26.7.15

Dead Leaves

Dead Leaves
Imaishi Hiroyuki - Production I.G 
Anime - Filme
2004
5 em 10

Para terminar a noite, um pequeno filme (menos de uma hora), numa onda cartoonistica e estilizada que a Production I.G. gosta tanto.

Um casal acorda nu em frente de uma grande cidade, procedendo a cometer vários crimes. Depois são presos e tentam fugir da prisão, de forma bastante espectacular. A narrativa é muito simples, assim como os personagens, que têm muito pouco por onde pegar, baseando-se então o filme numa série de gags escatológicos e sexuais que se prolongam muito para além do que é preferido. Talvez este tipo de humor não seja realmente a minha praia... Para mais estava a jantar e fiquei mesmo enjoada com o teor das piadas, ainda tenho o estômago às voltas.

Enfim, o humor é - como sempre - relativo.

Falemos da animação. O estilo é uma escolha e funciona bastante bem dentro do contexto, mas a animação em si é pouco detalhada e induz o espectador em erro: por debaixo de algumas cenas aparentemente bem coreografadas, com muitos tiros e rotativos e perseguições de motas, estão personagens secundários mal animados (ou parados de todo) e cenários pouco imaginativos.

A música é explosiva mas bastante repetitiva.

Um filme um pouco oculto que tem o seu valor pela originalidade, apesar da qualidade não estar nada por aí além.
 


Last Exile


Last Exile
Chigira Kouichi - Gonzo
Anime - 26 Episódios
2003
8 em 10

Sem dúvida um dos animes mais interessantes que vi nos últimos tempos. Last Exile é um raríssimo exemplo de utilização de um ambiente e tema steampunk em anime, que nos leva até um universo único onde podemos assistir ao desenrolar de uma guerra entre oponentes de peso.

Claus e Lavie são uma espécie de senhores-do-correio: na sua vanship, uma espécie de passarola movida a vapor, entregam cartas e recados variados a todos os cantos da sua terra. As suas aventuras começam quando, enquanto participam numa corrida de vanships, são interceptados por uma nave que está a cair e decidem ir ajudar. É-lhes confiada, então, a missão de levarem Alvis, uma menina, até à grande nave Silvana, que colabora com o exército de forma pouco legal. A história demora a desenvolver-se, sendo que se adicionam cada vez mais camadas na narrativa, que se atam todas num final que, sendo pouco surpreendente, foi perfeitamente satisfatório. Se a meio da série começamos a pensar que se esqueceram de personagens anteriormente introduzidos, chegamos rapidamente à conclusão de que isso não é verdade: todos têm o seu papel e tudo está interligado. Assistimos então a uma sucessão de estratégias, motivadas pelas duas partes, que são simplesmente apaixonantes.

Já que falávamos dos personagens, devemos considerar que nem todos são aproveitados da melhor forma, apesar de todos terem uma participação importante. A alguns é dada pouca importância quando estávamos curiosos sobre eles. A outros acontece exactamente o contrário. Mas o grupo principal é explorado de forma exemplar e temos assim um grupo de personagens muito realista dentro do contexto, ao qual acabamos por nos afeiçoar e que se tornam parte integrante do nosso visionamento. A caracterização é única para cada um, sendo que se tornam pessoas vivas e mutáveis dentro do plano narrativo, que leva ao seu desenvolvimento que, apesar de ligeiro, é muito importante e uma grande motivação para nos agarrar à série. São todos pessoas muito diferentes, com passados mais ou menos misteriosos, mas com futuros que esperamos continuar a seguir. Gostei sobretudo de Al, que é desde logo apresentada como uma menina doce e sentimental mas com muita fraqueza interior, mas que cresce para ser uma personagem poderosa e mecanismo narrativo essencial.

Outro aspecto que adorei de paixão foi a arte e animação. É um dos raros exemplos em que a animação digital funciona realmente bem. Com uma paleta de cores enferrujada, o que nos remete para o tal ambiente steampunk, toda a maquinaria e cenas aéreas estão animadas com uma renderização digital um pouco arcaica mas feita de tal forma que se torna muito realista. Isto é sobretudo agradável nas cenas de perseguição e luta, com explosões opacas que parecem realmente ter sido filmadas ao vivo. Também os desenhos do céu e nuvens fazem uso deste tipo de textura, fazendo com que todo o anime tenha um certo aspecto de quadro antigo.

Finalmente, não podemos descurar a música. Misteriosa e evocativa, estabelece desde logo o ambiente de toda a série, adaptando-se perfeitamente às cenas e acabando por se tornar bastante memorável.

Uma série que me deu um prazer imenso ver e que recomendarei.

When Marnie Was There

When Marnie Was There
Yonebayashi Hiromasa - Studio Ghibli
Anime - Filme
2014
6 em 10

À terceira tentativa, finalmente consegui ver este filme, a última criação da Ghibli. Da primeira vez apanhei legendas em chinês, da segunda apanhei um ficheiro corrupto. À terceira é de vez!

Este filme fala sobre a adaptação das crianças a situações diferentes e novas maneiras de fazer amigos. Anna é uma menina inadaptada numa grande cidade, onde sofre com asma e ataques de ansiedade. É enviada para uma vila muito calma, com outros familiares, para que recupere. Lá, descobre uma grande casa desabitada. Mas... Parece que vive lá alguém! Esse alguém é Marnie, uma menina da mesma idade que, tal como Anna, se sente solitária. Tornam-se amigas imediatamente, mas Marnie está envolta em mistério.

Apesar da narrativa apelar para os valores da amizade feminina, como qualquer outro filme familiar, desenvolve-se de forma extremamente previsível e existem alguns pontos erróneos ao longo da progressão. Para começar, como é que Anna não estranha que Marnie esteja a viver numa época diferente? O que nos leva a pensar: se Marnie sabe quem é ela própria, porque é que age permanentemente como se não soubesse? Se ao início a poderíamos considerar fruto da imaginação, quando chegamos ao final só podemos concluir de que se trata de uma memória perdida que *sabe* que não existe. De resto, Marnie desaparece e aparece constantemente, sem que a sua existência nunca seja posta em causa. Pareceu-me também haver um excesso de monólogos internos pela parte de Anna, sendo que as cenas poderiam ter tido muito mais impacto se tivessem sido simplesmente retirados. Para além disso, os próprios diálogos são estranhos, parecendo haver um certo inuendo erótico por detrás das palavras de Marnie (o que é motivado também pela voz que lhe deram, demasiado madura) que não faz sentido dentro do contexto do filme. Por fim, quando Anna faz uma amiga na vida real, pareceu-me haver um desenvolvimento demasiado rápido de todas as relações, havendo uma imediata aceitação dos erros pela parte de toda a gente, o que não corresponde à vida tal como ela é.

Apesar da rotunda falha na construção narrativa, temos de admitir que a arte é espectacular. Detalhada, quase fotográfica, dá azo a cenas muito bonitas envolvendo paisagens aquáticas e vida selvagem, um ambiente bastante original. A utilização de cores está perfeita e o traço é muito agradável. Não existem grandes cenas de acção para demonstrar uma animação perfeita, mas nos momentos em que existem movimentos complexos, ela está exemplar.

A música é pouco memorável. Acredito que se o tema principal (a canção de embalar) tivesse sido repetido mais vezes, teria tido mais impacto.

Assim, temos um filme que, apesar da mestria técnica, é bastante mediano nos outros aspectos. Passou ao lado de muita gente e assim continuará.

22.7.15

iDOLM@STER Xenoglossia

iDOLM@STER Xenoglossia
Nagai Tatsuyuki - Sunrise
Anime - 26 Episódios
2007
5 em 10

Nota: Eu não sei nada sobre IdolM@ster, vi este anime porque estava nos meus planos por razões ocultas. Este comentário não compara esta série com a dos ídolos.

Uma menina muito querida candidata-se a um casting para uma escola de ídolos (idols). É seleccionada, mas infelizmente é-o para conduzir um iDOL, um robot gigante que serve para apanhar pedregulhos do espaço. Esse robot tem personalidade e desenvove-se uma relação de robofilia. Entretanto aparecem pinguins (a mascote da cena) e mais meninas muito queridas que fazem coisas variadas. Talvez não seja evidente por esta espécie de sinopse, mas achei este anime uma versão extremamente infantil do que poderia ser uma bela série de super-robots. 

