26.2.15

Stoner

Stoner
John Williams
1965
Romance

Recebi este livro pelo BookCrossing, onde falaram muito bem dele. Não sabia bem qual o assunto a tratar, mas definitivamente não é sobre pessoal que gosta de ervas aromáticas. Na verdade, trata-se de um livro simplesmente maravilhoso, que foi um prazer ler, que não consegui largar desde as primeiras palavras. Por isso, foi lido num instante, o que está em comum com as acções do resto da lista deste BookRing, que avançou tão rápido que me cheguei a surpreender.

Stoner é um homem que, vindo de um meio rural, entra na faculdade para estudar agricultura. Existe no seu curso uma aula obrigatória de literatura inglesa. Quando ele tem essa aula, o professor impressiona-o de sobremaneira e ele descobre uma paixão, antes desconhecida, por livros, letras e literaturas. Assim, muda de curso e acaba ele próprio por se tornar um professor desta faculdade.

Seguimos a vida de Stoner até ao melancólico momento da sua morte, aprendendo sobre as suas relações interpessoais e sobre o seu casamento falhado. A escrita é directa, bastante simples, e não conseguimos deixar de gostar deste personagem que, apesar de tudo, não passa de uma pessoa normal. O que o distingue de todos nós é a forma como se processa a sua imersão no universo literário, onde se perde e se apaixona, aprendendo mais coisas sobre a sua própria vida. 

O facto de Stoner ser professor transmite aos outros personagens e ao leitor esta paixão inusitada pelo mundo dos livros e da literatura clássica. Num ambiente nostálgico e muito realista da faculdade, que nos faz sem dúvida ter vontade de lá voltar, temos aulas com este professor e aprendemos uma série de coisas, não só sobre letras mas também sobre que acções podem ser correctas ou incorrectas para viver socialmente de forma agradável.

Os detalhes da sua vida pessoal apenas trazem mais realismo a esta pessoa que, sendo imaginada, pode ser localizada com exactidão num qualquer corredor ou gabinete, de uma qualquer faculdade que conheçamos. A incompatibilidade do casal, com consequências quase trágicas para o fruto dessa união, é apenas exacerbada pela paixão encontrada em outra pessoa, que partilha do gosto literário e que pode - com o nosso personagem - fazer actividades que ele realmente gosta. É, de certa forma, irónico como a oposição destas duas relações consegue estabelecer um personagem de força extrema, a quem queremos tanto que os momentos finais são para nós dolorosos, como se tivéssemos perdido alguém extremamente importante: como se um professor que respeitamos muito estivesse na mesma situação.

Um livro que me apaixonou desde a primeira linha e que recomendo a todos que leiam. Recomendo-o de tal forma que o vou oferecer de presente de aniversário a um amigo. :) Curioso o facto deste livro ter estado perdido no espaço-tempo até ter sido recuperado por uma casual tradução francesa. Como semelhante obra se manteve na obscuridade é um mistério. Mas talvez tenha sido melhor assim.
 

23.2.15

Bamboo Blade

Bamboo Blade
Saitou Hisashi - Square Enix
Anime - 26 Episódios
2007
6 em 10

E agora passamos para um anime perfeitamente normal. Acredito pouco nas escolhas que as distribuidoras americanas fazem para o anime que passa nas suas televisões e, mais uma vez, tal se prova.

Este é um misto de anime de desporto, Kendo, com um fatia-de-vida breve e pouco complexo. Seguimos a vida e aventuras de um grupo de meninas, focado na personagem de Tama-chan, que estão unidas pelo desporto, participando num clube de kendo e em vários torneios desta mesma actividade.

Em termos desportivos, o anime não capta muito o interesse. O jogo não está explicado de forma estruturada, pelo que acompanhar os combates não é simples, e não é o foco principal do anime. Na verdade, aparenta ser irrelevante qual o desporto que une todas estas meninas. O ponto em que a história se esforça mais é no desenvolvimento de Tama-chan e das suas relações com as outras pessoas, isto é, na forma como ela faz amigos e se abre mais a situações sociais diversas. Ainda assim, a personagem não fascina, pois é extremamente simples, e todas as outras pessoas que participam nesta história têm pouco foco e desenvolvimento, caracterizando-se simplesmente pelos seus traços principais. Não digo que sejam personagens extremamente fracas, pois estes traços acabam por ser bastante divertidos e trazem uma boa dinâmica à série.

Não temos grandes momentos de animação que nos falem muito sobre a arte. O design dos personagens é variado e apropriado às suas características. Talvez haja um foco demasiado sobre as séries de Tokusatsus que Tama-chan vê e que não aparentam ser necessários, se não para uma homenagem um pouco desregrada a este género em si.

Musicalmente, temos pouca coisa para além das músicas destas séries, que aparecem em tom jocoso. Apesar da OP não cativar, a ED acaba por ficar na memória. Em termos de vozes, são pouco distintivas.

Um anime que não prima pela sua apresentação, mas que poderá ter um efeito relaxante conforme a altura em que seja visto.

Metropolis

Metropolis
Rintaro - Madhouse Studios
Anime - Filme
2001
8 em 10

Para finalizar a noite, um excelente filme. Tenho uma história curiosa acerca dele: na verdade, eu tinha este DVD. Comprei-o há muitos anos, e até me lembro que foi na Worten de Santarém. No entanto, por alguma razão, o DVD desapareceu no tempo e no espaço e nunca cheguei a ver o filme! Por isso, estava muito curiosa em relação a ele. Não desaponta, de todo.

Metropolis é uma cidade megalómana em que grande parte das actividades é feita por robots. Na verdade, estes vivem em paz com os seres humanos, tratando dos seus assuntos, até à chegada de um político maligno que tem intenção de os destruir a todos. No entanto, esse homem manda um cientista louco construir um robot que será o líder de toda a humanidade. Quando há um incêndio na oficina deste cientista, Kenichi salva este robot, de nome Timo e fogem de uma série de situações.

A história é bastante curiosa e tem alguns pontos de debate extremamente interessantes. Na verdade, a questão que aqui se coloca é a da humanidade do robot, enquanto entidade. Será que poderemos criar uma máquina tão humana que ela própria não saiba a sua definição e se questione "quem sou eu"? E se criarmos esta máquina, será que pode ser considerada um super-humano? Para mais, se queremos eliminar todas as máquinas - que não podem ser influenciadas pelo super-humano - que sentido fará entregar a nossa vida a uma delas? São tudo elementos questionáveis que nos fazem pensar ao longo de todo o filme.

