeiro de uma trilogia), há várias histórias que se cruzam num único momento, mas que não têm relação umas com as outras. O ponto que as conecta é um grande acidente de automóvel e os cães, que estão presentes em todas as histórias. Este filme caracteriza as várias faixas de uma sociedade mexicana que se esforça por se modernizar. Temos, então, a perspectiva das pessoas pobres na orla da criminalidade, a das pessoas ricas no topo do mundo, e de um homem que já se esqueceu da vida e está ali para os seus cães. São três momentos distintos que funcionam como oposição uns aos outros, sendo que cada um se exacerba nos anteriores.

A primeira história é sobre um rapaz que decide ganhar dinheiro pondo o cão do irmão a lutar contra outros cães e a apostar nisso. É uma história de encontros e desencontros, muito novelesca, em que por vezes não se compreende o porquê por trás das atitudes dos personagens. Pareceu-me a parte que estava melhor editada, pois conseguiram transmitir o espírito das lutas de cães (bem, nunca vi nenhuma com apostas, mas conheci muitas vítimas ao longo do meu percurso profissional) sem magoar cão nenhum.

A segunda parte tem ainda mais um pouco de novela dentro dela, mas há um explorar dos sentimentos dos personagens em relação à perda e à dor que tem algum interesse sentimental. O facto de haver uma separação e posterior reaproximação dos personagens, através do cãozinho, é importante, sendo que o final do arco consegue ser bastante comovente.

Finalmente, na última parte temos uma muito maior brutalidade, com um personagem memorável e muito bem caracterizado. O seu envolvimento com a família que deixou é muito emocional.

No fundo, tratam-se de narrativas de perdas e reencontros, o que tem o seu interesse, mas que estão disfarçadas por detrás de um jogo de edição que, por vezes, pode ser um pouco cansativo.

Blood Simple

Blood Simple
Ethan Coen & Joel Coen
Filme
1984
7 em 10

Como fã dos Coen que sou, era uma falha gigante ainda não ter visto o seu primeiro filme. Feito logo depois de terminarem a faculdade, tem todos os elementos que depois vieram a caracterizar o seu cinema.

O mistério inicia-se com um estranho caso amoroso entre a mulher de um famigerado dono de bar e o empregado deste. Mal sabem eles que estão a ser seguidos por um detective privado. Quando este temível personagem aparece, uma nova peça é colocada no jogo: ele é contratado pelo marido traído para matar o casal mas, em vez disso...

A narrativa aparenta ser muito simples, mas os personagens têm tal densidade que tudo se torna num jogo de gato e rato, num jogo de suspense e medo que todos têm de conseguir ultrapassar. Temos personagens incónicos, nomeadamente o detective (até escolhi um poster mais obscuro para por aqui para não o mostrar, porque é realmente único) e interpretações fantásticas. Há uma atenção ao detalhe evidente e preponderante, sem espaço para erros. Tudo nos cenários e objectos tem um sentido e objectivo, técnica teatral que muitos filmes esquecem.

O forte do filme é o estado de espírito das personagens, que se encontram numa espécie de calma depois de uma tempestade de pânico e horror, que nunca se sabe quando irá acabar. Há sempre alguma coisa a acontecer ou alguma coisa que pode acontecer e correr pelo pior.

Blood Simple é uma obra muito diferente de um primeiro trabalho. É a génese de todos estes filmes de homenagem ao ideal americano que os Coen tão bem sabem fazer. É o filme que diz "epah, estes gajos têm jeito para coisa!"

The Martian

The Martian
Ridley Scott
Filme
2015
6 em 10

E subitamente, mais um filme em que temos de salvar o Matt Damon! O que é que lhe acontece desta vez... É simples: ele é apenas um astronauta que vai a Marte ver as vistas. Infelizmente, depois de uma tempestade de areia, ele fica lá sozinho, sendo que todos os seus companheiros estão convencidos de que ele está morto.

O que sucede de seguida é a parte mais interessante do filme: como sobreviver num planeta completamente inóspito? São as soluções apresentadas que tornam esta película numa grande aventura. Tudo o que pode correr mal, corre mal. Mas com a inteligência humana e alguns materiais mínimos, tudo é possível! Não me alongarei muito sobre isto para não contar o que se passou, mas achei a maioria das coisas simplesmente geniais.

Achei também curioso o uso da tecnologia, que está num futuro muito próximo (eu pensava que o filme era muito mais antigo) e que, por isso, é muito realista. Também temos paisagens paradisíacas de Marte, que parecem estar bem fundamentadas no pouco que se conhece até agora.

Infelizmente, não temos personagens ao nível desejado. O nosso perdido em Marte está desesperado mas tem semelhante ego que acaba por ser aborrecido. Poderiam ter usado esse traço da personalidade para provocar uma evolução patente da personagem, mas não o fizeram. Quanto ao resto dos personagens, não têm muita identidade.

Um filme divertido para festa de ano novo.

Sonatine

Sonatine
Takeshi Kitano
Filme
1993
7 em 10

Começa agora a enchente de comentários sobre todas as coisas que foram observadas durante as festividades de Ano Novo. Estas, foram passadas em companhia do Mr. Brown, aquele Oficial da Earth Federation a quem eu fiz mal na MCM Expo. Mas bem, confesso que não poderei falar de tudo o que vi, porque não me lembro de algumas coisas... Foi por causa dos chocolates licorosos, creio eu.

Mas falemos de Sonatine. Depois de Hanabi tinha ficado bastante curiosa com o cinema de Takeshi Kitano, pelo que fiquei bastante feliz quando o Qui se apresentou com este filme no seu disco rígido. É um verdadeiro filme da Yakuza, a máfia do Japão, mas com uma atenção ao detalhe emocional invejável. Murakawa, um yakuza antigo e respeitado no seu meio, é enviado para Okinawa para resolver uma escaramuça entre gangs rivais. Lá, conhece um grupo de pessoas e, por força das circunstâncias, acaba isolado numa praia sem acessos.

Se por um lado a história aparenta ser muito simples, há nela muito mais do que um pequeno conto sobre a máfia. É uma análise soberba e comovente da emoção humana e daquilo que leva as pessoas a fazerem coisas que, em princípio, não seriam moralmente aceites. O personagem de Takeshi tem uma evolução curiosa: ele não cresce em direcção à conclusão, antes regride. O isolamento a que o grupo é obrigado leva-os a entreter-se com jogos diversos, brincadeiras de criança, em que o personagem é revelado como pessoa involuntariamente sádica, uma pessoa condenada à violência mesmo que esteja fora do contexto. A sua infantilização acaba com a cena final, em que há o abandono completo de si próprio e do mundo, a única solução possível para um sofrimento que poderia ter sido evitado se a escolha inicial (aquela que não vemos no filme) tivesse sido diferente.

A violência é rápida e eficiente, fria, sem chocar ou emocionar. Emocionam, sim, as imagens paisagísticas de praias e falésias, o retrato da solidão. Mas o que me impressionou, sobretudo, foi a forma de actuar de Takeshi Kitano: um génio. Dizem que tem pouca expressão, mas quem precisa de expressão quando consegue transmitir todo o tipo de sentimento apenas com o olhar?

Agora sinto-me pronta para ver ainda mais filmes deste autor!