A história revolve sobre um conjunto de personagens que tem tudo para falhar. Começa logo por não terem qualquer tipo de caracterização excepto gostar ou não de pinguins. As suas características básicas servem para pouco mais do que para as distinguir umas das outras. Isto leva a que a história, que deveria ser muito emocional e tinha bastante potencial no respeitante a conceitos de ficção científica, seja uma colecção de momentos de criança, com um pouco de fatia-de-vida aqui e ali e muito pouco de mecha puro e duro. Esta característica é prolongada nos designs: é muito difícil de distinguir os adultos das crianças porque - fora umas feições um pouco mais achatadas - são praticamente iguais. Há também gémeas em profusão, o que acaba por confundir o espectador um pouco.

A arte, para a época e para o estúdio (a sério, eu espero sempre coisas boas da Sunrise porque eu gosto da Sunrise e a Sunrise gosta de mim), está muito desactualizada e bastante infeliz em alguns momentos. O design da maquinaria tem algum potencial, mas acaba por ser pouco explorado porque as meninas são mais importantes. Há explosões bastantes (algumas aquática) quem não têm o efeito pretendido. Mas, em alguns momentos, encontramos a salvação em cenários bem iluminados e com cores suaves e belas.

OPs e EDs são comuns e pouco inspiradas. Quanto ao resto da banda sonora, pouco se dá por ela. Há pouco detalhe dado às vozes, sobretudo nas cenas de grandes grupos a falar ao mesmo tempo.

Enfim, um anime que ficará para trás. Mas fiquei com vontade de ver o outro IdolM@ster, o que não tem robots. :)


20.7.15

Ongaku Shoujo

Ongaku Shoujo
Ishigura Kenichi - Studio Deen
Anime - Filme
2015
5 em 10

Um novo anime do projecto Anime Mirai, que visa lançar novos realizadores tendo como suporte grandes e conhecidos estúdios. Infelizmente, este anime fica muito aquém das expectativas.

É uma comédia simples, sobre duas meninas que cantam. Com apenas 25 minutos para explorar estas personagens, elas acabam por ser bastante insossas, sem nenhuma característica que as distinga para além da irritação que causam. Na verdade, são dois recortes da caixa do chocapic muito desagradáveis e o anime estaria bem melhor sem elas. Na narrativa, desenvolve-se uma relação de amizade atribulada, que poderia ter algo de belo se as personagens fossem completamente diferentes. São tão "aleatórias" que acabam por cair num estereótipo de idiotice.

Na animação não há nada de único nem de especial. Apesar das cores vibrantes, paleta variada, os cenários não têm detalhe e tudo gira em volta destas duas meninas de design mediano. Não há qualquer tipo de variedade nem de experimentação, é um pequeno filme que não arrisca nem sai da caixa da normalidade, apesar de ter liberdade para se fazer o que quiser.

A música, que deveria ser o ponto principal, é desinspirada e mal interpretada.

Assim, fica a esperança de que os outros elementos do projecto tenham corrido melhor.

Sailor Moon: Crystal

Sailor Moon: Crystal
Sakai Munehisa - Toei Animation
Anime - 26 Episódios
2014
10 em 10 

Sailor Moon foi o anime e manga que me convenceram. Nesses tempos idos, em que eu vi as repetições na televisão uma e outra e outra e outra vez, Sailor Moon salvou-me, levou-me a outros mundos, tornou-me na fã inveterada que sou hoje. Foi o primeiro manga que li, ainda em Francês. Foi a minha primeira fanfiction. Foi o meu primeiro muita coisa. Assim, quando foi anunciado o remake, fiquei mesmo muito feliz. E por isso é que é um 10 em 10. Esta série tem muitos defeitos de ordem técnica. Não é uma série perfeita. Está classificada muito mal em sites de reviews. Mas eu amo isto de todo o coração. E a nota 10, para mim, não é para coisas perfeitas. É para coisas que me dão um prazer do outro mundo quando as vejo. São para coisas que eu adoro. É para coisas que fazem pequenas explosões no meu cérebro, ou grandes explosões no meu coração. Para as coisas perfeitas há o 9. Para coisas do outro mundo há o 10. Sailor Moon é um deles e sempre será, por mais remakes ou antimakes que façam.

Este remake pega na história original do manga, sem a corruptela das séries dos anos 90. Todos sabemos a história: uma jovem taralhoca ganha o poder de se transformar na Sailor Moon e proteger o mundo contra males variados, lutando pelo amor e pela justiça. Apesar da origem ser a mesma, a narrativa toma um rumo bastante diferente. Esta é uma série mais negra, mais adulta, com mais seriedade, apesar de ainda manter toda a magia que recordávamos. Em "Crystal" são-nos apresentados os dois primeiros arcos da história. São-nos apresentadas as personagens e elas vivem aventuras diversas, contra entidades maléficas cada vez mais poderosas.

Tanto umas como outras levaram as minhas emoções aos píncaros. As nossas personagens, as Sailor Senshi, estão caracterizadas tal qual como eu me lembrava no manga, se calhar ainda melhores. Cada uma é única e estabelecem elas força motriz para serem exemplos, das quais outras personagens de outras séries foram copiadas. Há episódios dedicados a cada uma delas, mas a sua força revela-se quando há cenas em que realmente são precisos os seus poderes. Uma das maiores críticas foi dada a Usagi Tsukino: "tem sempre de ser salva pelo Mascarado". Se isso era real no anime do antigamente, aqui acontece exactamente o oposto: Sailor Moon salva Tuxedo Kamen cada vez mais frequentemente, já que ele é tão facilmente corrompido pelas entidades do mal. São adequadas e encantadoras as vozes, que dão muita personalidade (e muito específicas) a cada uma das personagens.

A arte é o ponto mais criticado. Creio que o mundo não estava preparado para estes designs. Pessoalmente, sendo fã inveterada do estilo de Naoko Takeuchi, achei-os lindíssimos. As expressões são perfeitas e há aqui um classissismo que faltava nos anos 90, que traz grande beleza a todas as imagens paradas. Os cenários não são muito detalhados, mas têm a densidade suficiente para se fazerem entender, com grande uso de cores pastel que dão um contexto muito interessante ao aspecto gráfico da série. Temos de admitir que por vezes, até mesmo frequentemente, há erros graves de animação e proporção, mas temos também de considerar que, enquanto série original para a internet, o valor de produção não está muito elevado. Pessoalmente, gostei imenso das cenas de transformação, inseridas como uma espécie de homenagem às séries originais. Apesar de serem em animação puramente digital, um CG com cell shading que tem vindo a ganhar popularidade ultimamente, achei-as bastante bem feitas para o que a produção exigia e estavam muito adequadas e fieis ao espírito inicial.

Musicalmente, senti um pouco falta do tema da caixa de música, que adorava de paixão, mas a banda sonora está bastante completa e adequada às cenas. A OP tem muita energia e transmite com exactidão o espírito da série, sendo que a ED, mais romântica, nos leva a viajar pelo mundo da lua.

E assim, é o mundo da lua. Feito um motel, onde os deuses e as deusas se abraçam e beijam no céu. Para mim, a série que marcou o ano e, quiçá, a década. De todos os remakes que têm feito ultimamente, este foi o que me marcou. Fielmente, de duas em duas semanas, largar tudo para ver o episódio do início ao fim, sem saltar uma única parte. Senti-me como se fosse outra vez uma miúda caixa de óculos, sentada em frente da televisão religiosamente, para ver a série preferida. Espero que todos vós tenham uma série como esta no vosso coração.

Chick Corea & Herbie Hancock

Chick Corea & Herbie Hancock
Concerto
Fui a este concerto por mero acaso. O amigo do outro dia convidou o Qui para partilhar um bilhete com ele. Como eu tinha curiosidade em ver este concerto e agora tinha companhia, comprei um bilhete em segunda mão. Descobrimos depois que eles tinham para a Plateia VIP e eu estava na Plateia em Pé.

Este é um festival para pessoas mais velhas, ao que parece. Num lindo lugar em Oeiras, os Jardins do Marquês de Pombal, está instalado um palco e várias banquinhas de comidas e bebidas. Correu tudo bem à entrada, mas rapidamente a frase mais ouvida passou a ser "isto tem muito má organização". Para começar, só havia uma (UMA!) casa de banho para aquela gente toda. Estava fora do recinto, tinha de se sair mostrando o bilhete e depois entrar pela fila principal, mostrando o bilhete outra vez. Mais filas se encontravam na entrada para as plateias, sem se perceber onde começavam e terminavam, demorando eternidades a avançar. E, afinal, a Plateia VIP não tinha nada de VIP, era só um pouco mais à frente que as outras!