Com um conjunto de personagens bem construídos e realistas, compreendemos ao longo do filme as várias facetas da humanidade, em que o humano é um ser vivo e pensante. A ironia das acções dos personagens, perpretadas contra outras pessoas e, sobretudo, contra robots, é um ponto de muito interesse ao longo de todo o filme. Sobretudo emocionante é a parte em que os rebeldes, que sugerem libertar os robots, assassinam Pero de forma a poderem entrar na cidade (onde são imediatamente trucidados)

A animação faz muito uso de momentos digitais, mas que estão muito bem integrados nos cenários. Todos estes cenários, segundo o que me dizia o Qui, podem ser considerados uma homenagem estética ao original dos anos 20. É como se este filme quisesse trazer esse ambiente ao de cima, mas fazendo uso de muita cor e brilho, com variadas matizes, o que torna a cidade num local muito realista onde acontecem momentos de grande beleza.

Também relacionada com os anos 20 está a música, que se apresenta num misto de jazz dançável que traz muita emoção às cenas de acção. A cena final, de destruição total, é acompanhada por uma música alegre que muda completamente o teor do filme: a cena de horror passa a ser apenas consequência natural das acções dos personagens até lá. E, na verdade, a tabela de mortandada acaba por não ser assim tão elevada.

Com tantos personagens memoráveis, inseridas dentro de um contexto quase brilhante, não poderia deixar de acrescentar Timo aos meus planos de cosplay, que poderão ver no Cosplay Portfolio. :)

Um filme que recomendo bastante e que me ficará na memória durante muito tempo. Na verdade, nessa noite, até sonhei com ele!

Mais Algumas Curtas de Osamu Tezuka

Curtas-Metragens Experimentais
Osamu Tezuka
Anos 60 a 80

Depois de vermos três curtas metragens de meia hora no início da semana, deu-nos vontade de ver mais algumas enquanto esperávamos que o filme que íamos ver a seguir acabasse de chegar sob forma de torrent. Como são algumas e são todas bastante curtas, decidi colocá-las aqui neste espaço e falar delas (em vez de criar um post para cada uma, o que seria uma chatice)

Memory


Aqui, falamos um pouco sobre memórias. Com uma animação bastante enlouquecida, falamos de momentos marcantes da nossa vida, com leveza e um grande sentido de humor. No fundo, esta curta tenta moralizar-nos para a memória da guerra, que já nesta altura se dissipava para prioritarizar outras coisas.

Drop


Um marinheiro naufrago desespera em busca de uma gota de água. Aparenta ser apenas um exercício de técnica, de qualidade relativa, embora seja bastante engraçado.

The Genesis


Prova de que Tezuka era um hippie de opiniões fortes mas um pouco divergentes em relação ao que seria de esperar. Manifesto anti-feminista no seu âmago, poderá desagradar hoje em dia, mas dentro do contexto da época é muito engraçado.

Jumping


Para mim, esta curta é um pouco assustadora, pois eu tenho como pesadelo frequente isto de saltar cada vez mais alto e nunca mais parar. Também é uma curta metragem que fala um pouco sobre a guerra, mas que também se estabelece como exercício de animação. É bastante curioso.

Broken Down Film


Puro exercício de técnica, mas altamente moderno para a sua época.

Push


Estranho e filosófico, fala sobre um homem que obtém todas as coisas por carregar em vários botões. No entanto, nunca conseguirá um novo planeta Terra, que foi destruído. É uma curta metragem que dá que pensar e nos leva a questionar sobre a nossa própria realidade.

Mermaid


Para mim, o mais interessante e também o meu preferido deste conjunto. Fala sobre a liberdade de expressão e a liberdade de sonhar, numa história com uma elevada força moral que nos prova que imaginar é sempre possível. A animação é muito simples, mas dentro deste contexto tem resultados muito belos. 

Para além destas também vimos Muramasa, da qual já tinha falado neste espaço. São filmes curtos e que vale a pena ver, não só pelo seu contexto histórico e narrativas originais, mas sobretudo pela animação revolucionária, que se veio a revelar mais tarde em filmes com uma produção mais abrangente.

Vício Intrínseco

Vício Intrínseco
Paul Thomas Anderson
Filme
2014
7 em 10

Fomos ao cinema! Devo dizer que estava uma fila gargantuesca, toda ela para ver as Cinquenta Merdas da Sombra aquele filme que vocês sabem. Tanto que chegámos à sala e já o filme tinha começado há cinco minutos! Portanto, ao início, foi um pouco difícil de acompanhar.

Seguimos a história de Doc, um tipo que trabalha como detective privado e que representa em si toda a broa de ervanárias dos anos 70 americanos. Aliás, todo o filme representa esse tipo de actividade. Depois da sua ex-namorada se lhe dirigir, ele começa uma investigação que o leva até aos meandros do tráfico e consumo de drogas variadas. O filme é um pouco complexo precisamente por causa disto. Sendo que a perspectiva da narrativa é toda pela parte de Doc, passam-se uma série de coisas que à primeira vista são incompreensíveis, mas que possuem significado dentro do contexto. O complicado é tentar passar sobre aquilo que é real ou fantástico e descobrir esse tal significado. Assim, de certa forma - especialmente na parte final - a narrativa é um pouco confusa. Talvez tivesse sido mais fácil de seguir se eu estivesse no mesmo estado que Doc (dava vontade, dava)

O mais interessante deste filme é o conjunto de personagens que nos é apresentado. Toda a gente, de uma forma ou de outra, está a alucinar com alguém, alguma coisa ou alguma situação. Normalmente motivados pelo consumo de droga. Mas são todos boas pessoas, até os psicopatas nazis, se virmos a coisa conforme a perspectiva de cada um. Isto traz uma mensagem muito positiva em relação a este grupo de pessoas, os hippies, a freakalhada, sobretudo porque toda esta gente está muito bem construída dentro do argumento e passam para nós de forma altamente realista. Poderemos estabelecer teorias sobre que pessoas realmente existem e quais são apenas imaginação. Pessoalmente, acredito que toda esta gente é real, tal como é real a dinâmica entre cada um. Isto apenas pode ser conseguido por um trabalho de actor que, não sendo espectacular, está dentro das expectativas.

O filme tem imagens bastante fortes, apesar de não nos apresentar grandes paisagens. Ainda assim, em termos de cinematografia, temos alguns momentos que ficam na mente. Para mim, a cena da corrida à chuiva e as bandeirinhas vermelhas do local das obras foram os que mais me marcaram.

