25.3.16

Poesia de Ricardo Reis

Poesia de Ricardo Reis
Ricardo Reis
Anos 10 - 30
Poesia

Continuo na minha senda de ler a obra de Fernando Pessoa em volumes publicados pelo Jornal Expresso, que me foram cedidos pelo Stepfather (que compra o jornal frequentemente). Agora chegou a vez de ler o meu heterónimo preferido, a faceta de Pessoa que gosto mais: Ricardo Reis.

Lembro-me de quando estava na escola, chegámos a esta matéria e o professor (que era um idiota, diga-se de passagem :) ) insistiu muito na ideia de que para Ricardo Reis a vida era uma coisa moderadamente indiferente. Citando, "como um rio que passa". Agora, depois de ler grande parte da sua poesia (este volume tem poemas seleccionados e não a obra completa) parece-me que esta visão é muito limitadora e castradora.

Na verdade, parece-me que Ricardo Reis observa a vida e valoriza a vida humana como se valorizam todos os elementos da natureza. O homem, como espécie, tem o mesmo valor do que todos os objectos vivos e mortos do mundo: uma pedra, uma nuvem, um rio, um pássaro, somos todos a mesma coisa. As suas referências aos deuses antigos servem, então, não como um acreditar panteístico mas como uma forma de estabelecer a vida como igualitária e equivalente. Somos todos iguais e, acima de nós, só os deuses. Isto é válido para todos os seres e todas as pessoas, pois ele chega mesmo a referir que não prefere ninguém nem no amor nem na amizade. No entanto, a sua forma de ver as coisas não é indiferente. Ricardo Reis afirma-se em vários poemas como participante activo na vida. Ele simplesmente quer é vivê-la sossegado e sem aborrecimentos. Mas isso não significa que seja um elemento passivo.

Enfim, foi esta a minha interpretação, que pode estar totalmente errada mas é minha. Afinal, não sou especialista pessoana.

Deixo-vos, então, o meu poema preferido deste autor desde há muito tempo :)

40.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                   (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                   Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                   E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                   Pagã triste e com flores no regaço.

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