Quando nos separámos, fui em busca de comidas, pois tinha jantado bastante mal (e feito uma pequena birra por causa disso, perdoem-me!) mas não achei nada que pudesse comer. Então, pedi um copo de vinho. Achei um lugar na zona dos restaurantes onde, por uma abertura numa sebe, conseguia ver o palco e os artistas em primeira mão. Aí me mantive a primeira parte do concerto. Seguidamente fui comprar uma garrafa de água, perdendo o meu lugar no processo para uma nojenta que já estava a olhar para ele há milénios. Por isso, fui para a estátua do mal (uma espécie de castelo maléfico), onde comi umas pipocas oferecidas pela organização e vi o concerto mais de perto.

Quanto a este, foi excelente! Maravilhoso! Estes dois têm uma técnica, uma inspiração, completamente fabulosos! As peças eram conhecidas, mas com um twist ou outro que as tornava completamente diferentes. Dominando os pianos com uma mestria impecável, os dois conversaram durante quase duas horas, levando o público a viajar por um universo de imaginação e memórias. 

Conseguiram até colocar o público a fazer as vezes de coro, brincando connosco, interagindo de forma muito simpática e demonstrando estarem felizes por estarem ali. Falando em brincadeiras, também houve muito disso na música. De quando em quando, umas tonalidades electrónicas faziam-se sentir, uma espécie de jam não organizada mas que, por alguma razão, funcionava sempre bem.

Um concerto excelente e único, uma oportunidade que não podia perder!

 

Blade Runner

Blade Runner
Ridley Scott
Filme
1982
 7 em 10

Sábado, esse dia fantástico, ocorria em Alvalade a Sunset Party da Associação Portuguesa de Cosplay. Mas, como terão visto no post anterior, estávamos destruídos e destroçados e não nos apetecia mexer. Tinhamos de repor energia. Portanto, ficámos em casa a ver este filme. Espero que todos se tenha divertido na festa!

Este é um filme inspirado num antigo conto de ficção-científica, que eu ainda não li, denominado "Do Androids Dream of Electric Sheep?" Fala sobre um homem que procura destruir os últimos Replicantes no planeta Terra, androides humanos que têm tudo para ser iguais a nós. Excepto a empatia. Para os descobrir, o nosso personagem principal (Harrison Ford) efectua um teste de várias perguntas que visam testar a emoção dos Replicantes, avaliando a sua dilatação pupilar.

É um filme que coloca questões interessantes sobre a humanidade da máquina, mas apesar disso sinto que esse tema já teria sido explorado em outras ocasiões de forma (talvez) um pouco mais adequada. Achei que os Replicantes não estavam muito bem caracterizados, com excepção do chefe, pois foram todos eliminados com grande rapidez. Para mais, apenas um revela algum tipo de inocência que poderia ser considerada "humana", pelo que acabam por não ser realistas enquanto fonte de racionalidade e emotividade. O personagem de Harrison Ford aparece como um inadequado na sociedade do agora (2019 é o agora... Está quase aí, quero o meu Replicante), mas a falta de explicação sobre as suas atitudes acaba por as tornar um pouco erráticas.

O ponto forte do filme é a caracterização do universo, que parece muito grande e muito interessante. Numa Nova Yorque altamente asiática, toda a maquinaria, edifícios, arquitectura, tudo isso aparece com grandiosidade e detalhe extremo, com utilização de efeitos especiais muito avançados para a época.

Outro aspecto muito bom é a banda sonora, que insere tonalidades electrónicas muito complexas que distinguem cada cena como única.

Um bom filme de ficção científica, que me deixa curiosa para ler o conto original. Por sinal tenho-o no Kobo e como vou voltar ao Kobo em breve... Já sabem o que vai acontecer :3

21º Super Bock Super Rock

21º Super Bock Super Rock
(Quinta e Sexta-Feira)
Festival de Música
 
Começa a época alta dos festivais de música. Este ano não estava muito motivada. O mais perfeito era no Porto e não era conveniente lá ir e de resto não vi nenhum cartaz altamente aprazível que me dissesse "tens de ir a este festival sem falta". De alguma forma, lá fui convencida pelo Qui a ouvir Blur para depois ir ver. Entretanto, a minha mãe ficou sem companhia para ir ver o Sting e, portanto, fui com ela. Segue-se então o relato das aventuras.

Quinta-Feira
 
Tinha ido a uma entrevista na Margem Sul, de onde imediatamante me dirigi para o recinto. Após atribulada viagem de metro, chego ao local, onde está uma multidão de seres humanos numa fila, aparentemente esperando trocar bilhetes por pulseiras. Aí aguardo pela chegada da minha mãe (doravante conhecida por Minha Mãe) e da amiga dela, que também é prima (doravante conhecida por Rosarinho). Comi um gelado estranhíssimo à porta: dizia que tinha sabor a marshmellow, mas tinha uns veios amarelos.
 
Enfim, entramos e vemos mais ou menos o espaço. De um lado está o Pavilhão Atlântico (agora chama-se Meo Arena, mas eu continuo a chamar-lhe assim), à sua frente um pequeníssimo palco, o Palco Antena 3. Do lado esquerdo passamos por tendas alimentares diversas e debaixo da pala do Pavilhão de Portugal está outro palco, o Palco EDP. No Pavilhão de Portugal está uma exposição sobre o festival e passando por umas portinhas maléficas vamos ter a um jogo de reciclagem, casas de banho e outras comidas.

Bem, o espaço estava catita. Uma enorme quantidade de caixotes do lixo, incluindo amarelos para coisas de plástico, impedia que o chão estivesse impróprio para sentar. Fazia falta algum ponto verde, um bocadinho de clorofila. Apesar de não estar cheio e de, por isso, haver bastante espaço, senti que o local era muito pequeno e em nada comparável à dimensão normal de um festival de música. A parte melhor é que as casas de banho eram bastantes e normalmente estavam aceitáveis. E com papel! Yay!

Dirigimo-nos então para o Palco EDP para ver Perfume Genius. Era a única coisa que queria mesmo ver neste dia, porque é uma música realmente bonita e muito sentida. Apesar de o concerto ter tido alguns problemas de som no início (que se vieram a prolongar durante todo o festival), o jovem Perfume Genius decidiu usar esse tempo para distribuir abraços pelas pessoas. Depois, o concerto foi lindíssimo, muito emotivo. Ele parecia estar realmente feliz por estar ali, apesar da sua constante depressão. A Minha Mãe manifestou desejos de o adoptar para fazer companhia à minha avó.


A pouca distância do fim do concerto, decidimos comer. Fomos ao Psicológico, a roulotte de hamburgueres que me tem salvado frequentemente, mas não fomos muito bem servidas, o burguer estava frio e meio cru e era tudo meio horrível. 

Depois fomos para o Palco Antena 3 para ver o PZ. Foi um concerto bem divertido! Apresentaram-se todos de pijama às riscas, o que é sempre simpático, e tocaram todos os novos sucessos, cheios de humor característico. Fiquei super feliz quando apareceu a verdadeira Cara de Chewbacca! E fiquei a conhecer alguns sons novos que nunca tinha ouvido, que também soaram muito bem. Achei curioso como tocaram os intrumentais ao vivo, com sintetizadores e guitarras.


E, de repente, vemo-nos sem nada que fazer! A Rosarinho sugere ir ver o Noel Gallagher ao Palco principal (Palco Super Bock), mas confesso que nem vi com atenção. Acho um som bastante detestávelzinho. Assim, de quinze em quinze minutos mais ou menos, revezava-mo-nos para sairmos dos lugares no primeiro balcão que tinhamos arrebanhado e dar passeios mais ou menos longos pelo espaço. Casas de banho limpinhas, uma oferta ou outra (apanhámos uns lenços e umas bolsas de cintura), bares com bebidas mais chiques, como o gin da moda. Até que, finalmente, chega a hora do Sting!