Outro ponto forte da película é a banda sonora. Com sons da época que retrata caindo profusamente sobbre os nossos ouvidos, é um prazer ouvir isto, como se se tratasse de uma colectânea dos anos 70.

É um filme que requer uma certa dose de concentração, mas que no final - se pensarmos bem nele - acaba por ser fiel retrato e homenagem ao movimento da época, embora toque apenas de leve em alguns temas que seriam importantes no contexto histórico. Ainda assim, creio que gostaria de rever este filme, mas desta feita debaixo da manta e em casa.

O Tintureiro Francês

O Tintureiro Francês
Paulo Larcher
2014
Romance Histórico

Livro que recebi como Ring no BookCrossing.

Num século XVII, em Portugal, um grupo de pessoas reune-se para ir a França resgatar um tintureiro, que trará sucesso à fábrica das lãs instituída pelo Marquês de Pombal. Pela sinopse, ninguém diria que grande parte do livro (cerca de metade) é uma épica história de aventuras marítimas, tendo como personagem principal uma mulher - Teresa - disfarçada de homem. A partir do meio, já o tintureiro francês está em Portugal, ficamos a saber mais sobre as técnicas de tintura de tecidos da época e o que aconteceu a Teresa na última parte das suas aventuras.

O livro está escrito numa linguagem muito adequada à época, o que torna tudo bastante interessante e revela uma grande pesquisa pela parte do autor. Infelizmente, a narrativa perde-se frequentemente por momentos altamente descritivos que são muito maçudos, especialmente no respeitante à anatomia dos barcos utilizados. Como as palavras nauticas utilizadas são do meu completo desconhecimento, foi muito difícil acompanhar estas descrições. Na segunda parte, o detalhe dado às técnicas de tinturaria é bastante interessante, mas ainda assim um pouco difícil de seguir e, quiçá, desnecessário para o desenrolar narrativo.

O livro tem interesse até aos momentos finais devido a este realismo impresso nas palavras. A cena final, então, acaba por ser demasiado fantasiosa para o teor que o livro tinha estabelecido até ali e calha bastante mal, tendo em conta tudo o que lemos.

No entanto, foi um livro que me cativou bastante e que se lê com fluidez.

18.2.15

Zettai Karen Children

Zettai Karen Children
Kawaguchi Kaiichiro - TV Tokyo
Anime - 51 Episódios
2008
6 em 10

Há algum tempo que não via uma série tão longa. Porque norlmalmente séries deste tamanho acabam por ser bastante medianas e com pouco interesse. Esta não varia muito desse parâmetro.

Num universo onde há "espers", pessoas com poderes especiais como o teletransporte e a telequinese, três meninas são do mais poderoso que há. Por isso, lutam contra as forças do mal, todos os episódios. O problema aqui é que os poderes dos "espers" não se limitam a poderes psíquicos no geral, mas passam por toda uma gama de super-poderes e super-vilões que fazem tudo e mais alguma coisa. Assim, o conceito acaba por se tornar num inimigo-da-semana perfeitamente vulgar, um qualquer shounen de batalha com o seu quê de comédia à mistura. Não achei graça.

Temos um trio de personagens que começa por ser interessante, pois são crianças. No entanto, não estão caracterizadas como crianças, transformando-se muito convenientemente em adultas mamalhudas conforme é necessário fazer as pessoas rirem-se ou não. Para mais, como em todo o trio num shounen em anime, só a que está no meio quando se faz a pose é que é importante. É ela a especial, a que tem os poderes mais fortes, de tal forma que sem ela as outras não se lembram de usar os seus próprios poderes. Isto é, se tens o poder do teletransporte, porque vais a correr atrás do mau em vez de... Te teletransportares? Existe um antagonista que aparece logo ao início e que está simplesmente ali, quer do lado certo quer do lado errado, sem muita coisa a prendê-lo à terra. Passa por pouco convincente e apenas como mecanismo narrativo, já que a história acaba por se limitar em "como a miúda do meio tem mais poderes que toda a gente".

Em termos de animação, temos episódios em que mal se repara nela e outros, aqueles com lutas mais importantes, em que é bastante boa. Os cenários não são muito detalhados, mas o design dos personagens está realista dentro do contexto.

Musicalmente, temos muito pouca coisa com OPs e EDs muito dentro do género.

Mais um anime igual a todos os outros.

Tales of the Street Corner

Tales of the Street Corner
Osamu Tezuka - Mushi Productions
Anime - Filme
1962
7 em 10
 
E para finalizar, um pequeno filme um pouco mais antigo. Aqui, acompanhamos a vida dos personagens que habitam um beco sem saída, entre postes de electrecidade e posters que estão na parede.
 
Desenvolve-se entre todos eles uma série de histórias, histórias de sobrevivência, histórias de amor, que são interrompidas pelo aparecimento de um poster um pouco maligno, muito parecido (coincidência ou não) com o Estaline. Com a mudança dos posters na parede, vemos a evolução de um regime e de repente situamo-nos dentro de uma guerra da qual será muito difícil escapar, seja-se rato, traça ou urso de peluche.
 
Com algumas cenas de animação delicadamente tocantes, de uma fluidez que ainda hoje parece ser difícil de obter, o foco principal deste anime são os vários desenhos dos posters, que são muitos e estão sempre a dançar. A imaginação que foi necessária para criar tantas imagens, cada uma delas única e altamente detalhada, é um ponto a valorizar bastante.
 
A paleta de cores é bastante escura e limitada, sendo que não há muito uso de sombras. Dentro da opção estilística aqui apresentada, é algo que faz bastante sentido e acaba por funcionar muito bem, embora a menina - única pessoa verdadeira que aparece - necessitasse de algo que a diferenciasse um pouco dos outros personagens.
 
Apesar do final trágico, de morte e destruição, esta curta metragem traz-nos mais uma vez uma mensagem de esperança ambientalista. É um anime marcante para a sua época, altamente moderno até para os conceitos de hoje em dia, que deve ser visto por todos aqueles com interesse na história do anime.

Legend of the Forest

Legend of the Forest
Osamu Tezuka - Tezuka Productions
Anime - Filme
1987
7 em 10
 
Seguidamente, avançamos um pouco no tempo para ver uma animação experimental com uns toque de modernidade. O tema é a natureza e a sua destruição pela parte do homem, mas também como esta dá sempre a volta e é impossível destruí-la totalmente.
 
Ao som de Tchaikovski, vemos duas histórias distintas. Primeiramente, acompanhamos a história de um esquilo que, ao perder a sua árvore de residência, é criado por uma outra árvore. Ao crescer, descobre que pode voar, pois é um esquilo voador. O estilo de animação varia entre algo que poderia ser considerado um desenho técnico, numa cena espectacular de fuga e sobrevivência, passando para uma opção estilística muito mais ocidental, numa mistura de Looney Toons e Disney. No entanto, a narrativa não se conjuga em nada com a destes dois estilos. É como se fosse um Bambi em que tudo corresse ainda pior, de forma realista, emocionante e até tocante. À medida que o nosso personagem cresce, também o seu desenho vai mudando, até atingir uma certa maturidade que é necessária para o desfecho moral da história.

Na segunda parte, um ditador em tudo semelhante ao Fidel Castro destrói a floresta com a sua maquinaria. As pessoas da floresta, entre animais, fadas e cogumelos que andam (!), têm de tomar uma decisão em relação ao que hão-de fazer. Acabam por decidir por uma via pacífica que, ao não funcionar, acaba por levar à vitória da natureza. Também esta secção tem influências ocidentais, com um grande toque de Fantasia nos elementos feéricos. No entanto, a caracterização moderna do ditador como elemento destruidor, não só da humanidade mas de tudo o que a rodeia, é um toque que faz toda a diferença.

Esta curta metragem poderá passar um pouco desapercebida pelo seu estilo admitidamente ocidental, mas sem dúvida que vale a pena dar-lhe uma olhadela.

Pictures at an Exhibition

Pictures at an Exhibition
Osamu Tezuka - Mushi Productions
Anime - Filme
1966
8 em 10

Como estive doente, as celebrações do Dia dos Namuraduhs, também conhecido por SãoValentimerda, foram transladadas para a noite entre segunda e terça feira de Carnaval. Para uma noite calma, sugeri vermos este pequeno filme, que tinha sido sugerido pelo meu clube. Como me esqueci de o levar, vi-mo-lo no Youtube, onde está juntamente com uma série de outros (que vimos a seguir)

Osamu Tezuka, o pai do manga tal como o conhecemos e também do anime, passou os seus anos 60 trabalhando numa série de animações experimentais, exercícios de imaginação e técnica que não podem passar desapercebidas a qualquer fã de anime. Utilizando a animação como ferramenta de crítica social, Tezuka mostra-nos o melhor que a época tinha para dar, com resultados que ainda hoje são espectaculares.

Neste pequeno filme, vamos visitar uma exposição ao som de música clássica (se bem que um pouco vanguardista). Passamos por quadros diversos, muitos deles que mostram pessoas famosas, cada um com um estilo distinto, e de repente podemos olhar para alguns em específico e imaginar a história que está por trás deles. Criticando todas as coisas, modernas para a época mas ainda actuais, desde a destruição da natureza à cirurgia plástica, passando por uma sequência impressionante sobre a guerra, podemos ver curtos momentos de animação sublime, diferente, sem regras e fazendo uso de toda uma imagética que viaja por todos os estilos comuns da altura.

A história que mais me impressionou foi a do jardineiro do jardim electrónico que, com um toque da infantilidade que os desenhos animados tinham como estigma, aborda o assunto de forma poética e com um toque de sadismo.

As sequências são muito vivas, embora a paleta de cores seja reduzida, o que faz todo o sentido tendo em conta o período histórico em que se insere.

É um filme que todos podem ver e que vale realmente a pena, tanto em termos históricos como em termos artísticos propriamente ditos. A genialidade de Tezuka não se encontra na popularidade dada por animes como Astro Boy ou o Kimba, mas nestas pequenas coisas que, estando livres das convenções televisivas e censura, ultrapassam as barreiras do políticamente correcto e criam algo fundamentalmente único.

15.2.15

Fathers and Sons

Fathers and Sons
Ivan Turgenev
1862
Romance

Recebi este livro pelo BookCrossing e literatura russa faz sempre bem à saúde. Se bem que este livro é tão antigo e tão cheio de pó que me questiono se foi ele que me deixou doente... Para mais, é bastante estranho ler uma coisa russa em inglês, nunca tinha feito semelhante coisa.

Livro marcante na sua época, caracteriza a diferença entre gerações de uma Rússia já de si dividida. Apesar de ser um clássico, é uma leitura bastante leve, com muitos diálogos que abordam estas diferenças e que explicam então o que define a velha guarda destas novas pessoas, que o autor chama de "niilistas". Note-se que foi também a partir deste livro que o tema se popularizou ao longo do século XIX.

É curioso, e com bastante humor à mistura, como estes niilistas aparecem. O principal é o jovem Bazarov, que ignora todas as convenções e recusa a obedecer a qualquer regra, aparecendo desprovido de sentimentos. Ironicamente, cai vítima desses mesmos sentimentos, acabando por morrer por mero acaso (uma morte hilariante por sinal, pelos diálogos que daí nascem)

Os outros personagens também são apresentados de forma um pouco caricatural, do sonhador Arkady ao dandy Pavel, acabando cada um deles por demonstrar uma faceta da sociedade russa da época.

Não será um clássico com a profundidade emocional que um Tolstoi ou um Dostoiévski nos dão, mas mesmo assim é uma leitura bastante divertida.

Vampire Princess Miyu

Vampire Princess Miyu
Hirano Toshiki - AIC
Anime OVA - 4 Episódios
1988
6 em 10

Para variar um pouco, vejamos um clássico do anime. Como estive doente demorei um pouco mais para o acabar, mas tudo bem.

Da perspectiva de uma caçadora de eventos paranormais, conta a história de Miyu, uma pequena vampira com poderes espectaculares que dedica a sua infinita vida a caçar uma espécie de monstros que atormentam a vida das pessoas normais. É um anime de conceito bastante interessante, mas que requer algum desenvolvimento, como veremos.

Cada episódio conta uma história distinta, que vagueia entre a realidade e uma fantasia pouco complexa, com alguns traços clássicos das histórias de vampiros originais. Em alguns momentos há situações bastante emotivas, relacionadas com o desenvolvimento da personagem Miyu, que é referida como uma pessoa bastante realista e com elementos que, não trazendo muito de extraordinário, acabam por se inserir nas nossas emoções.

em termos de arte, temos ambientes nocturnos bastante escuros, com traços misteriosos e quiçá assustadores, se pensarmos bem nas situações, com uma boa montagem de cenários e de elementos, tanto cénicos como relativos às pessoas presentes. A violência está bastante contida a nível gráfico, deixando-nos a pensar nela, o que é sem dúvida um bom truque para manter as características de "horror" sem chocar demasiado. O estilo clássico liga muito bem com o ambiente geral do OVA, que é calmo e, por vezes, um pouco monótono.