Sting aparece-nos com um barbão gigante que, segundo a Minha Mãe, o faz parecer ter 70 anos. Procede a cantar todos os sucessos, tanto dele como um ou outro dos Police e vejo a Minha Mãe e a Rosarinho a delirar nas suas cadeirinhas. Também eu bato palminhas. Foi um concerto muito bom! Sting tem uma grande presença de palco e tantos anos de experiência fazem com que as suas atitudes e a sua forma de puxar pelo público sejam simplesmente perfeitas! E, curioso, pensava eu que não sabia nenhuma musica e afinal sabia todas! Gente popular é assim. :)


Saímos um pouco mais cedo para evitar a debandada e o trânsito. Tinha de descansar bastante, pois o dia seguinte seria extremamente cansativo! Vamos lá?

Sexta-Feira
 
Encontro-me com o Qui e fazemos (outra) atribulada viagem de metro até ao local. Desta vez não está tanta gente à porta, mas nós lá ficamos. Afinal, ainda estamos a aguardar a chegada de um outro amigo, o Gamito. Lá estamos nós falando quando somos abordados por uma pessoa muito chateada com a vida, da qual fugimos. Oferecem-me uma pulseirinha inútil no momento da fuga.

Entramos e faço aos dois uma pequena tour. Afinal, o espaço também não é muito grande. Reparamos em como tudo está tão bem separado e dividido e, mais uma vez, na limpeza do espaço. Realmente estamos a ficar pessoas mais civilizadas, que separam o lixo. Vamos para o Palco EDP ver o poucochinho que falta de Benjamin Clementine. Por um lado, está tudo a correr bem: tudo está a começar a horas. Nós é que estamos atrasados. Não conhecia este cantor, mas gostei imenso do bocadinho do concerto que vimos. Um piano lindíssimo, uma voz maravilhosa, um concerto emocional que me deixou com curiosidade para saber mais sobre o autor.


Dirigimo-nos para o Palco Antena 3 onde estava a dar uma coisa qualquer que já nem sei (acho que era White Haus), à qual não achei piada nenhuma. Depois fomos para o Palco Principal, onde estava a dar The Drums, banda à qual também não acho piada nenhuma e cujo concerto não convenceu. Linhas melódicas muito simples e um estilo igual a toda a gente do indie, muito sem sal. Recuperámos o sal depois de nos alimentarmos. Escolhi desta vez uma roulotte de bagels, onde mastiguei uma coisa maravilhosa com salmão fumado e queijo em paté, nham nham, quero comer outro se encontrar aquela maravilhosa roulotte.

Seguimos para o Palco EDP, onde já iam a meio Savages. Sem dúvida o concerto revelação do festival, esta banda feminina de pós-punk colocou toda a gente aos saltos selvagens. Com uma energia inesgotável e contagiosa (até eu que estava em stand-by, a dormir uma pequena sesta acordada, estava a curtir imensamente), mostraram-nos sons inacabáveis, apesar de curtos, que falavam precisamente dos nossos sentimentos jovens em geral. Uma banda que vale a pena ouvir de novo!
 
 
Depois aconteceu o meu pequeno drama pessoal. Eu estava mesmo a contar esta hora entre as Savages e dEUS para descansar e estar sentada sem fazer nada. É que Blur, a banda que íamos ver, era só à uma da manhã. À uma da manhã já eu estou a dormir que nem um pedregulho com musgo! Mas não descansámos. Vimos um bocadinho horrífico de uns Bombaim do não sei quê e não me interessa e depois cirandámos pela exposição do Super Bock, onde o nosso amigo se fartou de encontrar caras conhecidas nas fotografias. Encontrei um mini jardim interior maravilhoso onde queria ficar o resto do tempo, mas continuámos a nossa deslocação, admirando os vários passatempos e umas pessoas a fazerem acrobacias aquáticas com luzes neon. Realmente as coisas de que as pessoas se lembram. Enfim, eu dei o meu melhor para resistir, mas entretanto já me doíam tanto as pernas que tive mesmo de parar e descansar. Levantámos mesmo a tempo de dEUS, mas mesmo assim eu estava fora de serviço e tive de me manter junto à grade da regie, sentadinha, a descansar e a dormitar um pouco. Mais uma vez, estive em dEUS e não vi! É um estigma com esta banda (e até curto bastante deles)

Ah sim, entretanto deram ao Qui e ao Gamito umas ceninhas luminosas que piscavam às cores e eu apoderei-me de uma e diverti-me imenso com ela, porque dava para abanar para cima e para baixo e fazer quiquiquiquiqui, que é um barulho que gosto de fazer.

Acordo mesmo a tempo dos Blur! Devo confessar que não foi banda que me tenha fascinado à primeira audição. Não sei, não gosto da voz do gajo neste tipo de música. Gosto mais dos Gorillaz, que como é mais surreal parece-me que funciona melhor. De qualquer forma, foi um concerto bem giro, pontuado por muitas músicas novas (o album novo foi o que gostei mais). Com uma grande energia, o vocalista convenceu um público adorável a cantar todas as músicas com ele, a fazer coros e a explodir em gritos e palminhas a cada movimento. Já para o final, chamou um elemento do público para o palco, e o escolhido delirou, estava mesmo contente o jovem! Para mais, muito veio o vocalista para perto do público, empinandose no gradeamento de forma a tocar em toda a gente, se bem que era por fases... Por vezes víamos ele a gritar para que os seguranças o pusessem cá em baixo, quando parecia ao início que ele queria estar connosco. Também não se compreende o dente de ouro, que é uma visão estranha. De resto, foi um concerto muito bom e mexi-me imenso com a minha ceninha que piscava. :)


E assim termina a nossa aventura. Cheguei a casa destruída e adormeci em três tempos, mas acho que valeu a pena. :)


16.7.15

Blankets

Blankets
Craig Tompson
2003
Banda Desenhada

Foi-me emprestado pela Ana-san. :) Já tinha lido outro trabalho do mesmo autor, sobre o qual poderão ler aqui.

Esta é uma obra autobiográfica, sobre a infância, a solidão, o primeiro amor, a libertação da religião. Craig Thompson começa por nos contar sobre a sua infância com o seu irmão, em longas paisagens nevadas que nunca terminam. Um manto de neve que cobre todos os painéis, cobertores que cobrem os nossos personagens. A neve é o aconchego, tal como em casa o cobertor é a segurança. 

Craig conta como foi maltratado na escola, como se sentia inadaptado. A sua fuga para o desenho, que acabou por se revelar nesta obra extremamente detalhada, é impedida por uma família altamente cristã. Então, ele procura encontrar-se na religião. Através dela, conhece uma rapariga, apaixona-se, passa uns tempos com ela.

E a neve sempre presente.

É a expressão da solidão, mesmo quando estamos acompanhados.

É uma obra intimista e esclarecedora, escrita e desenhada com melancolia e uma tristeza inultrapassável. Com este livro, compreendemos a solidão do autor, o que acaba por ser desconfortável. Apesar de tudo, ainda há bons momentos: cobertores. A arte é clara, detalhada, original, cheia de padrões e detalhes que apenas trazem mais intensidade aos sentimentos do autor.

Sem dúvida uma obra maior do universo da banda desenhada e graphic novels.





15.7.15

Catblue Dynamite

Catblue Dynamite
Higa Romanov
Anime - Filme
2006
6 em 10

Coisas obscuras são obscuras. Este filmezinho, produção independente, libertado como Original Net Animation, com dobragem em inglês e legendas em japonês, é uma dessas coisas.

Fala de uma moça que é um gato e que, por que tem uma cauda, pode segurar em três armas ao mesmo tempo. Também tem o poder de ver fantasmas. Dirige-se a um bar para se encontrar com uns tipos que não a conhecem mas que vai ajudar, na companhia de John, o seu amigo fantasma. A partir daí são perseguidos por um bando de mascarados e há uma luta com outra gaja.

É uma história simples, que aparenta ser uma espécie de episódio piloto para algo maior, que nunca chegou a acontecer. É uma pena, pois estes personagens realmente tinham potencial para se fazer algo com eles. Aliás, até as vozes americanas são muito apropriadas, apesar do diálogo ser muitas vezes um pouco foleiro e enfadonho. Mas está tudo bem, talvez fosse mesmo assim que se falava nos anos setenta.

Trata-se também de uma experiência de animação, pois encontra-se nos primórdios da utilização de animação digital com CG em cell shading. É uma animação arcaica, mas gostei bastante das expressões faciais, sobretudo da boca. Infelizmente, acaba por não funcionar muito bem nas cenas de acção, que são bastantes e acabam por parecer um pouco desadequadas, já que não há fluidez nos movimentos suficiente para que as coreografias sejam realistas.