O anime é bastante silencioso, havendo poucos momentos musicais, pelo que a banda sonora seria um ponto a melhorar. Isto por vezes não funciona, pois os momentos de silêncio não são quebrados nem por ruídos em geral nem por diálogo o que, em vez de elevar o stress das situações, apenas as torna um pouco aborrecidas. Em termos de ED, temos um instrumental sem nada de especial.

Ainda assim, é um anime bastante curioso que merece sem dúvida um aprofundamento nas histórias e conceitos. Para isso temos uma série dos anos 90, que verei em breve.

Regresso ao Futuro II

Regresso ao Futuro II
Robert Zemeckis
Filme
1989
5 em 10

Ora bem, chega o dia da Cosplay Photoshoot, à qual vou todos os anos. Há bastante tempo. Tanto coloquei progresso do meu fato lindo e maravilhoso no livrodascaras que alguma dazinimigaz invejosas deve ter visto e rogado uma praga, porque fiquei doente. Na cama. Na lama. Com febre. A morrer. Quando me consegui levantar e deslocar-me até à sala, estava a dar este filme, que fiquei a ver.

 Como é certo e devido, adoro este filme. E o primeiro. O terceiro nem tanto. É sempre um prazer revê-lo, embora nunca possa afastar o olho clínico que diz... Oh.

Em viagens para trás e para a frente, entre futuro e passado, Marty McFly e Doc vivem aventuras diversas em que tentam que o presente - que foi mudado por acidente - volte à normalidade. São viagens divertidas, cheias de efeitos especiais que, para a época, acabam por funcionar bastante bem. 

É sempre engraçado ver que já estamos em 2015 e que, apesar de já haver ténis prateados, ainda não há skates voadores. Nem carros, ainda nem sequer resolvemos o problema da energia global. Neste aspecto, o filme envelheceu muito mal. É sempre esse o problema de se fazerem coisas passadas num futuro próximo.

Já não me lembrava das capacidades silenciosas de Marty McFly, que apesar de tudo acabam por raramente dar em alguma coisa, o que torna o visionamento do filme um pouco frustrante. 

Mas é sempre muito divertido ver estes filmes e agora fiquei com vontade de ver a trilogia completa. :)


11.2.15

Kareshi Kanojo no Jijou

Kareshi Kanojo no Jijou
Hideaki Anno - Gainax
Anime - 26 Episódios
1998
5 em 10

KareKano faz parte do imaginário americano dos finais dos anos 90. Assim, está recomendado em todas as listas, por toda a gente. No entanto, não é especialmente bom. Apesar disso, tem uma certa mãozinha daquele que foi o criador de Evangelion, o que se nota em algumas partes (as melhores)

Um shoujo, uma história de amor. Uma rapariga mente a si própria e esforça-se por ser boa em tudo. Quando é ultrapassada por um rapaz, decide ser ela mesma e apaixonam-se. E tudo se resume a isto, num misto de drama e comédia em que se exploram as várias facetas de um sortido de personagens. A partir do momento em que a relação se estabelece, mais ou menos a meio da série, deixamos de ter narrativa: passamos a episódios soltos, com dois ou três que servem de consolidação da matéria dada (coisa bastante desnecessária num anime de 2cours), que relatam as aventuras e desventuras escolares e que introduzem novos personagens. O que me pareceu extremamente inútil.

Os personagens também não são desenvolvidos para além do "sou mais do que as aparências". Esse elemento, presente em todas as pessoas da série, fica muito pouco explorado, pois não há densidade emocional para nos identificarmos com elas. Acabam por se tornar em resumos delas próprias, sendo que cada um tem uma persona "falsa" que querem oprimir fazendo uso de uma realidade que serve como mote para a comédia. Que não funciona na maioria das vezes.

Quanto à arte, certamente que divide opiniões. É evidente que o orçamento para esta série estava muito reduzido, sobretudo a partir do meio. Mas é nessa altura que se faz uso de técnicas de animação experimental que têm um efeito original e muito interessante. A opção estilística de misturar imagens reais com animação também funciona de forma muito curiosa, assim como a utilização de texto para auxiliar nos pontos narrativos. Também fazem uso de desenhos rascunho, que recordam o próprio manga onde a série terá sido inspirada, o que dá um aspecto muito suave e romântico às situações em causa. No entanto, também existem momentos muito maus, sobretudo aqueles em que tentam explorar situações cómicas ou em que os personagens não mexem a boca para falar.

Musicalmente, temos um conjunto de peças interessantes, originais e muito apropriadas. No entanto, como são só meia dúzia, rapidamente se tornam obsoletas e repetitivas, sendo que muitas vezes estão utilizadas em momentos pouco adequados, tornando a situação anti-climática.

Um anime com muitas falhas, mas que talvez valha a pena ver se o visionante tiver interesse numa animação um pouco diferente.

O Funeral da Nossa Mãe

O Funeral da Nossa Mãe
Célia Correia Loureiro
2012
Romance

Depois de Demência achei por bem aproveitar a oportunidade de ler outro livro desta autora. Infelizmente, apesar de ter havido coisas que melhoraram, foi uma leitura bastante fastidiosa e aborrecida.

Três irmãs reunem-se numa aldeia no Alentejo para o funeral da mãe (por acaso chamada Carolina, como esta pessoa que vos fala [não, o meu nome não é Zeus]), onde descobrem coisas sobre a relação "disfuncional" desta com o pai, que já morreu ao tempo. Repare-se que esta palavra, "disfuncional", é repetida vezes sem conta ao longo da narrativa. E, na verdade, a relação não parece tão disfuncional assim, quem é estranha é a Carolina que, apesar da sua falta de caracterização, aparece como obsessiva e neurótica.

Também as filhas, que são três, estão caracterizadas de forma muito amadora. Ao longo do livro são-nos dados traços gerais sobre a sua personalidade, uma forte, outra é emotiva, outra não se sabe bem. Mas em termos de profundidade, apenas os flashbacks dão algum sumo a tudo isto. E todos eles, excepto os que explicam a relação dos pais, são praticamente inconsequentes para o desenvolvimento das personagens.

Mais uma vez  a Editora Alfarroba falha no ramo da edição, sendo que encontrei uma série de erros ortográficos e de sintaxe ao longo de todo o livro.