A música é um pouco repetitiva, mas a peça usada mais vezes tem o seu charme e leva-nos de volta à época a ser retratada.

Um filmezinho interessante, que merecia desenvolvimento.

Sepulturas dos Pais

Sepulturas dos Pais
David Soares & André Coelho
2014
Banda Desenhada

Como sabem, David Soares é um dos meus autores portugueses preferidos. Ao surgir a oportunidade de comprar este novo volume de BD no Anicomics, não a perdi e adquiri-o imediatamente. Revelou-se, como sempre e mais uma vez, uma obra surpreendente, cheia de magia e de horror.

Borges é um homem que vive sozinho numa praia e que, durante a infância, descobriu os segredos da areia. A areia tem magia, a areia quer unir-se ao mar, a reunião dos pais com as mães, a reunião das sepulturas. Ele ensina este segredo a Janeiro, uma jovem desiquilibrada que só pensa em sexuar com dois homens desconhecidos.

Assim, temos um livro muito gráfico no respeitante aos temas sexuais, que são todos brutais, horríficos, nojentos. Mas isso é largamente compensado pelos momentos da areia, os momentos maravilhosos, os momentos em que há amor e em que se criam novas figuras e imagens, altamente detalhadas, de criaturas míticas que só existem na imaginação de quem está só.

O desenlace é triste, mas de certa forma impressionante: os poderes da areia mantêm-se e nada os poderá deter. A destruição aproxima-se. Uma nova sepultura será criada.

Mais uma vez, um livro interessantíssimo, impressionante e arrepiante. Recomendo vivamente.

Mugen no Ryvius

Mugen no Ryvius
Taniguchi Goro - Sunrise
Anime - 26 Episódios + 6 Specials
1999
7 em 10

Este é um anime de ficção científica que nos fala de uma situação extrema já frequentemente abordada em outros meios: o que fazer quando não há adultos por perto.

Ryvius é uma nave espacial em que vários estudantes treinam as suas capacidades para se tornarem pilotos, engenheiros, entre outras coisas. Devido a um acidente, os "adultos" são eliminados e estes alunos têm de tomar decisões de forma a sobreviverem num ambiente hostil, onde por vezes há inimigos, onde há falta de recursos e onde têm de manter a paz para conseguirem chegar a casa. Assim, desenvolve-se uma série de acções, onde estes adolescentes acabam por se dividir, lutando uns contra os outros e criando um ambiente social caótico onde não se sabe quem vai ser o próximo a ceder à pressão e ser eliminado. É uma narrativa muito interessante, potenciada por um conjunto alargado de personagens que vivem esta história e se desenvolvem de forma estável. Estes personagens têm atitudes que, adequadas à sua idade, conferem consequências graves no progresso da narrativa, sendo essencial o seu desenvolvimento para que esta também aconteça.

Por outro lado, existe um certo elemento "mágico" na história, com a existência de alguns personagens observadores que têm algum tipo de poder misterioso e um robot gigante que não se sabe bem o que está ali a fazer. Em minha opinião, este aspecto poderia ter sido totalmente eliminado, pois acaba por tornar a história um pouco confusa e, no fundo, é desnecessário na progressão dos personagens neste universo fechado.

Para a época, temos uma arte bastante boa, com designs simples e limpos, detalhados na maquinaria, e cenas de acção que não sendo espectaculares entregam as emoções necessárias. Talvez a paleta de cores seja um pouco escura para o contexto, sendo que as paisagens espaciais poderiam ser melhoradas. No elemento "mágico" os designs são incapazes e não fazem sentido, mas creio que isso poderá ser ignorado na avaliação geral deste anime.

A minha parte preferida foi, sem dúvida, a banda sonora. Tudo começa com uma OP cheia de energia e estilo, continuando com uma série de peças de beats intensos e instrumentais orquestrais. No geral, funciona muito bem e traz grande energia a cada uma das cenas. Talvez o erro principal desta banda sonora não esteja na qualidade das músicas mas na forma como são utilizadas: muitas vezes a peça prolonga-se além do necessário, para além da cena que representa e para dentro de outra que já não tem nada em comum com ela.

Mas no geral considerei um anime bastante bom, original dentro do género, que certamente recomendarei.

14.7.15

Hanabi

Hanabi
Takeshi Kitano
Filme
1997
7 em 10

Há muito que o Qui me tentava explicar quem era o Takeshi Kitano e o que era o programa "Takeshi's Castle". Bem, eu não vejo televisão e não fazia ideia. Então, fiquei sabendo que Takeshi Kitano (ou só Takeshi) é um actor de filmes hard-boiled, sobre a máfia, gangsters e bandidos, também fazendo ele sempre papel de bandido. Para o confirmar, mostrou-me este filme, escrito e realizado também por ele, que se relevou uma bonita obra.

"Hanabi" significa "fogo de artifício", o que tem ligação com uma das cenas mais intensas de toda a narrativa. Esta fala de um polícia corrupto que deve uma série de dinheiro aos yakuza. Enquanto isso, a sua mulher aproxima-se do fim de vida com um linfoma no corpo. E a sua filha morreu. Numa mistura de memórias com o presente, este personagem procura afastar a máfia do seu caminho para poder viver uns últimos momentos de felicidade com aquela que ama. Numa outra perspectiva, um polícia seu amigo sofreu um acidente de trabalho e está preso a uma cadeira de rodas, dedicando-se à pintura e procurando uma nova maneira de viver. As duas histórias interligam-se de forma emocional, enquanto uma vida se aproxima do fim e outra procura recomeçar.

Os estados de espírito são ilustrados pelos desenhos que nascem das mãos do tal amigo (na realidade pintados por um amigo do realizador). Desenhos estranhos, cheios de animalária surreal, que simbolizam muito mais do que aparentam e têm um efeito quase alucinogénico no espectador. Por outro lado, senti que as cenas de memórias são um pouco confusas, sendo difícil de distinguir o que se está a passar na realidade do que se passou anteriormente.

A música é bela e coaduna-se com as cenas, que têm um efeito pictórico, como se observássemos fotografias em movimento em vez de uma série de fotogramas. A utilização da luz é fascinante e muitos destes "quadros" transmitem uma sensação de calma profunda e também de uma tristeza inabalável.

Mas o que mais me impressionou foi sem dúvida a interpretação do actor, Takeshi Kitano. Segundo consta, ele tem "sempre a mesma cara". E é verdade. Tem sempre a mesma cara. Mas, na sua condição singular, é um actor extremamente expressivo, transmitindo os sentimentos com subtileza e exactidão, sem necessitar quase de dizer qualquer palavra. Achei um trabalho de actor impressionante.

Por isso, está aprovado o Takeshi do Takeshi's Castle. Talvez hoje em dia seja mais uma personagem cómica do imaginário televisivo do Japão, mas neste filme fez um trabalho extraordinário.

No Calor dos Trópicos

No Calor dos Trópicos
Flávio Capuleto
2011
Romance Histórico

Recebi este livro por alguma comemoração do BookCrossing, que entretanto esqueci qual era. Estava bastante motivada para o ler, já que se trata de um romance histórico passado no Brasil, na época conturbada da libertação de escravos e abolição da escravatura. 
 
Diz o autor, numa breve introdução, que escreveu o livro tendo em vista a sua adaptação para o cinema. Devo dizer que tal me parece impossível, já que o romance não corresponde ao nivel de qualidade que seria de esperar. A história gira em volta de um triângulo amoroso, de paixões e traições, que se desloca para o Brasil de forma a consumar-se definitivamente. Assim, é um romance que se poderia passar em qualquer época: o tema da abolição da escravatura passa para segundo plano, sendo que a sua utilização aparece mais como mecanismo narrativo em vez de ser um tema principal em discussão.
 
Para mais, a escrita é desadequada ao tipo de romance, com erros históricos constantes e um uso de linguagem moderna que não se conjuga bem com as personagens. Não há detalhes correctos em termos de vestuário ou de alimentação (quem usa um "slip" neste século?) e a gíria utilizada não é de todo coerente, quer com a época quer com o estatuto social dos personagens (que visconde manda outro "por a boca no trombone"?)
 
Os detalhes históricos são incorrectos e isso não é perdoável do ponto de vista deste tipo de romance, apesar de o autor insistir bastante no facto de isto ser uma obra fantasiada e vinda da sua cabeça. Não é admissível.
 
Para mais, o livro está recheado de cenas sexuais constantes, inapropriadas e descritas de forma repetitiva (como gostam estas pessoas de "cavalgar"). Não trazem em si nenhum tipo de beleza erótica e parecem estar metidas a martelo, tais quais umas batatas a murro, pelo meio de uma narrativa simplificada e cuja existência parece estar em função da descrição dos actos sexuais.
 
Um livro que me desapontou bastante, pois o autor deveria ter pesquisado mais (pesquisou bastante, como se vê na bibliografia, mas não foi o suficiente ou nos locais correctos). Ainda assim, espero que não deixe de escrever, pois imaginação tem bastante. :)

13.7.15

Pretty Rhythm Aurora Dream

Pretty Rhythm Aurora Dream
Hishida Masakazu - Nomad
Anime - 51 Episódios
2011
4 em 10

Quando nos sentimos mal com a vida, um pouco deprimidos, tudo o mais, há sempre uma solução: ver um anime de meninas mágicas. Ainda por cima, meninas mágicas no gelo! Quem poderia pedir melhor? Infelizmente, Aurora Dream tinha tudo para correr mal. Tudo correu mal.

A premisa base é a de que uma menina destrambelhada ganha a oportunidade, e os materiais para, participar em espectáculos de ídolos, que depois se transformam numa espécie de competição, um género de música pop no gelo (ou o que quer que seja aquela superfície). Ela encontra amiguinhas com os mesmos objectivos, juntam-se para fazer uma super-banda-grupo-coise-pop e dançam muito em diversas situações. O culminar da magia acontece com os "saltos"#, em que a fantasia e a alegria acontecem numa explosão de frutas, chocolates ou bolas de futebol, é conforme. Vamos admitir isto com naturalidade: num anime deste género não é necessário que as coisas tenham muita lógica.

Mas há algo que eu não consigo suportar, que é a redução dos personagens a um conceito moral irrelevante e nada educativo. Isto é, estas meninas, estas personagens, são recortes da caixa dos cereais que insistem num código de valores completamente desadequado e afastado da realidade. O que acontece aqui é a redução da figura feminina às suas roupas (elas só conseguem fazer os espectáculos com as roupas adequadas) e a algo como "fofoca" ou "mexeriquice". Para um anime dirigido a meninas pequenas, isto não é o tipo de coisa que deveria transmitir. Estas personagens não motivam as crianças a procurar o sucesso através das suas próprias capacidades. Indicam-lhes que o caminho correcto é o do consumismo e o da quebra de valores morais até ao culminar de toda a felicidade feminina que é, como não podia deixar de ser, o "vestido de noiva". Reparemos que este anime foi produzido e concebido no "agora", na actualidade. Pensei que já tivéssemos ultrapassado este tipo de assunto. Mas pelos vistos o Japão continua a  procurar educar as suas meninas como pessoas descerebradas e introduzidas a murro numa sociedade consumista.

A arte é de um horror indescritível. Mas tentarei descrever de qualquer forma. Existem erros constantes, na utilização de cores, nas proporções, nos movimentos. Os designs das roupas das personagens são pavorosas, completamente deslocadas de qualquer tendência de moda que pudesse estar em voga na altura. Os momentos de dança, imensamente frequentes, estão animados digitalmente com utilização de cell shading. São repetitivos, plásticos, poliédricos, arcaicos. As sequências de animação dos saltos, que poderiam ter algum tipo de beleza, caem no ridículo com tal facilidade que é impossível levar este anime a sério, sendo fofinho ou não fofinho.

Musicalmente, podemos dizer que tem uma grande variedade. Mas quantidade não se equipara a qualidade. As músicas são um pop desinspirado, vulgar, com letras que não fazem sentido e que apenas apelam aos sentimentos que referi anteriormente. 

Quando li reviews deste anime diziam frequentemente "eu sou um homem com barba e gosto de coisas fofas, portanto gosto disto". Mas isto não é fofo. É simplesmente horrível.

8.7.15

Submissão

Submissão
Michel Houellebecq
2015
Romance

Decidi experimentar de novo este autor para ter mais certezas sobre ele e sobre a sua escrita. Cheguei a uma conclusão: Houellebecq escreve para chocar.

Desta vez cria uma situação imaginária, mas bastante coerente dentro de um contexto de futuro próximo, em que o governo francês passa a ser liderado por uma frente muçulmana que, imediatamente, impõe reformas na vida das pessoas e, sobretudo, na educação. Para falar sobre isso, temos um personagem principal inadaptado e triste com a vida, que se dedica ao ensino universitário e a beber copiosamente todo o tipo de licores, vinhos e aguardentes. E a observar o estado do tempo com bastante exactidão: a parte agradável sobre este personagem é que ele gosta de nuvens (eu também gosto muito delas)

Ao iniciar o processo de conversão de França ao Islão, o autor começa com vagos contornos apocalípticos, que são muito pouco explorados. Na verdade o livro é uma análise metafísica de várias coisas, que acabam por não ter qualquer consequência prática nas decisões do personagem, e de reflexões extensas sobre a obra de um autor clássico rebuscado.

Tudo isto poderia ser interessante, mas infelizmente o autor perde a razão: o que ele deseja retratar é a "submissão" a um estado de coisas que pode ser possível. Mas ele caracteriza esse "estado de coisas", toda uma religião, de forma extremista, racista e machista. Fá-lo de forma muito subtil, mas perante a conclusão não podemos deixar de ficar tristes pela ignorância do autor: ele considera, simplesmente, que a conversão ao islamismo é uma questão de ter mulheres em quantidade e qualidade, em vez de ser algo espiritual.

Será isto verdade? Não gosto de acreditar muito nisso.

Enfim, dizem que à terceira é de vez, mas creio que não voltarei a experimentar este autor e as suas fortes opiniões reaccionárias.

Area 88 (TV)

Area 88 (TV)
Nomura Yuuichi - TV Asahi
Anime - 12 Episódios
2004
6 em 10

Um recontar da história do OVA original dos anos 80. Para saberem mais sobre eles, consultem aqui. Infelizmente, esta nova série de meados dos 00s é bastante inferior à instância anterior.

A história é a mesma, um jovem que acidentalmente se vê como piloto de aviões numa guerra civil inacabável. A diferença principal é o foco diferente dado aos personagens secundários e às estratégias de guerra que se desenvolvem ao longo dos episódios. Podemos dizer que, em si, a narrativa não tem nada de extraordinário, sendo que o aspecto mais contundente deste anime seria a manifestação do horror e do desespero dos intervenientes nestas batalhas. De alguma forma, isto acabou por se perder entre momentos de gag cómico e na caracterização insuficiente dos personagens. Existem alguns momentos comoventes, mas nada que nos afecte emocionalmente de forma espectacular, como no original.

Na animação temos dois polos opostos. Por um lado, segundo consta (não sei nada sobre aviões) o design e animação de maquinaria estão próximos do perfeito. Isto dá azo a grandes momentos de perseguição e o chamado "dogfight", que pelos vistos é o nome dado a combates aéreos. Por outro lado, é uma arte que se dedica muito à utilização de explosões como ponto narrativo: estas são cópias de imagem real, em termos de chamas e fumo, o que funciona muito mal dentro do contexto e dá um aspecto falsificado, pouco realista, a estas situações. Isto acaba por tirar muita da emoção que poderíamos relacionar com os personagens, ridicularizando um pouco os momentos.

Musicalmente, temos uma OP pavorosa e um repetitivo uso de elementos techno-orquestrais nas cenas de acção que rapidamente se tornam aborrecidos. Em compensação, a ED serve de homenagem à banda sonora do original, o que é sempre bom.

Assim, continuarei a recomendar o OVA dos anos 80, em preferência a esta série mais moderna. É claramente superior.

7.7.15

Comical Psychosomatic Medicine

Comical Psychosomatic Medicine
Ogura Hirofumi - Shin-Ei Animation
Anime - 20 Episódios
2015
6 em 10

Em algo mais que uma hora, vê-se este anime. Episódios de cinco minutos, cada um tentando explicar, por uma vertente cómica, doenças do foro psicológico e mental.

É um anime bastante divertido, com muitos gags que realmente funcionam, que serve como meio educativo para sabermos mais sobre este tipo de doença. Aparentemente, foca-se em problemas comuns da sociedade japonesa, que serão doenças de componente sexual e outras disfunções do género. De certa forma, isto é um pouco assustador, pois ganhamos a noção de que - se calhar - a sociedade japonesa não é tão paradisíaca como gostaríamos de acreditar.