Achei que a história podia ter-se contado em muito menos palavras, isto é, que foi desnecessário descrever as coisas várias vezes de formas diferentes para se chegar a uma imagem. Os parágrafos são enormes mas, apesar disso, têm muito pouco conteúdo prático.

É um livro que precisa de ser fortemente limado.

10.2.15

The Galaxy Railways

The Galaxy Railways
Kikuchi Yasuhito - Planet
Anime - 26 Episódios
2003
6 em 10

Esta é uma adaptação recente de mais uma das histórias do sempre infinito Leijiverso, com elevada inspiração no Galaxy Express 999.

Neste anime seguimos as aventuras diárias do grupo de pessoas que protege a rede de Galaxy Expresses, os comboios da galáxia, de diversos problemas, de piratas a quedas aparatosas em planetas desconhecidos. Infelizmente, ao contrário de outros animes do mesmo grupo, este encontra-se americanizado de tal forma que os conceitos sugeridos por Leiji Matsumoto não são tocados, nem ao de leve. Assim, este anime de grande potencial está reduzido a episódios com pouco interesse filosófico, apenas aventuras normais, como já vimos tantas vezes.

Apesar das histórias dos episódios serem pouco originais, os personagens encontram-se bastante bem desenvolvidos, sendo que todos eles têm pelo menos um episódio que lhes é dedicado. Com recurso não só a flashbacks como também a símbolos diversos, é criada uma empatia com os personagens bastante única. Infelizmente, o seu destino não é o melhor, quando a narrativa decide entrar pelo caminho bélico, como num vulgar shounen de batalha.

Infelizmente só encontrei este anime numa versão com pouca qualidade, pelo que não pude - certamente a- apreciar a arte devidamente. Ainda assim, pareceu-me que não havia grande detalhe nas ilustrações do espaço, que é sempre a parte que me capta mais interesse em animes que são lá passados. A animação dos comboios faz um uso bastante evidente de CGI, que por vezes calha como uma pedra no sapato.

A música está bastante boa, recordando os bons tempos dos anos 70, com uma tonalidade altamente épica e muito sonora. Existem momentos que, motivados por ela, se tornam bastante emotivos.

É um anime bastante mediano, com alguns elementos fortes, mas que ainda assim não recomendo dentro do contexto de Leijiverso.

Big Hero 6

Big Hero 6
Don Hall & Chris Williams
Animação
2014
6 em 10

Depois de diversas festividades de fim de semana, observaremos este filme. Será que é desta que a Disney se vai redimir de falhanço atrás de falhanço? Acho que não. Um filme mediano, simplista e, no geral, muito pouco cativante.

Em São Fransokyo, uma mistura de São Francisco com Tóquio, um miúdo de origens nipónicas, Hiro, é considerado um génio da robótica. É levado pelo seu irmão a visitar a faculdade, onde fica interessado em ingressar. Para isso, constrói mini-robots que são destruídos, juntamente com o irmão, num fogo. Resta-lhe a herança familiar de um robot de características medicinais, Baymax, que está programado para resolver os seus problemas. Depois há um super-vilão e ele torna-se num super-herói.

Na verdade, a história é mais ou menos uma cópia daquelas dos super-heróis Marvel que, pertencendo à Disney, podem ser usados a bel-prazer. O filme apresenta-se como uma "homenagem" a estes filmes e à banda desenhada e também como "homenagem" à indústria do anime, mas a forma como tudo é apresentado, de forma básica e infantilizada, parece-me uma redução de ambos os géneros a uma actiivdade para crianças. Ora, os fãs sempre recusaram este epíteto na sua fandom. Anime e banda desenhada nem sempre são coisas para crianças. E este filme vai exactamente contra isso, demonstrando a toda essa faixa americana ignorante que sim, todas estas coisas, todo este neo-Tóquio, é uma coisa altamente apropriada para os meninos e meninas.

No respeitante a personagens, há uma evolução evidente e previsível, assim como toda a linha narrativa, de Hiro e Baymax. Baymax, enquanto robot, não convence. Não obedece às leis da robótica instauradas por Asimov e tem uma evolução de personalidade que não se adequa à inteligência artificial. Na verdade, é apresentado como uma "criança" que cresce até se tornar num "herói", assim como todos os outros personagens. O grupo de nerds, que apesar de tudo é o que tem mais piada no filme todo, é redutor e quase ofensivo: "também tu amigo geek podes ser um super-herói se levares uns upgrades em tudo". O filme em tudo segue uma linha altamente vulgar e demasiado simples para ser considerado.

A arte tem traços suaves, que em nada recordam anime ou banda desenhada, mas achei que os cenários estavam muito pouco detalhados, sendo que as cenas nocturnas não tinham luz suficiente para o ambiente urbano apresentado. As cenas de acção são muito simples e trazem pouca emoção, sendo que os intervenientes pouco ou nada fazem e é apenas o nosso "Hero" que faz tudo e dirige toda a gente, como se o resto dos "heroes" não tivessem identidade.

A música é terrível, sendo que o tema principal não tem ponta por onde se lhe pegue e não tem qualquer relação com o tema do filme.

Por isso, Disney, desculpa lá mas tens de continuar a tentar. Ainda assim, é evidente que este filme vai ganhar o Oscar. Como se esse prémio ainda merecesse respeito.

6.2.15

Lupin III - Daisuke Jigen's Gravestone

Lupin III - Daisuke Jigen's Gravestone
Koike Takeshi - TMS Entertainment
Anime - Filme
2014
6 em 10

Este filme é uma sequela à instância Mine Fujiko to Iu Onna. Para saberem mais sobre Lupin III, consultem aqui os outros comentários.

Com um título destes seria de esperar que o filme se focasse em Jigen. No entanto, é apenas mais uma aventura de Lupin, em que eles querem roubar algo e arriscam a vida para o fazer. A história é bastante fraca comparativamenete ao anime do passado, sendo que o elemento cómico está praticamente suprimido e todo o filme se resume a um conjunto alargado de cenas de acção. Existe uma falta de respeito constante pela figura feminina, representada especialmente por Mine Fujiko, que sofre bastante no decurso da história.

Nem todos os personagens da história original de Lupin são contemplados neste filme, sendo que isto é um desapontamento bastante grande. Quanto aos outros, apesar de se manterem as vozes habituais, parecem estar descaracterizados e reduzidos ao estereótipo que criaram nos anos 70.

Felizmente, temos uma arte que recebe uma nota muito positiva, com uma variação de cores e texturas muito interessante e uma qualidade superior nas cenas de acção. Os designs são detalhados e originais, sendo que a opção estilística de todo o filme é bastante criativa e divertida.