Como conheço alguma coisa de psicologia e doenças comportamentais (é essa a minha especialização, embora seja em animais), posso dizer que o anime trata os assuntos com um certo rigor científico, o que é um alívio. Imaginemos que estariam a passar informações erradas, qual um Dr. Oz!

A animação é muito simples e poderia ter feito uso de alguma experimentação, o que joga sempre bem com o tema (veja-se outro anime do género, Trapeze). Os personagens apresentados são simplesmente representativos na sua generalidade e não se pode considerar que tenham algum tipo de conteúdo, o que também faria falta.

Musicalmente não temos quase nada, mas as vozes estão bastante bem moduladas.

Um anime divertido que nos dá mais a conhecer sobre este tipo de problema social.

Busou Renkin

Busou Renkin
Kato Takao - Xebec
Anime - 26 Episódios
2006
5 em 10

Depois de um shounen longo, um shounen um pouco mais curto.

É um anime que fala da luta contra as forças do mal fazendo recurso a um poder alquímico que gera armas poderosas com as quais se pode lutar. É uma narrativa básica, simples, sem nada de novo. Aliás, os conceitos parecem ser uma amálgama de vários animes do género, desde o shounen de batalha a uma certa influência cyberpunk, o que torna o desenvolvimento previsível e bastante aborrecido. Os personagens são vulgares e não trazem nada de único, com excepção para um antagonista estranhamente cómico, que - permitam-me a palavra inglesa - seria caracterizado como "flamboyant"

Os personagens também têm designs pouco inspirados e bastante genéricos, que não contribuem em nada para a originalidade da história (inexistente) e que apenas ligam estas pessoas a estereótipos que - em 2006 - já deveriam estar ultrapassados (mas que, por alguma razão, são repetidos ad nauseum dentro do género)

A animação tem muitas falhas, quer nos movimentos quer no próprio design. Muitas vezes as proporções estão desiquilibradas e outras tantas ocorrem erros simples (por exemplo, num momento o homem está molhado, no momento a seguir está seco) A paleta de cores é muito escura, evocando um ambiente nocturno que não tem qualquer beleza nem atractivo.

Musicalmente, temos OP animada e ED misteriorsa e interessante, mas no parênquima é mais um entre tantos.

Lembro-me que no Herman Encilopédia havia um sketch do P.I.T.O - Partido Igual a Todos os Outros. Este é um A.I.T.O - Anime Igual a Todos os Outros.

Adolescence of Utena

Adolescence of Utena
Ikuhara Kunihiko - J.C. Staff
Anime - Filme
1999
8 em 10

Para ornamentar um pouco mais o nosso fim de semana, sugeri o visionamento deste filme, que queria mostrar ao Qui já há bastante tempo. É uma outra versão, uma outra maneira de contar, a história de Revolutionary Girl Utena, da qual faço uma análise completa neste post. Nesse texto falo bastante de todos os símbolos presentes e seus significados, em minha interpretação, pelo que vos remeto para ele para o caso de quererem uma interpretação mais completa das metáforas presentes no filme. O filme é como se fosse um resumo ligeiramente alterado dos pontos principais da série, pelo que as interpretações continuam válidas para ele.

Este é um filme que fala da adolescência e da libertação de conceitos castradores, como príncipes encantados e a traição da sexualidade, através da admissão do "amor", isto é, de uma relação social sem restrições artificiais. Utena entra dentro de um mundo que, por si só, é um artifício de um conto infantil, ao qual ela se encontra presa por força das circunstâncias, da sua infantilidade. Quando é confrontada com a necessidade de lutar por uma "Rose Bride", símbolo de desejo e de atracção, começa a sua libertação. É um filme puramente surreal, em que todos os espaços e elementos são mutáveis e estão em movimento. Nada faz sentido, mas isto dá azo à criação de situações de extrema beleza.

Neste filme, ao contrário da série, Utena e Anthy são personagens frágeis que se encontram perdidas neste universo de fantasia romanesca, buscando a evolução sentimental e sexual através dos espaços em que vagueiam. É a mudança cénica e a utilização de elementos que, aparentemente, não têm lógica que tornam o filme numa experiência gratificantemente bizarra, em que procuramos sempre o significado da metáfora que está por trás das acções de cada personagem.

O filme muda de dinâmica com muita rapidez, numa fluidez que se torna impressionante. A parte final, com os carros simbólicos, acaba por ser causar estupefacção. Nesta parte insiste-se na relação amorosa entre as personagens, que não estava patente na série e que pode falhar em significância, se quisermos levar a história para além do evidente.

Em termos musicais, temos uma grande variedade de música pop que, dentro da sua integridade, pode ser considerada anticlimática num contexto de estranheza e perturbação.

Assim, temos um filme de qualidade superior cheio de minunciosidades ocultas. Uma obra para analisar e pensar.

Kurt Cobain: Montage of Heck

Kurt Cobain - Montage of Heck
Brett Morgen
2015
Documentário
7 em 10

Sábado passado, 4 de Julho, foi o dia de aniversário da minha alma mater, Gackt Camui. Tinha grandes planos para celebrar a data, que tiveram de ser cancelados, para minha grande tristeza, por falta de quórum. Assim, em vez disso, vimos o mais recente documentário sobre o representante musical de toda uma geração, Kurt Cobain, vocalista dos Nirvana e seu impulsionador maior.

Note-se que eu não conheço nada sobre os Nirvana. Não era o tipo de banda que aparecesse na revista Bravo. E eu não ouvia rádio. Bolas, na altura eu não sabia nada sobre música. Assim, fui apresentada a este documentário, o primeiro "oficial", autorizado pela família do artista, sem ter qualquer noção sobre o que se passou realmente nestes inícios de 90s. Depois deste visionamento, fiquei com vontade de saber mais sobre a música deles e estou neste momento a tirar para o computador a discografia completa (que, apesar de tudo, não é muita)

Este documentário explica a vida de Kurt Cobain desde a sua infância, tentando analisar o que é que correu mal e o levou à decisão irrevogável final. É-nos apresentada uma criança frágil, desde cedo incompreendida pelos pais, que o evitaram e impediram a sua progressão enquanto adolescente normal, que teve de recorrer à libertação das drogas para se sentir incluído num grupo. Rapidamente, é excluído e volta a encontrar maneira de se manter à tona através da criação musical e artística. Foi a partir daí, desse sentimento de exclusão e depressão constante, que nasceram os Nirvana e o hino que marcou uma geração que imediatamente se identificou com os problemas de Kurt.

Mas os problemas eram mais do que um fanatismo adolescente. Tudo isto é explicado pelos desenhos, que estão animados ao longo do filme de forma muito original, que demonstram cada vez mais agressividade e ansiedade. Existiram figuras ao longo da vida de Kurt que o tentaram ajudar, mas o dinheiro não era o suficiente para o tão necessário psicanalista. Era suficiente para uma outra forma de tratamento: heroína. Isso perturba uma pessoa de tal forma que ela pensa que está bem. Foi o que aconteceu e o que é mostrado, em vídeos caseiros cada vez mais perturbadores. Aparenta ser uma broa horrível.

O filme mostra Kurt Cobain como uma pessoa frágil e doente, que merecia ter sido ajudade e que, no auge do seu sucesso, podia ter sido ajudada. Mas o amor dos fãs, reflectido também no seu ódio, não conseguiu fazer nada por ele. Pelos vistos não é suficiente e isto é uma concepção assustadora.

O filme tem muitos momentos de animação, para além dos desenhos, que mostram o artista em várias fases. Pessoalmente, não apreciei muito estes momentos. Com uma estética que recorda os meandros da banda desenhada independente, senti que uma produção diferente, mais crua, insistindo mais em sombras e cinéticas, poderia ter dado um efeito mais poderoso a estas situações.

Finalmente, é um documentário puramente musical. Não insiste nos grandes sucessos, fazendo paralelismos a outras versões que, dentro do contexto, funcionam muito bem. Para quem é fã dos Nirvana, é uma delícia para os ouvidos. Para quem nada sabe, é motivo para despertar curiosidade. Se há quem odeie... Bem, talvez não devam ver este filme.

É um documentário intimista, sobre uma pessoa enquanto ser humano, não como figura de proa de uma banda famosa. É o tipo de filme que causa tristeza perante a inevitabilidade dos acontecimentos. E vontade de estar lá.