Musicalmente, temos uma ED que recorda ao passado, mas quanto ao resto da banda sonora há um sentimento de desapontamento, pois não tem os elementos característicos das aventuras de Lupin, todo o groove e todo o jazz.

Se a prequela não me tinha agradado, este filme nada fez para melhorar a minha opinião. Se querem fazer coisas sobre o Lupin, mantenham-se fiéis às origens da história. Uma arte curiosa não resolve todos os outros problemas.

Birdman

Birdman
Alejandro Gonzales Iñarritu
Filme
2014
7 em 10

Numa crítica a todo o cinema e a todo o teatro, Birdman é um filme viciante que também serve de homenagem a ambos os géneros.

Riggan é um actor que ficou famoso por fazer de Birdman, nos anos 90. Agora, numa tentativa de se libertar da personagem, dá tudo por tudo para estrear uma peça de teatro na Broadway. Infelizmente, nem tudo corre pelo melhor e Riggan continua a ser atormentado pelo seu alter-ego. Nisto tudo, começa a alterar-se e a degradar-se, a um ponto que - se à primeira vista parece o não retorno - acaba por o tornar numa nova estrela em asecenção.

O filme está narrado como um acto-contínuo, como se tivesse sido gravada apenas uma cena muito grande, seguindo os personagens de um lado para o outro. Isto aparenta ser, para mim, uma espécie de piscar do olho à arte teatral, em que tudo é feito apenas uma vez e tem de sair bem logo dessa vez. O ambiente criado dentro do teatro, uma loucura e caos generalizados, parece-me caracterizar muito bem o que realmente se passa nos momentos antes de levar uma peça a palco. E isso é delicioso.

Em termos narrativos, observamos uma evolução da personagem, envolvida com elementos de realismo mágico que por vezes podem parecer um pouco confusos. É realmente ambíguo o facto de Riggan ter ou não ter os poderes místicos. No entanto, a introdução deste tema oferece-nos um final muito divertido e cheio de esperança.

Isto não seria possível sem um trabalho libertador dos actores. Curiosamente, Michael Keaton - o nosso actor principal - também sofre o mesmo estigma que o seu personagem. Tentando libertar-se de um papel famoso, é com este filme que o consegue com todo o sucesso. A evolução da neurose da personagem deixa-nos estáticos e é quase surpreendente. Todo o filme tem uma veia cómica, mas isso não é causado pelo diálogo, mas sim pelas situações que estes personagens vivem, levados à vida por este conjunto de excelentes actores.

A banda sonora é praticamente toda tocada em percussão, o que é sem dúvida um elemento muito original, por vezes até stressante dependendo do contexto.

Um filme excelente que recomendo e que espero que seja recompensado na corrida aos prémios.

4.2.15

Dai-Guard

Dai-Guard
Mizushima Seiji - Xebec
Anime - 26 Episódios
1999
6 em 10

Confesso que já começo a estar um pouco farta de robots gigantes, vulgo mecha. Quando fiz a minha lista de coisas para ver, tinha lá uns quarenta, espero já ter avançado bastante ou que, pelo menos, o random.org espere um bocado até dizer para eu ver um deles. Enfim...

Dai-Guard, ou Terrestrial Defense Corp Dai-Guard (em Japonês, "Chikyuu Bouei Kigyou Dai-Guard") é um pequeno twist no género que teria a sua graça, não fosse o facto de as diferenças se notarem pouco com o decorrer da série. Há uma série de anos o mundo estava a ser invadido por uma força alien, heterodyne de seu nome. Para isso construíram o Dai-Guard, um robot. Entretanto, desapareceram e o fulano ficou por ali a servir de enfeite. Agora que voltaram, precisamos do enfeite. Apenas três pessoas o sabem conduzir. E tudo isto leva a uma série de problemas burocráticos e de nível prático. Como por exemplo, transportar o objecto de um lado para o outro. Ou preencher relatórios sobre o objecto. E as críticas sociais em relação ao objecto.

Depois, o objecto começa a funcionar propriamente e acaba-se aí a diferença deste para outros animes do género. A coisa tem a sua graça, ainda assim.

Os personagens são bastante vulgares, com um protagonista bem shounen e uma protagonista com triste vida passada. O seu desenvolvimento é parco e efectuado por uma série de flashbacks, que se repetem (tanto em conteúdo como em forma). No resto da equipa temos um grupo de pessoas que poderia ter sido interessante se tivesse sido explorado de alguma forma. Aquela lolita cientista teria sido um sucesso se não fosse tão irritante.

A animação não é extraordinária, mas temos algumas cenas de acção aceitáveis. O anime poderia ter ganho bastante se o sombreamento fosse um pouco mais detalhado, assim como merecia algumas melhorias no design de maquinaria.

Tanto a OP como a ED são bastante divertidas e têm boas intenções. De resto, variamos em temas que recordam uma certa imitação do folk americano, mas que não ligam muito bem com o teor nacionalista que o anime contém (os Japoneses também sabem ser assim)

Um anime mediano.


3.2.15

The Ideon: Be Invoked

The Ideon: Be Invoked
Tomino Yoshiyuki - Sunrise
Anime - Filme
1982
  7 em 10
 
Vejam aqui sobre o primeiro filme. Entretanto aprendi algumas coisas sobre isto. No início, era uma série. Mas essa série foi cancelada e os últimos quatro episódios saíram neste filme de que agora vos falo. Dizem por aí que esta conclusão inspirou Neon Genesis Evangelion. E agora que falam disso, realmente faz sentido. Muitas vezes perguntam-me porque não paro de ver séries que não me estão a agradar, porque não faço o "drop". E, mais uma vez, aqui se prova a razão. Porque Be Invoked, o Hatsudou Hen de Ideon, é simplesmente genial.

Em relação ao primeiro filme há poucas diferenças na narrativa e no desenvolvimento de personagens. Como sabemos, Yoshiyuki Tomino mata pessoas indiscriminadamente. Aqui, ninguém está livre desta premissa. Ninguém é poupado e o final tem tudo para ser trágico. Neste filme, está ilustrado o fim da humanidade, numa guerra apenas causada por um racismo inerente entre as duas facções (que, no fundo, são iguais), por maus entendidos e por uma geral falta de compreensão entre as partes. Mas a sequência final... Essa sim, é algo que faz falta nos animes de hoje. Quando tudo parece estar perdido, entramos numa viagem pelo espaço, protagonizada por novas estrelas, que caminham, voam pelo nada até chegarem a um novo lugar. Este final recordou-me com carinho um dos meus albuns preferidos, o "10.000 anos depois entre Vénus e Marte", do querido José Cid. Porque apesar de tudo o que acontece, no final, no pós-morte, há uma ressurreição em que todos aceitam as suas diferenças, em que todos compreendem que a humanidade é, afinal, apenas uma. E assim reencarnam num novo planeta que, pelas imagens reais do final, aparenta bastante ser o nosso. Por isso, será que este será o futuro? Ou será que foi a nossa origem? Dá que pensar e é um exercício de esperança.