4.7.15

O Moinho à Beira do Rio

O Moinho à Beira do Rio
George Elliot
1860
Romance

Variemos um pouco o estilo literário e viajemos até à época vitoriana. Que, como caracterizei no outro dia, era habitada por umas pessoas muito grunhas.

Este romance acompanha a vida de dois irmãos, nas suas aventuras e desventuras, na bonança e na pobreza, em amores e desamores, fazendo um retrato mais ou menos fiel da sociedade da época. Infelizmente, na sociedade da época, era toda a gente chata como só. Não se podia fazer nada.

A primeira parte é um aborrecimento muito grande, pois fala de uma infância assim como assim feliz, mas cheia de regras. A partir do momento em que os nossos personagens vão crescendo, a coisa começa a ter um pouco mais de interesse. Mas o estilo, altamente floreado e cheio de elocuções morais que não interessam nada para o contexto da história, torna tudo numa aventura bastante maçadora.

Os personagens têm atitudes estranhas e erráticas, movidos pelas suas "emoções" que, pelos vistos, são também estranhas e erráticas. A autora (George Elliot é uma mulher) aproveita o facto de os personagens tomarem estas acções para as criticar ou para falar de grandes momentos moralistas religiosos que não trazem nada de novo. 

O livro é feito de muitos diálogos, que me pareceram bastante improváveis (embora não duvide que nesta época grunha as pessoas falassem realmente assim). Talvez a parte mais divertida sejam todos os diálogos com Bob, o bufarinheiro, que de entre todos parece ser a pessoa mais normal.

Enfim, valeu a pena ler para conhecer um pouco mais da literatura da época e ficar a saber mais um clássico, mas não posso dizer que tenha gostado...

2.7.15

Hunter x Hunter

Hunter x Hunter
Koujina Hiroshi - Madhouse Studios
Anime - 148 Episódios
2011
6 em 10

Afinal era esta a série muito longa que eu estava a ver. Já tinha visto a versão anterior, mais antiga, e sabia que esta era um remake sem os famigerados "fillers" (dos quais nem dei conta no original) e com uma prolongação da história. Ocorreu que o visse agora, a propósito do meu clube. É uma série famosa, amada por muitas pessoas, mas que terá a minha não recomendação, infelizmente. Como sempre, nadamos contra a corrente neste espaço e temos de ser maus para as coisas que as pessoas amam. Mas tudo tem uma razão. Passarei a explicar.

Tudo começa na Whale Island, uma pacífica ilha onde Gon vive com a sua mãe. Ging, o pai de Gon, é um "Hunter" famoso. "Hunters" são aqueles detentores de uma licença que lhes permite acesso às mais variadas coisas, permitindo-lhes fazer novas descobertas, resolver assuntos pendentes de variada periculosidade e, no fundo, viver constantes aventuras. Assim, Gon decide também ser um Hunter, para conseguir descobrir o paradeiro do seu desaparecido pai, que está sempre afastado por razões que a própria razão desconhece.

Tudo começa, então, com o Hunter Exam. Os candidatos terão de passar por uma série de testes que atestarão a sua capacidade para serem detentores da desejada licença. O começo é divertido, cativante, colorido, cheio de energia. Seguimos Gon e os seus novos amigos, Killua, Leorio e Kurapika, nos seus testes intensos e perigosos, desejando sempre que consigam encontrar a melhor solução. Estas são inteligentes, originais e muito estimulantes. A partir da segunda parte, processa-se uma certa mudança, que vem a afectar toda a tonalidade da série, progressivamente. Neste arco, vamos conhecer um pouco mais sobre Killua e a sua família. São momentos mais negros, mas continuamos a aprender um pouco sobre os valores que caracterizam toda a série shounen, amor, amizade e tudo o mais. No fundo, a série não deixava de ser típica, mas tinha uma originalidade refrescante nos personagens, variando entre o bom humor e o sarcasmo, e nos inimigos que vão aparecendo. Há um deles que, para mim, foi especialmente interessante: Hisoka. Apesar de, talvez, a minha opinião esteja desviada pelo facto de ele aparecer (de quando em quando) em total nudez (o que é muito agradável visualmente), senti que este vilão era mais do que o esperado. Caracterizado com uma aura de maldade, o facto de para ele ser tudo uma espécie de jogo, uma procura pelo oponente mais forte com um simples objectivo de diversão pura, é uma variação agradável ao típico antagonista.

Ora, eu sentia uma certa magia em HxH. Era algo único, apesar de estar dentro dos padrões da normalidade. Infelizmente, é difícil manter as coisas únicas. E HxH desiludiu nesse aspecto. A magia perde-se rapidamente a partir do momento em que entramos no terceiro arco. Aqui, o personagem principal é Kurapika, uma pessoa desde logo interessante na concepção. Ele procura vingar a morte do seu clã, perpretada pelo grupo das "Aranhas" e, por isso, tem de destruir os assassinos da melhor forma que conseguir. É introduzido um novo conceito, o "nen". Este "nen" acaba por tornar toda a continuação da história numa oposição constante de super poderes originais (certamente inspirados pelos "stands" de Jojo), dando uma razão para a existência de variadas formas de lutar. Este conceito torna tudo bastante aborrecido e desagradável, sobretudo porque grande parte da série é passado a treiná-lo. Enfim, voltemos a Kurapika. Este personagem, que até me era bastante querido, sofre uma profunda descaracterização de forma a torná-lo numa espécie de máquina de matar, um ser magoado, introvertido e com uma aura de maldade que não lhe era nada própria. O anime torna-se "negro" e pelos vistos é isso o que o pessoal gosta. Coisas "negras" e com muitas mortes, sangue e tudo o mais. E a magia? Pelos vistos a magia está na destruição.

Passamos para a Greed Island, um jogo que Ging dá a oportunidade de jogar. Arco extremamente desinteressante, parece estar ali apenas para estabelecer os poderes do "nen", permitir aos personagens que os aperfeiçoem e, no fundo, é uma preparação física e mental para o arco seguinte, o muito afamado Chimera Ant Arc. Para ser sincera, eu compreendo as razões que levam à maioria das pessoas gostar deste arco. Adorá-lo, até. Tem acção, tem muita acção. É negro, muito negro, com momentos horripilantes e arrepiantemente sanguinolentos. É violento. O pessoal gosta. Eu senti que, mais uma vez, houve uma completa descaracterização narrativa e dos personagens. Até Gon, que era uma criatura infantil e bem disposta, se torna num animal psicótico capaz de qualquer coisa para operar uma vingança e vencer as forças do mal. Pois é, pela primeira vez temos aqui uma força maligna invencível, mesmo aquilo que faltava a um shounen típico. Igual a todos os outros. De tal forma invencível que o autor recorre a um instrumento de extremo mau gosto para resolver a situação, acabando por não a resolver de qualquer forma. Isto é, de certa maneira poderíamos fazer um paralelismo ao passado da vida real: somos atingidos por este tipo de arma e encontramos uma espécie de paz interior. Mesmo assim, pareceu-me completamente desnecessário e teria preferido que a paz interior tivesse sido encontrada por uma outra forma de destruição: afinal de contas, o poder do velhote era de tal forma interessante que poderia ter sido aproveitado dessa forma. Para mais, o estilo narrativo (com narrador) é anticlimático, aborrecido, peca pela falta de ritmo. Nesta parte, a banda sonora torna-se de tal forma repetitiva que acaba por ser nauseante. E a integração de momentos de comédia nas situações mais abstrusas leva-as ao ridículo.

Para finalizar, recuperamos um pouco daquilo que foi a primeira parte. Um alívio, relativamente ao que passámos nos arcos anteriores. Mas, mesmo assim, senti que houve um esquecimento de personagens que eram tão importantes, nomeadamente Leorio e Kurapika.

Em termos artísticos, a série tem os seus altos e baixos, como qualquer série longa. Existem cenas de acção extremamente bem montadas e animadas, mas alguns momentos (especialmente no final) demonstram um evidente desaproveitamento de orçamento, fazendo uso de uma experimentação insossa e pouco iluminada.

Musicalmente, acontece a mesma coisa. Em alguns momentos a banda sonora é arrepiante e muito excitante mas, com o processar da narrativa e o estilo adicionado, acaba por se tornar repetitiva e cefaleica.

Enfim, uma série que poderia ter sido muito mais do que aquilo que é, tivesse escolhido um rumo diferente para si própria. Tenho muita pena que assim seja, mas não a poderei recomendar.