Na arte, há algumas melhorias nas cenas de acção, mas sobretudo na cena final, em que a viagem das estrelas é retratada em tons suaves e muito orgânicos, transmitindo uma sensação de "isto poderia mesmo acontecer". Nas lutas finais, a guerra, também protagonizada por alguns personagens recentemente introduzidos, há grande variedade de cores e explosões, o que - para a época - é algo muito positivo. Apenas o design da maquinaria e das roupas continua um pouco aquém do esperado.

Musicalmente, poderia dizer que nada interessa, mas a peça final é de um poder grandioso, uma explosão de texturas sonoras que nos dá uma sensação de maravilhamento.

Assim, retiro o que disse sobre o primeiro filme. Recomendo vivamente que vejam este anime e que se inspirem com ele.
 
 

2.2.15

A Dark Place to Die

A Dark Place to Die
Ed Chatterton
2012
Policial

E com este livro celebro o facto de ter terminado todos (ou quase todos!) os livros que sobraram da Convenção do BookCrossing 2013!! Viva! Viva!

Este é um policial algo estranho, visto que desde logo sabemos tudo o que se passa com todos os personagens, de todas as perspectivas possíveis. Mas os personagens não sabem. Ainda assim, é difícil manter a concentração e focar-nos na história destas pessoas e destes crimes, pois não existe mistério nem expectativa.

Temos um psicopata extremamente divertido e são as coisas que ele faz que tornam a leitura mais interesante, pois o tipo é totalmente passado da caixa dos pirolitos. No entanto, só mais para o fim é que ele teve o protagonismo devido. O herói Keane é muito sem sal, mas conseguimos identificar-nos com Koop, uma personagem que entra ao barulho mais tarde e que tem uma posição na vida muito simpática.

O mais interessante será talvez a linguagem, que viaja entre os vários sotaques da língua inglesa, fazendo uso de muita gíria local que dá um tom bastante realista aos diálogos e à narrativa em geral.

De resto, não é nada de especial. Agora vai viajar como RABCK. :)

Kanon

Kanon
Ishihara Tatsuya - Kyoto Animation
Anime - 24 Episódios
2006
4 em 10

Toda a gente me dizia que Kanon, a versão de 2006, era genial e dos melhores romances que poderia haver por aí. A primeira coisa que eu disse quando comecei a ver, logo ao primeiro minuto, foi... "Mas isto é muita feio!" E não se ficou por aí. Os primórdios da KyoAni não trouxeram grande coisa ao mundo, como se verá.

Um jovem, igual a tantos outros jovens em tantos outros animes, costumava ir passar temporadas a uma cidade onde neva constantemente (é sempre Inverno). Deixou de ir durante sete anos e esqueceu-se de todas as coisas. Quando volta, encontra meninas e mais meninas do passado, que se lembram dele. Mas ele não se lembra delas. Depois elas têm problemas e ele vai-se lembrando. E depois não se passa nada.

O grande problema deste anime, já que a história já se viu em tantas outras ocasiões (feita de melhores e piores maneiras), são as personagens. Se temos um personagem principal insosso, com um sentido de humor um pouco preverso dentro do contexto, todos os elementos femininos acabam por formar um harém de atrasadas mentais. Porque todas elas estão infantilizadas, quer no design quer na personalidade, a um extremo tal que parece que todas as linhas da história estão a lidar com criancinhas da idade do Poupas Amarelo. Isto não só retira todo e qualquer realismo da história como é extremamente irritante. Uguu par aqui, uguu para ali, somos todos uguus, mas isso é muita chato e muita feio.

A arte é tenebrosa. Já falei dos designs das personagens: quando metade da tua cara, do meio da testa à boca, é ocupada por olhos, fica muito difícil de nos concentrarmos nela. Não existem grandes cenas de animação e os cenários são aborrecidíssimos. A neve em si não é aborrecida, cenários de Inverno até podem ser muito bonitos, mas neste caso não há nada de distinguível, não há detalhe, tudo é branco e ondulado, uma chatice completa.

Apesar de se chamar "Kanon" e de ter referências imensas a música clássica, a banda sonora não tem nada a ver com isso. OP e ED sem nada em comum com o teor da história e as outras músicas... Bem, parece simplesmente que estão a mais. As vozes são de uma irritância telepática, tornando todas as raparigas ainda mais idiotas, como se a essas vozes não estivesse associado um cérebro.

Um anime que desaponta bastante e que recomendo. Que não vejam. Nunca.

Love is Strange

Love is Strange
Ira Sachs
Filme
2014
6 em 10

Depois de um jantar de aniversário, dirigimo-nos a assistir um filme fofinho, com pessoas para variar :)

Ben e George são um casal que vive junto há mais de quarenta anos. Quando o casamento entre homossexuais se torna uma realidade no seu estado, Nova York, realizam a cerimónia. Mas, a partir desse momento, Ben - que ensina música numa escola muito católica - é despedido por causa da sua orientação sexual. Assim, eles deixam de poder viver na casa que compraram e onde já viveram tantos anos. Assim, têm de se separar, para viverem com familiares e amigos até ao momento de encontrarem uma nova casa.

É um filme romântico e leve, apesar da tonalidade dramática que se vai preparando ao longo da narrativa. Os pequenos problemas diários nas novas casas acabam por não adquirir a dimensão necessária para comover em profundidade, mas ainda assim são realistas e acreditamos realmente neles.

O que efectivamente torna o filme num vencedor é a interpretação dos actores e a relação que criam entre as personagens. É extremamente verdadeira e honesta, com alguns momentos engraçados que ainda assim apenas acrescentam mais detalhes no drama que se vive.

O filme é ilustrado por música tragicamente romântica, Chopin aqui e ali, que apesar de tudo não deixa de dar uma tonalidade clara às situações que, mesmo quando são muito tristes, acabam por ser bastante leves.

O final foi um pouco desapontante, pois queria mesmo que fosse um final feliz. Mas foi um filme muito querido e gostei de ver.